quinta-feira, julho 17, 2008

O inominável

O jovem viajante estava há anos em sua jornada por estradas desconhecidas. Caminhara milhas e já percorrera desertos de areias brancas, florestas tão densas que o mais tênue raio de luz não penetrava, praias com tal virgindade que o mar ainda lhe comungava um verdume ímpar. Já havia aprendido a se guiar pelas estrelas no firmamento, conhecia os segredos que cada sol distante fornecia aos que sabiamente lhe confiassem o destino. Aprendera a tomar as devidas precauções com relação a outros que aparecessem em seu caminho, já experimentara amargamente o gosto ácido da traição, o veneno ainda se diluía lento em seu corpo. Desvendara a mágica ligação que os astros tinham com ele, cada fase da lua repercutia-lhe uma significativa mudança de comportamento. Mas por mais que sentisse que acumulara um conhecimento vasto pelas veredas do mundo, não havia tido o privilégio máximo que lhe pudesse ser oferecido. Ainda não pudera sentir o que os descrentes chamam de loucura, o que os loucos chamam de poesia, o que os poetas chamam de amor. Por isso ainda seguia em frente, ainda fomentava em seu íntimo a vontade de continuar. O desconhecido lhe era um abismo e a vertigem era seu desejo inexorável de cair, de partir para escuridões mais profundas, vastidões mais claras. O tempo em sua concepção era a natureza que se transformava, a semente que voa com o vento, a planta que nasce da semente, a árvore que medra do solo, a semente que surge dos galhos e reproduz a vida. A passagem do tempo não lhe era linear, descrevia grandes e complexas voltas, numa ciranda interminável de sensações. Contudo nenhum ciclo era completamente igual ao primeiro, sendo o passado um grande esboço do presente. Poder-se-ia então dizer que o tempo descreve espirais. Talvez o amor fosse uma grande mentira; - pensava o viajante- uma lenda antiga de origem remota que servisse de inspiração aos jovens de coração. Contudo se é uma lenda, por que tantos homens já sucumbiram a tal? Por que o mundo se move por uma lenda? Certamente não há de sê-lo, e ele estava ali justamente para descobri-lo. Procurava algo que não sabia ao certo o que fosse, , algo iria lhe daria sentido em sua existência, procurava algo que não tem nome.

Nenhum comentário: