- Manhêee! Meu dente caiu! Olha aqui!
A menina veio correndo pela casa com o dente recém-tirado na mão; estava em prantos e meio que ordenava que a mãe lhe explicasse o porquê dessa "tragédia". Seus miúdos olhos, marejados pela dor e medo, traduziam a ingenuidade e inocência. A mãe estava ocupada lavando a louça da janta, mas quem não se comoveria com tal pedaço de gente?
- Venha cá, filha. - sentou-se na cadeira e levou a criança ao colo.
- Mãe, vou ficar que nem a vovó? - soluçou a menina.
- Não não! Você não vai ficar que nem a vovó, porque a vovó é beeem mais velha que a mocinha. Sabe o que vai acontecer?
- Não...
- Daqui a algum tempo, um dente mais forte, branco e bonito vai nascer de onde esse caiu. Eu não queria te contar, mas os dentes têm vida própria.
- Têm mesmo mamãe?! - perguntou eufórica a guria.
- Sim, senhora. Quando somos crianças, temos vinte e quatro dentinhos na boca, cada um com sua própria vidinha, e todos trabalham, principalmente quando se come: um rasga a comida, outro esmaga, outro corta e assim por diante...
A menina batia palmas de felicidade, já se esquecera do que era dor. O dente caído fora posto em cima da mesa meio que inconscientemente. A mãe também se divertia ao contar a história para a filha.
- ... Mas os dentes acabam envelhecendo na boca e já não trabalham tão bem. Então eles se soltam da boca e dão espaço para que outro nasça no lugar dele.
- E o que eu faço com o dentinho velho?
- Ora, dê para a fada dos dentes.
- Fada dos dentes?
- Sim, a fada que troca dente por moedas.
Se a menina soubesse dar piruetas no ar, daria aos montes naquele momento. Nada era mais excitante do que uma fada que trocava dentes velhos por moedas. O mundo era tão misterioso e grande para aquela criança, saber da fada fora um como se um dos segredos de Barba-Azul estivessem sendo revelados.
- E como eu falo com a fada? Eu quero trocar!
- Calma, minha filha. Você não pode falar com a fada, porque as fadas são proibidas de conversar com as crianças pela lei do estatuto das Fadas. Por isso que elas aparecem de noitinha, e se você colocar o seu dente velho debaixo do travesseiro, elas os trocam por moedas.
- Mas eu queria falar com a fada dos dentes...
- Eu entendo que você queira, mas elas não podem, filha. Quem sabe você consiga pegar um no instante em que ela for trocar o dente.
- Vou sim! - respondeu a menina dando um pulo de alegria.
E se chispou pela casa tão rápido quanto veio ao choramingar. A mãe estava pensando em que momento colocar a moeda por sob o travesseiro, ela sabia que a menina dormiria cedo ou tarde. Demorou para que a criança pegasse no sono. Em verdade, a guria foi dormir desolada, queria ter pego a fada no flagra e lhe pergunta sobre o mundo mágico que ela ainda não conhecia. A mãe, cuidadosamente, colocou uma moeda sob o travesseiro e pegou o dente que lá se encontrava.
No raiar do outro dia, a menina corre para a cama da mãe aos berros.
- Mãezinha! A fada trocou meu dente! Você estava certa!
E era uma alegria que só.
Alguns meses se passaram e a mãe havia notado que a menina andara comprando doces e guloseimas no doceiro da escola. Intrigou-se, porque não dava dinheiro à criança. Temendo que a menina pudesse estar pegando dinheiro na casa ou até de seus amigos, resolve indagar e criança.
- Minha filha, onde você anda conseguindo esse dinheiro?
- Não posso contar, mamãe!
Sorrindo com uma boca desdentada.
E aqui acaba-se essa história.
segunda-feira, setembro 11, 2006
quarta-feira, setembro 06, 2006
Quarto motivo da Rosa
Não te aflijas com a pétala que voa,
Também é ser deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzidas,
Mortas, intactas pelo teu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos,
Ao longe o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que me vão lembrando,
Por desfolhar-me é que não tenho fim.
Também é ser deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzidas,
Mortas, intactas pelo teu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos,
Ao longe o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que me vão lembrando,
Por desfolhar-me é que não tenho fim.
Segundo motivo da rosa
Por mais que te celebre, não me escutas,
Embora em forma e nácar te assemelhes
À concha soante, à musical orelha
Que grava o mar nas íntimas volutas.
Decomponho-te cristal, defronte a espelhos,
Sem ecos de cisternas ou grutas...
Ausências e cegueiras absolutas
Ofereces às vespas e às abelhas,
E a quem te adora, ó surda e silenciosa,
E cega e bela e interminável rosa,
Que em tempo e aroma e verso te transmutas!
Sem terra nem estrelas brilhas, presa,
A meu sonho, insensível à beleza,
Que és e não sabes porque não me escutas...
Embora em forma e nácar te assemelhes
À concha soante, à musical orelha
Que grava o mar nas íntimas volutas.
Decomponho-te cristal, defronte a espelhos,
Sem ecos de cisternas ou grutas...
Ausências e cegueiras absolutas
Ofereces às vespas e às abelhas,
E a quem te adora, ó surda e silenciosa,
E cega e bela e interminável rosa,
Que em tempo e aroma e verso te transmutas!
Sem terra nem estrelas brilhas, presa,
A meu sonho, insensível à beleza,
Que és e não sabes porque não me escutas...
Motivos da Rosa
Como eterno fã de Cecília Meireles; tenho como meta reunir mais leitores que possam se aprazer com os belos textos dessa poetisa. A série "Motivos da Rosa" mostrará os quatro motivos da rosa, poemas que tratam da existência humana e sua relaçao metafórica com a rosa.
Primeiro Motivo da Rosa
Vejo-te em seda e nácar,
e tão de orvalho trêmula, que penso ver, efêmera,
toda a Beleza em lágrimas
por ser bela e ser frágil.
Meus olhos te ofereço:
espelho para face
que terás, no meu verso,
quando, depois que passes,
jamais ninguém te esqueça.
Então, de seda e nácar,
toda de orvalho trêmula, serás eterna. E efêmero
o rosto meu, nas lágrimas
do teu orvalho... E frágil.
Primeiro Motivo da Rosa
Vejo-te em seda e nácar,
e tão de orvalho trêmula, que penso ver, efêmera,
toda a Beleza em lágrimas
por ser bela e ser frágil.
Meus olhos te ofereço:
espelho para face
que terás, no meu verso,
quando, depois que passes,
jamais ninguém te esqueça.
Então, de seda e nácar,
toda de orvalho trêmula, serás eterna. E efêmero
o rosto meu, nas lágrimas
do teu orvalho... E frágil.
terça-feira, setembro 05, 2006
Observação 2
E jurei acreditar que pessoas grandes poderiam nos entender, amigo. Mas depois eu vi que elas estão muito preocupadas com coisas mais importantes, como assistir a novela das oito. E assim, percebo que os Jovens no Coração são tão poucos quanto os lugares em que a natureza ainda não foi conspurcada...
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