sábado, dezembro 31, 2005

Ano nováceo

Desejo o que qualquer desejaria,
Como um humano que pensa ser normal,
Como um alguém esperançoso seria,
como ninguém infeliz e sem moral.

Desejo que todas as lembranças,
Nocivas, tristes e enfadonhas,
Tornem-se súbitas esperanças,
Sem quaisquer dúvidas medonhas.

Desejo, pois, um Ano-Novo ao menos feliz,
Que pelo menos por uma fração de segundo,
Possamos abraçar juntos todo o mundo.

-Feliz Ano-Novo galera o/

domingo, dezembro 25, 2005

Papai Noel

É noite de Natal, não neva por aqui, mas caem pesados flocos de não-matéria:luz... O calor é tão abrasador que os desejos e anseios por Papai Noel viram desejos por um belo sorvete de chocolate com calda de morango. A brisa vespertina surge, então, como um aviso de que um dos períodos mais sagrados está para ser lembrado; o céu inflama, a noite é certa. E bem de perto da linha imaginária que divide a Terra em dois hemisférios, nós saudamos o nascimento de Cristo e a passagem de um velho gordo e vestido de vermelho distribuindo presentes pelo mundo em frações de segundo. Entretanto, poucos sabem que ele se veste de sunga para passar por aqui... Sendo assim, ainda possuído pelo espírito natalino (não precisam me exorcizar), eu desejo a todos um Feliz Natal.

domingo, dezembro 18, 2005

Murmúrio


Traze-me um pouco das
sombras serenas
que as nuvens transportam
por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas
vê que nem te peço alegria.

Traze-me um pouco da
alvura dos luares,
que a noite sustenta
no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
vê que nem te peço ilusão.

Traze-me um pouco da tua
lembrança, aroma perdido,
saudade da flor!
Vê que nem te digo:
esperança,
Vê que nem sequer sonho:
amor!
- Cecília Meireles

domingo, dezembro 11, 2005

O guarda-roupas


Faltava pouco para que o irmão terminasse a contagem. A menina estava quase desesperada, uma vez que não encontrava um esconderijo adequado. Edmond, seu irmão, havia lhe expulsado do único lugar que ela julgava decente para se esconder. Ela correu pelos vastos corredores do casarão, porta por porta, tentava entrar nos cômodos, mas todos se encontravam trancados à chave, parecia que a casa era à prova de crianças. Enquanto ela corria, o assoalho rangia proporcionalmente,o ranger dava a impressão de que a casa estava a rir do desespero da criança. Todos os outros irmãos deveriam estar devidamente escondidos, prontos para serem encontrados, ou para ganharem a brincadeira; somente ela, pobre Lucy, ainda não havia se escondido.
E quando suas ingênuas esperanças iam se esvair, a porta que tentou abrir, de súbito , abre-se num rangido tão longo e consternado quanto o do assoalho, como se a porta quisesse negar o privilégio que ela viria a ter, mas era iminente. A voz de Pedro ficou para trás, meio sufocada pelas paredes grossas e carcomidas do cômodo, ou talvez tenha sido a surpresa que a menina teve ao se deparar com uma sala praticamente vazia; uma grande janela permitia a entrada da luz, mas não do ar, o ambiente estava saturado de antigüidade e mofo. Só havia uma cousa no cômodo, estava encoberta por um lençol grande e branco, pelo menos era branco, pois agora estava amarelo de encardido.
A menina aproximou-se lentamente do objeto e, num gesto limítrofe entre o fascínio e a pressa, ela retira o lençol, que cai muito de leve no chão. Era um guarda-roupas, grande e pesado, ricamente talhado, mas muito comum à primeira vista. Após observar o guarda-roupas por alguns segundos, ela o abre. Não sabia que, dentro de pouco, ela experimentaria a maior aventura de sua vida. O móvel era apenas o começo, a chave de um mundo mágico e ansioso por ser visitado por filhos de Adão e Eva.
Mesmo receosa, Lucy entrou no guarda-roupas: a aventura estava lançada...

obs.: Por isso, caros leitores, não se espantem ao encontrar um mundo por dentro de vossos guarda-roupas, sejam apenas jovens de coração, que esse mundo se abrirá para vós.

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Eu

O eu vivia muito distante,
nas terras ermas e longínquas,
Queria apenas um instante,
Para encontrar a saída.
Do espelho sem faces.

O eu vivia meio irresoluto,
Pelas marcas que haviam,
Em seu corpo, em seu luto,
Pela morte,
De outra parte.

O eu ansiava pela transição,
Entre o aqui e o agora,
Para uma suposta superação,
De um dilema,
Inconstante.

O eu cansou de esperar,
Pelas voltas de um mundo,
Que não o queria encontrar,
Simplesmente debruçou-se,
Sobre os pensamentos,
E divagou.

O eu não estava taciturno,
Apenas cansado em demasia,
Em seus devaneios noturnos,
Em sua etena poesia,
Ele suspirava,
Pelo momento certo.

O eu descansa sereno ,
Em seu fardo carregado,
Em seu desterro terreno,
Só aguarda paciente,
O instante certo para dizer:
eu.

terça-feira, dezembro 06, 2005

Canção


Quero um dia para chorar,
Mas a vida vai tão depressa!
- e é preciso deixar contida,
a tristeza para que a vida,
que acaba quando mal começa,
tenha tempo de se acabar.

Não quero amor, não quero amar,
Não quero nenhuma promessa,
Nem mesmo para ser cumprida.
Não quero a esperança partida,
Nem mesmo de quanto regressa,
Quero um dia para chorar.

Quero um dia para chorar,
Um dia para despedir-me dessa,
Aventura mal entendida,
sobre os espelhos sem saída,
Em que jaz minha face impressa,
Chorar sem protestos. Chorar.
- Cecília Meireles

domingo, dezembro 04, 2005

Lia

Poema em homenagem a uma amiga muito especial. Sempre quis fazer um poema com o seu nome, agora vai:

Lia

Sorria lia
Lia sorria
Em sua alegria
Em sua magia
Em seu viver.

Lia,
Dia de alegria,
Dia de viver

Sabia Lia,
Da profecia,
Em seu dia-a-dia,
Pura simpatia,
Puro saber.

Lia,
Dia de alegria,
Dia de viver

Sentia Lia,
Grande nostalgia,
Grande ventania,
No alma e na via,
Do etéreo sofrer.

Lia,
Dia de nostalgia,
Dia de viver

Sabia Lia,
Que a melancolia,
Ela transporia,
Com primazia,
Com seu crescer.

Lia,
Dia de alegria,
Dia de viver

Lia,
Sempre seria,
A profilaxia,
A mitologia,
Máxima utopia,
Da vida e do ser!

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Presença em Pompéia


Pompéia, localizada a 220 quilômetros da capital italiana - duas horas e meia de trem - a antiga colônia grega e romana, que foi soterrada pelo entulho de lavas e cinza expelidos pelo vulcão Vesúvio há quase dois mil anos, continua sendo um dos achados arqueológicos mais importantes do mundo antigo. Em uma área de 66 hectares, é possível encontrar ainda em razoável estado de conservação os anfiteatros e termas, as pinturas nas paredes das casas da velha cidade e, até, corpos endurecidos pela lava. Atração de turistas de todas as partes, Pompéia tornou-se rota de viagem por sua fantástica história. A tragédia acabou com a vida da cidade no ano 799 de nossa era (a Cristã). Mas, ela entrou para a eternidade após a catástrofe que a jogou no esquecimento por mais de dez séculos.
Cecília Meireles, em sua magnificência e honorabilidade, fez um poema em homenagem à vida das pessoas... que tragicamente foi tirada delas.

Presença em Pompéia

Esta conta não pagarás:
- ficará sob uma cinza que não sabes.

Sob a cinza que ainda não sabes
ficará teu filho por nascer
e também os meninos que já sabiam desenhar nos muros.

Ficarão os figos que ontem puseste na cesta.
Ficarão as pinturas da tua sala
e as plantas do teu jardim, de estátuas felizes,
sob a cinza que não sabes.

Os gladiadores anunciados não lutarão
e amanhão não verás, próximo às termas,
a mulher que desejavas.

Tu ficarás com a chave da porta na mão;
tu, com o rosto da amada no peito;
amo e servo se unirão, no mesmo grito;
os cães se debaterão com mordaças de lava;
a mão não poderá encontrar a parede;
os olhos não poderão ver a rua.

As cinzas que não sabes voarão sobre Apolo e Ísis.
E uma noite ardente, a que se prepara,
enquanto a luz contorna a coluna e o jato d'água:
- a luz do sol que afaga pela última vez as roseiras verdes.

Reflitam sobre suas vidas, e dêem mais valor a ela...