terça-feira, janeiro 29, 2008

Quando a música vem

Sabe quando a música toca lá dentro? Mas bem fundo, em nossas profundezas. Nos confins abstratos de nossos sentimentos. Aquele lugar que por tempos permaneceu indelével, agora começa a se deixar ser (re)descoberto; tão estonteante quanto o descobrimento do fogo por nossos ancestrais, desmancha sua sofreguidão em encanto.
A pequena luz que lá era guarnecida e que, por virtude das circustâncias, dormia. Essa sementinha de esperança se irradia como um sol. Aflora seus delicados raios com paixão por todas as direções; o corpo é a centelha do universo. E nessa convergência celestial, vem anunciar a alvorada do coração, que se manifesta primordialmente no sorriso, - aquele sorriso franco que brota espontaneamente dos lábios - atingindo seu ápice na vontade da vida, na vontade de abraçar o mundo.
Assim as notas seguem seu ritmo milagroso. Vamos bebendo com os ouvidos o bálsamo, deixando que a musica tome conta do corpo, transpareça nosso espírito e nos conduza ao nirvana das sensações.

sábado, janeiro 26, 2008

Canção eterna

Deixe que a brisa passe mansa
mansa...
e a dança eterna se desfaça em pranto
pranto...
um canto azul transborde da alma
alma...
e a calma que de longe venha nos saudar
saudar...
e o mar de gotas cálidas se derrame
derrame...
e ame o solitário poeta ao doce luar
luar...
e voar seja o ato mais leve e sublime
sublime
e se elimine toda dúvida do coração.

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Mosaico

Segui o caminho que o vento indicou
marcado pelas folhas secas do outono
Guiei-me pelos sóis do firmamento na noite
Minha dor foi minha insônia, meu amor o sono
E a cada repouso descompassado
Reparava em minhas partes
perdidas de outrora
e via muita alegria
muito deslumbramento
via esperança
mas muita dor, sofrimento
angústia e desilusão
Sabia que era preciso fé e dor.
Eu vim de infinitos caminhos
e com cada fragmento
cada momento
alimento
fui juntando
e montando esse mosaico
talvez para parti-lo outra vez
ou simplesmente para pendurá-lo
na parede de um quarto
de uma casa com quintal
numa cidadezinha qualquer.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

O peso do mundo

Ele se levantou do claustro
de idéias sacolejantes
não podia concebê-las
na sumariedade de seus conselhos
que vinham de fora
que vinham dos homens

Ele ergueu uma mão
e apontou ao ponto fúlgido
que trespassava a escuridão noturna
que ultrapassava o medo da solidão
dos astros estelares
de outros galáxias.

Ele mostrou as colheitas
que brotavam incólumes
do alto das cordilheiras
do fundo dos vales
das entranhas da terra virgem
nas vastidões do mundo.

Ele sabia que poucos
ouviriam suas parábolas
o peso do mundo
caía sobre os cegos
que não queriam ver
a verdade das coisas.

Ele se foi sem deixar
rastros sobre a areia
do deserto da vida
não sem antes
nos presentear com
a dádiva do amor.

terça-feira, dezembro 18, 2007

Moça

Moça morena bonita e molhada
Saindo da água, o corpo luzindo
contra a luz da janela, de fada
teus olhos me vão por inteiro consumindo.

Moça morena bonita e vestida,
Vestido de seda, colar de oceano
enlaça teu pescoço implacável, na vida
ver-te nunca me fora tão desumano.

Moça morena bonita e cheirosa
Passando perfume, o doce olor se esvai
da tua pele sedutora, de rosa
teu aroma lascivo de minha camisa não sai.

Moça morena bonita e contente,
segura em meu braço, ponha o chapéu
que lá fora o sol arde inconseqüente
não mais que a loucura que me leva ao céu.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Pequena parábola para os aparentemente descrentes

Havia um mercador que possuía um lucrativo mercado e sua fama percorria as redondezas de sua cidade.Também esse era casado e amava muito sua esposa. Todos os dias ambos prestavam ajuda aos necessitados na praça central. Sucedeu que uma súcia de bandidos invadiu a cidade e instaurou o medo e terror. Tomando conhecimento da riqueza do mercador, o líder do bando seqüestrou sua esposa exigindo suas riquezas em troca.
Ora, o comerciante não hesitou em abster-se de suas riquezas materiais para recuperar o que lhe era mais valioso. A corja logo desapareceu da região. Relatos afirmam que foram pegos pelos romanos. O mercador e suas esposa continuaram com sua caridade diária, embora não tivessem a mesma riqueza de outrora.

E em verdade vos digo que, em assuntos do coração, a razão não se interpõe.

sábado, novembro 17, 2007

Poema do fim do ensino médio

Vertente
Extremista
Sistemática
Tirana
Implacável
Brasileira
Unilateral
Limitante
Anti-democrática
Retrógada.

sábado, novembro 10, 2007

Serás (parte II)

Não tentes desbravar caminhos,
Marcados pela solidão,
Tão cheios de espinhos,
São feito moinhos,
Moendo nosso coração.

segunda-feira, novembro 05, 2007

Serás (parte I)

Não tentes barrar o destino,
Não tentes viver sem sonhar,
Serás peregrino,
Serás um menino,
Perdido no meio do mar.

quarta-feira, outubro 31, 2007

Jihad

Segundo o relógio, era manhã. O Sol, contudo, não havia nascido. Era a nuvem de poeira gerada pelas bombas que caíam. Negra, densa e insólita. Eu estava com meus pais em minha casa. Os ataques começaram pela noite. Acordáramos alarmados. Era como se o mundo fosse desabar. Minha mãe pedira a Allah que nos protegesse. Temíamos pelo pior.
Tivemos de sair de casa rapidamente. Pegamos apenas algumas roupas e algo para comer, pois não sabíamos ainda o quanto teríamos de andar. Ao avistar as ruas de Bagdá, entrei em pânico. O caos havia se instalado.
Eu via as ruínas da minha cidade; a cidade que por toda minha vida só me trazia boas lembranças, agora me levava ao terror. Prédios e casas desmoronados, outros incendiados, ainda sendo consumidos pelo fogo. Eu sentia o cheiro da morte em cada esquina, o cheiro maldito e nauseabundo da morte e do sangue exalado pelos corpos mutilados que jaziam. Ambulâncias circulavam constantemente, embora seus esforços fossem vãos.
Não sabíamos para onde ir. Acompanhamos um grupo de pessoas que, aparentemente como nós, fugiam desse tormento. Vi outras crianças como eu, outros pais como os meus. Todos ainda atônitos e desamparados com o que sucedia.
Perguntei a meu pai a razão para isso. Ele disse que eram os homens do ocidente que nos culpavam por atacá-los e crer em Allah. Eu ainda não entendia aquilo e provavelmente nunca iria entender. Naquele mesmo dia ainda atravessaria a fronteira com o Irã. Pelo menos acreditávamos que nos livraríamos desse perigo. Posteriormente, soube que eles mandaram homens para invadir minha terra. Não voltaria para lá tão cedo.

sexta-feira, outubro 26, 2007

Nas sendas da estação

Chove a chuva numa tarde de verão
janelas nubladas, céu encharcado
mas eu vejo além daquela vidraça
eu vejo a tristeza daquela estação

ris um riso alto em que poderias
mostrar alegria em tua feição
mas vejo além de teus olhos tão claros
eu vejo na extrema tua desolação.

por que haveria de chover hoje?
justo ao ocaso que iria encontrar-te
contar-lhe o que antes tentei esconder


Vou pelas sendas alagadas então
talvez para nunca mais achar-te
talvez por ter perdido meu coração.

sexta-feira, outubro 19, 2007

A flor amarela

Medra muda e melindrosa
a pequena flor amarela
medra muda e sem medo
a uma cruz se anela.

Medra muda no mato
sua origem é um mistério
medra muda e dorme
sobre um velho cemitério.

sexta-feira, setembro 14, 2007

Naftalina

- Vai, meu filho, recolhe as roupas do varal, que já anoitece! gritou minha mãe da cozinha para mim que aprendia a rodar o pião no piso de madeira da casa. O cheiro da janta infestava o ambiente. Cheiro quente e suculento, boca salivando de fome. Pus-me a correr para fora da casa; hesitei e voltei-me:
- mas mãe, por que tirar só porque vai anoitecer?
- por causa do sereno.- esfregando as mãos molhadas no avental -
- e o que tem o sereno com as roupas?
- estraga.
- que moço chato! resmunguei irritado
Mamãe riu-se e desatou um tapinha em meu bumbum.
- Vai logo antes que a jante esfrie.
Fui correndo e recolhi as roupas com certa violência, não era minha culpa, era a fome que me cutucava a barriga, sussurando nomes de pratos de comida. Quando voltei tudo era mudado, a casa virou apartamento, o piso da madeira foi à pedra, o cheiro quente de janta foi ao odor requentado de pratos semi-prontos, os móveis antigos que cheiravam à naftalina foram aos designs inovadores e leves, o barulho dos familiares ao silêncio modorrento dos ares-condicionados, só restou o eco de minha mãe da cozinha de minha mente "vem, meu filho, fiz sopa de carne do jeito que você gosta"...

Frêmito

Invadiu cada parte de meu corpo uma sensação profunda e sabidamente indescritível; talvez porque seja um misto de várias sensações cruzadas, misturadas, como se o pintor que retratasse as obras de meu coração tivesse derrubado atroz e selvagem, num acesso de fúria, os vários vasos de tinta do meu sentir. Resta-me agora o sorver doce e entorpecente dessa explosão que
me dilata, expande por dentro, retrocedendo-me aos tempos da criação universal.
Se o grande criador houvesse de descer da imensidão do firmamento e eu, em minha humildade, pudesse perguntar-lhe algo, certamente não perguntaria "por que existimos?" e sim "a paixão é análoga à gênese?", sim, porque nos renasce, revigora, anima. Com que destreza haveria eu de lidar com o desejo, a euforia, o torpor? Com que destino estamos a tomar, senão ao cárcere de uma ilusão? Toma-me, possua-me enquanto ainda possam os lábios meus serem beijados, enquanto possa esse corpo arder em febre de desejo, faze-me sem limites, faze-me simples e assustadoramente teu.

terça-feira, setembro 11, 2007

O mergulho no céu

mergulhemos nesse oceano infinito
ao sabor do mar de nuvens
nadando contra a maré de ventos
não há ressacas, não há tormentos,
somente azul, e nuvens e sol
e na imensidão negra da noite
a lua a boiar brilhante como um farol
e o crepúsculo claro, singelo carmim
mergulhemos, mergulhemos
na imensidão sem fim
.

quarta-feira, setembro 05, 2007

Psicologia para vencer

- Para Augusto dos Anjos.

Eu, filho do oxigênio e do carbono
pássaro de escuridão e rutilância,
neste peito não cala mais a ânsia
de percorrer esse mundo sem dono

profundissimamente sem apego
este ambiente me causa epifania
adentra-me à alma ânsia em analogia
ao que sente num jardim florido um cego

já o homem - este escravo das horas
virá pó sem ter sentido, sem demoras
vive, mas deixa a saudade partida.

anda a chorar pelo tempo que perdeu
sem notar ao redor, que resplandeceu
toda calidez orgânica da vida.

domingo, agosto 26, 2007

Poema da libertação

pés serão inúteis

quando as asas se abrirem

de nossos corações

quinta-feira, agosto 16, 2007

Desejo latente

Força-me o desejo súbito e repentino
impelido das entranhas de meu vazio
mas um vazio cheio de esperanças
guardadas delicadamente
em cada pétala desse crisântemo
que dorme latente em meu peito hostil
Agora em todo meu torpor
Não meço, não regulo, não respiro
a flor desabrocha viril
rasgando cada pedaço de dúvida
como se rasga a um delicado fio
sobe com tal graça e fulgor
passa célere entre nuvens altas
transcende o céu em todo o seu anil
Estendo-lhe a mão carinhosamente
e chamo para a ascensão
subiremos lento e deleitosamente
sem medo de cair ao chão
Então eu e tu seremos um
no esplendor de uma constelação.

sexta-feira, agosto 10, 2007

Instinto, primeira parte

Sim, era mais que preciso, era inerente a ela, inevitável, imprescindível, como sorver do ar o doce olor que se infesta na manhã da primavera, como lembrar do lamento do oceano ao debruçar a atenção sobre a concha da praia. O sentimento que crescia brutal e viril do âmago, atiçando-lhe cada folha seca do interior feito um incêndio infernal , agora desprendia-se de seus músculos; ela se levantou da cama e resolveu fugir. Sem motivos mais lógicos do que a própria existência em si. Não podia mais conter, nem ao menos evitar, a semente selvagem e antropófaga que crescia em seu interior desabrochou numa flor e agora pedia luz, ar, calor e liberdade.


"Você não precisa fazer isso...", foi o que seu amigo de infância lhe dizia enquanto arrumava sua trouxa. "Há tudo aqui para se viver em paz", ele lhe encarava com olhos assustados, olhos castanhos profundos e preocupados. Ela por um momento parou com a arrumação, permaneceu assim por instantes e deixou que um sorriso escorresse do canto de sua boca, "é justamente disso que estou fugindo, da paz", e voltou-se para a trouxa.


"Já faz quase dez anos que nos conhecemos e você sempre foi assim, sempre gostou de sair por aí, experimentando coisas novas, mas nunca pensei que chegasse a tal ponto. Eu me lembro de quando nos conhecemos pela primeira vez. Você, tão jovem e bela, com seus longos cabelos pretos, estava a brincar na floresta do oeste subindo nas árvores mais altas. Eu estava voltando de uma pescaria frustrada, e me assustei com tamanha coragem. Então perguntei ' ei, menina, você não tem medo de cair?'. Você, que observava o pôr-do-sol da árvore mais alta respondeu gritando 'e você, não tem medo de não cair?', ainda não entendi bem aquela resposta, mas cada vez mais ia compreendendo, e hoje me parece que compreendi'; temia que isso acontecesse, sua ida, talvez sem volta, mas agora desejo-te toda a sorte desse vasto mundo em sua busca", terminado o desabafo ele se sentou, parecia ainda atordoado com tudo que acontecia, um homem acostumado com a vida pacata de seu vilarejo, recolheu-se em sua resignação; ela, que havia terminado de arrumar a trouxa, não deixava de confessar seu espanto pela declaração em sua boca aberta, seus olhos marejados da pró-saudade que estava dando à luz. E sem mais declarações, eles se abraçaram forte e deixaram que o silêncio falasse pelos dois.



Era na calada da noite que ela iria fugir, não porque todos os que fugiam de seus lares fugissem de noite, ou porque era mais bonito e romântico, mas porque seus pais e o resto do vilarejo fechavam profundamente os olhos naquele período; como pássaros empoleirados em seus galhos. Ela passou pelos corredores da casa e entreabriu a porta de um quarto. Seus pais dormiam. A janela do aposento estava aberta de tal modo que o luar podia penetrar e clarear levemente o breu, sobre uma cama simples dormiam dois bem-te-vis abraçados, pareciam tão felizes, sorrisos brandos estampados nas faces dormentes; ela lamentou ter de fazer aquilo com eles, mas não podia evitar. Pediu a bênção deles silenciosamente e agradeceu por tudo feito até aquele dia, a partir dele, seria por conta dela.



A lua boiava plena e impassível no céu, não havia quaisquer resquícios de nuvens, mensageiras celestes. O cricrilo dos grilos e o piado pesaroso dos sem-fim serenavam. Ela seguia firme e resoluta pelas sendas noturnas, certa de que estava fazendo a coisa certa. Haveria de descobrir os mistérios guardados somente para os bem-aventurados, o destino lhe era mais formidável a partir do momento em que seguia a trilha com seus próprios pés. Ela podia sentir a magia emanada da natureza, cada ser, em sua pequenez e aparente insignificância, formava junto com todos os outros a harmonia perfeita e inefável da existência.

Após certo tempo de caminhada, ela encontrou um regato a meio caminho da estrada; suas águas cristalinas reluziam ao luar, num brilho calmo e convidativo. Ela se debruçou sobre suas margens e bebeu um pouco da água, lavou seu rosto, sentindo o frescor da água, naquele momento lembrou de sua infãncia, quando sua mãe lhe banhava nas águas do riacho grande, e ao mesmo tempo lavava as roupas; como num ato sagrado, amaciava carinhosamente a esponja sobre sua pele, não era somente a sujeira que escorria rio abaixo, era toda dor e sofrimento, aquele banho lavava-lhe a alma; que agora se fora, o tempo lhe escorreu dos dedos como areia fina, restando apenas o pó dos bons momentos.

Foi quando ela se levantou das margens para retomar a caminhada que deparou com uma velha horrível, que lhe estendia as mãos calejadas e raquíticas, como se quisesse que ela retribuísse, e foi o que ela fez, mesmo ainda um pouco assustada, ainda que a velha, com seus olhos esbugalhados, verrugas protuberantes e boca ausente de dentes parecesse uma bruxa de contos antigos, sentia que ela não lhe queria mal. A velha vasculhou cautelosamente cada pedaço da mão direita dela com seus olhos horrendos, depois encarou-a, e disse "és a égua parida do vento, tua sina é viver, cuidado com os olhos vermelhos e os sorrisos de mar", terminado o vaticínio, a velha pediu a retribuição; a moça não havia trazido muito dinheiro, mas ainda guardava consigo um amuleto, presente de sua mãe, que lhe disse quando dado que espantava maus espíritos, espantando ou não ela o deu a velha, que se foi tão misteriosamente quanto veio.

Já era tarde e ela estava cansada, caminhava por horas, seus olhos pesavam, seus pés se arrastavam sobre a terra do caminho. O que ela não daria por uma pousada. E, como se os deuses houvessem escutado seu clamor interno, ela pôde avistar uma fraca luz na extrema do horizonte, mas suficiente para lhe reacender a esperança. Acelerou os passos com algum esforço e ao se aproximar, percebeu que era de fato uma pousada, ainda aberta. Entrou sem delongas. Dentro, uma sala com algumas mesas e cadeiras, e um balcão indicavam que o local era um misto de pousada e bar; o dono, que parecia ser o homem detrás do balcão, era um senhor de poucos cabelos, com um avental sujo e desgastado; sorria com sua boca desdentada para a viajante.

No curto intervalo em que ela se dirigia ao balcão, algo lhe tirou a atenção, fê-la temer por dentro. Um homem, sentado num canto da sala, cuja mesa estava abarrotada de garrafas vazias de bebida encarava-a maliciosamente, usava um longo chapéu de abas e seus olhos faíscavam contra a fraca luz que iluminava o recinto, era um brilho vermelho e fatídico. Ela se recompôs tão tápido quanto se assustou e falou ao dono da pousada "você tem quartos disponíveis?"; "claro, principalmente para uma jovem tão bela quanto tu".

sexta-feira, julho 27, 2007

"... eu tinha que gritar em furor que a minha loucura era mais sábia do que a sabedoria do pai, que a minha enfermidade me era mais conforme do que a saúde da família, que os meus remédios não foram jamais inscritos nos compêndios, mas que existia uma outra medicina (a minha!), e que fora de mim eu não reconhecia qualquer ciência, e que tudo era só uma questão de perspectiva, e o que valia era o meu e só o meu ponto de vista, e que era um requinte de saciados testar a virtude da paciência com a fome de terceiros, e dizer tudo isso num acesso verbal, espasmódico, obsessivo, virando a mesa dos sermões num revertério, destruindo travas, ferrolhos e amarras, tirando não obstante o nível, atento ao prumo, erguendo um outro equilíbrio, e pondo força, subindo sempre em altura, retesando sobretudo meus músculos clandestinos, redescobrindo sem demora em mim todo o animal, cascos, mandíbulas e esporass, deixando que um sebo oleoso cobrisse minha escultura enquanto eu cavalgasse fazendo minhas crinas voarem como se fossem plumas, amassando com minhas patas sagitárias o ventre mole desde mundo, consumindo neste pasto um grão de trigo e uma gorda fatia de cólera embebida em vinho...".
- Estamos indo sempre em casa, Raduan em Lavoura Arcaica.

terça-feira, julho 24, 2007

The choice

I am the lover
the loner
the doomed
the unraveler
my last redemption
was born in the power
of forgiveness
I lost the reins of time
throughout the ball
I chose the mastery of love
without frontiers
without dogmas
I chose to venture out
Following the wind
looking for the sun
Running to the moon
I chose the mistery
the sighs
the silences
I chose you.

domingo, julho 22, 2007

Song of freedom

And suddenly I become
with spread wings
a free bird with some
heartbeats which sings
the eternal song
of the ephemeral things.

sexta-feira, julho 20, 2007

Os sete pecados: 7ª parte

Eu sou a languidez da vida
o mergulho no ócio e no prazer
a morosidade incontida
a vontade anêmica de ser.

terça-feira, julho 17, 2007

Os sete pecados: 6ª parte

Eu sou a paixão que consome a carne
o fogo eterna da tentação
que alimenta os amantes
o desejo lascivo, a sensação.

domingo, julho 15, 2007

Os sete pecados: 5ª parte

Eu sou a revolta dos injuriados,
os que não têm ou que não são,
o olhar furtivo para os lados,
que amarga assaz o coração.

sexta-feira, julho 13, 2007

Os sete pecados: 4ª parte

Eu sou a máxima soberania,
dos que desejam a exaltação,
pelos bens, poder e companhia,
dos que são dignos de admiração.

quinta-feira, julho 12, 2007

Os sete pecados: 3ª parte

Eu sou a desolação da Terra,
o ímpeto que célere corre,
pelas veias dos que fazem guerra,
que se destila naquele que morre.

terça-feira, julho 10, 2007

Os sete pecados: 2ª parte

Eu sou o apego interminável,
que almeja proteger o que se tem,
sobre o espírito, o palpável.
Aquilo que na terra se mantém.

Os sete pecados: 1ª parte

Eu sou o apetite voraz,
que devora, devora e não se cansa,
a vontade que não se apraz,
enquanto a fome não se faça mansa.

Apresentação

Este sou eu,
esse pranto inacabado,
essa saudade cativa,
esse riso sufocado,
essa tristeza viva.

Este és tu,
esse canto melancólico,
essa carta de alforria,
esse mar tão bucólico,
que se faz em poesia...

sexta-feira, julho 06, 2007

Os sete pecados.

Não, não é sobre a nova novela das sete. Foi porque um amigo meu colocou esse tema em assunto numa conversa trivial, quando me detive nesses sete pequenos nomes que desolam a humanidade. Publicarei uma série sobre os sete pecados em breve, fazer-lo-ei ao meu modo, é claro.
No ritmo dissoluto

da valsa.
.

segunda-feira, junho 11, 2007

com que destreza

- Quem és tu, jovem guria? - pergunta o moço de terno e boina de algodão.
- Eu? Dinorah - a moçoila abriu um sorriso largo ao ser interpelada em seus afazeres.
- Estou impressionado com a leveza com que realiza seu trabalho. Parece-me que flutua!
- oh - e ri-se toda, desconcertada - Bem, não havia percebido ainda, mas talvez seja verdade mesmo; gosto de ser como a brisa da manhã. Quando acordo, abro a janela da casa pra senti-la me acariciar o rosto, é aconchegante.
O moço permanecia fitando-lhe com semblante enervado, parecia aturdido.
- Perdão?
- Oh! Tu me falavas! - e tira a boina em sinal de desculpas. - É que estava a lembrar-me da brisa do campo, donde nasci. Ela repara em seus belos cabelos loiros.
- E moraste no campo? Mas que maravilha, decerto conheces os segredos que o mato compartilha com os que o desbravam!
- Não diria segredos, basta manter o coração aberto... é, o coração aberto. - e cai em devaneios.
- Não nasci no campo, mas sempre quis ser dele; sonho com nuvens em carretéis, cheiro de mato molhado, canto de pássaro ao ocaso, o silêncio
breve da natureza.
- Foge comigo. - e estende-lhe o braço, convicto.
Ela soltou um riso, daqueles sem graça, que dizem "ótima anedota!"; mas percebeu que ele a olhava fixamente, podia ver através de seus olhos o azul dos rios, a translucidez dos lagos e a imensidão dos céus; viu a verdade transpassada em si e sentiu medo, por instantes, era tão intensa. Pensou em tudo que tinha, que havia conseguido com esforço, na família que não lhe correspondia, nos amigos que desmarcavam encontros. E segurou-se firmemente ao braço estendido.
Ele era de fato um estranho, mas no fundo ela sabia que o melhor estava para vir a acontecer.
E fugiram para longe, onde ela pudesse voar de leveza, e ele transbordar de amor.

sábado, junho 02, 2007

E a grama cresce

Casa nova, vida jovem, novo lar
arruma móvel, sacode a poeira, planta a grama
trabalho novo, cidade grande, perto do mar
final de tarde, brisa mansa, céu que se inflama.

Primeira vista, namoro vindo, coração quente,
A grama cresce; cortada é,
Noivado, casamento e no ventre a semente,
Pais se foram, papa novo, renovada fé.

Carro velho, tempo desgasta, não só a lataria
a grama cresce; cortada foi,
herdeiros crescidos, planos cortados, sem ave-maria,
conta de luz, carnê de escola, trabalhando feito boi.

Vinis no sótão, vitrola no armário, nova geração,
a grama cresce; cortada será,
chuva que cai, vento que bate, reforma de verão,
no meio da noite, lua boiando, um sonho ainda aqui, outro acolá.

Cabelos brancos, fim de trabalho, começo do fim,
a grama cresce; cortada é
medo da morte, história pros netos, no céus o serafim,
nostalgia, saudade cativa, nas lembranças marcha ré.

Noite dormida, silenciosa, alma ascendida,
a grama cresce, não foi cortada,
e continua a jornada dessa vida
e as gramas com histórias a ser contadas.

quinta-feira, maio 24, 2007

Sogidóc

"Decifra-me ou te devoro."

Navegaste sobre os pélagos de mim
desbravando tempestades e tormentas
Caminhaste pelos desertos sem fim
de minha alma que te alimenta.

Entregaste-me ainda cálido teu amor
para aquecer meu corpo frio
para me alegrar onde quer que eu for
és tão completo e eu tão vazio!

Sei que continuas a cantar
e procuras entender-me
como as palavras de tua canção
mas o que não percebes
é que no fundo és tu
a pedra de roseta do meu coração.

domingo, maio 20, 2007

Eu

Entre um semitom e outro
em cada silêncio breve
em mudas surdas não de borboleta
do vôo leve
mas de bem-te-vi
sorrindo na multidão
chorando por estar ali
eu sei que você me entende
eu sei que os outros me irão...

Cansei

de pessoas que se fazem de coitadas, fracas e impotentes.

"Não chores, meu filho;
Não chores,
que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
que os fracos abate,
Que os fortes,
os bravos,
só pode exaltar."
- Gonçalves Dias

quarta-feira, maio 16, 2007

Silêncio

(poesia feita séculos atrás)

Fujo da sina do agora,
Do breu que me segue distante,
Fujo do raiar da aurora,
Da luz que persiste incessante.

Sou fruto da morbidez do ritmo,
Sou a melodia caótica do nada,
Sou a reflexão profunda do ouvir,
A lentidão ademais realçada.

Sou a derradeira palavra,
Que vale por mil pronunciadas,
Sou a infeliz afirmação,
De perguntas que não querem ser caladas.

Sou o momento nostálgico,
Que lamenta ter havido o passado,
Sou o presságio pesaroso,
Que se entristece por haver o fado.

Sou a gênese do universo,
Que precede as transformações,
Não sou nenhuma filosofia,
Mas presencio todas as questões.

Sou o intervalo inerente à coerência,
Entre as palavras estou presente
sou a inexorável latência
que ressoa eternamente.

Sou a conversa dos tímidos,
Que é na lentidão das horas um escudo,
Sou, enfim, simplesmente o silêncio,
Que se antepõe ao nada e se curva ao tudo.

terça-feira, maio 15, 2007

As nuvens

Foi quando o menino saiu de casa para ir à escola. Era pra ser a mesma costumeira ida, as mesmas ruas, mesmas casas e prédios. Mas ele olhou pro céu. E pôde avistar, protegendo os olhos do sol, as dádivas efêmeras em seu ritmo rápido e lento (tão devagar aqui, e num piscar de olhos, já estão acolá). Sim, dádivas efêmeras da natureza, feito flocos de algodão doce a flutuar no firmamento. Alvíssimas. O menino via um coelho, não não, um coiote, mas pera, não seria uma baleia? Tantas formas faziam a imaginação da criança ruflar as asas de excitação.
As nuvens o transportavam, faziam-lhe ascender lento com o seu passar, então ele voava feito colibri. Elas carregavam seus sonhos, desejos e esperanças para outras terras, não só os dele, de todos que depositavam seus olhares tenros nelas, e assim, saturadas de sonhos elas choviam, e a chuva fecundava a terra, que fazia brotar os sonhos materializados em flores; e também da chuva, os sonhos se juntavam em rios que desaguavam no mar... que é de todo resto. Foi então que o menino despertou do sonho acordado, e percebeu que era um homem, mas o menino que gosta das nuvens sempre estaria pulsando vivo em seu interior.

quinta-feira, maio 10, 2007

Pour Elis

Ela dedilha em cada tom
o ritmo da matilha
semitons lupinos
vorazes devoram a vida
dos que ouvem
e renovam
em cada semibreve
não tão breves
para não ressoarem
em nossas almas
pra sempre

sempre eles
sempre elis.

quarta-feira, maio 09, 2007

Ciclo etéreo

Há muita fé e dor em cada gesto
em cada palavra
transborda calor.

E cada gota de sangue
desse poema
precipita amor.

E de todo mar que é resto
evapora, condensa, frutifica
toda minha flor.

terça-feira, maio 08, 2007

O papa chega

em seu manto santíssimo
Vossa Santidade é muito bondosa
beija lento e suavemente o chão
abençoando os viventes daquela pátria
todos exaltam aquela figura unânime
mas quando as câmeras não o filmam mais
amaldiçoa os homossexuais e infiéis daquele mundo
e limpa a boca com seu manto santíssimo
por que uma santidade beijaria um chão contaminado?

o papa chega
e arrasta consigo legiões pelas ruas e avenidas
legiões de almas carentes e desencontradas
e prega a existência de um senhor onipotente e salvador
e pede que todos paguem seu dízimo em dia
para ajudar as pessoas miseráveis, dizia
para encher o estômago do clero, pensava

O papa chega
e se vai após certos dias
levando mais almas para o inferno da ilusão.

quinta-feira, maio 03, 2007

Em que nevou

Na madrugada daquele dia,
Nevou.
Neve forte, intensa, fria.
Se fosse em qualquer outro,
Ninguém se espantaria,
No mais,
Haveria um comentário rotineiro ,
Do vendedor de sorvete.

Mas é que nas previsões de ontem,
A moça do noticiário disse que ia,
Fazer o dia mais ensolarado do ano.
Os pais que assistiram logo avisaram aos filhos,
Do passeio que fariam no parque.
As mocinhas não perderam tempo,
E combinaram seus encontros amorosos.
Os velhos ia preparando suas roupas de caminhada.
Os vários corações se alvoroçavam do calor,
Que viria a fazer,
E não veio.

O que a moça do noticiário,
Os pais,
Os filhos,
As mocinha,
E os velhos não sabiam,
Era que a neve ,
Era o pranto ,
De um coração,
Que congelou.

quarta-feira, abril 18, 2007

sábado, abril 14, 2007

O segredo

O rouxinol pousa lépido sobre o galho da árvore,
De súbito passa a mansa brisa,
as folhas farfalham agitadiças,
a ave silencia solene
e apenas escuta
então rufla as asas
desliza célere do galho
e voa a outras terras
segredando aos outros seres,
o que soube das folhas
sabido da brisa, conhecido do mar
vindo do seio da terra
E o segredo que jamais é revelado aos homens
é transpassado a cada momento,
Em todos os lugares...

quarta-feira, abril 11, 2007

Então certo

Serei breve,
mas tão breve e fugaz,
que verás que fui eterno.
Eternamente breve,
brevemente eterno,
em declarar o meu
tão eterno e breve
amor por você.

sábado, abril 07, 2007

Cântico

"Não queiras ter pátria.
Não dividas a Terra.
Não dividas o Céu.
Não arranques pedaços ao mar.
Não queiras ter.
Nasce bem alto,
Que as coisas todas serão tuas.
Que alcançarás todos os horizontes.
Que o teu olhar, estando em toda parte
Te ponha em tudo,
Como Deus."
- Cecília Meireles, como sempre ela.

quarta-feira, março 28, 2007

urgente, urgentíssimo

Foi quando a última geleira ártica derreteu
quando os desertos tomaram mais de um terço dos continentes
não havia mais verde
não havia mais gorjeios
não havia mais águas cristalinas,
só tristeza e desolação
que os dirigentes internacionais se reuniram
numa reunião urgente, urgentíssima
o presidente da nação mais poderosa, senhor bucho, pronunciou-se
- algo deve ser feito, voltemos em dois anos para decidir o que fazer...
e a reunião termina tão urgente quanto começou.

domingo, março 11, 2007

O vôo

Era feito um espetáculo teatral, majestoso, mas não perdendo sua humildade natural. Os assentos da aeronave eram as cadeiras dos espectadores, ansiosos pelo suntuoso momento. Não era preciso pés, ou pernas, apenas asas, como não éramos anjos, ou demônios, apelamos para as do avião.
E de repente, a aceleração da nave, a sensação de inércia pesada sobre o corpo; a adrenalina infestando seus efeitos, em reações quase que instantâneas, inflamando nosso peito arfante de admiração. Era notável a angulação feita pela subida. Ao mirar abaixo, as casas, ruas e prédios iam diminuindo, diminuiiindo, e proporcionalmente ia crescendo a maestria da natureza, da Terra como um todo. A esfera terrestre ia se revelando, a atmosfera sendo desbravada como os navegantes antigos faziam por sobre os mares.
E na extrema do horizonte, relâmpagos podiam ser vistos do ponto de onde se originavam, numa emissão impetuosa e indescritível de luz, que fazia revelar todos os contornos das nuvens que antes eram escondidos pela noite. Era a fúria da natureza, frágil e brutal. Tal era a magnitude do espetáculo, que a parte humana foi completamente esquecida, desprezada, tornava-se ínfima quando comparada ao universo.
A lua boiava plena, serena, assistindo a todos em seu trajeto lento. O que importava era o agora, o vôo, a explosão de sensações que nos sacudia feito um chocalho, o fascínio pela natureza era o que nos movia e ainda move, sacramentando, assim, nosso declarado amor pela vida.

sexta-feira, março 09, 2007

Life's unfair

And then I give up
I realize I can't reach what I wanted
It may flood a river in my heart,
it may make me just a fool,
But I'll be far away till that one
till that one try to come to me...

sábado, fevereiro 24, 2007

Na noite

já fazia alguns minutos que ele havia adentrado a boate. E nesse pouco tempo ele pode vislumbrar um pouco desse outro mundo, meio mágico, meio surreal dos prazeres. As informações vinham como em pequenos pacotes discretos, paulatinos e intensos:
Preto-e-branco,
branco-e-preto,
movimento,
rápido
e leeento
ritmo,
calor,
dança,
chão
teto,
som,
tuntz, tuntz, tuntz
prazer,
sinestesia
alegria
efemêro
o baile
sempre.

sábado, fevereiro 17, 2007

Verdade

Em verdade vos digo que se alguém sabe deveras o que é amar, na raiz da palavra, sem ter necessidade de explicar o que é e o que vem a ser o amor, esse alguém já terá encontrado a felicidade sem mesmo saber que achou.

sábado, fevereiro 10, 2007

Eu

Sou o paralaxe da existência,
O infinito do beija-flor.
A onda inconstante do mar,
que serpeia revoluta,
e beija voraz a mansa areia.
O rugido do trovão,
que imperante se impõe,
na tempestade da vida.
haverá os que me odeiam,
a ponto de desejarem,
minha ida sem volta.
haverá os que me amam,
a ponto de me adorarem,
como a um deus.
havendo ou não havendo,
com riso, fé e dor,
sou o paralaxe da existência,
o infinito do beija-flor.

domingo, fevereiro 04, 2007

A segunda tentação

Foi então que o diabo conduziu-o à Cidadela Santa, no alto do Templo. Ainda era dia e o sol era abrasador. Como a areia e barro das construções eram claros, a reflexão da luz ardia nos olhos de quem se atrevia a ver o horizonte. Contudo, misteriosamente nuvens cobriram a semi-esfera celeste por completo, havia somente treva. Jesus podia avistar pessoas embaixo, algumas confusas, outras clamando por luz e outras continuando suas vidas absortas em viver. Ele olhava em derredor e via o quanto ainda tinha de fazer, a sua missão ainda estava para ser completa.

O diabo encarava Jesus fixamente, com olhos de malícia e frialdade, sabia que se conseguisse levar o Filho de Deus para o seu lado, o mal seria semeado tão célere quanto a luz que se espalha sobre as planícies na alvorada. Era preciso saber convencer, tentar... Foi então que o diabo foi até à beira do alto do templo, e indicou a Jesus que também o fizesse, e ele o fez.

O templo era realmente alto, as pessoas pareciam pequeninas e o vento era forte. Jesus sentiu vertigens ao olhar para baixo. Imaginou-se por momentos se ele caísse, o que haveria de ser. Também se perguntou no que o diabo poderia estar tramando e quando ergueu a mão para perguntar, foi interpelado pelas palavras secas do anjo caído:

- Se és o Filho de Deus- e menciona o nome Dele com desdém - lança-te daqui abaixo; porque está escrito: aos seus Anjos dará ordens ao teu respeito, e; eles te sustentarão nas suas mãos, para que nunca tropeces em alguma pedra.

E aponta para o abismo; nesse momento, o vento fica mais forte. Jesus não temia a morte, sabia muito bem que ela é inerente ao ser e é a passagem; além do que compreendia as escrituras e replica:

- Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus.

E dá um passo para trás, demonstrando que negaria a ordem do diabo, esse por sua vez, entra em fúria de novo e se prepara para a última tentação, sua última chance de ter o Filho de Deus como servo.

e de repente isto

E de repente eu mirava em derredor
e me desvencilhava do meu conto de fadas
o sorriso perdia-se em dor
ilusão caída feito cortina
e eu via os desprazeres
misérias
gritos roucos
não tão distantes que
não pudesse tê-los ouvido antes
e súbito
me calo, me faço mudo
e retorno às ilusões mediocridade
onde busco no final da estradinha
a vã chegada da felicidade
de repente não mais que de repente.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Testamento

Seu antônio,
recente falecido,
deixou uma carta de testamento,
sobre o móvel da sala encardido,
antes de se ir.

o que se leu na carta,
encontra-se aqui:
"para minha esposa e filhos deixo,
a saudade, os sonhos e amor,
ah, já ia me esquecendo, que desleixo,
também a casa e outros bens,
mas esses serão consumidos,
pelo tempo,
os primeiros não são palpáveis ,
mas quando chegar a hora de cada um,
verão que valerão mais,
que toda riqueza e glória desse mundo."

a carta foi lida,
e enterrada junto com o autor.
os bens foram divididos,
a casa foi alugada,
mas o filho mais novo ainda lembra,
que o que vale é o amor.

terça-feira, janeiro 30, 2007

O teu riso

O teu riso tão meigo,
o teu riso tão claro,
o teu riso tão doce,
tão dissimulado,
perdido,
desmascarado,
e jogado,
sem querer.

o teu riso tão triste,
que ninguém resiste,
o teu riso de dor,
a dor que consome ,
a dor que gera,
a dor da fome,
dor que procria,
dor sem alento,
sem ave-maria,
é o alimento,
tormento,
encantamento,
do teu viver.

O teu riso de pranto
espelho da alma,
o teu riso de brisa,
que te liberta,
que te exorciza,
que te enxerta,
no meu ser.

O teu riso profano,
preto-no-branco,
o teu riso mundano,
sem resposta minha,
porque tinha,
sim, porque tinha,
medo,
de me perder.

domingo, janeiro 28, 2007

Mas tu me falavas!

Eu via o esplendor dos teus olhos
refletir na íris do teu sorrir
sentia teu aroma de orvalho
sorvia-o lento e em deleite,
para não se ir.
Eu sentia teu pulsar sangüíneo,
arder nas artérias do meu coração
Remia meus desejos latentes
nas linhas descontínuas da tua mão
Eu ouvia a sonata da tuas palavras
desfazerem meu mundo de desolação.
Eu era o tudo e o nada
o átomo e o universo
o alfa e o ômega
o ser e o não-ser
o aquém e o além.
Bastava apenas
que me deixasses
num meneio
num bom dia
num porém
mas tu me falavas!

quarta-feira, janeiro 24, 2007

L'amour parfait

e ele será belo e inefável como a manhã e a noite,
envolvente e soberano como o sol,
misterioso como o crepúsculo
infinito como o universo,
solene como o silêncio,
intenso como a maré,
liberto como o vento,
amplo como o céu,
como a aurora,
outrora,
agora,
será,
ele....

domingo, janeiro 21, 2007

O baile todo

Dedico este poema a nada mais que Ramayana Irvendradya rs, ou simplesmente Rama, ela que vem me ensinando a bailar nesse baile eterno:


A música já havia começado,
E cada um já seguia no seu próprio ritmo,
Os acordes, as notas ecoavam,
Risos soltos, sorrisos bobos,
Não era preciso dança,
Para o baile começar.
Tudo convergia na harmonia do compasso,
Era o um e não os vários que bailavam,
Tudo ao mesmo tempo divergia,
Paradoxo desconexo repentino,
Cada um era seu próprio par.
O tempo comandava a melodia,
Os sentimentos explodiam no salão,
O acaso acompanhava os convidados,
E sentada num canto, sorrindo amargamente, a solidão.
Há sempre o passo dado errado.
Há sempre o momento de reflexão.
Sempre o descompasso da incerteza,
Sempre, mas a certeza
O baile todo
.

sexta-feira, janeiro 19, 2007

A segunda tentação

Foi então que o diabo conduziu-o à Cidadela Santa, no alto do Templo. Ainda era dia e o sol era abrasador. Como a areia e barro das construções eram claros, a reflexão da luz ardia nos olhos de quem se atrevia a ver o horizonte. Contudo, misteriosamente nuvens cobriram a semi-esfera celeste por completo, havia somente treva. Jesus podia avistar pessoas embaixo, algumas confusas, outras clamando por luz e outras continuando suas vidas absortas em viver. Ele olhava em derredor e via o quanto ainda tinha de fazer, a sua missão ainda estava para ser completa.
O diabo encarava Jesus fixamente, com olhos de malícia e frialdade, sabia que se conseguisse levar o Filho de Deus para o seu lado, o mal seria semeado tão célere quanto a luz que se espalha sobre as planícies na alvorada. Era preciso saber convencer, tentar...
Foi então que o diabo foi até à beira do alto do templo, e indicou a Jesus que também o fizesse, e ele o fez. O templo era realmente alto, as pessoas pareciam pequeninas e o vento era forte. Jesus sentiu vertigens ao olhar para baixo. Imaginou-se por momentos se ele caísse, o que haveria de ser. Também se perguntou no que o diabo poderia estar tramando e quando ergueu a mão para perguntar, foi interpelado pelas palavras secas do anjo caído:
- Se és o Filho de Deus- e menciona o nome Dele com desdém - lança-te daqui abaixo; porque está escrito: aos seus Anjos dará ordens ao teu respeito, e; eles te sustentarão nas suas mãos, para que nunca tropeces em alguma pedra.
E aponta para o abismo; nesse momento, o vento fica mais forte. Jesus não temia a morte, sabia muito bem que ela é inerente ao ser e é a passagem; além do que sabia muito bem das escrituras e revida:
- Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus.
E dá um passo para trás, demonstrando que negaria a ordem do diabo, esse por sua vez, entra em fúria de novo e se prepara para a última tentação, sua última chance de ter o Filho de Deus como servo.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Bem vinda ao país das maravilhas!

Dedico este poema a Natália, a amiga do balacobaco:

E ela desatou a cantar,
Cantar pelas veredas,
Veredas desse mundo,
Sem medo de soltar,
Soltar um dó, ré, mi, sol, fá,
E um si bemol profundo...

E a cada nota solta,
Um carrossel de sensações,
Se espalhava, escoava, misturava,
à vida dos transeuntes,
Explosão de ocasos,
Profusão de Auroras,
Carretel de cores...

Ninguém,
Ninguém sabia como ela o fazia,
fazia melodia, sorriso, sinestesia,
mas que era bonito,
ah, isso era...

sábado, janeiro 13, 2007

A tentação de Cristo

Já fazia 40 dias e 40 noites que ele estava jejuando e caminhando pelo deserto. Mais de um mês de sofrimento físico intenso. Os pés já não eram os mesmos após as passadas sobre a areia quente; o corpo estava desidratado, não havia oásis nem para o filho de Deus.
Ao longo da estada, várias dúvidas atormentaram-lhe o espírito. Mesmo que não quisesse, dentro dele ainda surgiam perguntas que o faziam duvidar de seu verdadeiro objetivo naquela existência. Era tanta dor e sofrimento, poderia mesmo ele alcançar o esclarecimento através disso? As noites frias, a insegurança dos animais que poderiam lhe atacar serviam de acréscimo extra para as incertezas.
Havia ainda tanto para aprender, e ele sabia que era por meio do sofrimento que iria alcançar o que queria, seria sua paixão. Isso aliviava-lhe a alma; e o corpo se tornava apenas um instrumento do divino. Era possível esquecer-se da dor por completo, uma vez que ela está vinculada ao físico, não ao espiritual. Jesus estava sob a égide da fé, e isso ele tinha ao extremo.
E foi enquanto ele caminhava ao sol, que o céu se torna repentino escuro, nuvens vindas de não se sabe onde escondem o astro rei. Forte ventania também vem, carregando consigo a areia; Jesus protege os olhos e avista, ao longe, um vulto se aproximando. Ele sente a presença maligna em derredor e prepara seu coração para o que viria a enfrentar, sabia que aquilo era preciso, nada é por acaso, nada.
De súbito, cessa a ventania, e as nuvens desaparecem. Já era possível distinguir o vulto, um homem, aparentemente comum, mas com um semblante duro e frio, não havia compaixão em seu olhar, apenas ódio e prazer. Era o diabo.
- Eis o filho de Deus - e sorri maliciosamente.
Jesus apenas encara-o placidamente.
- Não te pronuncias a mim? Não me temas. Posso vir a ser seu mestre, se quiseres. Há tanto para aprenderes... caminhemos.
O diabo conduziu Jesus a uma trilha sinuosa, este já estava cansado de tanto vagar pelo deserto, e o diabo caminhava depressa, fazendo com que ele apressasse o passo. Andaram por muito tempo, Jesus demonstrava cansaço, estava à beira da exaustão, também a fome assolava-lhe. Não havia nada comestível pelo deserto. E então, o diabo fez sinal que parasse:
- Se tu és o filho de Deus, manda que estas pedras se tornem em pães.
E aponta para um amontoado de pedras perto de um rochedo. Naquele momento não havia dúvidas no coração de Jesus:
- Está escrito: Não só de pão viverá o homem, mas da palavra de Deus.
O diabo rangeu os dentes de fúria e bateu furiosamente contra o rochedo, esmagando-o completamente.

segunda-feira, janeiro 08, 2007

A mãe

"O reino dos céus não está em construções de madeira ou pedra, mas sim em ti mesmo e ao teu redor. Corte um pedaço de pau e lá estarei, levante uma pedra e me encontrarás"
- O verbo

A pobre mulher estava em prantos. Desespero seria o maior eufemismo para o que ela passava; a dor de uma mãe é lancinante e cruel. Ela não chorava mais, a fonte secou. As janelas da alma se fecharam para sempre, ela havia morrido a partir do momento em que o filho partiu. Saiu de casa descontrolada, ia se agarrar ao que ainda lhe fornecia esperança, a fé. A fé que dizem que movem montanhas era no que ela cria fervorosamente naquela hora.
Chega à igreja, que estava vazia por sinal. No interior, centenas de velas acesas forneciam uma iluminação parca. Centenas de pedidos de outras vidas sofridas; agora mais um era feito pela mãe. Ajoelha-se diante da imagem dos santos, fecha os olhos, une as mãos e inicia o rito. Tenta rezar a prece ensinada desde tempos imemoriais. Contudo, ao orar, ela sente o vazio saindo das palavras, sente o quão vã era a prece. Apenas repetia versos compassadamente. Abre os olhos e visa as imagens no altar, percebe que nada daquilo era verdadeiro e sente um profundo pesar. Ela está nua, vazia e desolada. "Nada disso me é útil porque não vem do coração"- pensa a pobre mãe.
"Eloí, Eloí, lamá, sabactâni?" - grita, e os ecos reverberam pelo templo vazio, como se fosse as súplicas dos outros que sentiram o mesmo que ela.
"Talvez não seja aqui, nem com essas palavras. Perdoa-me."
Estava exausta, nem sabia daonde havia tirado forças para sair de casa. E no chão frio da igreja ela adormece, ali mesmo. E pelo menos no sonho ela pôde conversar com Ele e sentir que não era vã a palavra fé.

domingo, dezembro 31, 2006

Paixão: segunda parte

No princípio era o caos; ou seria a ordem? Dizem que a entropia do universo tende a aumentar conforme a passagem do tempo... Supõem tantas coisas acerca da existência e não-existência, mas o que se sabe é que no começo era o breu, a escuridão profunda e avassaladora; tão escura que nem se pode imaginar tal, uma vez que vivemos mergulhados em luz e ela buscamos incessante e desesperadamente.
E era na luz que ele pensava enquanto estava cercado pelo breu. A partir do que não se transmitia na sua íris, porque não há luz, uma série de sentimentos primários invadiam-lhe a mente. Daqueles que os humanos consideram instintivos, tais como medo, insegurança e ansiedade. Ele se sentiu regredido aos homens primatas que, ao se encontrarem no escuro, desenvolvia mecanismos de auto-defesa irracionais. Era lutar ou morrer o código que se passava no subconsciente e se espalhava pelo corpo.
Escuridão e silêncio reinavam soberanos. O silêncio corroendo-lhe a mente, a escuridão ofuscando-lhe a alma. Foi então que ele começou a se questionar, "o que faço aqui?", "como fui parar aqui?", "Aonde isso dá?"... e as perguntas se multiplicavam a tal ponto que ele teve que entoá-los como numa canção para livrar-se do silêncio que incitava a mente. Era como se ele tivesse despertado alguém, ou algo no meio do breu. Ele não pôde ver quem era, mas alguma coisa se inquietou e fê-lo calar, como se uma mão tapasse-lhe suavamente a boca, pedindo novamente o silêncio.
Ele parou de falar e imediatamente ouviu uma voz, vinda de todos os lados: "eu e você; nós e você. Eu, você e nós somos um." De repente, uma centelha de luz surge, muito tênue, mas suficiente para iluminar o lugar. Ele se viu não mais em cima da cama, mas flutuando sobre o que seria o... nada? Sim, era indescritível, havia algo: o nada. Ele se aproximou da centelha de luz. Observou que ela pulsava compassadamente, como um coração, o coração do universo.
Estava atônito, maravilhado com o que via. A luz era hipnoticamente bela, sua beleza singular era suave, acalmava. Foi então que ele quis, num ímpeto, tocá-la, aproximou o dedo e quando pensou que havia tocado, foi impelido fortemente para trás. A luz pulsava gradativamente com mais intensidade, ele não conseguia mais vê-la, tinha que proteger os olhos para não ficar cego. A pulsação pára de súbito, freme levemente, e explode. Uma gigantesca explosão, de proporções incomensuráveis. Ele pensou ter morrido com tal Big Bang, mas não, nada afetou-lhe. Era como se ele fosse um expectador.
Agora ele flutuava entre gás e pó, pó e gás. A voz falava-lhe novamente:
- Vês? A gênese. Os humanos pensam que podem calcular o tempo, o tempo exato de quando Isto surgiu, mas nada sabem e nada continuarão a saber. Há findos caminhos entre o ser e o vir a ser.
- O que é você?
- Eu sou você. Somos o alfa e o ômega.
- Não estou te entendendo perfeitamente, mas no fundo eu sinto que te compreendo. Eu procuro algo.
- É preciso fé... fé e dor.
- Não há outra maneira? Você sabe o que procuro?
- Todos procuram, mas não sabem que procuram e o quê procuram.
- Estou disposto a tudo agora que estou aqui!
- Fecha teus olhos e abra os verdadeiros. Encontraremo-nos outra vez, lembra-te: somos o alfa e o ômega.
Ele fecha os olhos e procura se concentrar no que a voz lhe disse. Ele era o alfa e o ômega, o princípio e o fim. Ele deixa a energia que sentia a sua volta fluir em seu interior, como num rio, o rio escava vales e abre lugares, os olhos da alma. Ele os abre e se vê num outro lugar, no topo de uma montanha, muita alta por sinal. Ao redor só há neblina, impossível de se saber o que rodeava o pico. A parte do topo era praticamente plana e um caminho conduzia até um templo branco, todo de mármore. Daqueles de colunas altas, feito templo grego. Alguém o esperava à porta do templo, vestia vestes tão brancas quanto o mármore da construção. Era um homem. Esse sorria e dirigiu-se a ele:
- Bons ventos o trazem.
- Quem és tu? - e se espantou com a formalidade da pergunta.
- Sou o profeta.
- O que queres de mim? - pergunta com veemência.
- Precisas aprender a formular melhor tuas perguntas, elas são decisivas para as respostas. - responde o profeta, analisando a pessoa dele.
- O que temos um ao outro?
- Guiar-te-ei até a estrela se pôr.
- Que estrela? - procurando alguma no céu.
- Não é dessas presas ao firmamento, é dessas. - e aponta para o alto do templo. Uma estranha luz arde e brilha placidamente.
- O que é esse templo?
- Um dos cinco templos que terás de conhecer. Esse é o templo da luz, como vês a estrela em sua parte de cima.
- O que devo eu fazer?
- Conhecer-te a ti mesmo.
- Mas nos templos?
- Ao final de cada um, haverá um selo, os selos da verdade.
- Calma aí, que história é essa de selos, templos e caminhos? É muito informação ao mesmo tempo, estou confuso! - pergunta estendendo os braços.
- Estás aqui, entre outras, porque tens a mente e coração abertos. Não totalmente moldáveis, mas aptos a mudanças, o que te faz diferente dos demais.
Ele reflete um pouco sobre as palavras do profeta, meneia a cabeça e diz:
- Tem razão. Por mais que tudo esteja sendo e acontecendo tão rápido, não estou muito preocupado com o que se passará.
- Continuando, os selos da verdade são poderosos artefatos. Criados nos primórdios pela Grande Deusa para o esclarecimento da verdade, foram alvo de cobiça e ambição de grandes homens. Eis aí o motivo de a Grande Deusa tê-los removido do teu mundo e conduzido-os para cá. Contudo, mesmo aqui ainda precisam ser protegidos.
- Você quer dizer que eu enfrentarei algo?
- Certamente. - expressando um sorriso enigmático - É preciso fé, fé e dor.
- Será a paixão, o medo e amor.
- Nem precisei continuar. Compreendes por que foste escolhido?
- Começo a saber que sim. - sorri envergonhado.
- Venha. - e indicou-lhe o caminho que conduzia ao interior do templo.
A entrada do templo revelou um grande salão interno circular, com outra entrada que levava a um corredor. no centro da sala, havia a figura da estrela que fulgurava sobre o templo. Tudo era muito claro e limpo, transmitindo paz aos presentes. Do corredor, ruídos estranhos vinham. Não era bem ruídos, porque eram harmônicos, mas ele nunca havia escutado semelhante som.
- Que som é esse?
- A voz do avatar.
- Avatar?
O profeta riu-se.
- Sim, os enviados do céu para protegerem os selos.
- Hummm. E o que essas criaturas fazem?
- Saberás em tempo. - sorrindo pacificamente.
Ele dirigi-se ao interior do templo, quando o profeta lhe interpela:
- Espera, não lhe disse tudo. Tenha fé para passar pelos templos, meu caro.
- Fé e dor....
- Exato, passarás duras provações. Nada é tão fácil quanto imaginas.
- Eu irei, meu caro.
- Vai-te e encontra teu caminho, homem.
- Que assim seja.
E ele seguiu o caminho que o conduzia ao interior do templo. Logicamente não sabia o que viria a encontrar, muito menos o que enfrentaria. Contudo, dentro dele, algo lhe alimentava a vontade, o desejo de saber de si. Era aquela voz do começo que lhe animava a continuar. Assim era a vida, feita de escolhas, ele a fez desde quando teve a transição, deveria passar por provas desconhecidas e descobrir algo que está além do conhecimento ordinário. Nada é por acaso, nem os sonhos que temos.
Continua.

sexta-feira, dezembro 08, 2006

O Futuro no Presente do Indicativo

Eu sonho
num mundo medonho,

Tu sonhas,
Em faces risonhas,

Ele sonha,
Por sobre a fronha.

Nós sonhamos,
E assim caminhamos.

Vós sonhais,
Sem nem dormir mais.

Eles sonham,
Com um mundo de paz.

Que bando de iludidos...

quinta-feira, novembro 30, 2006

A ferro e a fogo

A ferro e a fogo traçado,
A ferro e a fogo partido,
Amor chamando de um lado,
A dor com abismo fendido,
E eu caindo, sumindo do chão.

A ferro e a fogo lavrado,
A ferro e a fogo sofrido,
Pranto dos olhos chorado,
A fé me recobre o sentido,
E eu sorrindo com pedaços, estilhaços de ilusão.

A ferro e a fogo marcado,
A ferro e a fogo mantido,
Destino iminente lançado,
Como dados num perdido
Jogo em que o tempo é o maior campeão.

domingo, novembro 26, 2006

Aberração

Dedico este poema a uma amiga aberração, como todos nós, Irina.

Se eu sonho, sou lunático.
Se des-sonho, sou desiludido.
Se eu choro, sou decadente.
Se rio, sou sádico.
Se eu penso, sou muito coerente.
Se des-penso, sou insensato.
Se eu canto, sou desafinado.
Se danço, sou desajeitado.
Se eu gosto, sou maníaco.
Se desgosto, não tenho coração.
Por que ventura, então, haveria eu de existir,
Se aos olhos alheios sou aberração?
- Apenas viva por si só.

sábado, novembro 25, 2006

Do you suppose there is such a place?

There must be.

It's not a place you can get to by a boat or a train.

It's far, far away: behind the moon, beyond the rain...

segunda-feira, novembro 20, 2006

Paixão

Dessa vez não havia barulho de despertador. A pilha havia acabado e ele não tinha lembrado de comprar outras. O sol mesmo encarregou-se de acordá-lo, acariciando-lhe o rosto com seus raios. Aos poucos ele abriu os olhos, vislumbrando a claridade intensa do aposento. Estava bem, lembrou que havia passado por uma experiência no mês anterior, meio mágica, meio transcendental. Não sabia ainda se fora um sonho ou ilusão, qualquer coisa que fosse, foi plena.
Da janela da casa - sim, uma casa, ele comprou uma casa de praia e largou a vida temporal das cidades - avistou o mar e as sucessões tranquilas das ondas. Era uma manhã formidável. E fazendo os afazeres do lar, ele procurava se lembrar do sonho que teve, como andava fazendo por um mês. Todavia, ele não conseguia recordar nitidamente, tudo era tão sinestésico, surreal, mas sabia que havia mudado profundamente a partir daquilo. Não que ele tivesse abandonado a carreira de engenheiro e virado um "hippie", não, apenas sabia que uma parte dele se completou, uma das peças desse misterioso quebra-cabeças que é a alma humana.
Foi ao supermercado da cidade, comprou a comida do cachorro e as pilhas para o despertador. Ao chegar no caixa , a moça passou os dois produtos e perguntou-lhe "tem certeza de que é só isso que o senhor vai levar?". Ele poderia ter pensado qualquer coisa do que a mulher falou, poderia pensar que ela estava coagindo-o a comprar mais coisas, mas algo dentro dele fê-lo lembrar da cálida luz do sol lhe acordando, e resolveu levar apenas a comida do cachorro.
Ele foi ao trabalho e, ao chegar a sua sala de trabalho, viu seus dois colegas discutindo:
- ... mas eu te falei que não era pra mexer na minha mesa, por que tinha que pegar justo minha caneta nova?
- Olha aqui, era uma urgência, o Sr. Martin precisava sair logo e tinha de assinar uns documentos, peguei a primeira caneta que avistei.
- Não me interessa o que o Sr. Martin faz ou deixa de fazer, a caneta era minha! Oh, você está aí, veja, ele usou minha caneta nova!
O colega mostrou a caneta, indicando-lhe as partes que provavam que fora usada sem permissão. Ele examinou a caneta, pousou-a sobre a mesa, sorriu e perguntou se com tanta coisa nessa vida para se importar, com tanta coisa para se aprender, ele se importasse tanto com uma caneta nova. Os dois colegas entreolham-se estarrecidos, não estavam reconhecendo aquele homem que ali chegava, antes tão preocupado com o trabalho, tempo e rotina. O dono da caneta cora-se um pouco e puxa outro assunto, o trabalho prossegue ameno e mais afável.
Ele não tinha mais carro, voltava do trabalho de bicicleta, lembrava da infância e das quedas até conseguir o prazer de se equilibrar sobre duas rodas. E esse mesmo prazer que ele sentia agora desfrutava observando a bela paisagem da cidade litorânea. Chegando em casa, escutou os latidos do amigo, o canino balançava freneticamente o rabo, demonstrando o amor que lhe fora dado. Os dois foram passear na praia, ver o crepúsculo.
Ele sentou na areia da praia e seu amigo canino correu a perseguir as ondas do mar; ele riu-se. De repente, o céu começa a incendear-se, por todo a esfera celeste é tomado fogo, a penitência eterna do céu. As nuvens viram chumaços incandescentes de algodão, tão inflamadas que nem o mar poderia apagar tal fogaréu. Ele observa atônito o fenômeno. E em intantes, o céu passa do fogo ao sangue, tudo se avermelha, escorre do topo da esfera até as extremidades. O céu agoniza e sangra. Então, o sol se põe e seu último raio anuncia a extrema-unção do céu. Ele achou incrível todo dia haver um espetáculo desses e sem ingresso a ser pago. "O céu renascerá, como todos nós a cada dia"- pensou consigo.
Recolheu-se na casa com o amigo, fez as trivialidades básicas e deitou na cama do quarto. Ligou o abajur, pegou o livro de cabeceira e pôs-se a ler. O livro era velho, herdado do pai, tinha resolvido lê-lo ao achá-lo nas caixas de coisas antigas. "O Lobo da Estepe", ele leu em voz alta. Na capa havia a gravura de um homem, meio lobo, meio homem, sentado sob uma árvore. A leitura do livro era carregada, não era fácil de se entender para aqueles que se dispunham a ler na calada da noite, e mesmo assim ele tentava.
Enquanto tentava decifrar as passagens do livro, as letras iam se embaralhando e formando outras, o assunto do livro começava a se modificar, não seguia mais o estilo do autor. O que era "... - não, o olhar do Lobo da Estepe penetrava no nosso tempo...", tornava-se " - não, o olhar do homem, por gerações, não consegue enxegar além de seu próprio interesse". E o livro acabou lhe conduzindo a um novo mundo, paulatinamente. E quando os olhos pediram descanso e pousou o livro sobre a cama, ele percebeu que não estava mais no quarto, nem na casa, nem em qualquer lugar que conhecia, estava no breu, no mais profundo breu.
"Continua" :)

domingo, novembro 19, 2006

Confissão

"Amar, verbo intransitivo"
- Mário de Andrade

Com toda força,
Todo fervor,
Eu amo
Na alegria,
Ou na dor.
Eu amo

quinta-feira, novembro 16, 2006

Da verdade do mundo

"Eu sou o caminho, a Verdade e a vida." - Jesus Cristo

Ao longo de séculos, o ser humano vem acumulando conhecimento, seja na Matemática, na Química, na Física, enfim, aos poucos os problemas vão se desatando do novelo do oculto e se revelando para nós. E cada vez mais fascinamo-nos com o que vem de novo, e dá-lhe hipóteses, argumentos, discussões para se melhor discernir sobre os problemas em questão. Quantos Newtons, Einsteins, Russeaus não existem algures, martelando a cabeça para desnudar os segredos da natureza?
Quanto mais conhemos o mundo, mais nos impressionamos com a complexidade dos mecanismos, dos fenômenos e das formas de vida que há. Tudo organizado numa fina teia pelo universo, cada fenômeno aparentemente isolado está devidamente inter-relacionado, culminando naquilo que chamamos de existência. E até o que não existe chega a nos fazer fascínio.
Chegamos a um ponto onde nos questionamos acerca do que seja a verdade, se há uma verdade absoluta, indelével e que ela por si só nos faz plenos, ou se há uma verdade relativa, e a perfeição consiste na imensa variedade de verdades existentes. Há muitas perguntas a serem feitas e apenas uma única resposta a ser dada ou um número infinito delas? Seja ela absoluta ou não, o fato é que o melhor para nós consiste em NÃO sabê-la, ou sabê-las. A existência humana prossegue e é movida justamente pela busca dessa(s) verdade(s), o que nos faz acordar, levantar, sonhar, pensar é fundamentado nos "porquês", nos "ondes" e nos "comos". O mistério da existência é uma das estrelas a brilhar eternamente no fim da estrada da humanidade, e que precisamente não deve ser alcançada.
Não existe um limiar do conhecimento. Para conduzir a essa afirmação, uma teoria precisa ser comentada: a segunda lei da termodinâmica, a qual afirma que a entropia do universo tende a aumentar. Uma das possibilidades de interpretação dessa lei é que, a cada momento que se passa, o mundo se torna mais complexo, não obrigatoriamente caótico. Entropia não é sinônimo de completo caos.
A crescente complexidade e diversidade de fatores que se auto-governam é a prova de que precisamos que nunca descobriremos a verdade, seja ela absoluta ou não. Todavia, isso não significa que devamos desistir de encontrá-la, pelo contrário, temos que erguer o peito e mergulhar de cabeça, direto às profundezas do desconhecido, e nos deliciarmos com os mistérios a serem desvendados...

"Acima de tudo está a Verdade, e a Verdade tem que ser libertada. Se as asas da Verdade são cortadas, as vozes serão silenciadas."
- Canção de Todos, canto 167.

sexta-feira, novembro 10, 2006

A concha

O som das ondas relutantes,
Que revoltas me levam,
Que soltas me enlevam,
O som que por instantes.
Lava-me a alma com água salina,
O som que do nácar ecoa.
Reflete a beleza cristalina,
Da essência de cada pessoa,
Que um dia virá,
Que um dia vieram.
O som da anunciação,
Porque dele nasceram,
E a ele voltarão...

segunda-feira, novembro 06, 2006

Navegante

Por cima do fim,
Começar.
Por sorte do sim,
Ganhar.
Por sobre o azul,
Navegar,
Partindo pra o sul,
Desbravar.
Por meio do dom,
Conquistar,
E somente com,
O mar,
Vou poder então,
Encontrar,
Pra meu coração,
Um par.

domingo, novembro 05, 2006

Auto-extrema-unção

Pálido rosto
Em sofrimento
Escondido.

Sórdido mal,
Dentro do corpo,
Velado.

Lágrimas soltas,
Pranto da alma,
Escorrido.

Lânguido braço,
Ás margens da cama,
Jogado.

Cálido órgão,
Pulsa no peito,
Incontido.

Fúlgido brilho,
Por todo quarto,
Emanado.

Sôfrego mal,
Força o corpo,
Abatido.

Súbito riso,
Na débil face,
Estampado.

Plácido corpo,
Brilhante alma,
Ascendida.

Trágico fado,
De alguém um dia,
Amado.

sexta-feira, novembro 03, 2006

Je t'aime

j e t ' a i m e toujours...
e t ' a i m e
t ' a i m e
' a i m e
a i m e
i m e
m e
e

t
o
u
j
o
u
r
s
.
.
. . . verticalement et horizontalement}

terça-feira, outubro 31, 2006

Lies

A mentira tem perna curta, tão curta que dá pra vê-la se arrastando malignamente pelo chão, e se rindo de todos que, pensa ela, não a vêem...

domingo, outubro 29, 2006

Calmaria exasperante

O silêncio. O som inaudível do silêncio ecoava pelo aposento. Daqueles sons impertinentes, intoleráveis, que chegavam a doer nos ouvidos, embora até a dor fosse indolor. A vontade dos presentes da sala era que qualquer forma de existência se transformasse em ondas sonoras; seria possível a luz virar onda de som? Todos queriam, mas ninguém ousava quebrar a ditadura imposta pela ausência do som. E eles se olhavam, ansiosos, imaginando quem poderia desafogar o ambiente surdo. O tempo? Quem pode medir o tempo sem o tique-e-taque dos relógios, sem o vai-e-vém dos pêndulos? Os segundos pareciam horas, as horas, meses e os meses a eternidade, e a eternidade parecia conduzir à loucura as pobres almas dos que ali estavam presentes. Era a sala de espera do dentista, mas parecia uma cerimônia de velório, tão grave e silencioso era o momento. Ninguém folheava revistas, ninguém estava gripado, ninguém fazia o menor ruído possível. Até a secretária, estava louca para que o telefone tocasse, ou que o dentista avisasse que o próximo cliente poderia entrar, mas nada... Foi então, que num momento epifânico, dona Gertrudes ansiou expressar tudo o que ela sentia, toda a rajada de pensamentos aleatórios e desconexos que se misturavam num carnaval de idéias:
- DEMORAMENINACHUPETAVESTIDODECORAÇÃORELÓGIOBARULHO!
As palavras saíram da boca da velha numa rajada de facas afiadas que retalharam o silêncio, e o estraçalharam e reduziram-no a migalhas. Embora Dona Gertrudes fosse velha, ainda tinha ânimos juvenis, que ainda conserva mesmo sob a ação implacável do tempo; de vez em quando surgiam tais impulsos e controlá-los era difícil. Todavia, todos na sala estavam tão ansiosos, que as palavras ditas foram o discurso mais aclamado, mais esperado que quaisquer outros; e então todos dispuseram a terminar de flagelar o pobre silêncio que teve seu reinado temporário acabado...

sexta-feira, outubro 27, 2006

Deixa?

Deixa-me ver?
Deixa eu ver?
Deixeu ver?
Deixou ver?
Deixo ver?
Dexo ver?
Xover?
Chover?

quinta-feira, outubro 26, 2006

Isca

O gancho,
Do anzol,
Enganchou,
Na concha,
Do mar.

Mas quem me fisgou,
Não foi o gancho,
Nem a concha,
Foi o teu,
Olhar.

domingo, outubro 22, 2006

Meu maior defeito é confiar nas pessoas, contudo, isso é ainda o que me torna humano...

sábado, outubro 21, 2006

Fragmentos


"O que torna belo o deserto, disse o principezinho, é que ele esconde um poço nalgum lugar."
- O Pequeno Príncipe

sexta-feira, outubro 20, 2006

Ciranda da morte

O fúnebre cortejo das brumas desceu do céu na noite sem luar. Não havia mais pássaros a gorgorear, nem flores para perfumar os caminhos, as sendas silenciavam. Apenas a escuridão, profundamente negra e nefasta, imperava por sobre o mundo. Até que as estrelas brilhavam, mas daqueles brilhos opacos que era melhor não ter.
E da cerração, no campo aberto da cidadela, notas difusas eram soltas pelas vizinhanças. O bom ouvinte que se atrevesse a distingüir melhor os sons, perceberia que se tratava de uma antiga canção de roda. Do tempo em que as crianças ainda podiam sair nas ruas e cantar as alegrias do mundo, mas não era aquele, definitivamente, o caso...
Na noite sem brilho, os expectadores da cantiga eram pequenos animais noturnos. Contudo, se um cidadão comum resolvesse compartilhar da canção, certamente não acharia nada agradável; o coro que a compunha era formado de vozes, quase roucas, raquíticas, monótonas e ausentes de sentimento. Por mais que a canção falasse de cavalos alados, bruxas malvadas e castelos encantados, as vozes lançavam ecos vazios, e o mundo mágico se despedaçava na voz do coral.
Isso não chegava perto do que realmente aquele coral era formado. Em meio à neblina, vultos pequeninos eram vistos, dançando lenta e constantemente em uma ciranda. E, por ocasião do tempo, uma rajada forte levou a cerração e mostrou as pequeninas. Quem dera a neblina pudesse voltar de novo. Uma ciranda na noite, formada por várias crianças, sorridentes e apáticas, todas sem exceção mutiladas. Algumas sem narizes, outras sem braços, fazendo parte da ciranda apenas com o braço que lhes restava, outras sem orelhas, de toda sorte de cortes e decepações.
E no meio da roda, um homem, sorria emocionado, cantando junto ao coro macabro. Ele, que havia maculado as pequenas, agora as levava pela noite para cantarem as canções que sua mãe lhe ensinara quando era criança. Mas ele só cantava de noite, porque ouvia as vozes do pai, que lhe batia, de dia. E ele não queria contrariar o pai, não, o pai nunca,nunca... mas de noite sim, de noite ele podia levar os amigos que conseguiu, seqüestrando-as de seus lares, torturando-as e injetando-lhes drogas psicotrópicas para que vivessem num estágio de apatia. "Cavalos voam pela noite, meninas brincam ao luar, vá pra dentro menininha que o Papão vai te pegar". Oh! Mas como ele era tolo, o sol já dava sinais de aparecer, e seu pai poderia brigar, era melhor recolher seus amigos e escondê-los, haveria mais noites para cantar, e dançar, haveria outras noites sem luares em que mais amigos cantariam... pela noite sem luar...

quarta-feira, outubro 18, 2006

Dentro de milênios

E dentre a escuridão silenciosa do universo havia uma galáxia,
E por entre as espirais grandiosas da galáxia existia uma estrela,
E ao redor da gigantesca estrela girava um planeta,
E na imensidão do planeta havia um continente,
E por sobre o vasto continente havia um rio,
E às margens do longo rio havia um jardim,
E por entre as numerosas plantas do jardim, nasceu uma margarida,
E por sobre as pétalas dela pousou uma borboleta,
E foi vendo tal borboleta que alguém sorriu,
E esse alguém achou tão bela a efêmera borboleta,
Que resolveu colocá-la para sempre neste poema,
E dentro de milênios, ainda lembrarão,
Que entre o universo, a galáxia, a estrela, o planeta, o continente, o rio e o jardim,
Havia uma borboleta pousada sobre uma flor.

sábado, outubro 14, 2006

Love, amour, amore, Liebe ou simplesmente amor

Mas ele amava com tanta força, fé e ardor, que até as madrugadas mais frias e monótonas, as noites sem luar, as horas intermináveis de espera no dentista, as conversas fúteis de seus colegas, os problemas no trabalho, as blasfêmias dos mendigos bêbados, os mau-humores dos conhecidos, as mentiras descaradas, os porquês não "desduvidados", os dias de praia nublados, as cartas não correspondidas, os bom-dia's não retribuídos, os sorrisos não compartilhados, os compromissos não consumados, as reuniões desmarcadas, os atrasos, enfim, até a mais lancinante dor se fazia em bálsamo de prazer; e essa é uma das virtudes mais admiráveis conhecidas do amor.

quinta-feira, outubro 12, 2006

E se foi...

" Que todos saibam o destino que aqui nos determina. Que todos vejam que eu, para sempre, esquecer-me-ei de quem seja tua pessoa; não passarás de sombra sob a vela da existência. Tudo o que vivemos será esquecido como a débil chama que se extingüe com o vento. E então, tudo não passará de um sonho, um sonho de uma noite de verão. E relembrarás de mim pela longura dos teus dias."
Essas foram as últimas palavras do Momento para um apaixonado, é a maldição eterna que assola todos os que tiveram a quimera da felicidade passando sob suas vidas, tão fugaz quanto veio...

segunda-feira, setembro 11, 2006

A fada do dente

- Manhêee! Meu dente caiu! Olha aqui!
A menina veio correndo pela casa com o dente recém-tirado na mão; estava em prantos e meio que ordenava que a mãe lhe explicasse o porquê dessa "tragédia". Seus miúdos olhos, marejados pela dor e medo, traduziam a ingenuidade e inocência. A mãe estava ocupada lavando a louça da janta, mas quem não se comoveria com tal pedaço de gente?
- Venha cá, filha. - sentou-se na cadeira e levou a criança ao colo.
- Mãe, vou ficar que nem a vovó? - soluçou a menina.
- Não não! Você não vai ficar que nem a vovó, porque a vovó é beeem mais velha que a mocinha. Sabe o que vai acontecer?
- Não...
- Daqui a algum tempo, um dente mais forte, branco e bonito vai nascer de onde esse caiu. Eu não queria te contar, mas os dentes têm vida própria.
- Têm mesmo mamãe?! - perguntou eufórica a guria.
- Sim, senhora. Quando somos crianças, temos vinte e quatro dentinhos na boca, cada um com sua própria vidinha, e todos trabalham, principalmente quando se come: um rasga a comida, outro esmaga, outro corta e assim por diante...
A menina batia palmas de felicidade, já se esquecera do que era dor. O dente caído fora posto em cima da mesa meio que inconscientemente. A mãe também se divertia ao contar a história para a filha.
- ... Mas os dentes acabam envelhecendo na boca e já não trabalham tão bem. Então eles se soltam da boca e dão espaço para que outro nasça no lugar dele.
- E o que eu faço com o dentinho velho?
- Ora, dê para a fada dos dentes.
- Fada dos dentes?
- Sim, a fada que troca dente por moedas.
Se a menina soubesse dar piruetas no ar, daria aos montes naquele momento. Nada era mais excitante do que uma fada que trocava dentes velhos por moedas. O mundo era tão misterioso e grande para aquela criança, saber da fada fora um como se um dos segredos de Barba-Azul estivessem sendo revelados.
- E como eu falo com a fada? Eu quero trocar!
- Calma, minha filha. Você não pode falar com a fada, porque as fadas são proibidas de conversar com as crianças pela lei do estatuto das Fadas. Por isso que elas aparecem de noitinha, e se você colocar o seu dente velho debaixo do travesseiro, elas os trocam por moedas.
- Mas eu queria falar com a fada dos dentes...
- Eu entendo que você queira, mas elas não podem, filha. Quem sabe você consiga pegar um no instante em que ela for trocar o dente.
- Vou sim! - respondeu a menina dando um pulo de alegria.
E se chispou pela casa tão rápido quanto veio ao choramingar. A mãe estava pensando em que momento colocar a moeda por sob o travesseiro, ela sabia que a menina dormiria cedo ou tarde. Demorou para que a criança pegasse no sono. Em verdade, a guria foi dormir desolada, queria ter pego a fada no flagra e lhe pergunta sobre o mundo mágico que ela ainda não conhecia. A mãe, cuidadosamente, colocou uma moeda sob o travesseiro e pegou o dente que lá se encontrava.
No raiar do outro dia, a menina corre para a cama da mãe aos berros.
- Mãezinha! A fada trocou meu dente! Você estava certa!
E era uma alegria que só.
Alguns meses se passaram e a mãe havia notado que a menina andara comprando doces e guloseimas no doceiro da escola. Intrigou-se, porque não dava dinheiro à criança. Temendo que a menina pudesse estar pegando dinheiro na casa ou até de seus amigos, resolve indagar e criança.
- Minha filha, onde você anda conseguindo esse dinheiro?
- Não posso contar, mamãe!
Sorrindo com uma boca desdentada.
E aqui acaba-se essa história.

quarta-feira, setembro 06, 2006

Quarto motivo da Rosa

Não te aflijas com a pétala que voa,
Também é ser deixar de ser assim.

Rosas verá, só de cinzas franzidas,
Mortas, intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos,
Ao longe o vento vai falando de mim.

E por perder-me é que me vão lembrando,
Por desfolhar-me é que não tenho fim.

Segundo motivo da rosa

Por mais que te celebre, não me escutas,
Embora em forma e nácar te assemelhes
À concha soante, à musical orelha
Que grava o mar nas íntimas volutas.

Decomponho-te cristal, defronte a espelhos,
Sem ecos de cisternas ou grutas...
Ausências e cegueiras absolutas
Ofereces às vespas e às abelhas,

E a quem te adora, ó surda e silenciosa,
E cega e bela e interminável rosa,
Que em tempo e aroma e verso te transmutas!

Sem terra nem estrelas brilhas, presa,
A meu sonho, insensível à beleza,
Que és e não sabes porque não me escutas...

Motivos da Rosa

Como eterno fã de Cecília Meireles; tenho como meta reunir mais leitores que possam se aprazer com os belos textos dessa poetisa. A série "Motivos da Rosa" mostrará os quatro motivos da rosa, poemas que tratam da existência humana e sua relaçao metafórica com a rosa.

Primeiro Motivo da Rosa

Vejo-te em seda e nácar,
e tão de orvalho trêmula, que penso ver, efêmera,
toda a Beleza em lágrimas
por ser bela e ser frágil.

Meus olhos te ofereço:
espelho para face
que terás, no meu verso,
quando, depois que passes,
jamais ninguém te esqueça.

Então, de seda e nácar,
toda de orvalho trêmula, serás eterna. E efêmero
o rosto meu, nas lágrimas
do teu orvalho... E frágil.

terça-feira, setembro 05, 2006

Observação 2

E jurei acreditar que pessoas grandes poderiam nos entender, amigo. Mas depois eu vi que elas estão muito preocupadas com coisas mais importantes, como assistir a novela das oito. E assim, percebo que os Jovens no Coração são tão poucos quanto os lugares em que a natureza ainda não foi conspurcada...

quarta-feira, agosto 30, 2006

Miracle

Ela estava frustrada e desolada, não conseguia medir a extensão de seu desespero. Como pôde perder o emprego e o namorado no mesmo dia? Não havia mais jantares amorosos, passeios de barco, buquês de rosas... havia apenas o doce momento de desilusão que a sugava e trazia violentamente para a temida realidade.
Ainda indo ao (futuro ex) emprego, ela deparou com seu (futuro ex) namorado beijando uma guria. Não pensou duas vezes, foi em direção ao traidor e lhe exigiu explicações; ele apenas disse que estava já estava pensando em terminar o relacionamente, que só não conseguia encontrar uma boa desculpa para terminar. Após um discurso longo e hipócrita, ele disse que ela ficaria bem e tudo isso era bom para ela, uma vez que ele não a merecia.
Abalada com tal fato, pensou "talvez seja melhor eu esquecer isso pelo menos enquanto trabalho, assim criarei forças para superar tamanho fato". Ergueu sua moral com uma certa altivez, absolutamente justificável, e partiu tumo ao trabalho. O dia parecia tão lindo ao amanhecer...
Ao pisar no salão principal do prédio em que trabalhava: silêncio. Nenhum atendende lhe dirigia sequer um cumprimento trivial, apesar de ela os conhecer há tempos. O silêncio fê-la temer o que teria de enfrentar ao subir os andares. Ao chegar em sua sala, reparou que uma carta fora colocada cuidadosamente sobre sua escrivaninha, carimbada por seu superior. O medo se apossou de seu corpo e, suando frio, ela agarrou o envelope num ato misto de coragem e pavor. Suas mãos estavam trêmulas e seu coração palpitava, ela tentava se encorajar com pensamentos vãos ,"tomara que seja um aumento...". Quando finalmente tomou coragem e leu o conteúdo, quase desmaiou, uma nota lhe informava que fora demitida, ou melhor, exonerada de seu cargo. O céu fez-se de negro...
Como se não bastasse a demissão e a perda do namorado, pesadas nuvens negras s aglomeravam e se despedaçavam em implacáveis gotas de água, trovões e ventania. A água que se precipitava encharcava-lha a roupa e os cabelos. Contudo, ela nem se importava com a chuva; estava encharcada moralmente. E assim caminhou sem rumo pelas avenidas cinzas e sem vida da cidade, como uma indigente deplorável. Não visava um caminho, apenas rumava...
E foi caminhando pelas ruas que ela percebeu que a chuva parara, uma fenda tímida abriu-se por entre as nuvens nefastas e indicavam que a tormenta estava por passar. E nessa réstia de luz que lhe tocou a face, ela percebeu que estava viva; quando olhou em derredor, avistou uma igreja. Não era uma das mais imponentes construções que ela vira, mas sentiu que precisava entrar nela. Queria alguém para culpar, algo para esbravejar.
Entrando na igreja, reparou na simplicidade do local. Paredes antigas, úmidas e mal rebocadas, bancos excessivamente lustrados para um dissimulação (em vão) do novo, velas já derretidas cercavam uma estátua de Nossa Senhora, que por sua vez estava desbotada e maltratada pelo tempo. A Santa erguia os braços como se estivesse sempre apta à consolar os aflitos.
Não havia vivalma na igreja, nem mesmo sacristão ou carola. foi quando ela se dirigiu à estátua e resolveu se confessar ali mesmo, contou de todos os problemas que estava passando e questionou duramente a existência de Deus. Ela estava desesperada e cada palavra que soltava lhe incitava a imprecar mais. E nesse oceano de blasfêmias , a mulher golpeou a estátua com as mãos que anteriormente usou para apontar duramente à imagem. A obra de arte caiu num baque no chão e se partiu em cacos. A mulher se assustou com o que ela mesma fizera e imediatamente pôs-se a juntar os pedaços. Quando apanhou a cabeça da santa, levou a maior surpresa que iria presenciar: a imagem chorava; e não era água salgada, um veio de sangue que lhe escorria dos olhos gotejava no chão. Não se sabe se foi apenas um fenômeno físico de dissolução, ou se era mesmo um milagre que se operava, o fato é que a vida daquela mulher nunca mais foi a mesma após aquele dia...

domingo, agosto 27, 2006

Simplicidade















A vida é tão simples, por que então tem que ser assim?

domingo, agosto 20, 2006

Crisálida

Guardada no seio do jardim,
Nutrida pelas folhas da roseira,
Tão frágil, escondida no carmim,
És delicada, porém também faceira!

Como tu assim larva foste,
Não tão bela quanto se seria,
Não tão previsível como se goste,
O amor surge e urge em nosso dia.

Acaso a ventura conspire,
Em separar e dissipar o nosso amor,
E tal qual a larva insólita vire,
Crisálida esperançosa regida pela dor.

Do cerne da casca, pulsa vivamente,
Coração repleto de paixão,
Esperando apenas momento coerente,
Com as almas que anseiam tal união.

Se porventura o nebuloso destino,
Decida destruir a crisálida,
Exonerando meu cargo peregrino,
Purgando minha vida esquálida.

Um novo raiar fulgurará,
No horizonte do meu coração,
Da paixão guarnecida renascerá,
Nova chama de pura emoção.

E então a crisálida rompida,
Marca do intante a transformação,
Das velhas cascas caídas,
Surge novo ser, uma nova criação.

Metamorfose completada,
O amor transcende o tempo,
O amor transcende nossa estada,
No efêmero mundo do sofrimento.

(Uma borboleta voa célere por entre as veredas desse mundo...)

terça-feira, agosto 15, 2006

A fé

"No atual estado de coisas de nossa sociedade, parece necessário volvermos aos princípios primordiais na busca das verdades mais simples e disputarmos a palmo o território de alguns preconceitos predominantes. Para abrir caminho, preciso fazer algumas perguntas simples, cujas respostas poderão soar inequívocas, como os axiomas sobre os quais se erige a razão; muito embora, quando emaranhadas em vários motivos, elas entrem em formal contradição nas palavras ou condutas dos homens.
No que consiste a preeminência do homem nos rudimentos da criação? A resposta é tão clara quanto o fato de que a metade é menor que o todo, na Razão.
Qual conquista enaltece um ser mais do que outro? A virtude, respondemos. Com que propósito foram emplacadas a paixões? Para que o homem, ao enfrentá-las, possa atingir um grau de conhecimento negado aos brutos, sugere a Experiência.
Conseqüentemente, a perfeição da nossa natureza e aptidão para felicidade deve ser estimada pelo grau de razão, virtude e conhecimento que distinguem o indivíduo e direcionam as leis que conformam a sociedade; e seja igualmente inegável que a partir do exercício da razão, fluem naturalmente o conhecimento e a virtude, caso desejemos encarar a humanidade coletivamente...
Quando o sábio Ser que nos criou e colocou aqui concedeu tal justiça, Ele determinou, permitindo que assim fosse, que as paixões desdobrassem nossa razão, pois via que o mal presente produziria o bem futuro. Poderia a indefesa criatura que Ele trouxe do nada livrar-se de Sua providência e aventurar-se a aprender o bem através da prática do mal, sem Sua permissão? Não. Como pôde? Aquele enérgico defensor da imortalidade [Russeau] argumentar de forma tão inconsistente? Se a humanidade tivesse permanecido para sempre no estado bruto, e nem mesmo sua pena mágica é capaz de pintar como situação onde uma virtude sequer tenha se arraigado, ficaria claro, mas não aos olhos de um sensível ser errante incapaz de reflexões, que o homem nasceu para percorrer o circuito da vida e da morte e adornar o jardim de Deus visando a algum propósito de difícil harmonia com Seus atributos.
Mas se, para culminar, devessem ser produzidas criaturas racionais, aptas a galgarem a excelência através do exercício dos poderes implantados com esse propósito; se a própria benignidade resolvesse trazer á existência uma criatura superior aos brutos, que pudesse pensar e aprimorar-se por que deveria essa dádiva inestimável, pois trata-se mesmo de uma dádiva, se o homem fosse assim criado para ter a capacidade de elevar-se acima do estado no qua a sensação produzisse a êxtase brutal, ser chamada, em termos diretos, de maldição? Maldição poderia ser, caso toda nossa existência estivesse limitada à nossa continuidade aqui neste mundo; pois por que deveria a graciosa fonte da vida nos dar paixões, o poder de refletir, somente para amargurar nossos dias e inspirar-nos com noções errôneas de dignidade? Por que deveria Ele nos afastar do amor próprio em direção às emoçõe sublimes que a descoberta que Sua sabedoria incita, se tais sentimentos não fossem postos em movimento a fim de aprimorar nossa natureza, da qual fazem parte, e nos capacitar a apreciarmos uma porção mais divina da felicidade? Firmemente convencida de que não há mal no mundo que Deus não tenha planejado, elaboro minha crença na perfeição de Deus."
- Mary Wollstonecraft

quarta-feira, agosto 09, 2006

Desestacionalizando ou simplesmente voltando

Por mais que eu tivesse tempo de sobra nas férias não houve um momento sequer em que pude pensar em escrever em meu Blog. Isso é meio contraditório, espero tanto tempo para chegar nas férias e "ter mais tempo" para me concentrar nas minhas idéias e quando elas (as férias) chegam, recolho-me numa concha e decido que lá é melhor ficar. Não sei se é o caso de vocês, caros leitores. Apenas sei que tentarei voltar à ativa :P .

Texto número I

"- [...] mas você promete pra mim?
- Hã? Aquilo da Lua?
- Não é "aquilo da Lua"! Você bem sabe como eu sou, gosto desses rituais...
- Tá certo, amor, então repita pra mim o que você falou.
- Olha, sempre que nós estivermos longe um do outro e seja noite, se houver a lua no céu, teremos de olhá-la e imaginarmos que estamos próximos, mas tão perto que possamos sentir a presença um do outro, e a magia do amor que nos une.
- Mas meu amor, onde quer que eu esteja sentirei essa chama intensa que nos une e atrai! Não precisamos desse ritual.
- Por que você não simplesmente tenta fazer? Eu tenho certeza que você vai entender depois que fizer.
- Certo, então eu o farei.
[...] Após três meses, ele teve de se distanciar dela, tinha de completar um curso em outro estado. Na primeira noite não houve lua, mas na segunda uma fração dela surgiu no céu, tão tímida, mal se via seu brilho se expandir pela vastidão escura da Terra. Na percepção dele, afetada pelo coração, ecos da voz dela vinham da longitude do horizonte; ecos que o acalentavam e o lembraram da promessa feita. Ele riu-se do que iria fazer. "Onde já se viu, olhar pra lua...". Então, sem qualquer esperança de que algo especial ocorresse, ele ergue os olhos e contempla a lua. No início, via apenas a aura branca e enevoada que a contornava. Contudo, ao passar do tempo ele começou a sentir um level calor que o consumia seu corpo, mas não de forma lasciva ou carnal, era um calor fraterno e intenso que o remetia à eternidade do amor. Ele sentiu a presença majestosa dela, como se ela balbuciasse juras de amor ao seu ouvido, e seus braços o envolvessem e o permitissem ser feliz por mais alguns instantes. E ele adormeceu, acalentado pelos braços do seu amor numa noite enluarada."
"Quando as pessoas vêem as descobertas que faço, perguntam geralmente 'por que sim?' e eu replico-as com um 'por que não?'"
- Eu devo ter modificado tudo e nem lembro de quem é hehehe, mas a idéia dá pra ser captada né? autor deconhecido (deslembrado)

terça-feira, julho 11, 2006

Pra Ser Sincero

"Eu era tão feliz
E não sabia, amor
Fiz tudo o que eu quis
Confesso a minha dor
[...]
E o que passou, calou
E o que virá, dirá
E só ao seu lado, seu telhado
Me faz feliz de novo
O tempo vai passar
E tudo vai entrar no jeito certo de nós dois
As coisas são assim
E se será, será
Pra ser sincero, meu remédio é te amar, te amar
Não pense, por favor
Que eu não sei dizer
Que é amor tudo o que eu sinto longe de você"
- Marisa Monte

Essa parte "E o que passou, calou, e o que virá, dirá" apresenta um caráter tão gostosamente efêmero; deixa que o tempo dirá o que acontecerá e te esqueça das chagas do passado, não deixe-as enterradas, incinere-as, liberte-se e renasça das cinzes que surgirem...
Essa é minha Marisa =P

domingo, julho 02, 2006

Por quê?

Por que sempre que achamos que estamos perto de conseguir um amor ele se esvanece de nossas vistas como uma fumaça?

Quatrième raison de la rose

ne t'affliges pas avec le pétale que vole,
aussi c'est être cesser de d'être ainsi.

roses verras seulement de cendres froncées,
défunts, intacts par ton jardin .

je laisse arome mêm dans mes épines,
au loin vent va en parler de moi.

et deme perdre c'est qu'ils me vont en rappeler,
dem'effeuiller c'est que je n'ai pas fin.

If I only had a home

De repente o menino acorda, mas tão repentinamente que o silêncio se espanta e dá lugar ao barulho, o berro de medo. Ele estava só, abandonado no breu da avenida vazia. Alguém o esquecera ali, algum pai ou mãe irresponsável. Só restava o garoto, o gato vira-lata e o cachorro vagabundo a correr atrás do gato.
Estava frio, os lábios do menino arroxeados tremiam, temiam e pediam pelos pais. Ao longe ouvia-se uma resposta, vozes longínquas. Contudo, talvez fosse a imaginação desesperada de um abandonado. Os piores monstros e fantasmas na imaginação do garoto não eram piores que o terror de estar sozinho.
As extremidades dos membros do garoto começaram a congelar. O frio era lento e fatal com suas vítimas, especialmente as Jovens de Coração. Foi então que precipitou-se a nevar. Pesados flocos de neve caíam em derredor do garoto. As esperanças se esgotavam à medida que a neve vinha. O menino lembrou-se da sua casa, calorosamente aquecida com alegria. A neve caía. O garoto lembrou-se do seu animalzinho de estimação. A neve caía. O menino queria ir a um lugar melhor. A neve caía. O menino começou a sentir sono. Fechou os olhos e dormiu para sempre. Contudo, numa outra terra bem distante, onde nunca neva e nem os pais abandonam os filhos, um garotinho abria os olhos feliz da vida.

quarta-feira, junho 28, 2006

If I only had a heart

Súbito grito partido da alma,
Tontura cética de um sofredor,
Atadura rompida pela palma,
Pela palma impassível do amor.

Cálidas mãos lembradas,
De momentos de contentação,
Mãos essas agora mortas, enterradas,
Num baú de recordação.

Percebido o tempo perdido,
Por pura falta de compromisso,
Tentou-se fazer o pedido,
Negado, revogado, homem omisso!

Rios corridos da face pendida,
Deságuam na baía da desolação,
Tudo isso por causa da vida,
Da vida de um homem sem coração!