terça-feira, outubro 31, 2006

Lies

A mentira tem perna curta, tão curta que dá pra vê-la se arrastando malignamente pelo chão, e se rindo de todos que, pensa ela, não a vêem...

domingo, outubro 29, 2006

Calmaria exasperante

O silêncio. O som inaudível do silêncio ecoava pelo aposento. Daqueles sons impertinentes, intoleráveis, que chegavam a doer nos ouvidos, embora até a dor fosse indolor. A vontade dos presentes da sala era que qualquer forma de existência se transformasse em ondas sonoras; seria possível a luz virar onda de som? Todos queriam, mas ninguém ousava quebrar a ditadura imposta pela ausência do som. E eles se olhavam, ansiosos, imaginando quem poderia desafogar o ambiente surdo. O tempo? Quem pode medir o tempo sem o tique-e-taque dos relógios, sem o vai-e-vém dos pêndulos? Os segundos pareciam horas, as horas, meses e os meses a eternidade, e a eternidade parecia conduzir à loucura as pobres almas dos que ali estavam presentes. Era a sala de espera do dentista, mas parecia uma cerimônia de velório, tão grave e silencioso era o momento. Ninguém folheava revistas, ninguém estava gripado, ninguém fazia o menor ruído possível. Até a secretária, estava louca para que o telefone tocasse, ou que o dentista avisasse que o próximo cliente poderia entrar, mas nada... Foi então, que num momento epifânico, dona Gertrudes ansiou expressar tudo o que ela sentia, toda a rajada de pensamentos aleatórios e desconexos que se misturavam num carnaval de idéias:
- DEMORAMENINACHUPETAVESTIDODECORAÇÃORELÓGIOBARULHO!
As palavras saíram da boca da velha numa rajada de facas afiadas que retalharam o silêncio, e o estraçalharam e reduziram-no a migalhas. Embora Dona Gertrudes fosse velha, ainda tinha ânimos juvenis, que ainda conserva mesmo sob a ação implacável do tempo; de vez em quando surgiam tais impulsos e controlá-los era difícil. Todavia, todos na sala estavam tão ansiosos, que as palavras ditas foram o discurso mais aclamado, mais esperado que quaisquer outros; e então todos dispuseram a terminar de flagelar o pobre silêncio que teve seu reinado temporário acabado...

sexta-feira, outubro 27, 2006

Deixa?

Deixa-me ver?
Deixa eu ver?
Deixeu ver?
Deixou ver?
Deixo ver?
Dexo ver?
Xover?
Chover?

quinta-feira, outubro 26, 2006

Isca

O gancho,
Do anzol,
Enganchou,
Na concha,
Do mar.

Mas quem me fisgou,
Não foi o gancho,
Nem a concha,
Foi o teu,
Olhar.

domingo, outubro 22, 2006

Meu maior defeito é confiar nas pessoas, contudo, isso é ainda o que me torna humano...

sábado, outubro 21, 2006

Fragmentos


"O que torna belo o deserto, disse o principezinho, é que ele esconde um poço nalgum lugar."
- O Pequeno Príncipe

sexta-feira, outubro 20, 2006

Ciranda da morte

O fúnebre cortejo das brumas desceu do céu na noite sem luar. Não havia mais pássaros a gorgorear, nem flores para perfumar os caminhos, as sendas silenciavam. Apenas a escuridão, profundamente negra e nefasta, imperava por sobre o mundo. Até que as estrelas brilhavam, mas daqueles brilhos opacos que era melhor não ter.
E da cerração, no campo aberto da cidadela, notas difusas eram soltas pelas vizinhanças. O bom ouvinte que se atrevesse a distingüir melhor os sons, perceberia que se tratava de uma antiga canção de roda. Do tempo em que as crianças ainda podiam sair nas ruas e cantar as alegrias do mundo, mas não era aquele, definitivamente, o caso...
Na noite sem brilho, os expectadores da cantiga eram pequenos animais noturnos. Contudo, se um cidadão comum resolvesse compartilhar da canção, certamente não acharia nada agradável; o coro que a compunha era formado de vozes, quase roucas, raquíticas, monótonas e ausentes de sentimento. Por mais que a canção falasse de cavalos alados, bruxas malvadas e castelos encantados, as vozes lançavam ecos vazios, e o mundo mágico se despedaçava na voz do coral.
Isso não chegava perto do que realmente aquele coral era formado. Em meio à neblina, vultos pequeninos eram vistos, dançando lenta e constantemente em uma ciranda. E, por ocasião do tempo, uma rajada forte levou a cerração e mostrou as pequeninas. Quem dera a neblina pudesse voltar de novo. Uma ciranda na noite, formada por várias crianças, sorridentes e apáticas, todas sem exceção mutiladas. Algumas sem narizes, outras sem braços, fazendo parte da ciranda apenas com o braço que lhes restava, outras sem orelhas, de toda sorte de cortes e decepações.
E no meio da roda, um homem, sorria emocionado, cantando junto ao coro macabro. Ele, que havia maculado as pequenas, agora as levava pela noite para cantarem as canções que sua mãe lhe ensinara quando era criança. Mas ele só cantava de noite, porque ouvia as vozes do pai, que lhe batia, de dia. E ele não queria contrariar o pai, não, o pai nunca,nunca... mas de noite sim, de noite ele podia levar os amigos que conseguiu, seqüestrando-as de seus lares, torturando-as e injetando-lhes drogas psicotrópicas para que vivessem num estágio de apatia. "Cavalos voam pela noite, meninas brincam ao luar, vá pra dentro menininha que o Papão vai te pegar". Oh! Mas como ele era tolo, o sol já dava sinais de aparecer, e seu pai poderia brigar, era melhor recolher seus amigos e escondê-los, haveria mais noites para cantar, e dançar, haveria outras noites sem luares em que mais amigos cantariam... pela noite sem luar...

quarta-feira, outubro 18, 2006

Dentro de milênios

E dentre a escuridão silenciosa do universo havia uma galáxia,
E por entre as espirais grandiosas da galáxia existia uma estrela,
E ao redor da gigantesca estrela girava um planeta,
E na imensidão do planeta havia um continente,
E por sobre o vasto continente havia um rio,
E às margens do longo rio havia um jardim,
E por entre as numerosas plantas do jardim, nasceu uma margarida,
E por sobre as pétalas dela pousou uma borboleta,
E foi vendo tal borboleta que alguém sorriu,
E esse alguém achou tão bela a efêmera borboleta,
Que resolveu colocá-la para sempre neste poema,
E dentro de milênios, ainda lembrarão,
Que entre o universo, a galáxia, a estrela, o planeta, o continente, o rio e o jardim,
Havia uma borboleta pousada sobre uma flor.

sábado, outubro 14, 2006

Love, amour, amore, Liebe ou simplesmente amor

Mas ele amava com tanta força, fé e ardor, que até as madrugadas mais frias e monótonas, as noites sem luar, as horas intermináveis de espera no dentista, as conversas fúteis de seus colegas, os problemas no trabalho, as blasfêmias dos mendigos bêbados, os mau-humores dos conhecidos, as mentiras descaradas, os porquês não "desduvidados", os dias de praia nublados, as cartas não correspondidas, os bom-dia's não retribuídos, os sorrisos não compartilhados, os compromissos não consumados, as reuniões desmarcadas, os atrasos, enfim, até a mais lancinante dor se fazia em bálsamo de prazer; e essa é uma das virtudes mais admiráveis conhecidas do amor.

quinta-feira, outubro 12, 2006

E se foi...

" Que todos saibam o destino que aqui nos determina. Que todos vejam que eu, para sempre, esquecer-me-ei de quem seja tua pessoa; não passarás de sombra sob a vela da existência. Tudo o que vivemos será esquecido como a débil chama que se extingüe com o vento. E então, tudo não passará de um sonho, um sonho de uma noite de verão. E relembrarás de mim pela longura dos teus dias."
Essas foram as últimas palavras do Momento para um apaixonado, é a maldição eterna que assola todos os que tiveram a quimera da felicidade passando sob suas vidas, tão fugaz quanto veio...