Ela chegou do trabalho satisfeita; havia feito tudo certinho nas gravações. Uma atriz de prestígio? Bem, até que poderia se dizer que sim. Uma pessoa feliz? Talvez não. No apartamento em que morava tudo era solitário: as mobílias exalavam um odor limpo de solidão, os tapetes lembravam figuras solitárias do deserto, o sofá vazio, os quadros imóveis, os retratos nostálgicos. Ela tantava denotar para si mesma, na frente do espelho, um ar convicto de alegria, mas essa, essa não saía. O sorriso forçado contribuía ainda mais para intensificar seu desespero, sua tristeza. De que adianta dinheiro? Fama? Riqueza? Nada importava quando se tratava de amizade, confiança, humildade e amor. Podemos comprar amigos, mas não os verdadeiros. O dinheiro leva consigo a traição e a hipocrisia ( e ela bem disso sabia).
Ela ligou o aparelho de som; queria ouvir alguma música. Na verdade, queria é amenizar o silêncio aterrador que se insinuava pelo ambiente. O silêncio que a corroía lentamente fê-la sentir medo de viver. Talvez fosse hora de abandonar o sonho perdido, a vida mascarada, o mundo corrompido. Decerto haja um lugar melhor que não seja este.
Ela terminou de arrumar o aposento; tudo estava impecavelmente limpo. Depois, resolveu tomar o café da tarde (queria sentir pela última vez o gosto amargo da vida). Ela deixou a mesa como estava e decidiu não escrever nenhuma carta aos outros, o que tivesse que ser seria. Então, ela partiu para outro mundo e, minutos depois, o porteiro encontra seu corpo no andar térreo, com um sorriso infantil, mas verdadeiro estampado no rosto morto.
Um comentário:
muito bom, triste, mas muito bom.
interessantíssimas as referências ao silêncio..
li uma vez que os suicidas não têm aversão à vida e sim sede de viver, o que pode soar um tanto contraditório mas, se pensarmos bem, é uma verdade.
abraços Pedro (:
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