O mais pesado dos fardos nos esmaga, nos faz dobrar sob ele, nos esmaga contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o peso do corpo masculino. O fardo mais pesado é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da mais intensa realização vital. Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira.
Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes.
Então, o que escolher? O peso ou a leveza?
Foi a pergunta que Parmênides fez a si mesmo no século VI antes de Cristo. Segundo ele, o universo está dividido em duplas de contrários: a luz e a obscuridade, o grosso e o fino, o quente e o frio, o ser e o não-ser. Ele considerava que um dos pólos da contradição é positivo (o claro, o quente, o fino, o ser), o outro, negativo. Essa divisão em pólos positivo e negativo pode nos parecer de uma facilidade pueril. Menos em um dos casos: o que é positivo, o peso ou a leveza? Parmênides respondia: o leve é positivo, o pesado negativo. Teria ou não a razão? Essa é a questão [...]
[...] O drama de uma vida pode sempre ser explicado pela metáfora do peso. Dizemos que temos um fardo sobre os ombros. Carregamos esse fardo, que suportamos ou não. Lutamos com ele, perdemos ou ganhamos. O que precisamente aconteceu com Sabina? Nada. Deixara um homem porque quis deixá-lo. Ele a perseguira depois disso? Quis vingar-se? Não. Seu drama não era de peso, mas de leveza. O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza do ser."
Quando a palavra leveza nos vem a mente, podemos rapidamente pensar em algo ligado ao ar, algo rarefeito, volátil, de tal graciosidade e delicadeza quanto a de um grão de pólen; imaginamos um pássaro voando sobre um prado, deslizando suavemente. A sensação que a palavra nos remete geralmente está associada a aspectos positivos, que nos transmitem uma sensação análoga ao que pensamos. Projetamo-nos sobre o vôo tenro de uma andorinha e nos esquecemos um pouco do que é sentir o peso de uma vida. Mas por que seria o peso algo negativo? Kundera afirmou precisamente que o fardo está associado a uma "mais intensa realização vital", está ligado à máxima percepção do que está ao nosso redor, não obrigatoriamente relacionado ao sentido do tato. À medida que os nossos sentidos são ativados e estimulados, estamos nos prendendo à terra, estamos estabelecendo um significativo vínculo com o que nos tange. O peso seria, então, o vínculo que nos atrai, a gravidade inexorável que nos faz sentir que estamos vivos. Não obrigatoriamente pode ser algo negativo, explosões sensoriais não necessariamente são deletéreas. O que Kundera deixou em aberto foi que o sentido e noção de peso e leveza como opostos é relativo, não é algo fácil de se precisar e sempre será uma notável fonte de discussão.