terça-feira, agosto 15, 2006

A fé

"No atual estado de coisas de nossa sociedade, parece necessário volvermos aos princípios primordiais na busca das verdades mais simples e disputarmos a palmo o território de alguns preconceitos predominantes. Para abrir caminho, preciso fazer algumas perguntas simples, cujas respostas poderão soar inequívocas, como os axiomas sobre os quais se erige a razão; muito embora, quando emaranhadas em vários motivos, elas entrem em formal contradição nas palavras ou condutas dos homens.
No que consiste a preeminência do homem nos rudimentos da criação? A resposta é tão clara quanto o fato de que a metade é menor que o todo, na Razão.
Qual conquista enaltece um ser mais do que outro? A virtude, respondemos. Com que propósito foram emplacadas a paixões? Para que o homem, ao enfrentá-las, possa atingir um grau de conhecimento negado aos brutos, sugere a Experiência.
Conseqüentemente, a perfeição da nossa natureza e aptidão para felicidade deve ser estimada pelo grau de razão, virtude e conhecimento que distinguem o indivíduo e direcionam as leis que conformam a sociedade; e seja igualmente inegável que a partir do exercício da razão, fluem naturalmente o conhecimento e a virtude, caso desejemos encarar a humanidade coletivamente...
Quando o sábio Ser que nos criou e colocou aqui concedeu tal justiça, Ele determinou, permitindo que assim fosse, que as paixões desdobrassem nossa razão, pois via que o mal presente produziria o bem futuro. Poderia a indefesa criatura que Ele trouxe do nada livrar-se de Sua providência e aventurar-se a aprender o bem através da prática do mal, sem Sua permissão? Não. Como pôde? Aquele enérgico defensor da imortalidade [Russeau] argumentar de forma tão inconsistente? Se a humanidade tivesse permanecido para sempre no estado bruto, e nem mesmo sua pena mágica é capaz de pintar como situação onde uma virtude sequer tenha se arraigado, ficaria claro, mas não aos olhos de um sensível ser errante incapaz de reflexões, que o homem nasceu para percorrer o circuito da vida e da morte e adornar o jardim de Deus visando a algum propósito de difícil harmonia com Seus atributos.
Mas se, para culminar, devessem ser produzidas criaturas racionais, aptas a galgarem a excelência através do exercício dos poderes implantados com esse propósito; se a própria benignidade resolvesse trazer á existência uma criatura superior aos brutos, que pudesse pensar e aprimorar-se por que deveria essa dádiva inestimável, pois trata-se mesmo de uma dádiva, se o homem fosse assim criado para ter a capacidade de elevar-se acima do estado no qua a sensação produzisse a êxtase brutal, ser chamada, em termos diretos, de maldição? Maldição poderia ser, caso toda nossa existência estivesse limitada à nossa continuidade aqui neste mundo; pois por que deveria a graciosa fonte da vida nos dar paixões, o poder de refletir, somente para amargurar nossos dias e inspirar-nos com noções errôneas de dignidade? Por que deveria Ele nos afastar do amor próprio em direção às emoçõe sublimes que a descoberta que Sua sabedoria incita, se tais sentimentos não fossem postos em movimento a fim de aprimorar nossa natureza, da qual fazem parte, e nos capacitar a apreciarmos uma porção mais divina da felicidade? Firmemente convencida de que não há mal no mundo que Deus não tenha planejado, elaboro minha crença na perfeição de Deus."
- Mary Wollstonecraft

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