sexta-feira, agosto 10, 2007
Instinto, primeira parte
"Você não precisa fazer isso...", foi o que seu amigo de infância lhe dizia enquanto arrumava sua trouxa. "Há tudo aqui para se viver em paz", ele lhe encarava com olhos assustados, olhos castanhos profundos e preocupados. Ela por um momento parou com a arrumação, permaneceu assim por instantes e deixou que um sorriso escorresse do canto de sua boca, "é justamente disso que estou fugindo, da paz", e voltou-se para a trouxa.
"Já faz quase dez anos que nos conhecemos e você sempre foi assim, sempre gostou de sair por aí, experimentando coisas novas, mas nunca pensei que chegasse a tal ponto. Eu me lembro de quando nos conhecemos pela primeira vez. Você, tão jovem e bela, com seus longos cabelos pretos, estava a brincar na floresta do oeste subindo nas árvores mais altas. Eu estava voltando de uma pescaria frustrada, e me assustei com tamanha coragem. Então perguntei ' ei, menina, você não tem medo de cair?'. Você, que observava o pôr-do-sol da árvore mais alta respondeu gritando 'e você, não tem medo de não cair?', ainda não entendi bem aquela resposta, mas cada vez mais ia compreendendo, e hoje me parece que compreendi'; temia que isso acontecesse, sua ida, talvez sem volta, mas agora desejo-te toda a sorte desse vasto mundo em sua busca", terminado o desabafo ele se sentou, parecia ainda atordoado com tudo que acontecia, um homem acostumado com a vida pacata de seu vilarejo, recolheu-se em sua resignação; ela, que havia terminado de arrumar a trouxa, não deixava de confessar seu espanto pela declaração em sua boca aberta, seus olhos marejados da pró-saudade que estava dando à luz. E sem mais declarações, eles se abraçaram forte e deixaram que o silêncio falasse pelos dois.
Era na calada da noite que ela iria fugir, não porque todos os que fugiam de seus lares fugissem de noite, ou porque era mais bonito e romântico, mas porque seus pais e o resto do vilarejo fechavam profundamente os olhos naquele período; como pássaros empoleirados em seus galhos. Ela passou pelos corredores da casa e entreabriu a porta de um quarto. Seus pais dormiam. A janela do aposento estava aberta de tal modo que o luar podia penetrar e clarear levemente o breu, sobre uma cama simples dormiam dois bem-te-vis abraçados, pareciam tão felizes, sorrisos brandos estampados nas faces dormentes; ela lamentou ter de fazer aquilo com eles, mas não podia evitar. Pediu a bênção deles silenciosamente e agradeceu por tudo feito até aquele dia, a partir dele, seria por conta dela.
A lua boiava plena e impassível no céu, não havia quaisquer resquícios de nuvens, mensageiras celestes. O cricrilo dos grilos e o piado pesaroso dos sem-fim serenavam. Ela seguia firme e resoluta pelas sendas noturnas, certa de que estava fazendo a coisa certa. Haveria de descobrir os mistérios guardados somente para os bem-aventurados, o destino lhe era mais formidável a partir do momento em que seguia a trilha com seus próprios pés. Ela podia sentir a magia emanada da natureza, cada ser, em sua pequenez e aparente insignificância, formava junto com todos os outros a harmonia perfeita e inefável da existência.
Após certo tempo de caminhada, ela encontrou um regato a meio caminho da estrada; suas águas cristalinas reluziam ao luar, num brilho calmo e convidativo. Ela se debruçou sobre suas margens e bebeu um pouco da água, lavou seu rosto, sentindo o frescor da água, naquele momento lembrou de sua infãncia, quando sua mãe lhe banhava nas águas do riacho grande, e ao mesmo tempo lavava as roupas; como num ato sagrado, amaciava carinhosamente a esponja sobre sua pele, não era somente a sujeira que escorria rio abaixo, era toda dor e sofrimento, aquele banho lavava-lhe a alma; que agora se fora, o tempo lhe escorreu dos dedos como areia fina, restando apenas o pó dos bons momentos.
Foi quando ela se levantou das margens para retomar a caminhada que deparou com uma velha horrível, que lhe estendia as mãos calejadas e raquíticas, como se quisesse que ela retribuísse, e foi o que ela fez, mesmo ainda um pouco assustada, ainda que a velha, com seus olhos esbugalhados, verrugas protuberantes e boca ausente de dentes parecesse uma bruxa de contos antigos, sentia que ela não lhe queria mal. A velha vasculhou cautelosamente cada pedaço da mão direita dela com seus olhos horrendos, depois encarou-a, e disse "és a égua parida do vento, tua sina é viver, cuidado com os olhos vermelhos e os sorrisos de mar", terminado o vaticínio, a velha pediu a retribuição; a moça não havia trazido muito dinheiro, mas ainda guardava consigo um amuleto, presente de sua mãe, que lhe disse quando dado que espantava maus espíritos, espantando ou não ela o deu a velha, que se foi tão misteriosamente quanto veio.
Já era tarde e ela estava cansada, caminhava por horas, seus olhos pesavam, seus pés se arrastavam sobre a terra do caminho. O que ela não daria por uma pousada. E, como se os deuses houvessem escutado seu clamor interno, ela pôde avistar uma fraca luz na extrema do horizonte, mas suficiente para lhe reacender a esperança. Acelerou os passos com algum esforço e ao se aproximar, percebeu que era de fato uma pousada, ainda aberta. Entrou sem delongas. Dentro, uma sala com algumas mesas e cadeiras, e um balcão indicavam que o local era um misto de pousada e bar; o dono, que parecia ser o homem detrás do balcão, era um senhor de poucos cabelos, com um avental sujo e desgastado; sorria com sua boca desdentada para a viajante.
No curto intervalo em que ela se dirigia ao balcão, algo lhe tirou a atenção, fê-la temer por dentro. Um homem, sentado num canto da sala, cuja mesa estava abarrotada de garrafas vazias de bebida encarava-a maliciosamente, usava um longo chapéu de abas e seus olhos faíscavam contra a fraca luz que iluminava o recinto, era um brilho vermelho e fatídico. Ela se recompôs tão tápido quanto se assustou e falou ao dono da pousada "você tem quartos disponíveis?"; "claro, principalmente para uma jovem tão bela quanto tu".
sexta-feira, julho 27, 2007
- Estamos indo sempre em casa, Raduan em Lavoura Arcaica.
terça-feira, julho 24, 2007
The choice
the loner
the doomed
the unraveler
my last redemption
was born in the power
of forgiveness
I lost the reins of time
throughout the ball
I chose the mastery of love
without frontiers
without dogmas
I chose to venture out
Following the wind
looking for the sun
Running to the moon
I chose the mistery
the sighs
the silences
I chose you.
domingo, julho 22, 2007
Song of freedom
with spread wings
a free bird with some
heartbeats which sings
the eternal song
of the ephemeral things.
sexta-feira, julho 20, 2007
Os sete pecados: 7ª parte
o mergulho no ócio e no prazer
a morosidade incontida
a vontade anêmica de ser.
terça-feira, julho 17, 2007
Os sete pecados: 6ª parte
o fogo eterna da tentação
que alimenta os amantes
o desejo lascivo, a sensação.
domingo, julho 15, 2007
Os sete pecados: 5ª parte
os que não têm ou que não são,
o olhar furtivo para os lados,
que amarga assaz o coração.
sexta-feira, julho 13, 2007
Os sete pecados: 4ª parte
dos que desejam a exaltação,
pelos bens, poder e companhia,
dos que são dignos de admiração.
quinta-feira, julho 12, 2007
Os sete pecados: 3ª parte
o ímpeto que célere corre,
pelas veias dos que fazem guerra,
que se destila naquele que morre.
terça-feira, julho 10, 2007
Os sete pecados: 2ª parte
que almeja proteger o que se tem,
sobre o espírito, o palpável.
Aquilo que na terra se mantém.
Os sete pecados: 1ª parte
que devora, devora e não se cansa,
a vontade que não se apraz,
enquanto a fome não se faça mansa.
Apresentação
esse pranto inacabado,
essa saudade cativa,
esse riso sufocado,
essa tristeza viva.
Este és tu,
esse canto melancólico,
essa carta de alforria,
esse mar tão bucólico,
que se faz em poesia...
sexta-feira, julho 06, 2007
Os sete pecados.
No ritmo dissoluto
da valsa.
.
segunda-feira, junho 11, 2007
com que destreza
- Quem és tu, jovem guria? - pergunta o moço de terno e boina de algodão.
- Eu? Dinorah - a moçoila abriu um sorriso largo ao ser interpelada em seus afazeres.
- Estou impressionado com a leveza com que realiza seu trabalho. Parece-me que flutua!
- oh - e ri-se toda, desconcertada - Bem, não havia percebido ainda, mas talvez seja verdade mesmo; gosto de ser como a brisa da manhã. Quando acordo, abro a janela da casa pra senti-la me acariciar o rosto, é aconchegante.
O moço permanecia fitando-lhe com semblante enervado, parecia aturdido.
- Perdão?
- Oh! Tu me falavas! - e tira a boina em sinal de desculpas. - É que estava a lembrar-me da brisa do campo, donde nasci. Ela repara em seus belos cabelos loiros.
- E moraste no campo? Mas que maravilha, decerto conheces os segredos que o mato compartilha com os que o desbravam!
- Não diria segredos, basta manter o coração aberto... é, o coração aberto. - e cai em devaneios.
- Não nasci no campo, mas sempre quis ser dele; sonho com nuvens em carretéis, cheiro de mato molhado, canto de pássaro ao ocaso, o silêncio
breve da natureza.
- Foge comigo. - e estende-lhe o braço, convicto.
Ela soltou um riso, daqueles sem graça, que dizem "ótima anedota!"; mas percebeu que ele a olhava fixamente, podia ver através de seus olhos o azul dos rios, a translucidez dos lagos e a imensidão dos céus; viu a verdade transpassada em si e sentiu medo, por instantes, era tão intensa. Pensou em tudo que tinha, que havia conseguido com esforço, na família que não lhe correspondia, nos amigos que desmarcavam encontros. E segurou-se firmemente ao braço estendido.
Ele era de fato um estranho, mas no fundo ela sabia que o melhor estava para vir a acontecer.
E fugiram para longe, onde ela pudesse voar de leveza, e ele transbordar de amor.
sábado, junho 02, 2007
E a grama cresce
arruma móvel, sacode a poeira, planta a grama
trabalho novo, cidade grande, perto do mar
final de tarde, brisa mansa, céu que se inflama.
Primeira vista, namoro vindo, coração quente,
A grama cresce; cortada é,
Noivado, casamento e no ventre a semente,
Pais se foram, papa novo, renovada fé.
Carro velho, tempo desgasta, não só a lataria
a grama cresce; cortada foi,
herdeiros crescidos, planos cortados, sem ave-maria,
conta de luz, carnê de escola, trabalhando feito boi.
Vinis no sótão, vitrola no armário, nova geração,
a grama cresce; cortada será,
chuva que cai, vento que bate, reforma de verão,
no meio da noite, lua boiando, um sonho ainda aqui, outro acolá.
Cabelos brancos, fim de trabalho, começo do fim,
a grama cresce; cortada é
medo da morte, história pros netos, no céus o serafim,
nostalgia, saudade cativa, nas lembranças marcha ré.
Noite dormida, silenciosa, alma ascendida,
a grama cresce, não foi cortada,
e continua a jornada dessa vida
e as gramas com histórias a ser contadas.
quinta-feira, maio 24, 2007
Sogidóc
Navegaste sobre os pélagos de mim
desbravando tempestades e tormentas
Caminhaste pelos desertos sem fim
de minha alma que te alimenta.
Entregaste-me ainda cálido teu amor
para aquecer meu corpo frio
para me alegrar onde quer que eu for
és tão completo e eu tão vazio!
Sei que continuas a cantar
e procuras entender-me
como as palavras de tua canção
mas o que não percebes
é que no fundo és tu
a pedra de roseta do meu coração.
domingo, maio 20, 2007
Eu
Entre um semitom e outro
em cada silêncio breve
em mudas surdas não de borboleta
do vôo leve
mas de bem-te-vi
sorrindo na multidão
chorando por estar ali
eu sei que você me entende
eu sei que os outros me irão...
Cansei
"Não chores, meu filho;
Não chores,
que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
que os fracos abate,
Que os fortes,
os bravos,
só pode exaltar."
- Gonçalves Dias
quarta-feira, maio 16, 2007
Silêncio
Fujo da sina do agora,
Do breu que me segue distante,
Fujo do raiar da aurora,
Da luz que persiste incessante.
Sou fruto da morbidez do ritmo,
Sou a melodia caótica do nada,
Sou a reflexão profunda do ouvir,
A lentidão ademais realçada.
Sou a derradeira palavra,
Que vale por mil pronunciadas,
Sou a infeliz afirmação,
De perguntas que não querem ser caladas.
Sou o momento nostálgico,
Que lamenta ter havido o passado,
Sou o presságio pesaroso,
Que se entristece por haver o fado.
Sou a gênese do universo,
Que precede as transformações,
Não sou nenhuma filosofia,
Mas presencio todas as questões.
Sou o intervalo inerente à coerência,
Entre as palavras estou presente
sou a inexorável latência
que ressoa eternamente.
Sou a conversa dos tímidos,
Que é na lentidão das horas um escudo,
Sou, enfim, simplesmente o silêncio,
Que se antepõe ao nada e se curva ao tudo.
terça-feira, maio 15, 2007
As nuvens
Foi quando o menino saiu de casa para ir à escola. Era pra ser a mesma costumeira ida, as mesmas ruas, mesmas casas e prédios. Mas ele olhou pro céu. E pôde avistar, protegendo os olhos do sol, as dádivas efêmeras em seu ritmo rápido e lento (tão devagar aqui, e num piscar de olhos, já estão acolá). Sim, dádivas efêmeras da natureza, feito flocos de algodão doce a flutuar no firmamento. Alvíssimas. O menino via um coelho, não não, um coiote, mas pera, não seria uma baleia? Tantas formas faziam a imaginação da criança ruflar as asas de excitação.As nuvens o transportavam, faziam-lhe ascender lento com o seu passar, então ele voava feito colibri. Elas carregavam seus sonhos, desejos e esperanças para outras terras, não só os dele, de todos que depositavam seus olhares tenros nelas, e assim, saturadas de sonhos elas choviam, e a chuva fecundava a terra, que fazia brotar os sonhos materializados em flores; e também da chuva, os sonhos se juntavam em rios que desaguavam no mar... que é de todo resto. Foi então que o menino despertou do sonho acordado, e percebeu que era um homem, mas o menino que gosta das nuvens sempre estaria pulsando vivo em seu interior.
quinta-feira, maio 10, 2007
Pour Elis
Ela dedilha em cada tom
o ritmo da matilha
semitons lupinos
vorazes devoram a vida
dos que ouvem
e renovam
em cada semibreve
não tão breves
para não ressoarem
em nossas almas
pra sempre
sempre eles
sempre elis.
quarta-feira, maio 09, 2007
Ciclo etéreo
em cada palavra
transborda calor.
E cada gota de sangue
desse poema
precipita amor.
E de todo mar que é resto
evapora, condensa, frutifica
toda minha flor.
terça-feira, maio 08, 2007
O papa chega
Vossa Santidade é muito bondosa
beija lento e suavemente o chão
abençoando os viventes daquela pátria
todos exaltam aquela figura unânime
mas quando as câmeras não o filmam mais
amaldiçoa os homossexuais e infiéis daquele mundo
e limpa a boca com seu manto santíssimo
por que uma santidade beijaria um chão contaminado?
o papa chega
e arrasta consigo legiões pelas ruas e avenidas
legiões de almas carentes e desencontradas
e prega a existência de um senhor onipotente e salvador
e pede que todos paguem seu dízimo em dia
para ajudar as pessoas miseráveis, dizia
para encher o estômago do clero, pensava
O papa chega
e se vai após certos dias
levando mais almas para o inferno da ilusão.
quinta-feira, maio 03, 2007
Em que nevou
Nevou.
Neve forte, intensa, fria.
Se fosse em qualquer outro,
Ninguém se espantaria,
No mais,
Haveria um comentário rotineiro ,
Do vendedor de sorvete.
Mas é que nas previsões de ontem,
A moça do noticiário disse que ia,
Fazer o dia mais ensolarado do ano.
Os pais que assistiram logo avisaram aos filhos,
Do passeio que fariam no parque.
As mocinhas não perderam tempo,
E combinaram seus encontros amorosos.
Os velhos ia preparando suas roupas de caminhada.
Os vários corações se alvoroçavam do calor,
Que viria a fazer,
E não veio.
O que a moça do noticiário,
Os pais,
Os filhos,
As mocinha,
E os velhos não sabiam,
Era que a neve ,
Era o pranto ,
De um coração,
Que congelou.
quarta-feira, abril 18, 2007
sábado, abril 14, 2007
O segredo
De súbito passa a mansa brisa,
as folhas farfalham agitadiças,
a ave silencia solene
e apenas escuta
então rufla as asas
desliza célere do galho
e voa a outras terras
segredando aos outros seres,
o que soube das folhas
sabido da brisa, conhecido do mar
vindo do seio da terra
E o segredo que jamais é revelado aos homens
é transpassado a cada momento,
Em todos os lugares...
quarta-feira, abril 11, 2007
Então certo
mas tão breve e fugaz,
que verás que fui eterno.
Eternamente breve,
brevemente eterno,
em declarar o meu
tão eterno e breve
amor por você.
sábado, abril 07, 2007
Cântico
Não dividas a Terra.
Não dividas o Céu.
Não arranques pedaços ao mar.
Não queiras ter.
Nasce bem alto,
Que as coisas todas serão tuas.
Que alcançarás todos os horizontes.
Que o teu olhar, estando em toda parte
Te ponha em tudo,
Como Deus."
- Cecília Meireles, como sempre ela.
quarta-feira, março 28, 2007
urgente, urgentíssimo
quando os desertos tomaram mais de um terço dos continentes
não havia mais verde
não havia mais gorjeios
não havia mais águas cristalinas,
só tristeza e desolação
que os dirigentes internacionais se reuniram
numa reunião urgente, urgentíssima
o presidente da nação mais poderosa, senhor bucho, pronunciou-se
- algo deve ser feito, voltemos em dois anos para decidir o que fazer...
e a reunião termina tão urgente quanto começou.
domingo, março 11, 2007
O vôo
E de repente, a aceleração da nave, a sensação de inércia pesada sobre o corpo; a adrenalina infestando seus efeitos, em reações quase que instantâneas, inflamando nosso peito arfante de admiração. Era notável a angulação feita pela subida. Ao mirar abaixo, as casas, ruas e prédios iam diminuindo, diminuiiindo, e proporcionalmente ia crescendo a maestria da natureza, da Terra como um todo. A esfera terrestre ia se revelando, a atmosfera sendo desbravada como os navegantes antigos faziam por sobre os mares.
E na extrema do horizonte, relâmpagos podiam ser vistos do ponto de onde se originavam, numa emissão impetuosa e indescritível de luz, que fazia revelar todos os contornos das nuvens que antes eram escondidos pela noite. Era a fúria da natureza, frágil e brutal. Tal era a magnitude do espetáculo, que a parte humana foi completamente esquecida, desprezada, tornava-se ínfima quando comparada ao universo.
A lua boiava plena, serena, assistindo a todos em seu trajeto lento. O que importava era o agora, o vôo, a explosão de sensações que nos sacudia feito um chocalho, o fascínio pela natureza era o que nos movia e ainda move, sacramentando, assim, nosso declarado amor pela vida.
sexta-feira, março 09, 2007
Life's unfair
I realize I can't reach what I wanted
It may flood a river in my heart,
it may make me just a fool,
But I'll be far away till that one
till that one try to come to me...
sábado, fevereiro 24, 2007
Na noite
Preto-e-branco,
branco-e-preto,
movimento,
rápido
e leeento
ritmo,
calor,
dança,
chão
teto,
som,
tuntz, tuntz, tuntz
prazer,
sinestesia
alegria
efemêro
o baile
sempre.
sábado, fevereiro 17, 2007
Verdade
sábado, fevereiro 10, 2007
Eu
O infinito do beija-flor.
A onda inconstante do mar,
que serpeia revoluta,
e beija voraz a mansa areia.
O rugido do trovão,
que imperante se impõe,
na tempestade da vida.
haverá os que me odeiam,
a ponto de desejarem,
minha ida sem volta.
haverá os que me amam,
a ponto de me adorarem,
como a um deus.
havendo ou não havendo,
com riso, fé e dor,
sou o paralaxe da existência,
o infinito do beija-flor.
domingo, fevereiro 04, 2007
A segunda tentação
Foi então que o diabo conduziu-o à Cidadela Santa, no alto do Templo. Ainda era dia e o sol era abrasador. Como a areia e barro das construções eram claros, a reflexão da luz ardia nos olhos de quem se atrevia a ver o horizonte. Contudo, misteriosamente nuvens cobriram a semi-esfera celeste por completo, havia somente treva. Jesus podia avistar pessoas embaixo, algumas confusas, outras clamando por luz e outras continuando suas vidas absortas em viver. Ele olhava em derredor e via o quanto ainda tinha de fazer, a sua missão ainda estava para ser completa.
O diabo encarava Jesus fixamente, com olhos de malícia e frialdade, sabia que se conseguisse levar o Filho de Deus para o seu lado, o mal seria semeado tão célere quanto a luz que se espalha sobre as planícies na alvorada. Era preciso saber convencer, tentar... Foi então que o diabo foi até à beira do alto do templo, e indicou a Jesus que também o fizesse, e ele o fez.
O templo era realmente alto, as pessoas pareciam pequeninas e o vento era forte. Jesus sentiu vertigens ao olhar para baixo. Imaginou-se por momentos se ele caísse, o que haveria de ser. Também se perguntou no que o diabo poderia estar tramando e quando ergueu a mão para perguntar, foi interpelado pelas palavras secas do anjo caído:
- Se és o Filho de Deus- e menciona o nome Dele com desdém - lança-te daqui abaixo; porque está escrito: aos seus Anjos dará ordens ao teu respeito, e; eles te sustentarão nas suas mãos, para que nunca tropeces em alguma pedra.
E aponta para o abismo; nesse momento, o vento fica mais forte. Jesus não temia a morte, sabia muito bem que ela é inerente ao ser e é a passagem; além do que compreendia as escrituras e replica:
- Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus.
E dá um passo para trás, demonstrando que negaria a ordem do diabo, esse por sua vez, entra em fúria de novo e se prepara para a última tentação, sua última chance de ter o Filho de Deus como servo.
e de repente isto
e me desvencilhava do meu conto de fadas
o sorriso perdia-se em dor
ilusão caída feito cortina
e eu via os desprazeres
misérias
gritos roucos
não tão distantes que
não pudesse tê-los ouvido antes
e súbito
me calo, me faço mudo
e retorno às ilusões mediocridade
onde busco no final da estradinha
a vã chegada da felicidade
de repente não mais que de repente.
quinta-feira, fevereiro 01, 2007
Testamento
recente falecido,
deixou uma carta de testamento,
sobre o móvel da sala encardido,
antes de se ir.
o que se leu na carta,
encontra-se aqui:
"para minha esposa e filhos deixo,
a saudade, os sonhos e amor,
ah, já ia me esquecendo, que desleixo,
também a casa e outros bens,
mas esses serão consumidos,
pelo tempo,
os primeiros não são palpáveis ,
mas quando chegar a hora de cada um,
verão que valerão mais,
que toda riqueza e glória desse mundo."
a carta foi lida,
e enterrada junto com o autor.
os bens foram divididos,
a casa foi alugada,
mas o filho mais novo ainda lembra,
que o que vale é o amor.
terça-feira, janeiro 30, 2007
O teu riso
o teu riso tão claro,
o teu riso tão doce,
tão dissimulado,
perdido,
desmascarado,
e jogado,
sem querer.
o teu riso tão triste,
que ninguém resiste,
o teu riso de dor,
a dor que consome ,
a dor que gera,
a dor da fome,
dor que procria,
dor sem alento,
sem ave-maria,
é o alimento,
tormento,
encantamento,
do teu viver.
O teu riso de pranto
espelho da alma,
o teu riso de brisa,
que te liberta,
que te exorciza,
que te enxerta,
no meu ser.
O teu riso profano,
preto-no-branco,
o teu riso mundano,
sem resposta minha,
porque tinha,
sim, porque tinha,
medo,
de me perder.
domingo, janeiro 28, 2007
Mas tu me falavas!
refletir na íris do teu sorrir
sentia teu aroma de orvalho
sorvia-o lento e em deleite,
para não se ir.
Eu sentia teu pulsar sangüíneo,
arder nas artérias do meu coração
Remia meus desejos latentes
nas linhas descontínuas da tua mão
Eu ouvia a sonata da tuas palavras
desfazerem meu mundo de desolação.
Eu era o tudo e o nada
o átomo e o universo
o alfa e o ômega
o ser e o não-ser
o aquém e o além.
Bastava apenas
que me deixasses
num meneio
num bom dia
num porém
mas tu me falavas!
quarta-feira, janeiro 24, 2007
L'amour parfait
envolvente e soberano como o sol,
misterioso como o crepúsculo
infinito como o universo,
solene como o silêncio,
intenso como a maré,
liberto como o vento,
amplo como o céu,
como a aurora,
outrora,
agora,
será,
ele....
domingo, janeiro 21, 2007
O baile todo
A música já havia começado,
E cada um já seguia no seu próprio ritmo,
Os acordes, as notas ecoavam,
Risos soltos, sorrisos bobos,
Não era preciso dança,
Para o baile começar.
Tudo convergia na harmonia do compasso,
Era o um e não os vários que bailavam,
Tudo ao mesmo tempo divergia,
Paradoxo desconexo repentino,
Cada um era seu próprio par.
O tempo comandava a melodia,
Os sentimentos explodiam no salão,
O acaso acompanhava os convidados,
E sentada num canto, sorrindo amargamente, a solidão.
Há sempre o passo dado errado.
Há sempre o momento de reflexão.
Sempre o descompasso da incerteza,
Sempre, mas a certeza
O baile todo
.
sexta-feira, janeiro 19, 2007
A segunda tentação
O diabo encarava Jesus fixamente, com olhos de malícia e frialdade, sabia que se conseguisse levar o Filho de Deus para o seu lado, o mal seria semeado tão célere quanto a luz que se espalha sobre as planícies na alvorada. Era preciso saber convencer, tentar...
Foi então que o diabo foi até à beira do alto do templo, e indicou a Jesus que também o fizesse, e ele o fez. O templo era realmente alto, as pessoas pareciam pequeninas e o vento era forte. Jesus sentiu vertigens ao olhar para baixo. Imaginou-se por momentos se ele caísse, o que haveria de ser. Também se perguntou no que o diabo poderia estar tramando e quando ergueu a mão para perguntar, foi interpelado pelas palavras secas do anjo caído:
- Se és o Filho de Deus- e menciona o nome Dele com desdém - lança-te daqui abaixo; porque está escrito: aos seus Anjos dará ordens ao teu respeito, e; eles te sustentarão nas suas mãos, para que nunca tropeces em alguma pedra.
E aponta para o abismo; nesse momento, o vento fica mais forte. Jesus não temia a morte, sabia muito bem que ela é inerente ao ser e é a passagem; além do que sabia muito bem das escrituras e revida:
- Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus.
E dá um passo para trás, demonstrando que negaria a ordem do diabo, esse por sua vez, entra em fúria de novo e se prepara para a última tentação, sua última chance de ter o Filho de Deus como servo.
quarta-feira, janeiro 17, 2007
Bem vinda ao país das maravilhas!
E ela desatou a cantar,
Cantar pelas veredas,
Veredas desse mundo,
Sem medo de soltar,
Soltar um dó, ré, mi, sol, fá,
E um si bemol profundo...
E a cada nota solta,
Um carrossel de sensações,
Se espalhava, escoava, misturava,
à vida dos transeuntes,
Explosão de ocasos,
Profusão de Auroras,
Carretel de cores...
Ninguém,
Ninguém sabia como ela o fazia,
fazia melodia, sorriso, sinestesia,
mas que era bonito,
ah, isso era...
sábado, janeiro 13, 2007
A tentação de Cristo
Ao longo da estada, várias dúvidas atormentaram-lhe o espírito. Mesmo que não quisesse, dentro dele ainda surgiam perguntas que o faziam duvidar de seu verdadeiro objetivo naquela existência. Era tanta dor e sofrimento, poderia mesmo ele alcançar o esclarecimento através disso? As noites frias, a insegurança dos animais que poderiam lhe atacar serviam de acréscimo extra para as incertezas.
Havia ainda tanto para aprender, e ele sabia que era por meio do sofrimento que iria alcançar o que queria, seria sua paixão. Isso aliviava-lhe a alma; e o corpo se tornava apenas um instrumento do divino. Era possível esquecer-se da dor por completo, uma vez que ela está vinculada ao físico, não ao espiritual. Jesus estava sob a égide da fé, e isso ele tinha ao extremo.
E foi enquanto ele caminhava ao sol, que o céu se torna repentino escuro, nuvens vindas de não se sabe onde escondem o astro rei. Forte ventania também vem, carregando consigo a areia; Jesus protege os olhos e avista, ao longe, um vulto se aproximando. Ele sente a presença maligna em derredor e prepara seu coração para o que viria a enfrentar, sabia que aquilo era preciso, nada é por acaso, nada.
De súbito, cessa a ventania, e as nuvens desaparecem. Já era possível distinguir o vulto, um homem, aparentemente comum, mas com um semblante duro e frio, não havia compaixão em seu olhar, apenas ódio e prazer. Era o diabo.
- Eis o filho de Deus - e sorri maliciosamente.
Jesus apenas encara-o placidamente.
- Não te pronuncias a mim? Não me temas. Posso vir a ser seu mestre, se quiseres. Há tanto para aprenderes... caminhemos.
O diabo conduziu Jesus a uma trilha sinuosa, este já estava cansado de tanto vagar pelo deserto, e o diabo caminhava depressa, fazendo com que ele apressasse o passo. Andaram por muito tempo, Jesus demonstrava cansaço, estava à beira da exaustão, também a fome assolava-lhe. Não havia nada comestível pelo deserto. E então, o diabo fez sinal que parasse:
- Se tu és o filho de Deus, manda que estas pedras se tornem em pães.
E aponta para um amontoado de pedras perto de um rochedo. Naquele momento não havia dúvidas no coração de Jesus:
- Está escrito: Não só de pão viverá o homem, mas da palavra de Deus.
O diabo rangeu os dentes de fúria e bateu furiosamente contra o rochedo, esmagando-o completamente.
segunda-feira, janeiro 08, 2007
A mãe
- O verbo
A pobre mulher estava em prantos. Desespero seria o maior eufemismo para o que ela passava; a dor de uma mãe é lancinante e cruel. Ela não chorava mais, a fonte secou. As janelas da alma se fecharam para sempre, ela havia morrido a partir do momento em que o filho partiu. Saiu de casa descontrolada, ia se agarrar ao que ainda lhe fornecia esperança, a fé. A fé que dizem que movem montanhas era no que ela cria fervorosamente naquela hora.
Chega à igreja, que estava vazia por sinal. No interior, centenas de velas acesas forneciam uma iluminação parca. Centenas de pedidos de outras vidas sofridas; agora mais um era feito pela mãe. Ajoelha-se diante da imagem dos santos, fecha os olhos, une as mãos e inicia o rito. Tenta rezar a prece ensinada desde tempos imemoriais. Contudo, ao orar, ela sente o vazio saindo das palavras, sente o quão vã era a prece. Apenas repetia versos compassadamente. Abre os olhos e visa as imagens no altar, percebe que nada daquilo era verdadeiro e sente um profundo pesar. Ela está nua, vazia e desolada. "Nada disso me é útil porque não vem do coração"- pensa a pobre mãe.
"Eloí, Eloí, lamá, sabactâni?" - grita, e os ecos reverberam pelo templo vazio, como se fosse as súplicas dos outros que sentiram o mesmo que ela.
"Talvez não seja aqui, nem com essas palavras. Perdoa-me."
Estava exausta, nem sabia daonde havia tirado forças para sair de casa. E no chão frio da igreja ela adormece, ali mesmo. E pelo menos no sonho ela pôde conversar com Ele e sentir que não era vã a palavra fé.
domingo, dezembro 31, 2006
Paixão: segunda parte
E era na luz que ele pensava enquanto estava cercado pelo breu. A partir do que não se transmitia na sua íris, porque não há luz, uma série de sentimentos primários invadiam-lhe a mente. Daqueles que os humanos consideram instintivos, tais como medo, insegurança e ansiedade. Ele se sentiu regredido aos homens primatas que, ao se encontrarem no escuro, desenvolvia mecanismos de auto-defesa irracionais. Era lutar ou morrer o código que se passava no subconsciente e se espalhava pelo corpo.
Escuridão e silêncio reinavam soberanos. O silêncio corroendo-lhe a mente, a escuridão ofuscando-lhe a alma. Foi então que ele começou a se questionar, "o que faço aqui?", "como fui parar aqui?", "Aonde isso dá?"... e as perguntas se multiplicavam a tal ponto que ele teve que entoá-los como numa canção para livrar-se do silêncio que incitava a mente. Era como se ele tivesse despertado alguém, ou algo no meio do breu. Ele não pôde ver quem era, mas alguma coisa se inquietou e fê-lo calar, como se uma mão tapasse-lhe suavamente a boca, pedindo novamente o silêncio.
Ele parou de falar e imediatamente ouviu uma voz, vinda de todos os lados: "eu e você; nós e você. Eu, você e nós somos um." De repente, uma centelha de luz surge, muito tênue, mas suficiente para iluminar o lugar. Ele se viu não mais em cima da cama, mas flutuando sobre o que seria o... nada? Sim, era indescritível, havia algo: o nada. Ele se aproximou da centelha de luz. Observou que ela pulsava compassadamente, como um coração, o coração do universo.
Estava atônito, maravilhado com o que via. A luz era hipnoticamente bela, sua beleza singular era suave, acalmava. Foi então que ele quis, num ímpeto, tocá-la, aproximou o dedo e quando pensou que havia tocado, foi impelido fortemente para trás. A luz pulsava gradativamente com mais intensidade, ele não conseguia mais vê-la, tinha que proteger os olhos para não ficar cego. A pulsação pára de súbito, freme levemente, e explode. Uma gigantesca explosão, de proporções incomensuráveis. Ele pensou ter morrido com tal Big Bang, mas não, nada afetou-lhe. Era como se ele fosse um expectador.
Agora ele flutuava entre gás e pó, pó e gás. A voz falava-lhe novamente:
- Vês? A gênese. Os humanos pensam que podem calcular o tempo, o tempo exato de quando Isto surgiu, mas nada sabem e nada continuarão a saber. Há findos caminhos entre o ser e o vir a ser.
- O que é você?
- Eu sou você. Somos o alfa e o ômega.
- Não estou te entendendo perfeitamente, mas no fundo eu sinto que te compreendo. Eu procuro algo.
- É preciso fé... fé e dor.
- Não há outra maneira? Você sabe o que procuro?
- Todos procuram, mas não sabem que procuram e o quê procuram.
- Estou disposto a tudo agora que estou aqui!
- Fecha teus olhos e abra os verdadeiros. Encontraremo-nos outra vez, lembra-te: somos o alfa e o ômega.
Ele fecha os olhos e procura se concentrar no que a voz lhe disse. Ele era o alfa e o ômega, o princípio e o fim. Ele deixa a energia que sentia a sua volta fluir em seu interior, como num rio, o rio escava vales e abre lugares, os olhos da alma. Ele os abre e se vê num outro lugar, no topo de uma montanha, muita alta por sinal. Ao redor só há neblina, impossível de se saber o que rodeava o pico. A parte do topo era praticamente plana e um caminho conduzia até um templo branco, todo de mármore. Daqueles de colunas altas, feito templo grego. Alguém o esperava à porta do templo, vestia vestes tão brancas quanto o mármore da construção. Era um homem. Esse sorria e dirigiu-se a ele:
- Bons ventos o trazem.
- Quem és tu? - e se espantou com a formalidade da pergunta.
- Sou o profeta.
- O que queres de mim? - pergunta com veemência.
- Precisas aprender a formular melhor tuas perguntas, elas são decisivas para as respostas. - responde o profeta, analisando a pessoa dele.
- O que temos um ao outro?
- Guiar-te-ei até a estrela se pôr.
- Que estrela? - procurando alguma no céu.
- Não é dessas presas ao firmamento, é dessas. - e aponta para o alto do templo. Uma estranha luz arde e brilha placidamente.
- O que é esse templo?
- Um dos cinco templos que terás de conhecer. Esse é o templo da luz, como vês a estrela em sua parte de cima.
- O que devo eu fazer?
- Conhecer-te a ti mesmo.
- Mas nos templos?
- Ao final de cada um, haverá um selo, os selos da verdade.
- Calma aí, que história é essa de selos, templos e caminhos? É muito informação ao mesmo tempo, estou confuso! - pergunta estendendo os braços.
- Estás aqui, entre outras, porque tens a mente e coração abertos. Não totalmente moldáveis, mas aptos a mudanças, o que te faz diferente dos demais.
Ele reflete um pouco sobre as palavras do profeta, meneia a cabeça e diz:
- Tem razão. Por mais que tudo esteja sendo e acontecendo tão rápido, não estou muito preocupado com o que se passará.
- Continuando, os selos da verdade são poderosos artefatos. Criados nos primórdios pela Grande Deusa para o esclarecimento da verdade, foram alvo de cobiça e ambição de grandes homens. Eis aí o motivo de a Grande Deusa tê-los removido do teu mundo e conduzido-os para cá. Contudo, mesmo aqui ainda precisam ser protegidos.
- Você quer dizer que eu enfrentarei algo?
- Certamente. - expressando um sorriso enigmático - É preciso fé, fé e dor.
- Será a paixão, o medo e amor.
- Nem precisei continuar. Compreendes por que foste escolhido?
- Começo a saber que sim. - sorri envergonhado.
- Venha. - e indicou-lhe o caminho que conduzia ao interior do templo.
A entrada do templo revelou um grande salão interno circular, com outra entrada que levava a um corredor. no centro da sala, havia a figura da estrela que fulgurava sobre o templo. Tudo era muito claro e limpo, transmitindo paz aos presentes. Do corredor, ruídos estranhos vinham. Não era bem ruídos, porque eram harmônicos, mas ele nunca havia escutado semelhante som.
- Que som é esse?
- A voz do avatar.
- Avatar?
O profeta riu-se.
- Sim, os enviados do céu para protegerem os selos.
- Hummm. E o que essas criaturas fazem?
- Saberás em tempo. - sorrindo pacificamente.
Ele dirigi-se ao interior do templo, quando o profeta lhe interpela:
- Espera, não lhe disse tudo. Tenha fé para passar pelos templos, meu caro.
- Fé e dor....
- Exato, passarás duras provações. Nada é tão fácil quanto imaginas.
- Eu irei, meu caro.
- Vai-te e encontra teu caminho, homem.
- Que assim seja.
E ele seguiu o caminho que o conduzia ao interior do templo. Logicamente não sabia o que viria a encontrar, muito menos o que enfrentaria. Contudo, dentro dele, algo lhe alimentava a vontade, o desejo de saber de si. Era aquela voz do começo que lhe animava a continuar. Assim era a vida, feita de escolhas, ele a fez desde quando teve a transição, deveria passar por provas desconhecidas e descobrir algo que está além do conhecimento ordinário. Nada é por acaso, nem os sonhos que temos.
Continua.
sexta-feira, dezembro 08, 2006
O Futuro no Presente do Indicativo
num mundo medonho,
Tu sonhas,
Em faces risonhas,
Ele sonha,
Por sobre a fronha.
Nós sonhamos,
E assim caminhamos.
Vós sonhais,
Sem nem dormir mais.
Eles sonham,
Com um mundo de paz.
Que bando de iludidos...
quinta-feira, novembro 30, 2006
A ferro e a fogo
A ferro e a fogo partido,
Amor chamando de um lado,
A dor com abismo fendido,
E eu caindo, sumindo do chão.
A ferro e a fogo lavrado,
A ferro e a fogo sofrido,
Pranto dos olhos chorado,
A fé me recobre o sentido,
E eu sorrindo com pedaços, estilhaços de ilusão.
A ferro e a fogo marcado,
A ferro e a fogo mantido,
Destino iminente lançado,
Como dados num perdido
Jogo em que o tempo é o maior campeão.
domingo, novembro 26, 2006
Aberração
Se eu sonho, sou lunático.
Se des-sonho, sou desiludido.
Se eu choro, sou decadente.
Se rio, sou sádico.
Se eu penso, sou muito coerente.
Se des-penso, sou insensato.
Se eu canto, sou desafinado.
Se danço, sou desajeitado.
Se eu gosto, sou maníaco.
Se desgosto, não tenho coração.
Por que ventura, então, haveria eu de existir,
Se aos olhos alheios sou aberração?
- Apenas viva por si só.
sábado, novembro 25, 2006
segunda-feira, novembro 20, 2006
Paixão
Da janela da casa - sim, uma casa, ele comprou uma casa de praia e largou a vida temporal das cidades - avistou o mar e as sucessões tranquilas das ondas. Era uma manhã formidável. E fazendo os afazeres do lar, ele procurava se lembrar do sonho que teve, como andava fazendo por um mês. Todavia, ele não conseguia recordar nitidamente, tudo era tão sinestésico, surreal, mas sabia que havia mudado profundamente a partir daquilo. Não que ele tivesse abandonado a carreira de engenheiro e virado um "hippie", não, apenas sabia que uma parte dele se completou, uma das peças desse misterioso quebra-cabeças que é a alma humana.
Foi ao supermercado da cidade, comprou a comida do cachorro e as pilhas para o despertador. Ao chegar no caixa , a moça passou os dois produtos e perguntou-lhe "tem certeza de que é só isso que o senhor vai levar?". Ele poderia ter pensado qualquer coisa do que a mulher falou, poderia pensar que ela estava coagindo-o a comprar mais coisas, mas algo dentro dele fê-lo lembrar da cálida luz do sol lhe acordando, e resolveu levar apenas a comida do cachorro.
Ele foi ao trabalho e, ao chegar a sua sala de trabalho, viu seus dois colegas discutindo:
- ... mas eu te falei que não era pra mexer na minha mesa, por que tinha que pegar justo minha caneta nova?
- Olha aqui, era uma urgência, o Sr. Martin precisava sair logo e tinha de assinar uns documentos, peguei a primeira caneta que avistei.
- Não me interessa o que o Sr. Martin faz ou deixa de fazer, a caneta era minha! Oh, você está aí, veja, ele usou minha caneta nova!
O colega mostrou a caneta, indicando-lhe as partes que provavam que fora usada sem permissão. Ele examinou a caneta, pousou-a sobre a mesa, sorriu e perguntou se com tanta coisa nessa vida para se importar, com tanta coisa para se aprender, ele se importasse tanto com uma caneta nova. Os dois colegas entreolham-se estarrecidos, não estavam reconhecendo aquele homem que ali chegava, antes tão preocupado com o trabalho, tempo e rotina. O dono da caneta cora-se um pouco e puxa outro assunto, o trabalho prossegue ameno e mais afável.
Ele não tinha mais carro, voltava do trabalho de bicicleta, lembrava da infância e das quedas até conseguir o prazer de se equilibrar sobre duas rodas. E esse mesmo prazer que ele sentia agora desfrutava observando a bela paisagem da cidade litorânea. Chegando em casa, escutou os latidos do amigo, o canino balançava freneticamente o rabo, demonstrando o amor que lhe fora dado. Os dois foram passear na praia, ver o crepúsculo.
Ele sentou na areia da praia e seu amigo canino correu a perseguir as ondas do mar; ele riu-se. De repente, o céu começa a incendear-se, por todo a esfera celeste é tomado fogo, a penitência eterna do céu. As nuvens viram chumaços incandescentes de algodão, tão inflamadas que nem o mar poderia apagar tal fogaréu. Ele observa atônito o fenômeno. E em intantes, o céu passa do fogo ao sangue, tudo se avermelha, escorre do topo da esfera até as extremidades. O céu agoniza e sangra. Então, o sol se põe e seu último raio anuncia a extrema-unção do céu. Ele achou incrível todo dia haver um espetáculo desses e sem ingresso a ser pago. "O céu renascerá, como todos nós a cada dia"- pensou consigo.
Recolheu-se na casa com o amigo, fez as trivialidades básicas e deitou na cama do quarto. Ligou o abajur, pegou o livro de cabeceira e pôs-se a ler. O livro era velho, herdado do pai, tinha resolvido lê-lo ao achá-lo nas caixas de coisas antigas. "O Lobo da Estepe", ele leu em voz alta. Na capa havia a gravura de um homem, meio lobo, meio homem, sentado sob uma árvore. A leitura do livro era carregada, não era fácil de se entender para aqueles que se dispunham a ler na calada da noite, e mesmo assim ele tentava.
Enquanto tentava decifrar as passagens do livro, as letras iam se embaralhando e formando outras, o assunto do livro começava a se modificar, não seguia mais o estilo do autor. O que era "... - não, o olhar do Lobo da Estepe penetrava no nosso tempo...", tornava-se " - não, o olhar do homem, por gerações, não consegue enxegar além de seu próprio interesse". E o livro acabou lhe conduzindo a um novo mundo, paulatinamente. E quando os olhos pediram descanso e pousou o livro sobre a cama, ele percebeu que não estava mais no quarto, nem na casa, nem em qualquer lugar que conhecia, estava no breu, no mais profundo breu.
"Continua" :)
domingo, novembro 19, 2006
Confissão
- Mário de Andrade
Com toda força,
Todo fervor,
Eu amo
Na alegria,
Ou na dor.
Eu amo
quinta-feira, novembro 16, 2006
Da verdade do mundo
Ao longo de séculos, o ser humano vem acumulando conhecimento, seja na Matemática, na Química, na Física, enfim, aos poucos os problemas vão se desatando do novelo do oculto e se revelando para nós. E cada vez mais fascinamo-nos com o que vem de novo, e dá-lhe hipóteses, argumentos, discussões para se melhor discernir sobre os problemas em questão. Quantos Newtons, Einsteins, Russeaus não existem algures, martelando a cabeça para desnudar os segredos da natureza?
Quanto mais conhemos o mundo, mais nos impressionamos com a complexidade dos mecanismos, dos fenômenos e das formas de vida que há. Tudo organizado numa fina teia pelo universo, cada fenômeno aparentemente isolado está devidamente inter-relacionado, culminando naquilo que chamamos de existência. E até o que não existe chega a nos fazer fascínio.
Chegamos a um ponto onde nos questionamos acerca do que seja a verdade, se há uma verdade absoluta, indelével e que ela por si só nos faz plenos, ou se há uma verdade relativa, e a perfeição consiste na imensa variedade de verdades existentes. Há muitas perguntas a serem feitas e apenas uma única resposta a ser dada ou um número infinito delas? Seja ela absoluta ou não, o fato é que o melhor para nós consiste em NÃO sabê-la, ou sabê-las. A existência humana prossegue e é movida justamente pela busca dessa(s) verdade(s), o que nos faz acordar, levantar, sonhar, pensar é fundamentado nos "porquês", nos "ondes" e nos "comos". O mistério da existência é uma das estrelas a brilhar eternamente no fim da estrada da humanidade, e que precisamente não deve ser alcançada.
Não existe um limiar do conhecimento. Para conduzir a essa afirmação, uma teoria precisa ser comentada: a segunda lei da termodinâmica, a qual afirma que a entropia do universo tende a aumentar. Uma das possibilidades de interpretação dessa lei é que, a cada momento que se passa, o mundo se torna mais complexo, não obrigatoriamente caótico. Entropia não é sinônimo de completo caos.
A crescente complexidade e diversidade de fatores que se auto-governam é a prova de que precisamos que nunca descobriremos a verdade, seja ela absoluta ou não. Todavia, isso não significa que devamos desistir de encontrá-la, pelo contrário, temos que erguer o peito e mergulhar de cabeça, direto às profundezas do desconhecido, e nos deliciarmos com os mistérios a serem desvendados...
"Acima de tudo está a Verdade, e a Verdade tem que ser libertada. Se as asas da Verdade são cortadas, as vozes serão silenciadas."
- Canção de Todos, canto 167.
sexta-feira, novembro 10, 2006
A concha
Que revoltas me levam,
Que soltas me enlevam,
O som que por instantes.
Lava-me a alma com água salina,
O som que do nácar ecoa.
Reflete a beleza cristalina,
Da essência de cada pessoa,
Que um dia virá,
Que um dia vieram.
O som da anunciação,
Porque dele nasceram,
E a ele voltarão...
segunda-feira, novembro 06, 2006
Navegante
Começar.
Por sorte do sim,
Ganhar.
Por sobre o azul,
Navegar,
Partindo pra o sul,
Desbravar.
Por meio do dom,
Conquistar,
E somente com,
O mar,
Vou poder então,
Encontrar,
Pra meu coração,
Um par.
domingo, novembro 05, 2006
Auto-extrema-unção
Em sofrimento
Escondido.
Sórdido mal,
Dentro do corpo,
Velado.
Lágrimas soltas,
Pranto da alma,
Escorrido.
Lânguido braço,
Ás margens da cama,
Jogado.
Cálido órgão,
Pulsa no peito,
Incontido.
Fúlgido brilho,
Por todo quarto,
Emanado.
Sôfrego mal,
Força o corpo,
Abatido.
Súbito riso,
Na débil face,
Estampado.
Plácido corpo,
Brilhante alma,
Ascendida.
Trágico fado,
De alguém um dia,
Amado.
sexta-feira, novembro 03, 2006
Je t'aime
e t ' a i m e
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' a i m e
a i m e
i m e
m e
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terça-feira, outubro 31, 2006
Lies
domingo, outubro 29, 2006
Calmaria exasperante
- DEMORAMENINACHUPETAVESTIDODECORAÇÃORELÓGIOBARULHO!
As palavras saíram da boca da velha numa rajada de facas afiadas que retalharam o silêncio, e o estraçalharam e reduziram-no a migalhas. Embora Dona Gertrudes fosse velha, ainda tinha ânimos juvenis, que ainda conserva mesmo sob a ação implacável do tempo; de vez em quando surgiam tais impulsos e controlá-los era difícil. Todavia, todos na sala estavam tão ansiosos, que as palavras ditas foram o discurso mais aclamado, mais esperado que quaisquer outros; e então todos dispuseram a terminar de flagelar o pobre silêncio que teve seu reinado temporário acabado...
sexta-feira, outubro 27, 2006
quinta-feira, outubro 26, 2006
Isca
Do anzol,
Enganchou,
Na concha,
Do mar.
Mas quem me fisgou,
Não foi o gancho,
Nem a concha,
Foi o teu,
Olhar.
domingo, outubro 22, 2006
sábado, outubro 21, 2006
Fragmentos
sexta-feira, outubro 20, 2006
Ciranda da morte
E da cerração, no campo aberto da cidadela, notas difusas eram soltas pelas vizinhanças. O bom ouvinte que se atrevesse a distingüir melhor os sons, perceberia que se tratava de uma antiga canção de roda. Do tempo em que as crianças ainda podiam sair nas ruas e cantar as alegrias do mundo, mas não era aquele, definitivamente, o caso...
Na noite sem brilho, os expectadores da cantiga eram pequenos animais noturnos. Contudo, se um cidadão comum resolvesse compartilhar da canção, certamente não acharia nada agradável; o coro que a compunha era formado de vozes, quase roucas, raquíticas, monótonas e ausentes de sentimento. Por mais que a canção falasse de cavalos alados, bruxas malvadas e castelos encantados, as vozes lançavam ecos vazios, e o mundo mágico se despedaçava na voz do coral.
Isso não chegava perto do que realmente aquele coral era formado. Em meio à neblina, vultos pequeninos eram vistos, dançando lenta e constantemente em uma ciranda. E, por ocasião do tempo, uma rajada forte levou a cerração e mostrou as pequeninas. Quem dera a neblina pudesse voltar de novo. Uma ciranda na noite, formada por várias crianças, sorridentes e apáticas, todas sem exceção mutiladas. Algumas sem narizes, outras sem braços, fazendo parte da ciranda apenas com o braço que lhes restava, outras sem orelhas, de toda sorte de cortes e decepações.
E no meio da roda, um homem, sorria emocionado, cantando junto ao coro macabro. Ele, que havia maculado as pequenas, agora as levava pela noite para cantarem as canções que sua mãe lhe ensinara quando era criança. Mas ele só cantava de noite, porque ouvia as vozes do pai, que lhe batia, de dia. E ele não queria contrariar o pai, não, o pai nunca,nunca... mas de noite sim, de noite ele podia levar os amigos que conseguiu, seqüestrando-as de seus lares, torturando-as e injetando-lhes drogas psicotrópicas para que vivessem num estágio de apatia. "Cavalos voam pela noite, meninas brincam ao luar, vá pra dentro menininha que o Papão vai te pegar". Oh! Mas como ele era tolo, o sol já dava sinais de aparecer, e seu pai poderia brigar, era melhor recolher seus amigos e escondê-los, haveria mais noites para cantar, e dançar, haveria outras noites sem luares em que mais amigos cantariam... pela noite sem luar...
quarta-feira, outubro 18, 2006
Dentro de milênios
E por entre as espirais grandiosas da galáxia existia uma estrela,
E ao redor da gigantesca estrela girava um planeta,
E na imensidão do planeta havia um continente,
E por sobre o vasto continente havia um rio,
E às margens do longo rio havia um jardim,
E por entre as numerosas plantas do jardim, nasceu uma margarida,
E por sobre as pétalas dela pousou uma borboleta,
E foi vendo tal borboleta que alguém sorriu,
E esse alguém achou tão bela a efêmera borboleta,
Que resolveu colocá-la para sempre neste poema,
E dentro de milênios, ainda lembrarão,
Que entre o universo, a galáxia, a estrela, o planeta, o continente, o rio e o jardim,
Havia uma borboleta pousada sobre uma flor.
sábado, outubro 14, 2006
Love, amour, amore, Liebe ou simplesmente amor
quinta-feira, outubro 12, 2006
E se foi...
Essas foram as últimas palavras do Momento para um apaixonado, é a maldição eterna que assola todos os que tiveram a quimera da felicidade passando sob suas vidas, tão fugaz quanto veio...
segunda-feira, setembro 11, 2006
A fada do dente
A menina veio correndo pela casa com o dente recém-tirado na mão; estava em prantos e meio que ordenava que a mãe lhe explicasse o porquê dessa "tragédia". Seus miúdos olhos, marejados pela dor e medo, traduziam a ingenuidade e inocência. A mãe estava ocupada lavando a louça da janta, mas quem não se comoveria com tal pedaço de gente?
- Venha cá, filha. - sentou-se na cadeira e levou a criança ao colo.
- Mãe, vou ficar que nem a vovó? - soluçou a menina.
- Não não! Você não vai ficar que nem a vovó, porque a vovó é beeem mais velha que a mocinha. Sabe o que vai acontecer?
- Não...
- Daqui a algum tempo, um dente mais forte, branco e bonito vai nascer de onde esse caiu. Eu não queria te contar, mas os dentes têm vida própria.
- Têm mesmo mamãe?! - perguntou eufórica a guria.
- Sim, senhora. Quando somos crianças, temos vinte e quatro dentinhos na boca, cada um com sua própria vidinha, e todos trabalham, principalmente quando se come: um rasga a comida, outro esmaga, outro corta e assim por diante...
A menina batia palmas de felicidade, já se esquecera do que era dor. O dente caído fora posto em cima da mesa meio que inconscientemente. A mãe também se divertia ao contar a história para a filha.
- ... Mas os dentes acabam envelhecendo na boca e já não trabalham tão bem. Então eles se soltam da boca e dão espaço para que outro nasça no lugar dele.
- E o que eu faço com o dentinho velho?
- Ora, dê para a fada dos dentes.
- Fada dos dentes?
- Sim, a fada que troca dente por moedas.
Se a menina soubesse dar piruetas no ar, daria aos montes naquele momento. Nada era mais excitante do que uma fada que trocava dentes velhos por moedas. O mundo era tão misterioso e grande para aquela criança, saber da fada fora um como se um dos segredos de Barba-Azul estivessem sendo revelados.
- E como eu falo com a fada? Eu quero trocar!
- Calma, minha filha. Você não pode falar com a fada, porque as fadas são proibidas de conversar com as crianças pela lei do estatuto das Fadas. Por isso que elas aparecem de noitinha, e se você colocar o seu dente velho debaixo do travesseiro, elas os trocam por moedas.
- Mas eu queria falar com a fada dos dentes...
- Eu entendo que você queira, mas elas não podem, filha. Quem sabe você consiga pegar um no instante em que ela for trocar o dente.
- Vou sim! - respondeu a menina dando um pulo de alegria.
E se chispou pela casa tão rápido quanto veio ao choramingar. A mãe estava pensando em que momento colocar a moeda por sob o travesseiro, ela sabia que a menina dormiria cedo ou tarde. Demorou para que a criança pegasse no sono. Em verdade, a guria foi dormir desolada, queria ter pego a fada no flagra e lhe pergunta sobre o mundo mágico que ela ainda não conhecia. A mãe, cuidadosamente, colocou uma moeda sob o travesseiro e pegou o dente que lá se encontrava.
No raiar do outro dia, a menina corre para a cama da mãe aos berros.
- Mãezinha! A fada trocou meu dente! Você estava certa!
E era uma alegria que só.
Alguns meses se passaram e a mãe havia notado que a menina andara comprando doces e guloseimas no doceiro da escola. Intrigou-se, porque não dava dinheiro à criança. Temendo que a menina pudesse estar pegando dinheiro na casa ou até de seus amigos, resolve indagar e criança.
- Minha filha, onde você anda conseguindo esse dinheiro?
- Não posso contar, mamãe!
Sorrindo com uma boca desdentada.
E aqui acaba-se essa história.
quarta-feira, setembro 06, 2006
Quarto motivo da Rosa
Também é ser deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzidas,
Mortas, intactas pelo teu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos,
Ao longe o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que me vão lembrando,
Por desfolhar-me é que não tenho fim.
Segundo motivo da rosa
Embora em forma e nácar te assemelhes
À concha soante, à musical orelha
Que grava o mar nas íntimas volutas.
Decomponho-te cristal, defronte a espelhos,
Sem ecos de cisternas ou grutas...
Ausências e cegueiras absolutas
Ofereces às vespas e às abelhas,
E a quem te adora, ó surda e silenciosa,
E cega e bela e interminável rosa,
Que em tempo e aroma e verso te transmutas!
Sem terra nem estrelas brilhas, presa,
A meu sonho, insensível à beleza,
Que és e não sabes porque não me escutas...
Motivos da Rosa
Primeiro Motivo da Rosa
Vejo-te em seda e nácar,
e tão de orvalho trêmula, que penso ver, efêmera,
toda a Beleza em lágrimas
por ser bela e ser frágil.
Meus olhos te ofereço:
espelho para face
que terás, no meu verso,
quando, depois que passes,
jamais ninguém te esqueça.
Então, de seda e nácar,
toda de orvalho trêmula, serás eterna. E efêmero
o rosto meu, nas lágrimas
do teu orvalho... E frágil.
terça-feira, setembro 05, 2006
Observação 2
quarta-feira, agosto 30, 2006
Miracle
Ainda indo ao (futuro ex) emprego, ela deparou com seu (futuro ex) namorado beijando uma guria. Não pensou duas vezes, foi em direção ao traidor e lhe exigiu explicações; ele apenas disse que estava já estava pensando em terminar o relacionamente, que só não conseguia encontrar uma boa desculpa para terminar. Após um discurso longo e hipócrita, ele disse que ela ficaria bem e tudo isso era bom para ela, uma vez que ele não a merecia.
Abalada com tal fato, pensou "talvez seja melhor eu esquecer isso pelo menos enquanto trabalho, assim criarei forças para superar tamanho fato". Ergueu sua moral com uma certa altivez, absolutamente justificável, e partiu tumo ao trabalho. O dia parecia tão lindo ao amanhecer...
Ao pisar no salão principal do prédio em que trabalhava: silêncio. Nenhum atendende lhe dirigia sequer um cumprimento trivial, apesar de ela os conhecer há tempos. O silêncio fê-la temer o que teria de enfrentar ao subir os andares. Ao chegar em sua sala, reparou que uma carta fora colocada cuidadosamente sobre sua escrivaninha, carimbada por seu superior. O medo se apossou de seu corpo e, suando frio, ela agarrou o envelope num ato misto de coragem e pavor. Suas mãos estavam trêmulas e seu coração palpitava, ela tentava se encorajar com pensamentos vãos ,"tomara que seja um aumento...". Quando finalmente tomou coragem e leu o conteúdo, quase desmaiou, uma nota lhe informava que fora demitida, ou melhor, exonerada de seu cargo. O céu fez-se de negro...
Como se não bastasse a demissão e a perda do namorado, pesadas nuvens negras s aglomeravam e se despedaçavam em implacáveis gotas de água, trovões e ventania. A água que se precipitava encharcava-lha a roupa e os cabelos. Contudo, ela nem se importava com a chuva; estava encharcada moralmente. E assim caminhou sem rumo pelas avenidas cinzas e sem vida da cidade, como uma indigente deplorável. Não visava um caminho, apenas rumava...
E foi caminhando pelas ruas que ela percebeu que a chuva parara, uma fenda tímida abriu-se por entre as nuvens nefastas e indicavam que a tormenta estava por passar. E nessa réstia de luz que lhe tocou a face, ela percebeu que estava viva; quando olhou em derredor, avistou uma igreja. Não era uma das mais imponentes construções que ela vira, mas sentiu que precisava entrar nela. Queria alguém para culpar, algo para esbravejar.
Entrando na igreja, reparou na simplicidade do local. Paredes antigas, úmidas e mal rebocadas, bancos excessivamente lustrados para um dissimulação (em vão) do novo, velas já derretidas cercavam uma estátua de Nossa Senhora, que por sua vez estava desbotada e maltratada pelo tempo. A Santa erguia os braços como se estivesse sempre apta à consolar os aflitos.
Não havia vivalma na igreja, nem mesmo sacristão ou carola. foi quando ela se dirigiu à estátua e resolveu se confessar ali mesmo, contou de todos os problemas que estava passando e questionou duramente a existência de Deus. Ela estava desesperada e cada palavra que soltava lhe incitava a imprecar mais. E nesse oceano de blasfêmias , a mulher golpeou a estátua com as mãos que anteriormente usou para apontar duramente à imagem. A obra de arte caiu num baque no chão e se partiu em cacos. A mulher se assustou com o que ela mesma fizera e imediatamente pôs-se a juntar os pedaços. Quando apanhou a cabeça da santa, levou a maior surpresa que iria presenciar: a imagem chorava; e não era água salgada, um veio de sangue que lhe escorria dos olhos gotejava no chão. Não se sabe se foi apenas um fenômeno físico de dissolução, ou se era mesmo um milagre que se operava, o fato é que a vida daquela mulher nunca mais foi a mesma após aquele dia...
domingo, agosto 27, 2006
domingo, agosto 20, 2006
Crisálida
Nutrida pelas folhas da roseira,
Tão frágil, escondida no carmim,
És delicada, porém também faceira!
Como tu assim larva foste,
Não tão bela quanto se seria,
Não tão previsível como se goste,
O amor surge e urge em nosso dia.
Acaso a ventura conspire,
Em separar e dissipar o nosso amor,
E tal qual a larva insólita vire,
Crisálida esperançosa regida pela dor.
Do cerne da casca, pulsa vivamente,
Coração repleto de paixão,
Esperando apenas momento coerente,
Com as almas que anseiam tal união.
Se porventura o nebuloso destino,
Decida destruir a crisálida,
Exonerando meu cargo peregrino,
Purgando minha vida esquálida.
Um novo raiar fulgurará,
No horizonte do meu coração,
Da paixão guarnecida renascerá,
Nova chama de pura emoção.
E então a crisálida rompida,
Marca do intante a transformação,
Das velhas cascas caídas,
Surge novo ser, uma nova criação.
Metamorfose completada,
O amor transcende o tempo,
O amor transcende nossa estada,
No efêmero mundo do sofrimento.
(Uma borboleta voa célere por entre as veredas desse mundo...)
terça-feira, agosto 15, 2006
A fé
No que consiste a preeminência do homem nos rudimentos da criação? A resposta é tão clara quanto o fato de que a metade é menor que o todo, na Razão.
Qual conquista enaltece um ser mais do que outro? A virtude, respondemos. Com que propósito foram emplacadas a paixões? Para que o homem, ao enfrentá-las, possa atingir um grau de conhecimento negado aos brutos, sugere a Experiência.
Conseqüentemente, a perfeição da nossa natureza e aptidão para felicidade deve ser estimada pelo grau de razão, virtude e conhecimento que distinguem o indivíduo e direcionam as leis que conformam a sociedade; e seja igualmente inegável que a partir do exercício da razão, fluem naturalmente o conhecimento e a virtude, caso desejemos encarar a humanidade coletivamente...
Quando o sábio Ser que nos criou e colocou aqui concedeu tal justiça, Ele determinou, permitindo que assim fosse, que as paixões desdobrassem nossa razão, pois via que o mal presente produziria o bem futuro. Poderia a indefesa criatura que Ele trouxe do nada livrar-se de Sua providência e aventurar-se a aprender o bem através da prática do mal, sem Sua permissão? Não. Como pôde? Aquele enérgico defensor da imortalidade [Russeau] argumentar de forma tão inconsistente? Se a humanidade tivesse permanecido para sempre no estado bruto, e nem mesmo sua pena mágica é capaz de pintar como situação onde uma virtude sequer tenha se arraigado, ficaria claro, mas não aos olhos de um sensível ser errante incapaz de reflexões, que o homem nasceu para percorrer o circuito da vida e da morte e adornar o jardim de Deus visando a algum propósito de difícil harmonia com Seus atributos.
Mas se, para culminar, devessem ser produzidas criaturas racionais, aptas a galgarem a excelência através do exercício dos poderes implantados com esse propósito; se a própria benignidade resolvesse trazer á existência uma criatura superior aos brutos, que pudesse pensar e aprimorar-se por que deveria essa dádiva inestimável, pois trata-se mesmo de uma dádiva, se o homem fosse assim criado para ter a capacidade de elevar-se acima do estado no qua a sensação produzisse a êxtase brutal, ser chamada, em termos diretos, de maldição? Maldição poderia ser, caso toda nossa existência estivesse limitada à nossa continuidade aqui neste mundo; pois por que deveria a graciosa fonte da vida nos dar paixões, o poder de refletir, somente para amargurar nossos dias e inspirar-nos com noções errôneas de dignidade? Por que deveria Ele nos afastar do amor próprio em direção às emoçõe sublimes que a descoberta que Sua sabedoria incita, se tais sentimentos não fossem postos em movimento a fim de aprimorar nossa natureza, da qual fazem parte, e nos capacitar a apreciarmos uma porção mais divina da felicidade? Firmemente convencida de que não há mal no mundo que Deus não tenha planejado, elaboro minha crença na perfeição de Deus."
- Mary Wollstonecraft
quarta-feira, agosto 09, 2006
Desestacionalizando ou simplesmente voltando
Texto número I
"- [...] mas você promete pra mim?
- Hã? Aquilo da Lua?
- Não é "aquilo da Lua"! Você bem sabe como eu sou, gosto desses rituais...
- Tá certo, amor, então repita pra mim o que você falou.
- Olha, sempre que nós estivermos longe um do outro e seja noite, se houver a lua no céu, teremos de olhá-la e imaginarmos que estamos próximos, mas tão perto que possamos sentir a presença um do outro, e a magia do amor que nos une.
- Mas meu amor, onde quer que eu esteja sentirei essa chama intensa que nos une e atrai! Não precisamos desse ritual.
- Por que você não simplesmente tenta fazer? Eu tenho certeza que você vai entender depois que fizer.
- Certo, então eu o farei.
[...] Após três meses, ele teve de se distanciar dela, tinha de completar um curso em outro estado. Na primeira noite não houve lua, mas na segunda uma fração dela surgiu no céu, tão tímida, mal se via seu brilho se expandir pela vastidão escura da Terra. Na percepção dele, afetada pelo coração, ecos da voz dela vinham da longitude do horizonte; ecos que o acalentavam e o lembraram da promessa feita. Ele riu-se do que iria fazer. "Onde já se viu, olhar pra lua...". Então, sem qualquer esperança de que algo especial ocorresse, ele ergue os olhos e contempla a lua. No início, via apenas a aura branca e enevoada que a contornava. Contudo, ao passar do tempo ele começou a sentir um level calor que o consumia seu corpo, mas não de forma lasciva ou carnal, era um calor fraterno e intenso que o remetia à eternidade do amor. Ele sentiu a presença majestosa dela, como se ela balbuciasse juras de amor ao seu ouvido, e seus braços o envolvessem e o permitissem ser feliz por mais alguns instantes. E ele adormeceu, acalentado pelos braços do seu amor numa noite enluarada."
"Quando as pessoas vêem as descobertas que faço, perguntam geralmente 'por que sim?' e eu replico-as com um 'por que não?'"
- Eu devo ter modificado tudo e nem lembro de quem é hehehe, mas a idéia dá pra ser captada né? autor deconhecido (deslembrado)
terça-feira, julho 11, 2006
Pra Ser Sincero
E não sabia, amor
Fiz tudo o que eu quis
Confesso a minha dor
[...]
E o que passou, calou
E o que virá, dirá
E só ao seu lado, seu telhado
Me faz feliz de novo
O tempo vai passar
E tudo vai entrar no jeito certo de nós dois
As coisas são assim
E se será, será
Pra ser sincero, meu remédio é te amar, te amar
Não pense, por favor
Que eu não sei dizer
Que é amor tudo o que eu sinto longe de você"
- Marisa Monte
Essa parte "E o que passou, calou, e o que virá, dirá" apresenta um caráter tão gostosamente efêmero; deixa que o tempo dirá o que acontecerá e te esqueça das chagas do passado, não deixe-as enterradas, incinere-as, liberte-se e renasça das cinzes que surgirem...
Essa é minha Marisa =P
domingo, julho 02, 2006
Por quê?
Quatrième raison de la rose
aussi c'est être cesser de d'être ainsi.
roses verras seulement de cendres froncées,
défunts, intacts par ton jardin .
je laisse arome mêm dans mes épines,
au loin vent va en parler de moi.
et deme perdre c'est qu'ils me vont en rappeler,
dem'effeuiller c'est que je n'ai pas fin.
If I only had a home
Estava frio, os lábios do menino arroxeados tremiam, temiam e pediam pelos pais. Ao longe ouvia-se uma resposta, vozes longínquas. Contudo, talvez fosse a imaginação desesperada de um abandonado. Os piores monstros e fantasmas na imaginação do garoto não eram piores que o terror de estar sozinho.
As extremidades dos membros do garoto começaram a congelar. O frio era lento e fatal com suas vítimas, especialmente as Jovens de Coração. Foi então que precipitou-se a nevar. Pesados flocos de neve caíam em derredor do garoto. As esperanças se esgotavam à medida que a neve vinha. O menino lembrou-se da sua casa, calorosamente aquecida com alegria. A neve caía. O garoto lembrou-se do seu animalzinho de estimação. A neve caía. O menino queria ir a um lugar melhor. A neve caía. O menino começou a sentir sono. Fechou os olhos e dormiu para sempre. Contudo, numa outra terra bem distante, onde nunca neva e nem os pais abandonam os filhos, um garotinho abria os olhos feliz da vida.
quarta-feira, junho 28, 2006
If I only had a heart
Tontura cética de um sofredor,
Atadura rompida pela palma,
Pela palma impassível do amor.
Cálidas mãos lembradas,
De momentos de contentação,
Mãos essas agora mortas, enterradas,
Num baú de recordação.
Percebido o tempo perdido,
Por pura falta de compromisso,
Tentou-se fazer o pedido,
Negado, revogado, homem omisso!
Rios corridos da face pendida,
Deságuam na baía da desolação,
Tudo isso por causa da vida,
Da vida de um homem sem coração!
quarta-feira, junho 21, 2006
If I only had a brain
Agora ele sentia na pele, ou melhor, na alma o que todo bom romântico mais teme: a solidão. Ele estava arrependido de tantos atos impensados, mas nem sempre se pode voltar com o que foi feito. Para quem sempre teve um ombro em que se possa apoiar, um ouvido para desafogar os problemas, é aterrador saber que está à mercê do silêncio.
Foi quando ele tropeçou numa pedra no meio do caminho (no meio do caminho havia uma pedra), que ele percebeu que ele havia tropeçado nele mesmo. A adrenalida circulava freneticamente pelas artérias e veias de seu corpo, a excitação, a palpitação, o desespero, tudo convergia para o irracionalismo abrupto. Ele não sentia dor, embora estivesse ensangüentado.
Se ao menos ele pudesse ter pensar numa solução. Quem sabe ele encontrasse uma resposta se se acalmasse, mas que droga! Ele não conseguia se aquietar, seu coração estava revoltado e parecia não estar disposto a uma trégua. De repente, um gorjeio atrapalhou seus pensamentos; olhou ao redor do campo e visou um rouxinol a cantar no galho de uma árvore morta. Conforme escutava a melodia da ave, percebeu que a relva estava mais macia e suas pernas ardiam. Também sentiu que era tempo para voar a outras terras."
terça-feira, junho 20, 2006
Como uma pétala
Das experiências mais amargas e desagradáveis que podemos encontrar, a perda de uma pessoa querida é uma das mais desgostosas. Infelizmente, o ser humano é sujeito às imperfeições em sua natureza. Portanto podemos demonstrar atitudes e comportamentos incorretos, que acabam por ferir os entes queridos. Uma amizade imponderável pode ser facilmente denegrida pela força da inveja, pelo poder da mentira ou até mesmo pelo desgaste temporal.
A poetisa Cecília Meireles, mestra na descrição da vida como uma passagem efêmera, ensina aos leitores que o importante de um momento é a satisfação física, moral e espiritual que ele pode trazer, sem a preocupação do momento vindouro e de conseqüências eqüiprováveis. Sendo assim, um desentendimento não passa de um mero resquício de nossa imperfeição. Uma gota de mácula num oceano de pureza. Contudo, nem todas as pessoas têm noção da efemeridade e da consciência de que ela é o principal motivo para adotarmos uma vida branda e pacífica.
Assim como a pétala que voa, os problemas passam e abandonam nossa vida. Uma amizade é feito uma pétala, dentre várias numa rosa da vida.
"E por perder-me é que me vão lembrando,
Por desfolhar-me é que não tenho fim."
- Cecília Meireles
sábado, junho 10, 2006
O pesadelo de um homem ridículo
Na adolescência, as coisas começaram a se passar melhor ainda. Eu meio que conseguia conciliar minha "vida vadia" com a "vida correta". E o fazia com primazia, por sinal. Uma data inesquecível foi o dia em que perdi minha virgindade. Dessa vez houve um papel fundamental de meu pai, o qual contratou os serviços de uma mulher da vida. Ela era tão linda, devia ser um lustro mais velha que eu; curvas agressivas desfilavam por um corpo cultivado para o prazer, cada parte de seu corpo emanava sensualidade, chamava para o sexo. Tudo deu-se com calma, pela primeira vez sentia o gozo da cópula, o ápice do prazer. Essa sensação acompanhar-me-ia pela posteridade, sobre a qual contar-lhes-ei dentre intantes.
Veio a maturidade e com ela a independência. Ah! Liberdade, sim, agora tinha de me virar; passei no vestibular, fiz o curso de maior fama na época e minha carreira era certamente próspera. Comecei trabalhando numa empresa de negócios. Eu era office-boy. Não gostava de ter aquele emprego, chulo, mesquinho; eu queria mais...
Depois de ter estabilizado minha vida, conheci uma mulher, bonita, inteligente e faceira. Sabia que era com ela que me casaria. Pensado e feito: ela era minha. A lua-de-mel foi numa praia, flashes de cinema. Contudo, minha "vida vadia" teria de ser bruscamente assassinada, não! Não deixaria ninguém impedir minha liberdade, teria minha vidinha, oculta, mas teria.
O primeiro filho que veio era uma menina, linda por sinal, parecia uma princesa de porcelana quando bebê. Entretanto, a vida de casado começava a pesar no bolso, e com ela recentes brigas entre minha esposa e eu. Ela estava certa no que dizia, eu tinha de arranjar um emprego melhor, mas não estava nem aí pra eles, queria mesmo é seguir com minha vida implícita. Minha dissimulação, aprendida desde criança, fizeram-me mestre na arte de seduzir e lograr.
Com a vinda do segundo filho, a situação tornou-se insustentável. As brigas intensificaram-se, eu gastava dinheiro comprando materiais para mim e acabava por diminuir a renda familiar, ela não trabalhava e eu jogava um "você não trabalha, então fique calada!" e a situação se aquietava. Confesso que até cheguei a bater nela, bati muito no começo, mas depois ela se mostrou forte e tive que parar. Ela cada vez mais se tornava forte, isso me deixava nervoso e inquieto, não podia admitir que uma mulher fosse mais forte que eu.
Pensando nessa situação com minh esposa, resolvi intensificar minha vida implícita. Encontrei uma amante, não foi difícil, afinal sou sedutor de carteirinha. Como minha esposa não transava mais comigo, desafoguei meus desejos com a amante. Eu era o mestre da situação agora, tinha uma vida dupla, de submisso em casa, para rei na cama da amante. Ela me idolatrava, e eu sentia prazer com ela e em trair minha esposa.
Sucedeu que esse homem adúltero conheceu uma cigana enquanto dirigia-se para a casa da amante. A velha pediu para ler a mão do adúltero docemente. Ele concordou e mostrou a palma da mão. A velha, como se apenas confirmasse suas expectativas, lançou-lhe um olhar assustador, como se soubesse de todos os pecados que ele carregava, todas as atitudes lascivas e inconseqüentes. Ele entrou em súbito pânico e chegou a agredir a senhora, ela, muito fraca, caiu no chão. Furiosa, praguejou contra ele numa língua desconhecida. As palavras ecoaram por toda a rua, e pela vida do adúltero. Ele não acreditava muito em maldições, mas assustou-se deveras com o poder daquelaas palavras (e assustar-se-ia muito mais).Após isso, foi para o antro de pecados.
Depois de cometer o ato de adultério (ele não tinha um pingo de ressetimento), voltou para casa e ainda no caminho comprou flores para a esposa, de tão feliz que estava. Era por volta das onze e meia da noite e era de se esperar que sua esposa e filhos estivessem dormindo. Estranhamente, não havia vivalma na casa, estava totalmente escura, com todas as luzes apagadas. Um ar fúnebre perdurava pelo aposento, ele sentia frio, coisa inimaginável, pois estava em pleno verão e no Nordeste! Por instantes ele se lembrou de que o frio era sinal de que espíritos rondavam o lugar, mas logo apagou aquilo da mente porque não acreditava.
E lentamente ele dirigiu-se para o quarto de seu filho, esperando que ele estivesse pregando uma peça ou coisa do tipo. Enquanto se encaminhava, ouviu um ruído baixo vindo do quarto, era como se fosse um barulho de berço, mas era diferente de um rangido normal, era sinistro e sincronizado com os seus passos. Quando abriu a porta do aposento, pouco pôde distinguir no breu que imperava. Contudo, podia ver que havia um vulto encolhido num canto do quarto, e estava perto do berço. Mas não havia berços na casa. O vulto permanecia em silêncio, e pelo que parecia estava a balançar o berço. O homem criou coragem e resolveu se aproximar do berço. Quando estava bem próximo, conseguiu ver que havia um bebê dentro dele, e o vulto balançava o berço com apenas uma mão, ela era totalmente calejada e esquelética.
De repente, o vulto começou a cantar um canção de ninar, o homem entrou em pânico: o vulto tinha a voz da mãe dele. O vulto ergueu das sombras um punhal e meneou estranhamente a cabeça. Ergueu o objeto no ar, acima do bebê e balbuciou: o fruto do pecado deve ser exterminado. O adúltero rapidamente lembrou se de que a sua amante queria um filho com ele, será que aquele era seu filho? Rapidamente ele retirouo bebê do berço, antes que o vulto pudesse matar a criança. Chutou furiosamente o berço, que se investiu contra o vulto, mas esse se desfez, restando apenas o pano preto que o cobria.
Quando o adúltero foi averiguar o bebê, tomou outro susto: era um cadáver de um bebê, semi-putrefato. Algo foi sussurrado aos seus ouvidos enquanto ele jogava o cadáver no chão. Eram as palavras da velha cigana, entre risos e choros, com risos de escárnio e choros de multidões. Ele ouvia a orquestra do inferno, regida pelo pecado. A casa se dissolvia na sua frente, ao seu redor; restou apenas à sua frente a cama com a qual ele traía a esposa. Parecia que havia alguém dormindo na cama, devia ser a amante.Ele removeu o lençol que encobria o corpo e entrou em estado de choque: sua espoa, com roupas íntimas da amantes, dormia silenciosamente.
De súbito, ela abriu os olhos e gritou, mas não saía som da boca. Ele não escutava mais anda, tudo girava ao seu redor, ele sentiu o peso do pecado, era um adúltero e se arrependia do que havia feito, mas não adiantava mais, o que foi feito está feito. Ele haveria de pagar, nem que levasse toda a eternidade, ele pagaria ou sua alma seria consumida pelo vil fogo do inferno.
quinta-feira, maio 18, 2006
Destiny's Land
I went to the druid's home and asked about the future of our people. I was afraid about our forest. However, the wise said that the forest do not belong to us, and we only have our soul to care for. 'Only those who have nothing have nothing to fear'."
- Selena's tales - tale nº47.
quinta-feira, maio 04, 2006
Questionamento
- Relatos de uma vida perdida (parte 2)
quinta-feira, abril 27, 2006
O Sol existe
E as risadas boêmias ao luar,
E os bacanais profanos,
E as noites românticas,
E os atos mundanos,
E as serenatas eloquentes,
E os beijos escondidos aos becos,
E as lágrimas decadentes,
E o medo da escuridão,
E o medo do esquecimento,
E o medo da solidão,
E o canto vagaroso e triste,
E a alma de sofrimento,
Por mais que ...,
O Sol existe.
obs.: para plagear o texto de HD
quarta-feira, abril 12, 2006
Eu sou diferente
Eu sou diferente. Não preciso de mais delongas, explicações demasiadas, exibições patéticas, feitos mirabolantes, atos fantásticos, enfim, sou e pronto. Sou singelamente diferente e não devo explicações de como ou porque sou, não sou um livro que pode se abrir e esmiuçar sobre. Sou um ser humano, e como tal apresento máscaras, desvios de comportamento e quaisquer desses vícios inerentes a um cidadão.
Não preciso sair pelas ruas escandalizando, gritando, protestando para que todos prostrem-se diante de meus pés reconhecendo minha diferença. Apenas quero que respeitem meus pontos de vista, minhas concepções e princípios, por mais que se pareçam com dogmas (embora não o sejam). Em suma, sou diferente de tal sorte que sigo minha vida despreocupado com opiniões alheias à minha existência. Espero que sigam meu caminho.
segunda-feira, abril 10, 2006
Nadei
Sempre esses eventos não-agradáveis se prosseguiram ao longo de minha vida e nunca reclamei deles, eram resultado da ávida procura pela verdade. Quando completei 30 anos, resolvi viajar de trem, daqueles que apitam alto e forte quando desembarcam na estação, chega dá gosto de ver a fumaça saindo da chaminé (Oh Deus! Poluição atmosférica, efeito estufa, inversão térmica!). Lembrei na hora que, por causa do efeito Doppler, a frequência ouvida por mim do apito da locomotiva em movimento é diferente daquela em que ela seria se estivesse estacionada. Uma mudança sensível em minha vida se fez por causa do efeito doppler, veja bem: se a frequência da locomotiva fosse mais aguda que o normal enquanto se distanciava da estação, não poderia ter ouvido o melodioso som da voz de minha futura esposa, Diana, perguntando-me se aquela estação a levaria para Dumas, cidade interiorana. Esse negócio de ciência é feito tabaco, rum, cerveja e tudo que há de pior, mas com um lado bom: pode dar dinheiro.
terça-feira, abril 04, 2006
Espírito engajado
"Em 14 de julho de 1789 o povo em armas realiza a tomada da prisão política da Bastilha, vista como símbolo do absolutismo, e libertava seus prisioneiros, ocorrência que passou a ser chamada de Segunda Jornada revolucionária. Em Versalhes, o rei, ao ser informado sobre os acontecimentos, exclamou:
- Mas isso é uma revolta!
Seu informante, o duque de Lancourt, respondeu-lhe:
- Não, majestade, é uma revolução".
sábado, abril 01, 2006
Ordinária
Ela ligou o aparelho de som; queria ouvir alguma música. Na verdade, queria é amenizar o silêncio aterrador que se insinuava pelo ambiente. O silêncio que a corroía lentamente fê-la sentir medo de viver. Talvez fosse hora de abandonar o sonho perdido, a vida mascarada, o mundo corrompido. Decerto haja um lugar melhor que não seja este.
Ela terminou de arrumar o aposento; tudo estava impecavelmente limpo. Depois, resolveu tomar o café da tarde (queria sentir pela última vez o gosto amargo da vida). Ela deixou a mesa como estava e decidiu não escrever nenhuma carta aos outros, o que tivesse que ser seria. Então, ela partiu para outro mundo e, minutos depois, o porteiro encontra seu corpo no andar térreo, com um sorriso infantil, mas verdadeiro estampado no rosto morto.
sexta-feira, março 17, 2006
Latência
Para sorrir,
Essas mágoas, essas,
Insistem em me perseguir!
Não me digas,
O que fazer,
Tu, que me fatigas,
Com teu jeito insípido de ser.
Não me faças,
Expulsar-te daqui,
Deixa-me co'as traças,
Deixa-me pensando que já morri...
Não me prendas,
Com teus grilhões,
Forjados com o amor das sendas,
Das sendas dos teus perdões.
Não me acordes,
De meu (eterno) sonho,
Deixa-me na latência, sem acordes,
Sem notas, tons reais desse mundo medonho...

