Ela estava frustrada e desolada, não conseguia medir a extensão de seu desespero. Como pôde perder o emprego e o namorado no mesmo dia? Não havia mais jantares amorosos, passeios de barco, buquês de rosas... havia apenas o doce momento de desilusão que a sugava e trazia violentamente para a temida realidade.
Ainda indo ao (futuro ex) emprego, ela deparou com seu (futuro ex) namorado beijando uma guria. Não pensou duas vezes, foi em direção ao traidor e lhe exigiu explicações; ele apenas disse que estava já estava pensando em terminar o relacionamente, que só não conseguia encontrar uma boa desculpa para terminar. Após um discurso longo e hipócrita, ele disse que ela ficaria bem e tudo isso era bom para ela, uma vez que ele não a merecia.
Abalada com tal fato, pensou "talvez seja melhor eu esquecer isso pelo menos enquanto trabalho, assim criarei forças para superar tamanho fato". Ergueu sua moral com uma certa altivez, absolutamente justificável, e partiu tumo ao trabalho. O dia parecia tão lindo ao amanhecer...
Ao pisar no salão principal do prédio em que trabalhava: silêncio. Nenhum atendende lhe dirigia sequer um cumprimento trivial, apesar de ela os conhecer há tempos. O silêncio fê-la temer o que teria de enfrentar ao subir os andares. Ao chegar em sua sala, reparou que uma carta fora colocada cuidadosamente sobre sua escrivaninha, carimbada por seu superior. O medo se apossou de seu corpo e, suando frio, ela agarrou o envelope num ato misto de coragem e pavor. Suas mãos estavam trêmulas e seu coração palpitava, ela tentava se encorajar com pensamentos vãos ,"tomara que seja um aumento...". Quando finalmente tomou coragem e leu o conteúdo, quase desmaiou, uma nota lhe informava que fora demitida, ou melhor, exonerada de seu cargo. O céu fez-se de negro...
Como se não bastasse a demissão e a perda do namorado, pesadas nuvens negras s aglomeravam e se despedaçavam em implacáveis gotas de água, trovões e ventania. A água que se precipitava encharcava-lha a roupa e os cabelos. Contudo, ela nem se importava com a chuva; estava encharcada moralmente. E assim caminhou sem rumo pelas avenidas cinzas e sem vida da cidade, como uma indigente deplorável. Não visava um caminho, apenas rumava...
E foi caminhando pelas ruas que ela percebeu que a chuva parara, uma fenda tímida abriu-se por entre as nuvens nefastas e indicavam que a tormenta estava por passar. E nessa réstia de luz que lhe tocou a face, ela percebeu que estava viva; quando olhou em derredor, avistou uma igreja. Não era uma das mais imponentes construções que ela vira, mas sentiu que precisava entrar nela. Queria alguém para culpar, algo para esbravejar.
Entrando na igreja, reparou na simplicidade do local. Paredes antigas, úmidas e mal rebocadas, bancos excessivamente lustrados para um dissimulação (em vão) do novo, velas já derretidas cercavam uma estátua de Nossa Senhora, que por sua vez estava desbotada e maltratada pelo tempo. A Santa erguia os braços como se estivesse sempre apta à consolar os aflitos.
Não havia vivalma na igreja, nem mesmo sacristão ou carola. foi quando ela se dirigiu à estátua e resolveu se confessar ali mesmo, contou de todos os problemas que estava passando e questionou duramente a existência de Deus. Ela estava desesperada e cada palavra que soltava lhe incitava a imprecar mais. E nesse oceano de blasfêmias , a mulher golpeou a estátua com as mãos que anteriormente usou para apontar duramente à imagem. A obra de arte caiu num baque no chão e se partiu em cacos. A mulher se assustou com o que ela mesma fizera e imediatamente pôs-se a juntar os pedaços. Quando apanhou a cabeça da santa, levou a maior surpresa que iria presenciar: a imagem chorava; e não era água salgada, um veio de sangue que lhe escorria dos olhos gotejava no chão. Não se sabe se foi apenas um fenômeno físico de dissolução, ou se era mesmo um milagre que se operava, o fato é que a vida daquela mulher nunca mais foi a mesma após aquele dia...
3 comentários:
it's not always going to be this gray..
all things must past.. all things must past away. (disse george harrison)
mas é claro que o sol vai voltar amanhã! (disse renato russo)
nossa! coitada da santa.
mas coitada da mulher também. que namorado estúpido. e que emprego chato. mas ela bem que podia ter se controlado um pouquinho mais,né?
foi comovente. espero que a moça melhore.
(e eu adoro o jeito como tu arranja as palavras em teus textos. são sempre ótimos.)
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