quinta-feira, novembro 27, 2008
Roda
Parece que foi ontem que meu Sol nasceu sobre o signo errante
meio eqüino, meio humano
nasci cavalgando sobre esporas imaginárias e cortantes
patas sagitárias novas que amaciam o solo de um mundo antigo
Tudo tem percorrido rápido sua translação natural
os ponteiros parecem competir entre si no relógio pregado na cozinha
no relógio da escola, no relógio do meu braço
Mas nada se compara às voltas do meu coração
O mundo rodou num instante em meu peito
e as feridas ainda estão expostas ao vento da nova estação
É preciso fé e dor para encarar essa roda
mas nem sempre podemos ter a sorte de Pandora...
sexta-feira, outubro 17, 2008
O quinto e último
Quinto Motivo da Rosa
Antes do teu olhar, não era,
nem será depois, - primavera.
Pois vivemos do que perdura,
não do que fomos. Desse acaso
do que foi visto e amado:- o prazo
do Criador na criatura...
Não sou eu, mas sim o perfume
que em ti me conserva e resume
o resto, que as horas consomem.
Mas não chores, que no meu dia,
há mais sonho e sabedoria
que nos vagos séculos do homem.
terça-feira, setembro 16, 2008
Fortaleza
pelas cascatas rubras que te jorram
deixa que a estrela que cabia em tua palma
suma na imensidão do céu de tua boca
E lamentando pelos cantos de teus lábios
seu martírio resvalado em doce calma
e das ondas curvas de teu corpo
beberei em alento teu doce pranto
chamarei teu corpo feito de pó
chamarei tua alma caminho adentro
do mais sagrado e profano manto
de minha solidão que não mais se vê só.
quinta-feira, julho 24, 2008
O peso e a leveza
quinta-feira, julho 17, 2008
O inominável
domingo, julho 06, 2008
Vertigo/Vertigem
"Aquele que deseja continuamente 'elevar-se' deve esperar um dia pela vertigem. O que é a vertigem? O medo de cair? Mas por que sentimos vertigem num mirante cercado por uma balaustrada? A vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. É a voz do vazio embaixo de nós, que nos atrai e nos envolve, é o desejo da queda do qual logo nos defendemos aterrorizados."
Milan Kundera, The Unbearable Lightness of Being
terça-feira, junho 17, 2008
Dilúvio
uma marca efêmera dos humanos,
(ou qualquer ser vivo em que esse fluido vital pulse)
que se torna imutável.
a marca da dor,
do suplício e ,
do sofrimento.
A marca de um amor,
da epifania,
alegria,
sinergia
de um momento.
a marca da lágrima de um coração,
o caminho para o desapego,
para a liberdade,
para a redenção.
Contudo às vezes,
em certo poema,
ao ler não apenas,
com a visão,
deparo com não uma gota,
mas um dilúvio, uma tempestade,
um jorro quente e impetuoso de emoção,
são lágrimas, sangue e veneno,
escorrendo das letras, dos versos e estrofes
inunando-nos a alma
até que se enxagúe
de sofreguidão.
domingo, junho 15, 2008
El laberinto del fauno

"Cuentan que hace mucho, mucho tiempo, en el mundo subterráneo, donde no existe la mentira ni el dolor, vivía una princesa que soñaba con el mundo de los humanos. Soñaba con el cielo azul, la brisa suave y el brillante sol... Un día, burlando toda vigilancia, la princesa escapó. Una vez en el exterior, la luz del sol la cegó y borró de su memoria cualquier indicio del pasado. La princesa olvidó quién era - de dónde venía... Su cuerpo sufrió frío, enfermedad y dolor. Y al correr de los años... murió. Sin embargo, su padre, el Rey, sabía que el alma de la princesa regresaría, quizá en otro cuerpo, en otro tiempo y en otro lugar. Y él la esperaría hasta su último aliento, hasta que el mundo dejara de girar."
segunda-feira, maio 26, 2008
Atos
- V.W
segunda-feira, abril 14, 2008
Espírito
que me consome por dentro
alentece minha dor
e me degrada aos poucos
no ritmo das pedras
no ritmo das águas
diluo-me em mim mesmo
faço-me eterno e onipresente
mesmo em meu silêncio
há algo que não quer silenciar
mesmo em meu descanso
há algo que não quer parar
corroendo a cólera
dissolvendo a paz
sempre lento
sem terminar.
domingo, abril 13, 2008
O que tange
dos versos de harmonia
que tangem o íntimo
excitação, delírio, epifania
Ah! Não me venha falar das notas
Das notas tão penetrantes
que tangem o espírito
belas, surdas, vibrantes
Quero a canção celeste
das notas e versos solenes
Arranjo inefável que nos comunga
com o universo em um único ponto
.
segunda-feira, março 31, 2008
Liberdade
e, ânimo firme, sobranceiro e forte,
tudo farei por ti para exaltar-te,
serenamente, alheio à própria sorte.
Para que eu possa um dia contemplar-te
dominadora, em férvido transporte,
direi que és bela e pura em toda parte,
por maior risco em que essa audácia importe.
Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma,
que não exista força humana alguma
que esta paixão embriagadora dome.
E que eu por ti, se torturado for,
possa feliz, indiferente à dor,
morrer sorrindo a murmurar teu nome.
- Carlos Marighela
sexta-feira, março 14, 2008
sábado, fevereiro 09, 2008
quinta-feira, janeiro 31, 2008
Um parêntesis
Pausa para a mudança para o interior.
E haveria mais quedas na bicicleta, barulho da estrada, livros infantis, enciclopédias, roubo de morangos do vizinho, amigos do Objetivo, pipas caídas ao longo da chácara, jasmins da mamãe, cachorros e gatos, pokémon, dentes de leite, invenções científicas na casinha de madeira, dentes permanentes.
Pausa para a mudança para o Ceará.
Haveria mais medo, insegurança, conflito de culturas, adaptação, amigos do Evolutivo, tias e primos desconhecidos, mar, cheiro de mar, praias, céu limpo, sol que se põe mais cedo, amigos do farias brito, olimpíadas de química, serra do vovô, beatles, festivais de arte e criatividade, curso no piauí, ibero-americana no Rio, vestibular, e espera, muita espera. Hoje ainda espero, não só por resultados, mas por pessoas, lugares e idéias, mais idéias sacolejantes que venham na cornucópia da inspiração em outras mais madrugadas enquanto eu permanecer neste mundo.
terça-feira, janeiro 29, 2008
Quando a música vem
A pequena luz que lá era guarnecida e que, por virtude das circustâncias, dormia. Essa sementinha de esperança se irradia como um sol. Aflora seus delicados raios com paixão por todas as direções; o corpo é a centelha do universo. E nessa convergência celestial, vem anunciar a alvorada do coração, que se manifesta primordialmente no sorriso, - aquele sorriso franco que brota espontaneamente dos lábios - atingindo seu ápice na vontade da vida, na vontade de abraçar o mundo.
Assim as notas seguem seu ritmo milagroso. Vamos bebendo com os ouvidos o bálsamo, deixando que a musica tome conta do corpo, transpareça nosso espírito e nos conduza ao nirvana das sensações.
sábado, janeiro 26, 2008
Canção eterna
mansa...
e a dança eterna se desfaça em pranto
pranto...
um canto azul transborde da alma
alma...
e a calma que de longe venha nos saudar
saudar...
e o mar de gotas cálidas se derrame
derrame...
e ame o solitário poeta ao doce luar
luar...
e voar seja o ato mais leve e sublime
sublime
e se elimine toda dúvida do coração.
sexta-feira, janeiro 11, 2008
Mosaico


Segui o caminho que o vento indicoumarcado pelas folhas secas do outono
Guiei-me pelos sóis do firmamento na noite
Minha dor foi minha insônia, meu amor o sono
E a cada repouso descompassado
Reparava em minhas partes
perdidas de outrora
e via muita alegria
muito deslumbramento
via esperança
mas muita dor, sofrimento
angústia e desilusão
Sabia que era preciso fé e dor.
Eu vim de infinitos caminhos
e com cada fragmento
cada momento
alimento
fui juntando
e montando esse mosaico
talvez para parti-lo outra vez
ou simplesmente para pendurá-lo
na parede de um quarto
de uma casa com quintal
numa cidadezinha qualquer.
segunda-feira, janeiro 07, 2008
O peso do mundo
de idéias sacolejantes
não podia concebê-las
na sumariedade de seus conselhos
que vinham de fora
que vinham dos homens
Ele ergueu uma mão
e apontou ao ponto fúlgido
que trespassava a escuridão noturna
que ultrapassava o medo da solidão
dos astros estelares
de outros galáxias.
Ele mostrou as colheitas
que brotavam incólumes
do alto das cordilheiras
do fundo dos vales
das entranhas da terra virgem
nas vastidões do mundo.
Ele sabia que poucos
ouviriam suas parábolas
o peso do mundo
caía sobre os cegos
que não queriam ver
a verdade das coisas.
Ele se foi sem deixar
rastros sobre a areia
do deserto da vida
não sem antes
nos presentear com
a dádiva do amor.
terça-feira, dezembro 18, 2007
Moça
Saindo da água, o corpo luzindo
contra a luz da janela, de fada
teus olhos me vão por inteiro consumindo.
Moça morena bonita e vestida,
Vestido de seda, colar de oceano
enlaça teu pescoço implacável, na vida
ver-te nunca me fora tão desumano.
Moça morena bonita e cheirosa
Passando perfume, o doce olor se esvai
da tua pele sedutora, de rosa
teu aroma lascivo de minha camisa não sai.
Moça morena bonita e contente,
segura em meu braço, ponha o chapéu
que lá fora o sol arde inconseqüente
não mais que a loucura que me leva ao céu.
quinta-feira, dezembro 13, 2007
Pequena parábola para os aparentemente descrentes
Ora, o comerciante não hesitou em abster-se de suas riquezas materiais para recuperar o que lhe era mais valioso. A corja logo desapareceu da região. Relatos afirmam que foram pegos pelos romanos. O mercador e suas esposa continuaram com sua caridade diária, embora não tivessem a mesma riqueza de outrora.
E em verdade vos digo que, em assuntos do coração, a razão não se interpõe.
sábado, novembro 17, 2007
Poema do fim do ensino médio
Extremista
Sistemática
Tirana
Implacável
Brasileira
Unilateral
Limitante
Anti-democrática
Retrógada.
sábado, novembro 10, 2007
Serás (parte II)
Marcados pela solidão,
Tão cheios de espinhos,
São feito moinhos,
Moendo nosso coração.
segunda-feira, novembro 05, 2007
Serás (parte I)
Não tentes viver sem sonhar,
Serás peregrino,
Serás um menino,
Perdido no meio do mar.
quarta-feira, outubro 31, 2007
Jihad
Tivemos de sair de casa rapidamente. Pegamos apenas algumas roupas e algo para comer, pois não sabíamos ainda o quanto teríamos de andar. Ao avistar as ruas de Bagdá, entrei em pânico. O caos havia se instalado.
Eu via as ruínas da minha cidade; a cidade que por toda minha vida só me trazia boas lembranças, agora me levava ao terror. Prédios e casas desmoronados, outros incendiados, ainda sendo consumidos pelo fogo. Eu sentia o cheiro da morte em cada esquina, o cheiro maldito e nauseabundo da morte e do sangue exalado pelos corpos mutilados que jaziam. Ambulâncias circulavam constantemente, embora seus esforços fossem vãos.
Não sabíamos para onde ir. Acompanhamos um grupo de pessoas que, aparentemente como nós, fugiam desse tormento. Vi outras crianças como eu, outros pais como os meus. Todos ainda atônitos e desamparados com o que sucedia.
Perguntei a meu pai a razão para isso. Ele disse que eram os homens do ocidente que nos culpavam por atacá-los e crer em Allah. Eu ainda não entendia aquilo e provavelmente nunca iria entender. Naquele mesmo dia ainda atravessaria a fronteira com o Irã. Pelo menos acreditávamos que nos livraríamos desse perigo. Posteriormente, soube que eles mandaram homens para invadir minha terra. Não voltaria para lá tão cedo.
sexta-feira, outubro 26, 2007
Nas sendas da estação
Chove a chuva numa tarde de verão
janelas nubladas, céu encharcado
mas eu vejo além daquela vidraça
eu vejo a tristeza daquela estação
ris um riso alto em que poderias
mostrar alegria em tua feição
mas vejo além de teus olhos tão claros
eu vejo na extrema tua desolação.
por que haveria de chover hoje?
justo ao ocaso que iria encontrar-te
contar-lhe o que antes tentei esconder
Vou pelas sendas alagadas então
talvez para nunca mais achar-te
talvez por ter perdido meu coração.
sexta-feira, outubro 19, 2007
A flor amarela
a pequena flor amarela
medra muda e sem medo
a uma cruz se anela.
Medra muda no mato
sua origem é um mistério
medra muda e dorme
sobre um velho cemitério.
sexta-feira, setembro 14, 2007
Naftalina
- mas mãe, por que tirar só porque vai anoitecer?
- por causa do sereno.- esfregando as mãos molhadas no avental -
- e o que tem o sereno com as roupas?
- estraga.
- que moço chato! resmunguei irritado
Mamãe riu-se e desatou um tapinha em meu bumbum.
- Vai logo antes que a jante esfrie.
Fui correndo e recolhi as roupas com certa violência, não era minha culpa, era a fome que me cutucava a barriga, sussurando nomes de pratos de comida. Quando voltei tudo era mudado, a casa virou apartamento, o piso da madeira foi à pedra, o cheiro quente de janta foi ao odor requentado de pratos semi-prontos, os móveis antigos que cheiravam à naftalina foram aos designs inovadores e leves, o barulho dos familiares ao silêncio modorrento dos ares-condicionados, só restou o eco de minha mãe da cozinha de minha mente "vem, meu filho, fiz sopa de carne do jeito que você gosta"...
Frêmito
me dilata, expande por dentro, retrocedendo-me aos tempos da criação universal.
Se o grande criador houvesse de descer da imensidão do firmamento e eu, em minha humildade, pudesse perguntar-lhe algo, certamente não perguntaria "por que existimos?" e sim "a paixão é análoga à gênese?", sim, porque nos renasce, revigora, anima. Com que destreza haveria eu de lidar com o desejo, a euforia, o torpor? Com que destino estamos a tomar, senão ao cárcere de uma ilusão? Toma-me, possua-me enquanto ainda possam os lábios meus serem beijados, enquanto possa esse corpo arder em febre de desejo, faze-me sem limites, faze-me simples e assustadoramente teu.
terça-feira, setembro 11, 2007
O mergulho no céu
ao sabor do mar de nuvens
nadando contra a maré de ventos
não há ressacas, não há tormentos,
somente azul, e nuvens e sol
e na imensidão negra da noite
a lua a boiar brilhante como um farol
e o crepúsculo claro, singelo carmim
mergulhemos, mergulhemos
na imensidão sem fim
.
quarta-feira, setembro 05, 2007
Psicologia para vencer
Eu, filho do oxigênio e do carbono
pássaro de escuridão e rutilância,
neste peito não cala mais a ânsia
de percorrer esse mundo sem dono
profundissimamente sem apego
este ambiente me causa epifania
adentra-me à alma ânsia em analogia
ao que sente num jardim florido um cego
já o homem - este escravo das horas
virá pó sem ter sentido, sem demoras
vive, mas deixa a saudade partida.
anda a chorar pelo tempo que perdeu
sem notar ao redor, que resplandeceu
toda calidez orgânica da vida.
domingo, agosto 26, 2007
quinta-feira, agosto 16, 2007
Desejo latente
impelido das entranhas de meu vazio
mas um vazio cheio de esperanças
guardadas delicadamente
em cada pétala desse crisântemo
que dorme latente em meu peito hostil
Agora em todo meu torpor
Não meço, não regulo, não respiro
a flor desabrocha viril
rasgando cada pedaço de dúvida
como se rasga a um delicado fio
sobe com tal graça e fulgor
passa célere entre nuvens altas
transcende o céu em todo o seu anil
Estendo-lhe a mão carinhosamente
e chamo para a ascensão
subiremos lento e deleitosamente
sem medo de cair ao chão
Então eu e tu seremos um
no esplendor de uma constelação.
sexta-feira, agosto 10, 2007
Instinto, primeira parte
"Você não precisa fazer isso...", foi o que seu amigo de infância lhe dizia enquanto arrumava sua trouxa. "Há tudo aqui para se viver em paz", ele lhe encarava com olhos assustados, olhos castanhos profundos e preocupados. Ela por um momento parou com a arrumação, permaneceu assim por instantes e deixou que um sorriso escorresse do canto de sua boca, "é justamente disso que estou fugindo, da paz", e voltou-se para a trouxa.
"Já faz quase dez anos que nos conhecemos e você sempre foi assim, sempre gostou de sair por aí, experimentando coisas novas, mas nunca pensei que chegasse a tal ponto. Eu me lembro de quando nos conhecemos pela primeira vez. Você, tão jovem e bela, com seus longos cabelos pretos, estava a brincar na floresta do oeste subindo nas árvores mais altas. Eu estava voltando de uma pescaria frustrada, e me assustei com tamanha coragem. Então perguntei ' ei, menina, você não tem medo de cair?'. Você, que observava o pôr-do-sol da árvore mais alta respondeu gritando 'e você, não tem medo de não cair?', ainda não entendi bem aquela resposta, mas cada vez mais ia compreendendo, e hoje me parece que compreendi'; temia que isso acontecesse, sua ida, talvez sem volta, mas agora desejo-te toda a sorte desse vasto mundo em sua busca", terminado o desabafo ele se sentou, parecia ainda atordoado com tudo que acontecia, um homem acostumado com a vida pacata de seu vilarejo, recolheu-se em sua resignação; ela, que havia terminado de arrumar a trouxa, não deixava de confessar seu espanto pela declaração em sua boca aberta, seus olhos marejados da pró-saudade que estava dando à luz. E sem mais declarações, eles se abraçaram forte e deixaram que o silêncio falasse pelos dois.
Era na calada da noite que ela iria fugir, não porque todos os que fugiam de seus lares fugissem de noite, ou porque era mais bonito e romântico, mas porque seus pais e o resto do vilarejo fechavam profundamente os olhos naquele período; como pássaros empoleirados em seus galhos. Ela passou pelos corredores da casa e entreabriu a porta de um quarto. Seus pais dormiam. A janela do aposento estava aberta de tal modo que o luar podia penetrar e clarear levemente o breu, sobre uma cama simples dormiam dois bem-te-vis abraçados, pareciam tão felizes, sorrisos brandos estampados nas faces dormentes; ela lamentou ter de fazer aquilo com eles, mas não podia evitar. Pediu a bênção deles silenciosamente e agradeceu por tudo feito até aquele dia, a partir dele, seria por conta dela.
A lua boiava plena e impassível no céu, não havia quaisquer resquícios de nuvens, mensageiras celestes. O cricrilo dos grilos e o piado pesaroso dos sem-fim serenavam. Ela seguia firme e resoluta pelas sendas noturnas, certa de que estava fazendo a coisa certa. Haveria de descobrir os mistérios guardados somente para os bem-aventurados, o destino lhe era mais formidável a partir do momento em que seguia a trilha com seus próprios pés. Ela podia sentir a magia emanada da natureza, cada ser, em sua pequenez e aparente insignificância, formava junto com todos os outros a harmonia perfeita e inefável da existência.
Após certo tempo de caminhada, ela encontrou um regato a meio caminho da estrada; suas águas cristalinas reluziam ao luar, num brilho calmo e convidativo. Ela se debruçou sobre suas margens e bebeu um pouco da água, lavou seu rosto, sentindo o frescor da água, naquele momento lembrou de sua infãncia, quando sua mãe lhe banhava nas águas do riacho grande, e ao mesmo tempo lavava as roupas; como num ato sagrado, amaciava carinhosamente a esponja sobre sua pele, não era somente a sujeira que escorria rio abaixo, era toda dor e sofrimento, aquele banho lavava-lhe a alma; que agora se fora, o tempo lhe escorreu dos dedos como areia fina, restando apenas o pó dos bons momentos.
Foi quando ela se levantou das margens para retomar a caminhada que deparou com uma velha horrível, que lhe estendia as mãos calejadas e raquíticas, como se quisesse que ela retribuísse, e foi o que ela fez, mesmo ainda um pouco assustada, ainda que a velha, com seus olhos esbugalhados, verrugas protuberantes e boca ausente de dentes parecesse uma bruxa de contos antigos, sentia que ela não lhe queria mal. A velha vasculhou cautelosamente cada pedaço da mão direita dela com seus olhos horrendos, depois encarou-a, e disse "és a égua parida do vento, tua sina é viver, cuidado com os olhos vermelhos e os sorrisos de mar", terminado o vaticínio, a velha pediu a retribuição; a moça não havia trazido muito dinheiro, mas ainda guardava consigo um amuleto, presente de sua mãe, que lhe disse quando dado que espantava maus espíritos, espantando ou não ela o deu a velha, que se foi tão misteriosamente quanto veio.
Já era tarde e ela estava cansada, caminhava por horas, seus olhos pesavam, seus pés se arrastavam sobre a terra do caminho. O que ela não daria por uma pousada. E, como se os deuses houvessem escutado seu clamor interno, ela pôde avistar uma fraca luz na extrema do horizonte, mas suficiente para lhe reacender a esperança. Acelerou os passos com algum esforço e ao se aproximar, percebeu que era de fato uma pousada, ainda aberta. Entrou sem delongas. Dentro, uma sala com algumas mesas e cadeiras, e um balcão indicavam que o local era um misto de pousada e bar; o dono, que parecia ser o homem detrás do balcão, era um senhor de poucos cabelos, com um avental sujo e desgastado; sorria com sua boca desdentada para a viajante.
No curto intervalo em que ela se dirigia ao balcão, algo lhe tirou a atenção, fê-la temer por dentro. Um homem, sentado num canto da sala, cuja mesa estava abarrotada de garrafas vazias de bebida encarava-a maliciosamente, usava um longo chapéu de abas e seus olhos faíscavam contra a fraca luz que iluminava o recinto, era um brilho vermelho e fatídico. Ela se recompôs tão tápido quanto se assustou e falou ao dono da pousada "você tem quartos disponíveis?"; "claro, principalmente para uma jovem tão bela quanto tu".
sexta-feira, julho 27, 2007
- Estamos indo sempre em casa, Raduan em Lavoura Arcaica.
terça-feira, julho 24, 2007
The choice
the loner
the doomed
the unraveler
my last redemption
was born in the power
of forgiveness
I lost the reins of time
throughout the ball
I chose the mastery of love
without frontiers
without dogmas
I chose to venture out
Following the wind
looking for the sun
Running to the moon
I chose the mistery
the sighs
the silences
I chose you.
domingo, julho 22, 2007
Song of freedom
with spread wings
a free bird with some
heartbeats which sings
the eternal song
of the ephemeral things.
sexta-feira, julho 20, 2007
Os sete pecados: 7ª parte
o mergulho no ócio e no prazer
a morosidade incontida
a vontade anêmica de ser.
terça-feira, julho 17, 2007
Os sete pecados: 6ª parte
o fogo eterna da tentação
que alimenta os amantes
o desejo lascivo, a sensação.
domingo, julho 15, 2007
Os sete pecados: 5ª parte
os que não têm ou que não são,
o olhar furtivo para os lados,
que amarga assaz o coração.
sexta-feira, julho 13, 2007
Os sete pecados: 4ª parte
dos que desejam a exaltação,
pelos bens, poder e companhia,
dos que são dignos de admiração.
quinta-feira, julho 12, 2007
Os sete pecados: 3ª parte
o ímpeto que célere corre,
pelas veias dos que fazem guerra,
que se destila naquele que morre.
terça-feira, julho 10, 2007
Os sete pecados: 2ª parte
que almeja proteger o que se tem,
sobre o espírito, o palpável.
Aquilo que na terra se mantém.
Os sete pecados: 1ª parte
que devora, devora e não se cansa,
a vontade que não se apraz,
enquanto a fome não se faça mansa.
Apresentação
esse pranto inacabado,
essa saudade cativa,
esse riso sufocado,
essa tristeza viva.
Este és tu,
esse canto melancólico,
essa carta de alforria,
esse mar tão bucólico,
que se faz em poesia...
sexta-feira, julho 06, 2007
Os sete pecados.
No ritmo dissoluto
da valsa.
.
segunda-feira, junho 11, 2007
com que destreza
- Quem és tu, jovem guria? - pergunta o moço de terno e boina de algodão.
- Eu? Dinorah - a moçoila abriu um sorriso largo ao ser interpelada em seus afazeres.
- Estou impressionado com a leveza com que realiza seu trabalho. Parece-me que flutua!
- oh - e ri-se toda, desconcertada - Bem, não havia percebido ainda, mas talvez seja verdade mesmo; gosto de ser como a brisa da manhã. Quando acordo, abro a janela da casa pra senti-la me acariciar o rosto, é aconchegante.
O moço permanecia fitando-lhe com semblante enervado, parecia aturdido.
- Perdão?
- Oh! Tu me falavas! - e tira a boina em sinal de desculpas. - É que estava a lembrar-me da brisa do campo, donde nasci. Ela repara em seus belos cabelos loiros.
- E moraste no campo? Mas que maravilha, decerto conheces os segredos que o mato compartilha com os que o desbravam!
- Não diria segredos, basta manter o coração aberto... é, o coração aberto. - e cai em devaneios.
- Não nasci no campo, mas sempre quis ser dele; sonho com nuvens em carretéis, cheiro de mato molhado, canto de pássaro ao ocaso, o silêncio
breve da natureza.
- Foge comigo. - e estende-lhe o braço, convicto.
Ela soltou um riso, daqueles sem graça, que dizem "ótima anedota!"; mas percebeu que ele a olhava fixamente, podia ver através de seus olhos o azul dos rios, a translucidez dos lagos e a imensidão dos céus; viu a verdade transpassada em si e sentiu medo, por instantes, era tão intensa. Pensou em tudo que tinha, que havia conseguido com esforço, na família que não lhe correspondia, nos amigos que desmarcavam encontros. E segurou-se firmemente ao braço estendido.
Ele era de fato um estranho, mas no fundo ela sabia que o melhor estava para vir a acontecer.
E fugiram para longe, onde ela pudesse voar de leveza, e ele transbordar de amor.
sábado, junho 02, 2007
E a grama cresce
arruma móvel, sacode a poeira, planta a grama
trabalho novo, cidade grande, perto do mar
final de tarde, brisa mansa, céu que se inflama.
Primeira vista, namoro vindo, coração quente,
A grama cresce; cortada é,
Noivado, casamento e no ventre a semente,
Pais se foram, papa novo, renovada fé.
Carro velho, tempo desgasta, não só a lataria
a grama cresce; cortada foi,
herdeiros crescidos, planos cortados, sem ave-maria,
conta de luz, carnê de escola, trabalhando feito boi.
Vinis no sótão, vitrola no armário, nova geração,
a grama cresce; cortada será,
chuva que cai, vento que bate, reforma de verão,
no meio da noite, lua boiando, um sonho ainda aqui, outro acolá.
Cabelos brancos, fim de trabalho, começo do fim,
a grama cresce; cortada é
medo da morte, história pros netos, no céus o serafim,
nostalgia, saudade cativa, nas lembranças marcha ré.
Noite dormida, silenciosa, alma ascendida,
a grama cresce, não foi cortada,
e continua a jornada dessa vida
e as gramas com histórias a ser contadas.
quinta-feira, maio 24, 2007
Sogidóc
Navegaste sobre os pélagos de mim
desbravando tempestades e tormentas
Caminhaste pelos desertos sem fim
de minha alma que te alimenta.
Entregaste-me ainda cálido teu amor
para aquecer meu corpo frio
para me alegrar onde quer que eu for
és tão completo e eu tão vazio!
Sei que continuas a cantar
e procuras entender-me
como as palavras de tua canção
mas o que não percebes
é que no fundo és tu
a pedra de roseta do meu coração.
domingo, maio 20, 2007
Eu
Entre um semitom e outro
em cada silêncio breve
em mudas surdas não de borboleta
do vôo leve
mas de bem-te-vi
sorrindo na multidão
chorando por estar ali
eu sei que você me entende
eu sei que os outros me irão...
Cansei
"Não chores, meu filho;
Não chores,
que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
que os fracos abate,
Que os fortes,
os bravos,
só pode exaltar."
- Gonçalves Dias
quarta-feira, maio 16, 2007
Silêncio
Fujo da sina do agora,
Do breu que me segue distante,
Fujo do raiar da aurora,
Da luz que persiste incessante.
Sou fruto da morbidez do ritmo,
Sou a melodia caótica do nada,
Sou a reflexão profunda do ouvir,
A lentidão ademais realçada.
Sou a derradeira palavra,
Que vale por mil pronunciadas,
Sou a infeliz afirmação,
De perguntas que não querem ser caladas.
Sou o momento nostálgico,
Que lamenta ter havido o passado,
Sou o presságio pesaroso,
Que se entristece por haver o fado.
Sou a gênese do universo,
Que precede as transformações,
Não sou nenhuma filosofia,
Mas presencio todas as questões.
Sou o intervalo inerente à coerência,
Entre as palavras estou presente
sou a inexorável latência
que ressoa eternamente.
Sou a conversa dos tímidos,
Que é na lentidão das horas um escudo,
Sou, enfim, simplesmente o silêncio,
Que se antepõe ao nada e se curva ao tudo.
terça-feira, maio 15, 2007
As nuvens
Foi quando o menino saiu de casa para ir à escola. Era pra ser a mesma costumeira ida, as mesmas ruas, mesmas casas e prédios. Mas ele olhou pro céu. E pôde avistar, protegendo os olhos do sol, as dádivas efêmeras em seu ritmo rápido e lento (tão devagar aqui, e num piscar de olhos, já estão acolá). Sim, dádivas efêmeras da natureza, feito flocos de algodão doce a flutuar no firmamento. Alvíssimas. O menino via um coelho, não não, um coiote, mas pera, não seria uma baleia? Tantas formas faziam a imaginação da criança ruflar as asas de excitação.As nuvens o transportavam, faziam-lhe ascender lento com o seu passar, então ele voava feito colibri. Elas carregavam seus sonhos, desejos e esperanças para outras terras, não só os dele, de todos que depositavam seus olhares tenros nelas, e assim, saturadas de sonhos elas choviam, e a chuva fecundava a terra, que fazia brotar os sonhos materializados em flores; e também da chuva, os sonhos se juntavam em rios que desaguavam no mar... que é de todo resto. Foi então que o menino despertou do sonho acordado, e percebeu que era um homem, mas o menino que gosta das nuvens sempre estaria pulsando vivo em seu interior.
quinta-feira, maio 10, 2007
Pour Elis
Ela dedilha em cada tom
o ritmo da matilha
semitons lupinos
vorazes devoram a vida
dos que ouvem
e renovam
em cada semibreve
não tão breves
para não ressoarem
em nossas almas
pra sempre
sempre eles
sempre elis.
quarta-feira, maio 09, 2007
Ciclo etéreo
em cada palavra
transborda calor.
E cada gota de sangue
desse poema
precipita amor.
E de todo mar que é resto
evapora, condensa, frutifica
toda minha flor.
terça-feira, maio 08, 2007
O papa chega
Vossa Santidade é muito bondosa
beija lento e suavemente o chão
abençoando os viventes daquela pátria
todos exaltam aquela figura unânime
mas quando as câmeras não o filmam mais
amaldiçoa os homossexuais e infiéis daquele mundo
e limpa a boca com seu manto santíssimo
por que uma santidade beijaria um chão contaminado?
o papa chega
e arrasta consigo legiões pelas ruas e avenidas
legiões de almas carentes e desencontradas
e prega a existência de um senhor onipotente e salvador
e pede que todos paguem seu dízimo em dia
para ajudar as pessoas miseráveis, dizia
para encher o estômago do clero, pensava
O papa chega
e se vai após certos dias
levando mais almas para o inferno da ilusão.
quinta-feira, maio 03, 2007
Em que nevou
Nevou.
Neve forte, intensa, fria.
Se fosse em qualquer outro,
Ninguém se espantaria,
No mais,
Haveria um comentário rotineiro ,
Do vendedor de sorvete.
Mas é que nas previsões de ontem,
A moça do noticiário disse que ia,
Fazer o dia mais ensolarado do ano.
Os pais que assistiram logo avisaram aos filhos,
Do passeio que fariam no parque.
As mocinhas não perderam tempo,
E combinaram seus encontros amorosos.
Os velhos ia preparando suas roupas de caminhada.
Os vários corações se alvoroçavam do calor,
Que viria a fazer,
E não veio.
O que a moça do noticiário,
Os pais,
Os filhos,
As mocinha,
E os velhos não sabiam,
Era que a neve ,
Era o pranto ,
De um coração,
Que congelou.
quarta-feira, abril 18, 2007
sábado, abril 14, 2007
O segredo
De súbito passa a mansa brisa,
as folhas farfalham agitadiças,
a ave silencia solene
e apenas escuta
então rufla as asas
desliza célere do galho
e voa a outras terras
segredando aos outros seres,
o que soube das folhas
sabido da brisa, conhecido do mar
vindo do seio da terra
E o segredo que jamais é revelado aos homens
é transpassado a cada momento,
Em todos os lugares...
quarta-feira, abril 11, 2007
Então certo
mas tão breve e fugaz,
que verás que fui eterno.
Eternamente breve,
brevemente eterno,
em declarar o meu
tão eterno e breve
amor por você.
sábado, abril 07, 2007
Cântico
Não dividas a Terra.
Não dividas o Céu.
Não arranques pedaços ao mar.
Não queiras ter.
Nasce bem alto,
Que as coisas todas serão tuas.
Que alcançarás todos os horizontes.
Que o teu olhar, estando em toda parte
Te ponha em tudo,
Como Deus."
- Cecília Meireles, como sempre ela.
quarta-feira, março 28, 2007
urgente, urgentíssimo
quando os desertos tomaram mais de um terço dos continentes
não havia mais verde
não havia mais gorjeios
não havia mais águas cristalinas,
só tristeza e desolação
que os dirigentes internacionais se reuniram
numa reunião urgente, urgentíssima
o presidente da nação mais poderosa, senhor bucho, pronunciou-se
- algo deve ser feito, voltemos em dois anos para decidir o que fazer...
e a reunião termina tão urgente quanto começou.
domingo, março 11, 2007
O vôo
E de repente, a aceleração da nave, a sensação de inércia pesada sobre o corpo; a adrenalina infestando seus efeitos, em reações quase que instantâneas, inflamando nosso peito arfante de admiração. Era notável a angulação feita pela subida. Ao mirar abaixo, as casas, ruas e prédios iam diminuindo, diminuiiindo, e proporcionalmente ia crescendo a maestria da natureza, da Terra como um todo. A esfera terrestre ia se revelando, a atmosfera sendo desbravada como os navegantes antigos faziam por sobre os mares.
E na extrema do horizonte, relâmpagos podiam ser vistos do ponto de onde se originavam, numa emissão impetuosa e indescritível de luz, que fazia revelar todos os contornos das nuvens que antes eram escondidos pela noite. Era a fúria da natureza, frágil e brutal. Tal era a magnitude do espetáculo, que a parte humana foi completamente esquecida, desprezada, tornava-se ínfima quando comparada ao universo.
A lua boiava plena, serena, assistindo a todos em seu trajeto lento. O que importava era o agora, o vôo, a explosão de sensações que nos sacudia feito um chocalho, o fascínio pela natureza era o que nos movia e ainda move, sacramentando, assim, nosso declarado amor pela vida.
sexta-feira, março 09, 2007
Life's unfair
I realize I can't reach what I wanted
It may flood a river in my heart,
it may make me just a fool,
But I'll be far away till that one
till that one try to come to me...
sábado, fevereiro 24, 2007
Na noite
Preto-e-branco,
branco-e-preto,
movimento,
rápido
e leeento
ritmo,
calor,
dança,
chão
teto,
som,
tuntz, tuntz, tuntz
prazer,
sinestesia
alegria
efemêro
o baile
sempre.
sábado, fevereiro 17, 2007
Verdade
sábado, fevereiro 10, 2007
Eu
O infinito do beija-flor.
A onda inconstante do mar,
que serpeia revoluta,
e beija voraz a mansa areia.
O rugido do trovão,
que imperante se impõe,
na tempestade da vida.
haverá os que me odeiam,
a ponto de desejarem,
minha ida sem volta.
haverá os que me amam,
a ponto de me adorarem,
como a um deus.
havendo ou não havendo,
com riso, fé e dor,
sou o paralaxe da existência,
o infinito do beija-flor.
domingo, fevereiro 04, 2007
A segunda tentação
Foi então que o diabo conduziu-o à Cidadela Santa, no alto do Templo. Ainda era dia e o sol era abrasador. Como a areia e barro das construções eram claros, a reflexão da luz ardia nos olhos de quem se atrevia a ver o horizonte. Contudo, misteriosamente nuvens cobriram a semi-esfera celeste por completo, havia somente treva. Jesus podia avistar pessoas embaixo, algumas confusas, outras clamando por luz e outras continuando suas vidas absortas em viver. Ele olhava em derredor e via o quanto ainda tinha de fazer, a sua missão ainda estava para ser completa.
O diabo encarava Jesus fixamente, com olhos de malícia e frialdade, sabia que se conseguisse levar o Filho de Deus para o seu lado, o mal seria semeado tão célere quanto a luz que se espalha sobre as planícies na alvorada. Era preciso saber convencer, tentar... Foi então que o diabo foi até à beira do alto do templo, e indicou a Jesus que também o fizesse, e ele o fez.
O templo era realmente alto, as pessoas pareciam pequeninas e o vento era forte. Jesus sentiu vertigens ao olhar para baixo. Imaginou-se por momentos se ele caísse, o que haveria de ser. Também se perguntou no que o diabo poderia estar tramando e quando ergueu a mão para perguntar, foi interpelado pelas palavras secas do anjo caído:
- Se és o Filho de Deus- e menciona o nome Dele com desdém - lança-te daqui abaixo; porque está escrito: aos seus Anjos dará ordens ao teu respeito, e; eles te sustentarão nas suas mãos, para que nunca tropeces em alguma pedra.
E aponta para o abismo; nesse momento, o vento fica mais forte. Jesus não temia a morte, sabia muito bem que ela é inerente ao ser e é a passagem; além do que compreendia as escrituras e replica:
- Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus.
E dá um passo para trás, demonstrando que negaria a ordem do diabo, esse por sua vez, entra em fúria de novo e se prepara para a última tentação, sua última chance de ter o Filho de Deus como servo.
e de repente isto
e me desvencilhava do meu conto de fadas
o sorriso perdia-se em dor
ilusão caída feito cortina
e eu via os desprazeres
misérias
gritos roucos
não tão distantes que
não pudesse tê-los ouvido antes
e súbito
me calo, me faço mudo
e retorno às ilusões mediocridade
onde busco no final da estradinha
a vã chegada da felicidade
de repente não mais que de repente.
quinta-feira, fevereiro 01, 2007
Testamento
recente falecido,
deixou uma carta de testamento,
sobre o móvel da sala encardido,
antes de se ir.
o que se leu na carta,
encontra-se aqui:
"para minha esposa e filhos deixo,
a saudade, os sonhos e amor,
ah, já ia me esquecendo, que desleixo,
também a casa e outros bens,
mas esses serão consumidos,
pelo tempo,
os primeiros não são palpáveis ,
mas quando chegar a hora de cada um,
verão que valerão mais,
que toda riqueza e glória desse mundo."
a carta foi lida,
e enterrada junto com o autor.
os bens foram divididos,
a casa foi alugada,
mas o filho mais novo ainda lembra,
que o que vale é o amor.
terça-feira, janeiro 30, 2007
O teu riso
o teu riso tão claro,
o teu riso tão doce,
tão dissimulado,
perdido,
desmascarado,
e jogado,
sem querer.
o teu riso tão triste,
que ninguém resiste,
o teu riso de dor,
a dor que consome ,
a dor que gera,
a dor da fome,
dor que procria,
dor sem alento,
sem ave-maria,
é o alimento,
tormento,
encantamento,
do teu viver.
O teu riso de pranto
espelho da alma,
o teu riso de brisa,
que te liberta,
que te exorciza,
que te enxerta,
no meu ser.
O teu riso profano,
preto-no-branco,
o teu riso mundano,
sem resposta minha,
porque tinha,
sim, porque tinha,
medo,
de me perder.
domingo, janeiro 28, 2007
Mas tu me falavas!
refletir na íris do teu sorrir
sentia teu aroma de orvalho
sorvia-o lento e em deleite,
para não se ir.
Eu sentia teu pulsar sangüíneo,
arder nas artérias do meu coração
Remia meus desejos latentes
nas linhas descontínuas da tua mão
Eu ouvia a sonata da tuas palavras
desfazerem meu mundo de desolação.
Eu era o tudo e o nada
o átomo e o universo
o alfa e o ômega
o ser e o não-ser
o aquém e o além.
Bastava apenas
que me deixasses
num meneio
num bom dia
num porém
mas tu me falavas!
quarta-feira, janeiro 24, 2007
L'amour parfait
envolvente e soberano como o sol,
misterioso como o crepúsculo
infinito como o universo,
solene como o silêncio,
intenso como a maré,
liberto como o vento,
amplo como o céu,
como a aurora,
outrora,
agora,
será,
ele....
domingo, janeiro 21, 2007
O baile todo
A música já havia começado,
E cada um já seguia no seu próprio ritmo,
Os acordes, as notas ecoavam,
Risos soltos, sorrisos bobos,
Não era preciso dança,
Para o baile começar.
Tudo convergia na harmonia do compasso,
Era o um e não os vários que bailavam,
Tudo ao mesmo tempo divergia,
Paradoxo desconexo repentino,
Cada um era seu próprio par.
O tempo comandava a melodia,
Os sentimentos explodiam no salão,
O acaso acompanhava os convidados,
E sentada num canto, sorrindo amargamente, a solidão.
Há sempre o passo dado errado.
Há sempre o momento de reflexão.
Sempre o descompasso da incerteza,
Sempre, mas a certeza
O baile todo
.
sexta-feira, janeiro 19, 2007
A segunda tentação
O diabo encarava Jesus fixamente, com olhos de malícia e frialdade, sabia que se conseguisse levar o Filho de Deus para o seu lado, o mal seria semeado tão célere quanto a luz que se espalha sobre as planícies na alvorada. Era preciso saber convencer, tentar...
Foi então que o diabo foi até à beira do alto do templo, e indicou a Jesus que também o fizesse, e ele o fez. O templo era realmente alto, as pessoas pareciam pequeninas e o vento era forte. Jesus sentiu vertigens ao olhar para baixo. Imaginou-se por momentos se ele caísse, o que haveria de ser. Também se perguntou no que o diabo poderia estar tramando e quando ergueu a mão para perguntar, foi interpelado pelas palavras secas do anjo caído:
- Se és o Filho de Deus- e menciona o nome Dele com desdém - lança-te daqui abaixo; porque está escrito: aos seus Anjos dará ordens ao teu respeito, e; eles te sustentarão nas suas mãos, para que nunca tropeces em alguma pedra.
E aponta para o abismo; nesse momento, o vento fica mais forte. Jesus não temia a morte, sabia muito bem que ela é inerente ao ser e é a passagem; além do que sabia muito bem das escrituras e revida:
- Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus.
E dá um passo para trás, demonstrando que negaria a ordem do diabo, esse por sua vez, entra em fúria de novo e se prepara para a última tentação, sua última chance de ter o Filho de Deus como servo.
quarta-feira, janeiro 17, 2007
Bem vinda ao país das maravilhas!
E ela desatou a cantar,
Cantar pelas veredas,
Veredas desse mundo,
Sem medo de soltar,
Soltar um dó, ré, mi, sol, fá,
E um si bemol profundo...
E a cada nota solta,
Um carrossel de sensações,
Se espalhava, escoava, misturava,
à vida dos transeuntes,
Explosão de ocasos,
Profusão de Auroras,
Carretel de cores...
Ninguém,
Ninguém sabia como ela o fazia,
fazia melodia, sorriso, sinestesia,
mas que era bonito,
ah, isso era...
sábado, janeiro 13, 2007
A tentação de Cristo
Ao longo da estada, várias dúvidas atormentaram-lhe o espírito. Mesmo que não quisesse, dentro dele ainda surgiam perguntas que o faziam duvidar de seu verdadeiro objetivo naquela existência. Era tanta dor e sofrimento, poderia mesmo ele alcançar o esclarecimento através disso? As noites frias, a insegurança dos animais que poderiam lhe atacar serviam de acréscimo extra para as incertezas.
Havia ainda tanto para aprender, e ele sabia que era por meio do sofrimento que iria alcançar o que queria, seria sua paixão. Isso aliviava-lhe a alma; e o corpo se tornava apenas um instrumento do divino. Era possível esquecer-se da dor por completo, uma vez que ela está vinculada ao físico, não ao espiritual. Jesus estava sob a égide da fé, e isso ele tinha ao extremo.
E foi enquanto ele caminhava ao sol, que o céu se torna repentino escuro, nuvens vindas de não se sabe onde escondem o astro rei. Forte ventania também vem, carregando consigo a areia; Jesus protege os olhos e avista, ao longe, um vulto se aproximando. Ele sente a presença maligna em derredor e prepara seu coração para o que viria a enfrentar, sabia que aquilo era preciso, nada é por acaso, nada.
De súbito, cessa a ventania, e as nuvens desaparecem. Já era possível distinguir o vulto, um homem, aparentemente comum, mas com um semblante duro e frio, não havia compaixão em seu olhar, apenas ódio e prazer. Era o diabo.
- Eis o filho de Deus - e sorri maliciosamente.
Jesus apenas encara-o placidamente.
- Não te pronuncias a mim? Não me temas. Posso vir a ser seu mestre, se quiseres. Há tanto para aprenderes... caminhemos.
O diabo conduziu Jesus a uma trilha sinuosa, este já estava cansado de tanto vagar pelo deserto, e o diabo caminhava depressa, fazendo com que ele apressasse o passo. Andaram por muito tempo, Jesus demonstrava cansaço, estava à beira da exaustão, também a fome assolava-lhe. Não havia nada comestível pelo deserto. E então, o diabo fez sinal que parasse:
- Se tu és o filho de Deus, manda que estas pedras se tornem em pães.
E aponta para um amontoado de pedras perto de um rochedo. Naquele momento não havia dúvidas no coração de Jesus:
- Está escrito: Não só de pão viverá o homem, mas da palavra de Deus.
O diabo rangeu os dentes de fúria e bateu furiosamente contra o rochedo, esmagando-o completamente.
segunda-feira, janeiro 08, 2007
A mãe
- O verbo
A pobre mulher estava em prantos. Desespero seria o maior eufemismo para o que ela passava; a dor de uma mãe é lancinante e cruel. Ela não chorava mais, a fonte secou. As janelas da alma se fecharam para sempre, ela havia morrido a partir do momento em que o filho partiu. Saiu de casa descontrolada, ia se agarrar ao que ainda lhe fornecia esperança, a fé. A fé que dizem que movem montanhas era no que ela cria fervorosamente naquela hora.
Chega à igreja, que estava vazia por sinal. No interior, centenas de velas acesas forneciam uma iluminação parca. Centenas de pedidos de outras vidas sofridas; agora mais um era feito pela mãe. Ajoelha-se diante da imagem dos santos, fecha os olhos, une as mãos e inicia o rito. Tenta rezar a prece ensinada desde tempos imemoriais. Contudo, ao orar, ela sente o vazio saindo das palavras, sente o quão vã era a prece. Apenas repetia versos compassadamente. Abre os olhos e visa as imagens no altar, percebe que nada daquilo era verdadeiro e sente um profundo pesar. Ela está nua, vazia e desolada. "Nada disso me é útil porque não vem do coração"- pensa a pobre mãe.
"Eloí, Eloí, lamá, sabactâni?" - grita, e os ecos reverberam pelo templo vazio, como se fosse as súplicas dos outros que sentiram o mesmo que ela.
"Talvez não seja aqui, nem com essas palavras. Perdoa-me."
Estava exausta, nem sabia daonde havia tirado forças para sair de casa. E no chão frio da igreja ela adormece, ali mesmo. E pelo menos no sonho ela pôde conversar com Ele e sentir que não era vã a palavra fé.
domingo, dezembro 31, 2006
Paixão: segunda parte
E era na luz que ele pensava enquanto estava cercado pelo breu. A partir do que não se transmitia na sua íris, porque não há luz, uma série de sentimentos primários invadiam-lhe a mente. Daqueles que os humanos consideram instintivos, tais como medo, insegurança e ansiedade. Ele se sentiu regredido aos homens primatas que, ao se encontrarem no escuro, desenvolvia mecanismos de auto-defesa irracionais. Era lutar ou morrer o código que se passava no subconsciente e se espalhava pelo corpo.
Escuridão e silêncio reinavam soberanos. O silêncio corroendo-lhe a mente, a escuridão ofuscando-lhe a alma. Foi então que ele começou a se questionar, "o que faço aqui?", "como fui parar aqui?", "Aonde isso dá?"... e as perguntas se multiplicavam a tal ponto que ele teve que entoá-los como numa canção para livrar-se do silêncio que incitava a mente. Era como se ele tivesse despertado alguém, ou algo no meio do breu. Ele não pôde ver quem era, mas alguma coisa se inquietou e fê-lo calar, como se uma mão tapasse-lhe suavamente a boca, pedindo novamente o silêncio.
Ele parou de falar e imediatamente ouviu uma voz, vinda de todos os lados: "eu e você; nós e você. Eu, você e nós somos um." De repente, uma centelha de luz surge, muito tênue, mas suficiente para iluminar o lugar. Ele se viu não mais em cima da cama, mas flutuando sobre o que seria o... nada? Sim, era indescritível, havia algo: o nada. Ele se aproximou da centelha de luz. Observou que ela pulsava compassadamente, como um coração, o coração do universo.
Estava atônito, maravilhado com o que via. A luz era hipnoticamente bela, sua beleza singular era suave, acalmava. Foi então que ele quis, num ímpeto, tocá-la, aproximou o dedo e quando pensou que havia tocado, foi impelido fortemente para trás. A luz pulsava gradativamente com mais intensidade, ele não conseguia mais vê-la, tinha que proteger os olhos para não ficar cego. A pulsação pára de súbito, freme levemente, e explode. Uma gigantesca explosão, de proporções incomensuráveis. Ele pensou ter morrido com tal Big Bang, mas não, nada afetou-lhe. Era como se ele fosse um expectador.
Agora ele flutuava entre gás e pó, pó e gás. A voz falava-lhe novamente:
- Vês? A gênese. Os humanos pensam que podem calcular o tempo, o tempo exato de quando Isto surgiu, mas nada sabem e nada continuarão a saber. Há findos caminhos entre o ser e o vir a ser.
- O que é você?
- Eu sou você. Somos o alfa e o ômega.
- Não estou te entendendo perfeitamente, mas no fundo eu sinto que te compreendo. Eu procuro algo.
- É preciso fé... fé e dor.
- Não há outra maneira? Você sabe o que procuro?
- Todos procuram, mas não sabem que procuram e o quê procuram.
- Estou disposto a tudo agora que estou aqui!
- Fecha teus olhos e abra os verdadeiros. Encontraremo-nos outra vez, lembra-te: somos o alfa e o ômega.
Ele fecha os olhos e procura se concentrar no que a voz lhe disse. Ele era o alfa e o ômega, o princípio e o fim. Ele deixa a energia que sentia a sua volta fluir em seu interior, como num rio, o rio escava vales e abre lugares, os olhos da alma. Ele os abre e se vê num outro lugar, no topo de uma montanha, muita alta por sinal. Ao redor só há neblina, impossível de se saber o que rodeava o pico. A parte do topo era praticamente plana e um caminho conduzia até um templo branco, todo de mármore. Daqueles de colunas altas, feito templo grego. Alguém o esperava à porta do templo, vestia vestes tão brancas quanto o mármore da construção. Era um homem. Esse sorria e dirigiu-se a ele:
- Bons ventos o trazem.
- Quem és tu? - e se espantou com a formalidade da pergunta.
- Sou o profeta.
- O que queres de mim? - pergunta com veemência.
- Precisas aprender a formular melhor tuas perguntas, elas são decisivas para as respostas. - responde o profeta, analisando a pessoa dele.
- O que temos um ao outro?
- Guiar-te-ei até a estrela se pôr.
- Que estrela? - procurando alguma no céu.
- Não é dessas presas ao firmamento, é dessas. - e aponta para o alto do templo. Uma estranha luz arde e brilha placidamente.
- O que é esse templo?
- Um dos cinco templos que terás de conhecer. Esse é o templo da luz, como vês a estrela em sua parte de cima.
- O que devo eu fazer?
- Conhecer-te a ti mesmo.
- Mas nos templos?
- Ao final de cada um, haverá um selo, os selos da verdade.
- Calma aí, que história é essa de selos, templos e caminhos? É muito informação ao mesmo tempo, estou confuso! - pergunta estendendo os braços.
- Estás aqui, entre outras, porque tens a mente e coração abertos. Não totalmente moldáveis, mas aptos a mudanças, o que te faz diferente dos demais.
Ele reflete um pouco sobre as palavras do profeta, meneia a cabeça e diz:
- Tem razão. Por mais que tudo esteja sendo e acontecendo tão rápido, não estou muito preocupado com o que se passará.
- Continuando, os selos da verdade são poderosos artefatos. Criados nos primórdios pela Grande Deusa para o esclarecimento da verdade, foram alvo de cobiça e ambição de grandes homens. Eis aí o motivo de a Grande Deusa tê-los removido do teu mundo e conduzido-os para cá. Contudo, mesmo aqui ainda precisam ser protegidos.
- Você quer dizer que eu enfrentarei algo?
- Certamente. - expressando um sorriso enigmático - É preciso fé, fé e dor.
- Será a paixão, o medo e amor.
- Nem precisei continuar. Compreendes por que foste escolhido?
- Começo a saber que sim. - sorri envergonhado.
- Venha. - e indicou-lhe o caminho que conduzia ao interior do templo.
A entrada do templo revelou um grande salão interno circular, com outra entrada que levava a um corredor. no centro da sala, havia a figura da estrela que fulgurava sobre o templo. Tudo era muito claro e limpo, transmitindo paz aos presentes. Do corredor, ruídos estranhos vinham. Não era bem ruídos, porque eram harmônicos, mas ele nunca havia escutado semelhante som.
- Que som é esse?
- A voz do avatar.
- Avatar?
O profeta riu-se.
- Sim, os enviados do céu para protegerem os selos.
- Hummm. E o que essas criaturas fazem?
- Saberás em tempo. - sorrindo pacificamente.
Ele dirigi-se ao interior do templo, quando o profeta lhe interpela:
- Espera, não lhe disse tudo. Tenha fé para passar pelos templos, meu caro.
- Fé e dor....
- Exato, passarás duras provações. Nada é tão fácil quanto imaginas.
- Eu irei, meu caro.
- Vai-te e encontra teu caminho, homem.
- Que assim seja.
E ele seguiu o caminho que o conduzia ao interior do templo. Logicamente não sabia o que viria a encontrar, muito menos o que enfrentaria. Contudo, dentro dele, algo lhe alimentava a vontade, o desejo de saber de si. Era aquela voz do começo que lhe animava a continuar. Assim era a vida, feita de escolhas, ele a fez desde quando teve a transição, deveria passar por provas desconhecidas e descobrir algo que está além do conhecimento ordinário. Nada é por acaso, nem os sonhos que temos.
Continua.
sexta-feira, dezembro 08, 2006
O Futuro no Presente do Indicativo
num mundo medonho,
Tu sonhas,
Em faces risonhas,
Ele sonha,
Por sobre a fronha.
Nós sonhamos,
E assim caminhamos.
Vós sonhais,
Sem nem dormir mais.
Eles sonham,
Com um mundo de paz.
Que bando de iludidos...
quinta-feira, novembro 30, 2006
A ferro e a fogo
A ferro e a fogo partido,
Amor chamando de um lado,
A dor com abismo fendido,
E eu caindo, sumindo do chão.
A ferro e a fogo lavrado,
A ferro e a fogo sofrido,
Pranto dos olhos chorado,
A fé me recobre o sentido,
E eu sorrindo com pedaços, estilhaços de ilusão.
A ferro e a fogo marcado,
A ferro e a fogo mantido,
Destino iminente lançado,
Como dados num perdido
Jogo em que o tempo é o maior campeão.
domingo, novembro 26, 2006
Aberração
Se eu sonho, sou lunático.
Se des-sonho, sou desiludido.
Se eu choro, sou decadente.
Se rio, sou sádico.
Se eu penso, sou muito coerente.
Se des-penso, sou insensato.
Se eu canto, sou desafinado.
Se danço, sou desajeitado.
Se eu gosto, sou maníaco.
Se desgosto, não tenho coração.
Por que ventura, então, haveria eu de existir,
Se aos olhos alheios sou aberração?
- Apenas viva por si só.
sábado, novembro 25, 2006
segunda-feira, novembro 20, 2006
Paixão
Da janela da casa - sim, uma casa, ele comprou uma casa de praia e largou a vida temporal das cidades - avistou o mar e as sucessões tranquilas das ondas. Era uma manhã formidável. E fazendo os afazeres do lar, ele procurava se lembrar do sonho que teve, como andava fazendo por um mês. Todavia, ele não conseguia recordar nitidamente, tudo era tão sinestésico, surreal, mas sabia que havia mudado profundamente a partir daquilo. Não que ele tivesse abandonado a carreira de engenheiro e virado um "hippie", não, apenas sabia que uma parte dele se completou, uma das peças desse misterioso quebra-cabeças que é a alma humana.
Foi ao supermercado da cidade, comprou a comida do cachorro e as pilhas para o despertador. Ao chegar no caixa , a moça passou os dois produtos e perguntou-lhe "tem certeza de que é só isso que o senhor vai levar?". Ele poderia ter pensado qualquer coisa do que a mulher falou, poderia pensar que ela estava coagindo-o a comprar mais coisas, mas algo dentro dele fê-lo lembrar da cálida luz do sol lhe acordando, e resolveu levar apenas a comida do cachorro.
Ele foi ao trabalho e, ao chegar a sua sala de trabalho, viu seus dois colegas discutindo:
- ... mas eu te falei que não era pra mexer na minha mesa, por que tinha que pegar justo minha caneta nova?
- Olha aqui, era uma urgência, o Sr. Martin precisava sair logo e tinha de assinar uns documentos, peguei a primeira caneta que avistei.
- Não me interessa o que o Sr. Martin faz ou deixa de fazer, a caneta era minha! Oh, você está aí, veja, ele usou minha caneta nova!
O colega mostrou a caneta, indicando-lhe as partes que provavam que fora usada sem permissão. Ele examinou a caneta, pousou-a sobre a mesa, sorriu e perguntou se com tanta coisa nessa vida para se importar, com tanta coisa para se aprender, ele se importasse tanto com uma caneta nova. Os dois colegas entreolham-se estarrecidos, não estavam reconhecendo aquele homem que ali chegava, antes tão preocupado com o trabalho, tempo e rotina. O dono da caneta cora-se um pouco e puxa outro assunto, o trabalho prossegue ameno e mais afável.
Ele não tinha mais carro, voltava do trabalho de bicicleta, lembrava da infância e das quedas até conseguir o prazer de se equilibrar sobre duas rodas. E esse mesmo prazer que ele sentia agora desfrutava observando a bela paisagem da cidade litorânea. Chegando em casa, escutou os latidos do amigo, o canino balançava freneticamente o rabo, demonstrando o amor que lhe fora dado. Os dois foram passear na praia, ver o crepúsculo.
Ele sentou na areia da praia e seu amigo canino correu a perseguir as ondas do mar; ele riu-se. De repente, o céu começa a incendear-se, por todo a esfera celeste é tomado fogo, a penitência eterna do céu. As nuvens viram chumaços incandescentes de algodão, tão inflamadas que nem o mar poderia apagar tal fogaréu. Ele observa atônito o fenômeno. E em intantes, o céu passa do fogo ao sangue, tudo se avermelha, escorre do topo da esfera até as extremidades. O céu agoniza e sangra. Então, o sol se põe e seu último raio anuncia a extrema-unção do céu. Ele achou incrível todo dia haver um espetáculo desses e sem ingresso a ser pago. "O céu renascerá, como todos nós a cada dia"- pensou consigo.
Recolheu-se na casa com o amigo, fez as trivialidades básicas e deitou na cama do quarto. Ligou o abajur, pegou o livro de cabeceira e pôs-se a ler. O livro era velho, herdado do pai, tinha resolvido lê-lo ao achá-lo nas caixas de coisas antigas. "O Lobo da Estepe", ele leu em voz alta. Na capa havia a gravura de um homem, meio lobo, meio homem, sentado sob uma árvore. A leitura do livro era carregada, não era fácil de se entender para aqueles que se dispunham a ler na calada da noite, e mesmo assim ele tentava.
Enquanto tentava decifrar as passagens do livro, as letras iam se embaralhando e formando outras, o assunto do livro começava a se modificar, não seguia mais o estilo do autor. O que era "... - não, o olhar do Lobo da Estepe penetrava no nosso tempo...", tornava-se " - não, o olhar do homem, por gerações, não consegue enxegar além de seu próprio interesse". E o livro acabou lhe conduzindo a um novo mundo, paulatinamente. E quando os olhos pediram descanso e pousou o livro sobre a cama, ele percebeu que não estava mais no quarto, nem na casa, nem em qualquer lugar que conhecia, estava no breu, no mais profundo breu.
"Continua" :)
domingo, novembro 19, 2006
Confissão
- Mário de Andrade
Com toda força,
Todo fervor,
Eu amo
Na alegria,
Ou na dor.
Eu amo
quinta-feira, novembro 16, 2006
Da verdade do mundo
Ao longo de séculos, o ser humano vem acumulando conhecimento, seja na Matemática, na Química, na Física, enfim, aos poucos os problemas vão se desatando do novelo do oculto e se revelando para nós. E cada vez mais fascinamo-nos com o que vem de novo, e dá-lhe hipóteses, argumentos, discussões para se melhor discernir sobre os problemas em questão. Quantos Newtons, Einsteins, Russeaus não existem algures, martelando a cabeça para desnudar os segredos da natureza?
Quanto mais conhemos o mundo, mais nos impressionamos com a complexidade dos mecanismos, dos fenômenos e das formas de vida que há. Tudo organizado numa fina teia pelo universo, cada fenômeno aparentemente isolado está devidamente inter-relacionado, culminando naquilo que chamamos de existência. E até o que não existe chega a nos fazer fascínio.
Chegamos a um ponto onde nos questionamos acerca do que seja a verdade, se há uma verdade absoluta, indelével e que ela por si só nos faz plenos, ou se há uma verdade relativa, e a perfeição consiste na imensa variedade de verdades existentes. Há muitas perguntas a serem feitas e apenas uma única resposta a ser dada ou um número infinito delas? Seja ela absoluta ou não, o fato é que o melhor para nós consiste em NÃO sabê-la, ou sabê-las. A existência humana prossegue e é movida justamente pela busca dessa(s) verdade(s), o que nos faz acordar, levantar, sonhar, pensar é fundamentado nos "porquês", nos "ondes" e nos "comos". O mistério da existência é uma das estrelas a brilhar eternamente no fim da estrada da humanidade, e que precisamente não deve ser alcançada.
Não existe um limiar do conhecimento. Para conduzir a essa afirmação, uma teoria precisa ser comentada: a segunda lei da termodinâmica, a qual afirma que a entropia do universo tende a aumentar. Uma das possibilidades de interpretação dessa lei é que, a cada momento que se passa, o mundo se torna mais complexo, não obrigatoriamente caótico. Entropia não é sinônimo de completo caos.
A crescente complexidade e diversidade de fatores que se auto-governam é a prova de que precisamos que nunca descobriremos a verdade, seja ela absoluta ou não. Todavia, isso não significa que devamos desistir de encontrá-la, pelo contrário, temos que erguer o peito e mergulhar de cabeça, direto às profundezas do desconhecido, e nos deliciarmos com os mistérios a serem desvendados...
"Acima de tudo está a Verdade, e a Verdade tem que ser libertada. Se as asas da Verdade são cortadas, as vozes serão silenciadas."
- Canção de Todos, canto 167.
sexta-feira, novembro 10, 2006
A concha
Que revoltas me levam,
Que soltas me enlevam,
O som que por instantes.
Lava-me a alma com água salina,
O som que do nácar ecoa.
Reflete a beleza cristalina,
Da essência de cada pessoa,
Que um dia virá,
Que um dia vieram.
O som da anunciação,
Porque dele nasceram,
E a ele voltarão...
segunda-feira, novembro 06, 2006
Navegante
Começar.
Por sorte do sim,
Ganhar.
Por sobre o azul,
Navegar,
Partindo pra o sul,
Desbravar.
Por meio do dom,
Conquistar,
E somente com,
O mar,
Vou poder então,
Encontrar,
Pra meu coração,
Um par.
domingo, novembro 05, 2006
Auto-extrema-unção
Em sofrimento
Escondido.
Sórdido mal,
Dentro do corpo,
Velado.
Lágrimas soltas,
Pranto da alma,
Escorrido.
Lânguido braço,
Ás margens da cama,
Jogado.
Cálido órgão,
Pulsa no peito,
Incontido.
Fúlgido brilho,
Por todo quarto,
Emanado.
Sôfrego mal,
Força o corpo,
Abatido.
Súbito riso,
Na débil face,
Estampado.
Plácido corpo,
Brilhante alma,
Ascendida.
Trágico fado,
De alguém um dia,
Amado.
sexta-feira, novembro 03, 2006
Je t'aime
e t ' a i m e
t ' a i m e
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terça-feira, outubro 31, 2006
Lies
domingo, outubro 29, 2006
Calmaria exasperante
- DEMORAMENINACHUPETAVESTIDODECORAÇÃORELÓGIOBARULHO!
As palavras saíram da boca da velha numa rajada de facas afiadas que retalharam o silêncio, e o estraçalharam e reduziram-no a migalhas. Embora Dona Gertrudes fosse velha, ainda tinha ânimos juvenis, que ainda conserva mesmo sob a ação implacável do tempo; de vez em quando surgiam tais impulsos e controlá-los era difícil. Todavia, todos na sala estavam tão ansiosos, que as palavras ditas foram o discurso mais aclamado, mais esperado que quaisquer outros; e então todos dispuseram a terminar de flagelar o pobre silêncio que teve seu reinado temporário acabado...
sexta-feira, outubro 27, 2006
quinta-feira, outubro 26, 2006
Isca
Do anzol,
Enganchou,
Na concha,
Do mar.
Mas quem me fisgou,
Não foi o gancho,
Nem a concha,
Foi o teu,
Olhar.
domingo, outubro 22, 2006
sábado, outubro 21, 2006
Fragmentos
sexta-feira, outubro 20, 2006
Ciranda da morte
E da cerração, no campo aberto da cidadela, notas difusas eram soltas pelas vizinhanças. O bom ouvinte que se atrevesse a distingüir melhor os sons, perceberia que se tratava de uma antiga canção de roda. Do tempo em que as crianças ainda podiam sair nas ruas e cantar as alegrias do mundo, mas não era aquele, definitivamente, o caso...
Na noite sem brilho, os expectadores da cantiga eram pequenos animais noturnos. Contudo, se um cidadão comum resolvesse compartilhar da canção, certamente não acharia nada agradável; o coro que a compunha era formado de vozes, quase roucas, raquíticas, monótonas e ausentes de sentimento. Por mais que a canção falasse de cavalos alados, bruxas malvadas e castelos encantados, as vozes lançavam ecos vazios, e o mundo mágico se despedaçava na voz do coral.
Isso não chegava perto do que realmente aquele coral era formado. Em meio à neblina, vultos pequeninos eram vistos, dançando lenta e constantemente em uma ciranda. E, por ocasião do tempo, uma rajada forte levou a cerração e mostrou as pequeninas. Quem dera a neblina pudesse voltar de novo. Uma ciranda na noite, formada por várias crianças, sorridentes e apáticas, todas sem exceção mutiladas. Algumas sem narizes, outras sem braços, fazendo parte da ciranda apenas com o braço que lhes restava, outras sem orelhas, de toda sorte de cortes e decepações.
E no meio da roda, um homem, sorria emocionado, cantando junto ao coro macabro. Ele, que havia maculado as pequenas, agora as levava pela noite para cantarem as canções que sua mãe lhe ensinara quando era criança. Mas ele só cantava de noite, porque ouvia as vozes do pai, que lhe batia, de dia. E ele não queria contrariar o pai, não, o pai nunca,nunca... mas de noite sim, de noite ele podia levar os amigos que conseguiu, seqüestrando-as de seus lares, torturando-as e injetando-lhes drogas psicotrópicas para que vivessem num estágio de apatia. "Cavalos voam pela noite, meninas brincam ao luar, vá pra dentro menininha que o Papão vai te pegar". Oh! Mas como ele era tolo, o sol já dava sinais de aparecer, e seu pai poderia brigar, era melhor recolher seus amigos e escondê-los, haveria mais noites para cantar, e dançar, haveria outras noites sem luares em que mais amigos cantariam... pela noite sem luar...
quarta-feira, outubro 18, 2006
Dentro de milênios
E por entre as espirais grandiosas da galáxia existia uma estrela,
E ao redor da gigantesca estrela girava um planeta,
E na imensidão do planeta havia um continente,
E por sobre o vasto continente havia um rio,
E às margens do longo rio havia um jardim,
E por entre as numerosas plantas do jardim, nasceu uma margarida,
E por sobre as pétalas dela pousou uma borboleta,
E foi vendo tal borboleta que alguém sorriu,
E esse alguém achou tão bela a efêmera borboleta,
Que resolveu colocá-la para sempre neste poema,
E dentro de milênios, ainda lembrarão,
Que entre o universo, a galáxia, a estrela, o planeta, o continente, o rio e o jardim,
Havia uma borboleta pousada sobre uma flor.
sábado, outubro 14, 2006
Love, amour, amore, Liebe ou simplesmente amor
quinta-feira, outubro 12, 2006
E se foi...
Essas foram as últimas palavras do Momento para um apaixonado, é a maldição eterna que assola todos os que tiveram a quimera da felicidade passando sob suas vidas, tão fugaz quanto veio...
