quarta-feira, março 28, 2007
urgente, urgentíssimo
quando os desertos tomaram mais de um terço dos continentes
não havia mais verde
não havia mais gorjeios
não havia mais águas cristalinas,
só tristeza e desolação
que os dirigentes internacionais se reuniram
numa reunião urgente, urgentíssima
o presidente da nação mais poderosa, senhor bucho, pronunciou-se
- algo deve ser feito, voltemos em dois anos para decidir o que fazer...
e a reunião termina tão urgente quanto começou.
domingo, março 11, 2007
O vôo
E de repente, a aceleração da nave, a sensação de inércia pesada sobre o corpo; a adrenalina infestando seus efeitos, em reações quase que instantâneas, inflamando nosso peito arfante de admiração. Era notável a angulação feita pela subida. Ao mirar abaixo, as casas, ruas e prédios iam diminuindo, diminuiiindo, e proporcionalmente ia crescendo a maestria da natureza, da Terra como um todo. A esfera terrestre ia se revelando, a atmosfera sendo desbravada como os navegantes antigos faziam por sobre os mares.
E na extrema do horizonte, relâmpagos podiam ser vistos do ponto de onde se originavam, numa emissão impetuosa e indescritível de luz, que fazia revelar todos os contornos das nuvens que antes eram escondidos pela noite. Era a fúria da natureza, frágil e brutal. Tal era a magnitude do espetáculo, que a parte humana foi completamente esquecida, desprezada, tornava-se ínfima quando comparada ao universo.
A lua boiava plena, serena, assistindo a todos em seu trajeto lento. O que importava era o agora, o vôo, a explosão de sensações que nos sacudia feito um chocalho, o fascínio pela natureza era o que nos movia e ainda move, sacramentando, assim, nosso declarado amor pela vida.
sexta-feira, março 09, 2007
Life's unfair
I realize I can't reach what I wanted
It may flood a river in my heart,
it may make me just a fool,
But I'll be far away till that one
till that one try to come to me...
sábado, fevereiro 24, 2007
Na noite
Preto-e-branco,
branco-e-preto,
movimento,
rápido
e leeento
ritmo,
calor,
dança,
chão
teto,
som,
tuntz, tuntz, tuntz
prazer,
sinestesia
alegria
efemêro
o baile
sempre.
sábado, fevereiro 17, 2007
Verdade
sábado, fevereiro 10, 2007
Eu
O infinito do beija-flor.
A onda inconstante do mar,
que serpeia revoluta,
e beija voraz a mansa areia.
O rugido do trovão,
que imperante se impõe,
na tempestade da vida.
haverá os que me odeiam,
a ponto de desejarem,
minha ida sem volta.
haverá os que me amam,
a ponto de me adorarem,
como a um deus.
havendo ou não havendo,
com riso, fé e dor,
sou o paralaxe da existência,
o infinito do beija-flor.
domingo, fevereiro 04, 2007
A segunda tentação
Foi então que o diabo conduziu-o à Cidadela Santa, no alto do Templo. Ainda era dia e o sol era abrasador. Como a areia e barro das construções eram claros, a reflexão da luz ardia nos olhos de quem se atrevia a ver o horizonte. Contudo, misteriosamente nuvens cobriram a semi-esfera celeste por completo, havia somente treva. Jesus podia avistar pessoas embaixo, algumas confusas, outras clamando por luz e outras continuando suas vidas absortas em viver. Ele olhava em derredor e via o quanto ainda tinha de fazer, a sua missão ainda estava para ser completa.
O diabo encarava Jesus fixamente, com olhos de malícia e frialdade, sabia que se conseguisse levar o Filho de Deus para o seu lado, o mal seria semeado tão célere quanto a luz que se espalha sobre as planícies na alvorada. Era preciso saber convencer, tentar... Foi então que o diabo foi até à beira do alto do templo, e indicou a Jesus que também o fizesse, e ele o fez.
O templo era realmente alto, as pessoas pareciam pequeninas e o vento era forte. Jesus sentiu vertigens ao olhar para baixo. Imaginou-se por momentos se ele caísse, o que haveria de ser. Também se perguntou no que o diabo poderia estar tramando e quando ergueu a mão para perguntar, foi interpelado pelas palavras secas do anjo caído:
- Se és o Filho de Deus- e menciona o nome Dele com desdém - lança-te daqui abaixo; porque está escrito: aos seus Anjos dará ordens ao teu respeito, e; eles te sustentarão nas suas mãos, para que nunca tropeces em alguma pedra.
E aponta para o abismo; nesse momento, o vento fica mais forte. Jesus não temia a morte, sabia muito bem que ela é inerente ao ser e é a passagem; além do que compreendia as escrituras e replica:
- Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus.
E dá um passo para trás, demonstrando que negaria a ordem do diabo, esse por sua vez, entra em fúria de novo e se prepara para a última tentação, sua última chance de ter o Filho de Deus como servo.
e de repente isto
e me desvencilhava do meu conto de fadas
o sorriso perdia-se em dor
ilusão caída feito cortina
e eu via os desprazeres
misérias
gritos roucos
não tão distantes que
não pudesse tê-los ouvido antes
e súbito
me calo, me faço mudo
e retorno às ilusões mediocridade
onde busco no final da estradinha
a vã chegada da felicidade
de repente não mais que de repente.
quinta-feira, fevereiro 01, 2007
Testamento
recente falecido,
deixou uma carta de testamento,
sobre o móvel da sala encardido,
antes de se ir.
o que se leu na carta,
encontra-se aqui:
"para minha esposa e filhos deixo,
a saudade, os sonhos e amor,
ah, já ia me esquecendo, que desleixo,
também a casa e outros bens,
mas esses serão consumidos,
pelo tempo,
os primeiros não são palpáveis ,
mas quando chegar a hora de cada um,
verão que valerão mais,
que toda riqueza e glória desse mundo."
a carta foi lida,
e enterrada junto com o autor.
os bens foram divididos,
a casa foi alugada,
mas o filho mais novo ainda lembra,
que o que vale é o amor.
terça-feira, janeiro 30, 2007
O teu riso
o teu riso tão claro,
o teu riso tão doce,
tão dissimulado,
perdido,
desmascarado,
e jogado,
sem querer.
o teu riso tão triste,
que ninguém resiste,
o teu riso de dor,
a dor que consome ,
a dor que gera,
a dor da fome,
dor que procria,
dor sem alento,
sem ave-maria,
é o alimento,
tormento,
encantamento,
do teu viver.
O teu riso de pranto
espelho da alma,
o teu riso de brisa,
que te liberta,
que te exorciza,
que te enxerta,
no meu ser.
O teu riso profano,
preto-no-branco,
o teu riso mundano,
sem resposta minha,
porque tinha,
sim, porque tinha,
medo,
de me perder.
domingo, janeiro 28, 2007
Mas tu me falavas!
refletir na íris do teu sorrir
sentia teu aroma de orvalho
sorvia-o lento e em deleite,
para não se ir.
Eu sentia teu pulsar sangüíneo,
arder nas artérias do meu coração
Remia meus desejos latentes
nas linhas descontínuas da tua mão
Eu ouvia a sonata da tuas palavras
desfazerem meu mundo de desolação.
Eu era o tudo e o nada
o átomo e o universo
o alfa e o ômega
o ser e o não-ser
o aquém e o além.
Bastava apenas
que me deixasses
num meneio
num bom dia
num porém
mas tu me falavas!
quarta-feira, janeiro 24, 2007
L'amour parfait
envolvente e soberano como o sol,
misterioso como o crepúsculo
infinito como o universo,
solene como o silêncio,
intenso como a maré,
liberto como o vento,
amplo como o céu,
como a aurora,
outrora,
agora,
será,
ele....
domingo, janeiro 21, 2007
O baile todo
A música já havia começado,
E cada um já seguia no seu próprio ritmo,
Os acordes, as notas ecoavam,
Risos soltos, sorrisos bobos,
Não era preciso dança,
Para o baile começar.
Tudo convergia na harmonia do compasso,
Era o um e não os vários que bailavam,
Tudo ao mesmo tempo divergia,
Paradoxo desconexo repentino,
Cada um era seu próprio par.
O tempo comandava a melodia,
Os sentimentos explodiam no salão,
O acaso acompanhava os convidados,
E sentada num canto, sorrindo amargamente, a solidão.
Há sempre o passo dado errado.
Há sempre o momento de reflexão.
Sempre o descompasso da incerteza,
Sempre, mas a certeza
O baile todo
.
sexta-feira, janeiro 19, 2007
A segunda tentação
O diabo encarava Jesus fixamente, com olhos de malícia e frialdade, sabia que se conseguisse levar o Filho de Deus para o seu lado, o mal seria semeado tão célere quanto a luz que se espalha sobre as planícies na alvorada. Era preciso saber convencer, tentar...
Foi então que o diabo foi até à beira do alto do templo, e indicou a Jesus que também o fizesse, e ele o fez. O templo era realmente alto, as pessoas pareciam pequeninas e o vento era forte. Jesus sentiu vertigens ao olhar para baixo. Imaginou-se por momentos se ele caísse, o que haveria de ser. Também se perguntou no que o diabo poderia estar tramando e quando ergueu a mão para perguntar, foi interpelado pelas palavras secas do anjo caído:
- Se és o Filho de Deus- e menciona o nome Dele com desdém - lança-te daqui abaixo; porque está escrito: aos seus Anjos dará ordens ao teu respeito, e; eles te sustentarão nas suas mãos, para que nunca tropeces em alguma pedra.
E aponta para o abismo; nesse momento, o vento fica mais forte. Jesus não temia a morte, sabia muito bem que ela é inerente ao ser e é a passagem; além do que sabia muito bem das escrituras e revida:
- Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus.
E dá um passo para trás, demonstrando que negaria a ordem do diabo, esse por sua vez, entra em fúria de novo e se prepara para a última tentação, sua última chance de ter o Filho de Deus como servo.
quarta-feira, janeiro 17, 2007
Bem vinda ao país das maravilhas!
E ela desatou a cantar,
Cantar pelas veredas,
Veredas desse mundo,
Sem medo de soltar,
Soltar um dó, ré, mi, sol, fá,
E um si bemol profundo...
E a cada nota solta,
Um carrossel de sensações,
Se espalhava, escoava, misturava,
à vida dos transeuntes,
Explosão de ocasos,
Profusão de Auroras,
Carretel de cores...
Ninguém,
Ninguém sabia como ela o fazia,
fazia melodia, sorriso, sinestesia,
mas que era bonito,
ah, isso era...
sábado, janeiro 13, 2007
A tentação de Cristo
Ao longo da estada, várias dúvidas atormentaram-lhe o espírito. Mesmo que não quisesse, dentro dele ainda surgiam perguntas que o faziam duvidar de seu verdadeiro objetivo naquela existência. Era tanta dor e sofrimento, poderia mesmo ele alcançar o esclarecimento através disso? As noites frias, a insegurança dos animais que poderiam lhe atacar serviam de acréscimo extra para as incertezas.
Havia ainda tanto para aprender, e ele sabia que era por meio do sofrimento que iria alcançar o que queria, seria sua paixão. Isso aliviava-lhe a alma; e o corpo se tornava apenas um instrumento do divino. Era possível esquecer-se da dor por completo, uma vez que ela está vinculada ao físico, não ao espiritual. Jesus estava sob a égide da fé, e isso ele tinha ao extremo.
E foi enquanto ele caminhava ao sol, que o céu se torna repentino escuro, nuvens vindas de não se sabe onde escondem o astro rei. Forte ventania também vem, carregando consigo a areia; Jesus protege os olhos e avista, ao longe, um vulto se aproximando. Ele sente a presença maligna em derredor e prepara seu coração para o que viria a enfrentar, sabia que aquilo era preciso, nada é por acaso, nada.
De súbito, cessa a ventania, e as nuvens desaparecem. Já era possível distinguir o vulto, um homem, aparentemente comum, mas com um semblante duro e frio, não havia compaixão em seu olhar, apenas ódio e prazer. Era o diabo.
- Eis o filho de Deus - e sorri maliciosamente.
Jesus apenas encara-o placidamente.
- Não te pronuncias a mim? Não me temas. Posso vir a ser seu mestre, se quiseres. Há tanto para aprenderes... caminhemos.
O diabo conduziu Jesus a uma trilha sinuosa, este já estava cansado de tanto vagar pelo deserto, e o diabo caminhava depressa, fazendo com que ele apressasse o passo. Andaram por muito tempo, Jesus demonstrava cansaço, estava à beira da exaustão, também a fome assolava-lhe. Não havia nada comestível pelo deserto. E então, o diabo fez sinal que parasse:
- Se tu és o filho de Deus, manda que estas pedras se tornem em pães.
E aponta para um amontoado de pedras perto de um rochedo. Naquele momento não havia dúvidas no coração de Jesus:
- Está escrito: Não só de pão viverá o homem, mas da palavra de Deus.
O diabo rangeu os dentes de fúria e bateu furiosamente contra o rochedo, esmagando-o completamente.
segunda-feira, janeiro 08, 2007
A mãe
- O verbo
A pobre mulher estava em prantos. Desespero seria o maior eufemismo para o que ela passava; a dor de uma mãe é lancinante e cruel. Ela não chorava mais, a fonte secou. As janelas da alma se fecharam para sempre, ela havia morrido a partir do momento em que o filho partiu. Saiu de casa descontrolada, ia se agarrar ao que ainda lhe fornecia esperança, a fé. A fé que dizem que movem montanhas era no que ela cria fervorosamente naquela hora.
Chega à igreja, que estava vazia por sinal. No interior, centenas de velas acesas forneciam uma iluminação parca. Centenas de pedidos de outras vidas sofridas; agora mais um era feito pela mãe. Ajoelha-se diante da imagem dos santos, fecha os olhos, une as mãos e inicia o rito. Tenta rezar a prece ensinada desde tempos imemoriais. Contudo, ao orar, ela sente o vazio saindo das palavras, sente o quão vã era a prece. Apenas repetia versos compassadamente. Abre os olhos e visa as imagens no altar, percebe que nada daquilo era verdadeiro e sente um profundo pesar. Ela está nua, vazia e desolada. "Nada disso me é útil porque não vem do coração"- pensa a pobre mãe.
"Eloí, Eloí, lamá, sabactâni?" - grita, e os ecos reverberam pelo templo vazio, como se fosse as súplicas dos outros que sentiram o mesmo que ela.
"Talvez não seja aqui, nem com essas palavras. Perdoa-me."
Estava exausta, nem sabia daonde havia tirado forças para sair de casa. E no chão frio da igreja ela adormece, ali mesmo. E pelo menos no sonho ela pôde conversar com Ele e sentir que não era vã a palavra fé.
domingo, dezembro 31, 2006
Paixão: segunda parte
E era na luz que ele pensava enquanto estava cercado pelo breu. A partir do que não se transmitia na sua íris, porque não há luz, uma série de sentimentos primários invadiam-lhe a mente. Daqueles que os humanos consideram instintivos, tais como medo, insegurança e ansiedade. Ele se sentiu regredido aos homens primatas que, ao se encontrarem no escuro, desenvolvia mecanismos de auto-defesa irracionais. Era lutar ou morrer o código que se passava no subconsciente e se espalhava pelo corpo.
Escuridão e silêncio reinavam soberanos. O silêncio corroendo-lhe a mente, a escuridão ofuscando-lhe a alma. Foi então que ele começou a se questionar, "o que faço aqui?", "como fui parar aqui?", "Aonde isso dá?"... e as perguntas se multiplicavam a tal ponto que ele teve que entoá-los como numa canção para livrar-se do silêncio que incitava a mente. Era como se ele tivesse despertado alguém, ou algo no meio do breu. Ele não pôde ver quem era, mas alguma coisa se inquietou e fê-lo calar, como se uma mão tapasse-lhe suavamente a boca, pedindo novamente o silêncio.
Ele parou de falar e imediatamente ouviu uma voz, vinda de todos os lados: "eu e você; nós e você. Eu, você e nós somos um." De repente, uma centelha de luz surge, muito tênue, mas suficiente para iluminar o lugar. Ele se viu não mais em cima da cama, mas flutuando sobre o que seria o... nada? Sim, era indescritível, havia algo: o nada. Ele se aproximou da centelha de luz. Observou que ela pulsava compassadamente, como um coração, o coração do universo.
Estava atônito, maravilhado com o que via. A luz era hipnoticamente bela, sua beleza singular era suave, acalmava. Foi então que ele quis, num ímpeto, tocá-la, aproximou o dedo e quando pensou que havia tocado, foi impelido fortemente para trás. A luz pulsava gradativamente com mais intensidade, ele não conseguia mais vê-la, tinha que proteger os olhos para não ficar cego. A pulsação pára de súbito, freme levemente, e explode. Uma gigantesca explosão, de proporções incomensuráveis. Ele pensou ter morrido com tal Big Bang, mas não, nada afetou-lhe. Era como se ele fosse um expectador.
Agora ele flutuava entre gás e pó, pó e gás. A voz falava-lhe novamente:
- Vês? A gênese. Os humanos pensam que podem calcular o tempo, o tempo exato de quando Isto surgiu, mas nada sabem e nada continuarão a saber. Há findos caminhos entre o ser e o vir a ser.
- O que é você?
- Eu sou você. Somos o alfa e o ômega.
- Não estou te entendendo perfeitamente, mas no fundo eu sinto que te compreendo. Eu procuro algo.
- É preciso fé... fé e dor.
- Não há outra maneira? Você sabe o que procuro?
- Todos procuram, mas não sabem que procuram e o quê procuram.
- Estou disposto a tudo agora que estou aqui!
- Fecha teus olhos e abra os verdadeiros. Encontraremo-nos outra vez, lembra-te: somos o alfa e o ômega.
Ele fecha os olhos e procura se concentrar no que a voz lhe disse. Ele era o alfa e o ômega, o princípio e o fim. Ele deixa a energia que sentia a sua volta fluir em seu interior, como num rio, o rio escava vales e abre lugares, os olhos da alma. Ele os abre e se vê num outro lugar, no topo de uma montanha, muita alta por sinal. Ao redor só há neblina, impossível de se saber o que rodeava o pico. A parte do topo era praticamente plana e um caminho conduzia até um templo branco, todo de mármore. Daqueles de colunas altas, feito templo grego. Alguém o esperava à porta do templo, vestia vestes tão brancas quanto o mármore da construção. Era um homem. Esse sorria e dirigiu-se a ele:
- Bons ventos o trazem.
- Quem és tu? - e se espantou com a formalidade da pergunta.
- Sou o profeta.
- O que queres de mim? - pergunta com veemência.
- Precisas aprender a formular melhor tuas perguntas, elas são decisivas para as respostas. - responde o profeta, analisando a pessoa dele.
- O que temos um ao outro?
- Guiar-te-ei até a estrela se pôr.
- Que estrela? - procurando alguma no céu.
- Não é dessas presas ao firmamento, é dessas. - e aponta para o alto do templo. Uma estranha luz arde e brilha placidamente.
- O que é esse templo?
- Um dos cinco templos que terás de conhecer. Esse é o templo da luz, como vês a estrela em sua parte de cima.
- O que devo eu fazer?
- Conhecer-te a ti mesmo.
- Mas nos templos?
- Ao final de cada um, haverá um selo, os selos da verdade.
- Calma aí, que história é essa de selos, templos e caminhos? É muito informação ao mesmo tempo, estou confuso! - pergunta estendendo os braços.
- Estás aqui, entre outras, porque tens a mente e coração abertos. Não totalmente moldáveis, mas aptos a mudanças, o que te faz diferente dos demais.
Ele reflete um pouco sobre as palavras do profeta, meneia a cabeça e diz:
- Tem razão. Por mais que tudo esteja sendo e acontecendo tão rápido, não estou muito preocupado com o que se passará.
- Continuando, os selos da verdade são poderosos artefatos. Criados nos primórdios pela Grande Deusa para o esclarecimento da verdade, foram alvo de cobiça e ambição de grandes homens. Eis aí o motivo de a Grande Deusa tê-los removido do teu mundo e conduzido-os para cá. Contudo, mesmo aqui ainda precisam ser protegidos.
- Você quer dizer que eu enfrentarei algo?
- Certamente. - expressando um sorriso enigmático - É preciso fé, fé e dor.
- Será a paixão, o medo e amor.
- Nem precisei continuar. Compreendes por que foste escolhido?
- Começo a saber que sim. - sorri envergonhado.
- Venha. - e indicou-lhe o caminho que conduzia ao interior do templo.
A entrada do templo revelou um grande salão interno circular, com outra entrada que levava a um corredor. no centro da sala, havia a figura da estrela que fulgurava sobre o templo. Tudo era muito claro e limpo, transmitindo paz aos presentes. Do corredor, ruídos estranhos vinham. Não era bem ruídos, porque eram harmônicos, mas ele nunca havia escutado semelhante som.
- Que som é esse?
- A voz do avatar.
- Avatar?
O profeta riu-se.
- Sim, os enviados do céu para protegerem os selos.
- Hummm. E o que essas criaturas fazem?
- Saberás em tempo. - sorrindo pacificamente.
Ele dirigi-se ao interior do templo, quando o profeta lhe interpela:
- Espera, não lhe disse tudo. Tenha fé para passar pelos templos, meu caro.
- Fé e dor....
- Exato, passarás duras provações. Nada é tão fácil quanto imaginas.
- Eu irei, meu caro.
- Vai-te e encontra teu caminho, homem.
- Que assim seja.
E ele seguiu o caminho que o conduzia ao interior do templo. Logicamente não sabia o que viria a encontrar, muito menos o que enfrentaria. Contudo, dentro dele, algo lhe alimentava a vontade, o desejo de saber de si. Era aquela voz do começo que lhe animava a continuar. Assim era a vida, feita de escolhas, ele a fez desde quando teve a transição, deveria passar por provas desconhecidas e descobrir algo que está além do conhecimento ordinário. Nada é por acaso, nem os sonhos que temos.
Continua.
sexta-feira, dezembro 08, 2006
O Futuro no Presente do Indicativo
num mundo medonho,
Tu sonhas,
Em faces risonhas,
Ele sonha,
Por sobre a fronha.
Nós sonhamos,
E assim caminhamos.
Vós sonhais,
Sem nem dormir mais.
Eles sonham,
Com um mundo de paz.
Que bando de iludidos...
quinta-feira, novembro 30, 2006
A ferro e a fogo
A ferro e a fogo partido,
Amor chamando de um lado,
A dor com abismo fendido,
E eu caindo, sumindo do chão.
A ferro e a fogo lavrado,
A ferro e a fogo sofrido,
Pranto dos olhos chorado,
A fé me recobre o sentido,
E eu sorrindo com pedaços, estilhaços de ilusão.
A ferro e a fogo marcado,
A ferro e a fogo mantido,
Destino iminente lançado,
Como dados num perdido
Jogo em que o tempo é o maior campeão.
domingo, novembro 26, 2006
Aberração
Se eu sonho, sou lunático.
Se des-sonho, sou desiludido.
Se eu choro, sou decadente.
Se rio, sou sádico.
Se eu penso, sou muito coerente.
Se des-penso, sou insensato.
Se eu canto, sou desafinado.
Se danço, sou desajeitado.
Se eu gosto, sou maníaco.
Se desgosto, não tenho coração.
Por que ventura, então, haveria eu de existir,
Se aos olhos alheios sou aberração?
- Apenas viva por si só.
sábado, novembro 25, 2006
segunda-feira, novembro 20, 2006
Paixão
Da janela da casa - sim, uma casa, ele comprou uma casa de praia e largou a vida temporal das cidades - avistou o mar e as sucessões tranquilas das ondas. Era uma manhã formidável. E fazendo os afazeres do lar, ele procurava se lembrar do sonho que teve, como andava fazendo por um mês. Todavia, ele não conseguia recordar nitidamente, tudo era tão sinestésico, surreal, mas sabia que havia mudado profundamente a partir daquilo. Não que ele tivesse abandonado a carreira de engenheiro e virado um "hippie", não, apenas sabia que uma parte dele se completou, uma das peças desse misterioso quebra-cabeças que é a alma humana.
Foi ao supermercado da cidade, comprou a comida do cachorro e as pilhas para o despertador. Ao chegar no caixa , a moça passou os dois produtos e perguntou-lhe "tem certeza de que é só isso que o senhor vai levar?". Ele poderia ter pensado qualquer coisa do que a mulher falou, poderia pensar que ela estava coagindo-o a comprar mais coisas, mas algo dentro dele fê-lo lembrar da cálida luz do sol lhe acordando, e resolveu levar apenas a comida do cachorro.
Ele foi ao trabalho e, ao chegar a sua sala de trabalho, viu seus dois colegas discutindo:
- ... mas eu te falei que não era pra mexer na minha mesa, por que tinha que pegar justo minha caneta nova?
- Olha aqui, era uma urgência, o Sr. Martin precisava sair logo e tinha de assinar uns documentos, peguei a primeira caneta que avistei.
- Não me interessa o que o Sr. Martin faz ou deixa de fazer, a caneta era minha! Oh, você está aí, veja, ele usou minha caneta nova!
O colega mostrou a caneta, indicando-lhe as partes que provavam que fora usada sem permissão. Ele examinou a caneta, pousou-a sobre a mesa, sorriu e perguntou se com tanta coisa nessa vida para se importar, com tanta coisa para se aprender, ele se importasse tanto com uma caneta nova. Os dois colegas entreolham-se estarrecidos, não estavam reconhecendo aquele homem que ali chegava, antes tão preocupado com o trabalho, tempo e rotina. O dono da caneta cora-se um pouco e puxa outro assunto, o trabalho prossegue ameno e mais afável.
Ele não tinha mais carro, voltava do trabalho de bicicleta, lembrava da infância e das quedas até conseguir o prazer de se equilibrar sobre duas rodas. E esse mesmo prazer que ele sentia agora desfrutava observando a bela paisagem da cidade litorânea. Chegando em casa, escutou os latidos do amigo, o canino balançava freneticamente o rabo, demonstrando o amor que lhe fora dado. Os dois foram passear na praia, ver o crepúsculo.
Ele sentou na areia da praia e seu amigo canino correu a perseguir as ondas do mar; ele riu-se. De repente, o céu começa a incendear-se, por todo a esfera celeste é tomado fogo, a penitência eterna do céu. As nuvens viram chumaços incandescentes de algodão, tão inflamadas que nem o mar poderia apagar tal fogaréu. Ele observa atônito o fenômeno. E em intantes, o céu passa do fogo ao sangue, tudo se avermelha, escorre do topo da esfera até as extremidades. O céu agoniza e sangra. Então, o sol se põe e seu último raio anuncia a extrema-unção do céu. Ele achou incrível todo dia haver um espetáculo desses e sem ingresso a ser pago. "O céu renascerá, como todos nós a cada dia"- pensou consigo.
Recolheu-se na casa com o amigo, fez as trivialidades básicas e deitou na cama do quarto. Ligou o abajur, pegou o livro de cabeceira e pôs-se a ler. O livro era velho, herdado do pai, tinha resolvido lê-lo ao achá-lo nas caixas de coisas antigas. "O Lobo da Estepe", ele leu em voz alta. Na capa havia a gravura de um homem, meio lobo, meio homem, sentado sob uma árvore. A leitura do livro era carregada, não era fácil de se entender para aqueles que se dispunham a ler na calada da noite, e mesmo assim ele tentava.
Enquanto tentava decifrar as passagens do livro, as letras iam se embaralhando e formando outras, o assunto do livro começava a se modificar, não seguia mais o estilo do autor. O que era "... - não, o olhar do Lobo da Estepe penetrava no nosso tempo...", tornava-se " - não, o olhar do homem, por gerações, não consegue enxegar além de seu próprio interesse". E o livro acabou lhe conduzindo a um novo mundo, paulatinamente. E quando os olhos pediram descanso e pousou o livro sobre a cama, ele percebeu que não estava mais no quarto, nem na casa, nem em qualquer lugar que conhecia, estava no breu, no mais profundo breu.
"Continua" :)
domingo, novembro 19, 2006
Confissão
- Mário de Andrade
Com toda força,
Todo fervor,
Eu amo
Na alegria,
Ou na dor.
Eu amo
quinta-feira, novembro 16, 2006
Da verdade do mundo
Ao longo de séculos, o ser humano vem acumulando conhecimento, seja na Matemática, na Química, na Física, enfim, aos poucos os problemas vão se desatando do novelo do oculto e se revelando para nós. E cada vez mais fascinamo-nos com o que vem de novo, e dá-lhe hipóteses, argumentos, discussões para se melhor discernir sobre os problemas em questão. Quantos Newtons, Einsteins, Russeaus não existem algures, martelando a cabeça para desnudar os segredos da natureza?
Quanto mais conhemos o mundo, mais nos impressionamos com a complexidade dos mecanismos, dos fenômenos e das formas de vida que há. Tudo organizado numa fina teia pelo universo, cada fenômeno aparentemente isolado está devidamente inter-relacionado, culminando naquilo que chamamos de existência. E até o que não existe chega a nos fazer fascínio.
Chegamos a um ponto onde nos questionamos acerca do que seja a verdade, se há uma verdade absoluta, indelével e que ela por si só nos faz plenos, ou se há uma verdade relativa, e a perfeição consiste na imensa variedade de verdades existentes. Há muitas perguntas a serem feitas e apenas uma única resposta a ser dada ou um número infinito delas? Seja ela absoluta ou não, o fato é que o melhor para nós consiste em NÃO sabê-la, ou sabê-las. A existência humana prossegue e é movida justamente pela busca dessa(s) verdade(s), o que nos faz acordar, levantar, sonhar, pensar é fundamentado nos "porquês", nos "ondes" e nos "comos". O mistério da existência é uma das estrelas a brilhar eternamente no fim da estrada da humanidade, e que precisamente não deve ser alcançada.
Não existe um limiar do conhecimento. Para conduzir a essa afirmação, uma teoria precisa ser comentada: a segunda lei da termodinâmica, a qual afirma que a entropia do universo tende a aumentar. Uma das possibilidades de interpretação dessa lei é que, a cada momento que se passa, o mundo se torna mais complexo, não obrigatoriamente caótico. Entropia não é sinônimo de completo caos.
A crescente complexidade e diversidade de fatores que se auto-governam é a prova de que precisamos que nunca descobriremos a verdade, seja ela absoluta ou não. Todavia, isso não significa que devamos desistir de encontrá-la, pelo contrário, temos que erguer o peito e mergulhar de cabeça, direto às profundezas do desconhecido, e nos deliciarmos com os mistérios a serem desvendados...
"Acima de tudo está a Verdade, e a Verdade tem que ser libertada. Se as asas da Verdade são cortadas, as vozes serão silenciadas."
- Canção de Todos, canto 167.
sexta-feira, novembro 10, 2006
A concha
Que revoltas me levam,
Que soltas me enlevam,
O som que por instantes.
Lava-me a alma com água salina,
O som que do nácar ecoa.
Reflete a beleza cristalina,
Da essência de cada pessoa,
Que um dia virá,
Que um dia vieram.
O som da anunciação,
Porque dele nasceram,
E a ele voltarão...
segunda-feira, novembro 06, 2006
Navegante
Começar.
Por sorte do sim,
Ganhar.
Por sobre o azul,
Navegar,
Partindo pra o sul,
Desbravar.
Por meio do dom,
Conquistar,
E somente com,
O mar,
Vou poder então,
Encontrar,
Pra meu coração,
Um par.
domingo, novembro 05, 2006
Auto-extrema-unção
Em sofrimento
Escondido.
Sórdido mal,
Dentro do corpo,
Velado.
Lágrimas soltas,
Pranto da alma,
Escorrido.
Lânguido braço,
Ás margens da cama,
Jogado.
Cálido órgão,
Pulsa no peito,
Incontido.
Fúlgido brilho,
Por todo quarto,
Emanado.
Sôfrego mal,
Força o corpo,
Abatido.
Súbito riso,
Na débil face,
Estampado.
Plácido corpo,
Brilhante alma,
Ascendida.
Trágico fado,
De alguém um dia,
Amado.
sexta-feira, novembro 03, 2006
Je t'aime
e t ' a i m e
t ' a i m e
' a i m e
a i m e
i m e
m e
e
t
o
u
j
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.
. . . verticalement et horizontalement}
terça-feira, outubro 31, 2006
Lies
domingo, outubro 29, 2006
Calmaria exasperante
- DEMORAMENINACHUPETAVESTIDODECORAÇÃORELÓGIOBARULHO!
As palavras saíram da boca da velha numa rajada de facas afiadas que retalharam o silêncio, e o estraçalharam e reduziram-no a migalhas. Embora Dona Gertrudes fosse velha, ainda tinha ânimos juvenis, que ainda conserva mesmo sob a ação implacável do tempo; de vez em quando surgiam tais impulsos e controlá-los era difícil. Todavia, todos na sala estavam tão ansiosos, que as palavras ditas foram o discurso mais aclamado, mais esperado que quaisquer outros; e então todos dispuseram a terminar de flagelar o pobre silêncio que teve seu reinado temporário acabado...
sexta-feira, outubro 27, 2006
quinta-feira, outubro 26, 2006
Isca
Do anzol,
Enganchou,
Na concha,
Do mar.
Mas quem me fisgou,
Não foi o gancho,
Nem a concha,
Foi o teu,
Olhar.
domingo, outubro 22, 2006
sábado, outubro 21, 2006
Fragmentos
sexta-feira, outubro 20, 2006
Ciranda da morte
E da cerração, no campo aberto da cidadela, notas difusas eram soltas pelas vizinhanças. O bom ouvinte que se atrevesse a distingüir melhor os sons, perceberia que se tratava de uma antiga canção de roda. Do tempo em que as crianças ainda podiam sair nas ruas e cantar as alegrias do mundo, mas não era aquele, definitivamente, o caso...
Na noite sem brilho, os expectadores da cantiga eram pequenos animais noturnos. Contudo, se um cidadão comum resolvesse compartilhar da canção, certamente não acharia nada agradável; o coro que a compunha era formado de vozes, quase roucas, raquíticas, monótonas e ausentes de sentimento. Por mais que a canção falasse de cavalos alados, bruxas malvadas e castelos encantados, as vozes lançavam ecos vazios, e o mundo mágico se despedaçava na voz do coral.
Isso não chegava perto do que realmente aquele coral era formado. Em meio à neblina, vultos pequeninos eram vistos, dançando lenta e constantemente em uma ciranda. E, por ocasião do tempo, uma rajada forte levou a cerração e mostrou as pequeninas. Quem dera a neblina pudesse voltar de novo. Uma ciranda na noite, formada por várias crianças, sorridentes e apáticas, todas sem exceção mutiladas. Algumas sem narizes, outras sem braços, fazendo parte da ciranda apenas com o braço que lhes restava, outras sem orelhas, de toda sorte de cortes e decepações.
E no meio da roda, um homem, sorria emocionado, cantando junto ao coro macabro. Ele, que havia maculado as pequenas, agora as levava pela noite para cantarem as canções que sua mãe lhe ensinara quando era criança. Mas ele só cantava de noite, porque ouvia as vozes do pai, que lhe batia, de dia. E ele não queria contrariar o pai, não, o pai nunca,nunca... mas de noite sim, de noite ele podia levar os amigos que conseguiu, seqüestrando-as de seus lares, torturando-as e injetando-lhes drogas psicotrópicas para que vivessem num estágio de apatia. "Cavalos voam pela noite, meninas brincam ao luar, vá pra dentro menininha que o Papão vai te pegar". Oh! Mas como ele era tolo, o sol já dava sinais de aparecer, e seu pai poderia brigar, era melhor recolher seus amigos e escondê-los, haveria mais noites para cantar, e dançar, haveria outras noites sem luares em que mais amigos cantariam... pela noite sem luar...
quarta-feira, outubro 18, 2006
Dentro de milênios
E por entre as espirais grandiosas da galáxia existia uma estrela,
E ao redor da gigantesca estrela girava um planeta,
E na imensidão do planeta havia um continente,
E por sobre o vasto continente havia um rio,
E às margens do longo rio havia um jardim,
E por entre as numerosas plantas do jardim, nasceu uma margarida,
E por sobre as pétalas dela pousou uma borboleta,
E foi vendo tal borboleta que alguém sorriu,
E esse alguém achou tão bela a efêmera borboleta,
Que resolveu colocá-la para sempre neste poema,
E dentro de milênios, ainda lembrarão,
Que entre o universo, a galáxia, a estrela, o planeta, o continente, o rio e o jardim,
Havia uma borboleta pousada sobre uma flor.
sábado, outubro 14, 2006
Love, amour, amore, Liebe ou simplesmente amor
quinta-feira, outubro 12, 2006
E se foi...
Essas foram as últimas palavras do Momento para um apaixonado, é a maldição eterna que assola todos os que tiveram a quimera da felicidade passando sob suas vidas, tão fugaz quanto veio...
segunda-feira, setembro 11, 2006
A fada do dente
A menina veio correndo pela casa com o dente recém-tirado na mão; estava em prantos e meio que ordenava que a mãe lhe explicasse o porquê dessa "tragédia". Seus miúdos olhos, marejados pela dor e medo, traduziam a ingenuidade e inocência. A mãe estava ocupada lavando a louça da janta, mas quem não se comoveria com tal pedaço de gente?
- Venha cá, filha. - sentou-se na cadeira e levou a criança ao colo.
- Mãe, vou ficar que nem a vovó? - soluçou a menina.
- Não não! Você não vai ficar que nem a vovó, porque a vovó é beeem mais velha que a mocinha. Sabe o que vai acontecer?
- Não...
- Daqui a algum tempo, um dente mais forte, branco e bonito vai nascer de onde esse caiu. Eu não queria te contar, mas os dentes têm vida própria.
- Têm mesmo mamãe?! - perguntou eufórica a guria.
- Sim, senhora. Quando somos crianças, temos vinte e quatro dentinhos na boca, cada um com sua própria vidinha, e todos trabalham, principalmente quando se come: um rasga a comida, outro esmaga, outro corta e assim por diante...
A menina batia palmas de felicidade, já se esquecera do que era dor. O dente caído fora posto em cima da mesa meio que inconscientemente. A mãe também se divertia ao contar a história para a filha.
- ... Mas os dentes acabam envelhecendo na boca e já não trabalham tão bem. Então eles se soltam da boca e dão espaço para que outro nasça no lugar dele.
- E o que eu faço com o dentinho velho?
- Ora, dê para a fada dos dentes.
- Fada dos dentes?
- Sim, a fada que troca dente por moedas.
Se a menina soubesse dar piruetas no ar, daria aos montes naquele momento. Nada era mais excitante do que uma fada que trocava dentes velhos por moedas. O mundo era tão misterioso e grande para aquela criança, saber da fada fora um como se um dos segredos de Barba-Azul estivessem sendo revelados.
- E como eu falo com a fada? Eu quero trocar!
- Calma, minha filha. Você não pode falar com a fada, porque as fadas são proibidas de conversar com as crianças pela lei do estatuto das Fadas. Por isso que elas aparecem de noitinha, e se você colocar o seu dente velho debaixo do travesseiro, elas os trocam por moedas.
- Mas eu queria falar com a fada dos dentes...
- Eu entendo que você queira, mas elas não podem, filha. Quem sabe você consiga pegar um no instante em que ela for trocar o dente.
- Vou sim! - respondeu a menina dando um pulo de alegria.
E se chispou pela casa tão rápido quanto veio ao choramingar. A mãe estava pensando em que momento colocar a moeda por sob o travesseiro, ela sabia que a menina dormiria cedo ou tarde. Demorou para que a criança pegasse no sono. Em verdade, a guria foi dormir desolada, queria ter pego a fada no flagra e lhe pergunta sobre o mundo mágico que ela ainda não conhecia. A mãe, cuidadosamente, colocou uma moeda sob o travesseiro e pegou o dente que lá se encontrava.
No raiar do outro dia, a menina corre para a cama da mãe aos berros.
- Mãezinha! A fada trocou meu dente! Você estava certa!
E era uma alegria que só.
Alguns meses se passaram e a mãe havia notado que a menina andara comprando doces e guloseimas no doceiro da escola. Intrigou-se, porque não dava dinheiro à criança. Temendo que a menina pudesse estar pegando dinheiro na casa ou até de seus amigos, resolve indagar e criança.
- Minha filha, onde você anda conseguindo esse dinheiro?
- Não posso contar, mamãe!
Sorrindo com uma boca desdentada.
E aqui acaba-se essa história.
quarta-feira, setembro 06, 2006
Quarto motivo da Rosa
Também é ser deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzidas,
Mortas, intactas pelo teu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos,
Ao longe o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que me vão lembrando,
Por desfolhar-me é que não tenho fim.
Segundo motivo da rosa
Embora em forma e nácar te assemelhes
À concha soante, à musical orelha
Que grava o mar nas íntimas volutas.
Decomponho-te cristal, defronte a espelhos,
Sem ecos de cisternas ou grutas...
Ausências e cegueiras absolutas
Ofereces às vespas e às abelhas,
E a quem te adora, ó surda e silenciosa,
E cega e bela e interminável rosa,
Que em tempo e aroma e verso te transmutas!
Sem terra nem estrelas brilhas, presa,
A meu sonho, insensível à beleza,
Que és e não sabes porque não me escutas...
Motivos da Rosa
Primeiro Motivo da Rosa
Vejo-te em seda e nácar,
e tão de orvalho trêmula, que penso ver, efêmera,
toda a Beleza em lágrimas
por ser bela e ser frágil.
Meus olhos te ofereço:
espelho para face
que terás, no meu verso,
quando, depois que passes,
jamais ninguém te esqueça.
Então, de seda e nácar,
toda de orvalho trêmula, serás eterna. E efêmero
o rosto meu, nas lágrimas
do teu orvalho... E frágil.
terça-feira, setembro 05, 2006
Observação 2
quarta-feira, agosto 30, 2006
Miracle
Ainda indo ao (futuro ex) emprego, ela deparou com seu (futuro ex) namorado beijando uma guria. Não pensou duas vezes, foi em direção ao traidor e lhe exigiu explicações; ele apenas disse que estava já estava pensando em terminar o relacionamente, que só não conseguia encontrar uma boa desculpa para terminar. Após um discurso longo e hipócrita, ele disse que ela ficaria bem e tudo isso era bom para ela, uma vez que ele não a merecia.
Abalada com tal fato, pensou "talvez seja melhor eu esquecer isso pelo menos enquanto trabalho, assim criarei forças para superar tamanho fato". Ergueu sua moral com uma certa altivez, absolutamente justificável, e partiu tumo ao trabalho. O dia parecia tão lindo ao amanhecer...
Ao pisar no salão principal do prédio em que trabalhava: silêncio. Nenhum atendende lhe dirigia sequer um cumprimento trivial, apesar de ela os conhecer há tempos. O silêncio fê-la temer o que teria de enfrentar ao subir os andares. Ao chegar em sua sala, reparou que uma carta fora colocada cuidadosamente sobre sua escrivaninha, carimbada por seu superior. O medo se apossou de seu corpo e, suando frio, ela agarrou o envelope num ato misto de coragem e pavor. Suas mãos estavam trêmulas e seu coração palpitava, ela tentava se encorajar com pensamentos vãos ,"tomara que seja um aumento...". Quando finalmente tomou coragem e leu o conteúdo, quase desmaiou, uma nota lhe informava que fora demitida, ou melhor, exonerada de seu cargo. O céu fez-se de negro...
Como se não bastasse a demissão e a perda do namorado, pesadas nuvens negras s aglomeravam e se despedaçavam em implacáveis gotas de água, trovões e ventania. A água que se precipitava encharcava-lha a roupa e os cabelos. Contudo, ela nem se importava com a chuva; estava encharcada moralmente. E assim caminhou sem rumo pelas avenidas cinzas e sem vida da cidade, como uma indigente deplorável. Não visava um caminho, apenas rumava...
E foi caminhando pelas ruas que ela percebeu que a chuva parara, uma fenda tímida abriu-se por entre as nuvens nefastas e indicavam que a tormenta estava por passar. E nessa réstia de luz que lhe tocou a face, ela percebeu que estava viva; quando olhou em derredor, avistou uma igreja. Não era uma das mais imponentes construções que ela vira, mas sentiu que precisava entrar nela. Queria alguém para culpar, algo para esbravejar.
Entrando na igreja, reparou na simplicidade do local. Paredes antigas, úmidas e mal rebocadas, bancos excessivamente lustrados para um dissimulação (em vão) do novo, velas já derretidas cercavam uma estátua de Nossa Senhora, que por sua vez estava desbotada e maltratada pelo tempo. A Santa erguia os braços como se estivesse sempre apta à consolar os aflitos.
Não havia vivalma na igreja, nem mesmo sacristão ou carola. foi quando ela se dirigiu à estátua e resolveu se confessar ali mesmo, contou de todos os problemas que estava passando e questionou duramente a existência de Deus. Ela estava desesperada e cada palavra que soltava lhe incitava a imprecar mais. E nesse oceano de blasfêmias , a mulher golpeou a estátua com as mãos que anteriormente usou para apontar duramente à imagem. A obra de arte caiu num baque no chão e se partiu em cacos. A mulher se assustou com o que ela mesma fizera e imediatamente pôs-se a juntar os pedaços. Quando apanhou a cabeça da santa, levou a maior surpresa que iria presenciar: a imagem chorava; e não era água salgada, um veio de sangue que lhe escorria dos olhos gotejava no chão. Não se sabe se foi apenas um fenômeno físico de dissolução, ou se era mesmo um milagre que se operava, o fato é que a vida daquela mulher nunca mais foi a mesma após aquele dia...
domingo, agosto 27, 2006
domingo, agosto 20, 2006
Crisálida
Nutrida pelas folhas da roseira,
Tão frágil, escondida no carmim,
És delicada, porém também faceira!
Como tu assim larva foste,
Não tão bela quanto se seria,
Não tão previsível como se goste,
O amor surge e urge em nosso dia.
Acaso a ventura conspire,
Em separar e dissipar o nosso amor,
E tal qual a larva insólita vire,
Crisálida esperançosa regida pela dor.
Do cerne da casca, pulsa vivamente,
Coração repleto de paixão,
Esperando apenas momento coerente,
Com as almas que anseiam tal união.
Se porventura o nebuloso destino,
Decida destruir a crisálida,
Exonerando meu cargo peregrino,
Purgando minha vida esquálida.
Um novo raiar fulgurará,
No horizonte do meu coração,
Da paixão guarnecida renascerá,
Nova chama de pura emoção.
E então a crisálida rompida,
Marca do intante a transformação,
Das velhas cascas caídas,
Surge novo ser, uma nova criação.
Metamorfose completada,
O amor transcende o tempo,
O amor transcende nossa estada,
No efêmero mundo do sofrimento.
(Uma borboleta voa célere por entre as veredas desse mundo...)
terça-feira, agosto 15, 2006
A fé
No que consiste a preeminência do homem nos rudimentos da criação? A resposta é tão clara quanto o fato de que a metade é menor que o todo, na Razão.
Qual conquista enaltece um ser mais do que outro? A virtude, respondemos. Com que propósito foram emplacadas a paixões? Para que o homem, ao enfrentá-las, possa atingir um grau de conhecimento negado aos brutos, sugere a Experiência.
Conseqüentemente, a perfeição da nossa natureza e aptidão para felicidade deve ser estimada pelo grau de razão, virtude e conhecimento que distinguem o indivíduo e direcionam as leis que conformam a sociedade; e seja igualmente inegável que a partir do exercício da razão, fluem naturalmente o conhecimento e a virtude, caso desejemos encarar a humanidade coletivamente...
Quando o sábio Ser que nos criou e colocou aqui concedeu tal justiça, Ele determinou, permitindo que assim fosse, que as paixões desdobrassem nossa razão, pois via que o mal presente produziria o bem futuro. Poderia a indefesa criatura que Ele trouxe do nada livrar-se de Sua providência e aventurar-se a aprender o bem através da prática do mal, sem Sua permissão? Não. Como pôde? Aquele enérgico defensor da imortalidade [Russeau] argumentar de forma tão inconsistente? Se a humanidade tivesse permanecido para sempre no estado bruto, e nem mesmo sua pena mágica é capaz de pintar como situação onde uma virtude sequer tenha se arraigado, ficaria claro, mas não aos olhos de um sensível ser errante incapaz de reflexões, que o homem nasceu para percorrer o circuito da vida e da morte e adornar o jardim de Deus visando a algum propósito de difícil harmonia com Seus atributos.
Mas se, para culminar, devessem ser produzidas criaturas racionais, aptas a galgarem a excelência através do exercício dos poderes implantados com esse propósito; se a própria benignidade resolvesse trazer á existência uma criatura superior aos brutos, que pudesse pensar e aprimorar-se por que deveria essa dádiva inestimável, pois trata-se mesmo de uma dádiva, se o homem fosse assim criado para ter a capacidade de elevar-se acima do estado no qua a sensação produzisse a êxtase brutal, ser chamada, em termos diretos, de maldição? Maldição poderia ser, caso toda nossa existência estivesse limitada à nossa continuidade aqui neste mundo; pois por que deveria a graciosa fonte da vida nos dar paixões, o poder de refletir, somente para amargurar nossos dias e inspirar-nos com noções errôneas de dignidade? Por que deveria Ele nos afastar do amor próprio em direção às emoçõe sublimes que a descoberta que Sua sabedoria incita, se tais sentimentos não fossem postos em movimento a fim de aprimorar nossa natureza, da qual fazem parte, e nos capacitar a apreciarmos uma porção mais divina da felicidade? Firmemente convencida de que não há mal no mundo que Deus não tenha planejado, elaboro minha crença na perfeição de Deus."
- Mary Wollstonecraft
quarta-feira, agosto 09, 2006
Desestacionalizando ou simplesmente voltando
Texto número I
"- [...] mas você promete pra mim?
- Hã? Aquilo da Lua?
- Não é "aquilo da Lua"! Você bem sabe como eu sou, gosto desses rituais...
- Tá certo, amor, então repita pra mim o que você falou.
- Olha, sempre que nós estivermos longe um do outro e seja noite, se houver a lua no céu, teremos de olhá-la e imaginarmos que estamos próximos, mas tão perto que possamos sentir a presença um do outro, e a magia do amor que nos une.
- Mas meu amor, onde quer que eu esteja sentirei essa chama intensa que nos une e atrai! Não precisamos desse ritual.
- Por que você não simplesmente tenta fazer? Eu tenho certeza que você vai entender depois que fizer.
- Certo, então eu o farei.
[...] Após três meses, ele teve de se distanciar dela, tinha de completar um curso em outro estado. Na primeira noite não houve lua, mas na segunda uma fração dela surgiu no céu, tão tímida, mal se via seu brilho se expandir pela vastidão escura da Terra. Na percepção dele, afetada pelo coração, ecos da voz dela vinham da longitude do horizonte; ecos que o acalentavam e o lembraram da promessa feita. Ele riu-se do que iria fazer. "Onde já se viu, olhar pra lua...". Então, sem qualquer esperança de que algo especial ocorresse, ele ergue os olhos e contempla a lua. No início, via apenas a aura branca e enevoada que a contornava. Contudo, ao passar do tempo ele começou a sentir um level calor que o consumia seu corpo, mas não de forma lasciva ou carnal, era um calor fraterno e intenso que o remetia à eternidade do amor. Ele sentiu a presença majestosa dela, como se ela balbuciasse juras de amor ao seu ouvido, e seus braços o envolvessem e o permitissem ser feliz por mais alguns instantes. E ele adormeceu, acalentado pelos braços do seu amor numa noite enluarada."
"Quando as pessoas vêem as descobertas que faço, perguntam geralmente 'por que sim?' e eu replico-as com um 'por que não?'"
- Eu devo ter modificado tudo e nem lembro de quem é hehehe, mas a idéia dá pra ser captada né? autor deconhecido (deslembrado)
terça-feira, julho 11, 2006
Pra Ser Sincero
E não sabia, amor
Fiz tudo o que eu quis
Confesso a minha dor
[...]
E o que passou, calou
E o que virá, dirá
E só ao seu lado, seu telhado
Me faz feliz de novo
O tempo vai passar
E tudo vai entrar no jeito certo de nós dois
As coisas são assim
E se será, será
Pra ser sincero, meu remédio é te amar, te amar
Não pense, por favor
Que eu não sei dizer
Que é amor tudo o que eu sinto longe de você"
- Marisa Monte
Essa parte "E o que passou, calou, e o que virá, dirá" apresenta um caráter tão gostosamente efêmero; deixa que o tempo dirá o que acontecerá e te esqueça das chagas do passado, não deixe-as enterradas, incinere-as, liberte-se e renasça das cinzes que surgirem...
Essa é minha Marisa =P
domingo, julho 02, 2006
Por quê?
Quatrième raison de la rose
aussi c'est être cesser de d'être ainsi.
roses verras seulement de cendres froncées,
défunts, intacts par ton jardin .
je laisse arome mêm dans mes épines,
au loin vent va en parler de moi.
et deme perdre c'est qu'ils me vont en rappeler,
dem'effeuiller c'est que je n'ai pas fin.
If I only had a home
Estava frio, os lábios do menino arroxeados tremiam, temiam e pediam pelos pais. Ao longe ouvia-se uma resposta, vozes longínquas. Contudo, talvez fosse a imaginação desesperada de um abandonado. Os piores monstros e fantasmas na imaginação do garoto não eram piores que o terror de estar sozinho.
As extremidades dos membros do garoto começaram a congelar. O frio era lento e fatal com suas vítimas, especialmente as Jovens de Coração. Foi então que precipitou-se a nevar. Pesados flocos de neve caíam em derredor do garoto. As esperanças se esgotavam à medida que a neve vinha. O menino lembrou-se da sua casa, calorosamente aquecida com alegria. A neve caía. O garoto lembrou-se do seu animalzinho de estimação. A neve caía. O menino queria ir a um lugar melhor. A neve caía. O menino começou a sentir sono. Fechou os olhos e dormiu para sempre. Contudo, numa outra terra bem distante, onde nunca neva e nem os pais abandonam os filhos, um garotinho abria os olhos feliz da vida.
quarta-feira, junho 28, 2006
If I only had a heart
Tontura cética de um sofredor,
Atadura rompida pela palma,
Pela palma impassível do amor.
Cálidas mãos lembradas,
De momentos de contentação,
Mãos essas agora mortas, enterradas,
Num baú de recordação.
Percebido o tempo perdido,
Por pura falta de compromisso,
Tentou-se fazer o pedido,
Negado, revogado, homem omisso!
Rios corridos da face pendida,
Deságuam na baía da desolação,
Tudo isso por causa da vida,
Da vida de um homem sem coração!
quarta-feira, junho 21, 2006
If I only had a brain
Agora ele sentia na pele, ou melhor, na alma o que todo bom romântico mais teme: a solidão. Ele estava arrependido de tantos atos impensados, mas nem sempre se pode voltar com o que foi feito. Para quem sempre teve um ombro em que se possa apoiar, um ouvido para desafogar os problemas, é aterrador saber que está à mercê do silêncio.
Foi quando ele tropeçou numa pedra no meio do caminho (no meio do caminho havia uma pedra), que ele percebeu que ele havia tropeçado nele mesmo. A adrenalida circulava freneticamente pelas artérias e veias de seu corpo, a excitação, a palpitação, o desespero, tudo convergia para o irracionalismo abrupto. Ele não sentia dor, embora estivesse ensangüentado.
Se ao menos ele pudesse ter pensar numa solução. Quem sabe ele encontrasse uma resposta se se acalmasse, mas que droga! Ele não conseguia se aquietar, seu coração estava revoltado e parecia não estar disposto a uma trégua. De repente, um gorjeio atrapalhou seus pensamentos; olhou ao redor do campo e visou um rouxinol a cantar no galho de uma árvore morta. Conforme escutava a melodia da ave, percebeu que a relva estava mais macia e suas pernas ardiam. Também sentiu que era tempo para voar a outras terras."
terça-feira, junho 20, 2006
Como uma pétala
Das experiências mais amargas e desagradáveis que podemos encontrar, a perda de uma pessoa querida é uma das mais desgostosas. Infelizmente, o ser humano é sujeito às imperfeições em sua natureza. Portanto podemos demonstrar atitudes e comportamentos incorretos, que acabam por ferir os entes queridos. Uma amizade imponderável pode ser facilmente denegrida pela força da inveja, pelo poder da mentira ou até mesmo pelo desgaste temporal.
A poetisa Cecília Meireles, mestra na descrição da vida como uma passagem efêmera, ensina aos leitores que o importante de um momento é a satisfação física, moral e espiritual que ele pode trazer, sem a preocupação do momento vindouro e de conseqüências eqüiprováveis. Sendo assim, um desentendimento não passa de um mero resquício de nossa imperfeição. Uma gota de mácula num oceano de pureza. Contudo, nem todas as pessoas têm noção da efemeridade e da consciência de que ela é o principal motivo para adotarmos uma vida branda e pacífica.
Assim como a pétala que voa, os problemas passam e abandonam nossa vida. Uma amizade é feito uma pétala, dentre várias numa rosa da vida.
"E por perder-me é que me vão lembrando,
Por desfolhar-me é que não tenho fim."
- Cecília Meireles
sábado, junho 10, 2006
O pesadelo de um homem ridículo
Na adolescência, as coisas começaram a se passar melhor ainda. Eu meio que conseguia conciliar minha "vida vadia" com a "vida correta". E o fazia com primazia, por sinal. Uma data inesquecível foi o dia em que perdi minha virgindade. Dessa vez houve um papel fundamental de meu pai, o qual contratou os serviços de uma mulher da vida. Ela era tão linda, devia ser um lustro mais velha que eu; curvas agressivas desfilavam por um corpo cultivado para o prazer, cada parte de seu corpo emanava sensualidade, chamava para o sexo. Tudo deu-se com calma, pela primeira vez sentia o gozo da cópula, o ápice do prazer. Essa sensação acompanhar-me-ia pela posteridade, sobre a qual contar-lhes-ei dentre intantes.
Veio a maturidade e com ela a independência. Ah! Liberdade, sim, agora tinha de me virar; passei no vestibular, fiz o curso de maior fama na época e minha carreira era certamente próspera. Comecei trabalhando numa empresa de negócios. Eu era office-boy. Não gostava de ter aquele emprego, chulo, mesquinho; eu queria mais...
Depois de ter estabilizado minha vida, conheci uma mulher, bonita, inteligente e faceira. Sabia que era com ela que me casaria. Pensado e feito: ela era minha. A lua-de-mel foi numa praia, flashes de cinema. Contudo, minha "vida vadia" teria de ser bruscamente assassinada, não! Não deixaria ninguém impedir minha liberdade, teria minha vidinha, oculta, mas teria.
O primeiro filho que veio era uma menina, linda por sinal, parecia uma princesa de porcelana quando bebê. Entretanto, a vida de casado começava a pesar no bolso, e com ela recentes brigas entre minha esposa e eu. Ela estava certa no que dizia, eu tinha de arranjar um emprego melhor, mas não estava nem aí pra eles, queria mesmo é seguir com minha vida implícita. Minha dissimulação, aprendida desde criança, fizeram-me mestre na arte de seduzir e lograr.
Com a vinda do segundo filho, a situação tornou-se insustentável. As brigas intensificaram-se, eu gastava dinheiro comprando materiais para mim e acabava por diminuir a renda familiar, ela não trabalhava e eu jogava um "você não trabalha, então fique calada!" e a situação se aquietava. Confesso que até cheguei a bater nela, bati muito no começo, mas depois ela se mostrou forte e tive que parar. Ela cada vez mais se tornava forte, isso me deixava nervoso e inquieto, não podia admitir que uma mulher fosse mais forte que eu.
Pensando nessa situação com minh esposa, resolvi intensificar minha vida implícita. Encontrei uma amante, não foi difícil, afinal sou sedutor de carteirinha. Como minha esposa não transava mais comigo, desafoguei meus desejos com a amante. Eu era o mestre da situação agora, tinha uma vida dupla, de submisso em casa, para rei na cama da amante. Ela me idolatrava, e eu sentia prazer com ela e em trair minha esposa.
Sucedeu que esse homem adúltero conheceu uma cigana enquanto dirigia-se para a casa da amante. A velha pediu para ler a mão do adúltero docemente. Ele concordou e mostrou a palma da mão. A velha, como se apenas confirmasse suas expectativas, lançou-lhe um olhar assustador, como se soubesse de todos os pecados que ele carregava, todas as atitudes lascivas e inconseqüentes. Ele entrou em súbito pânico e chegou a agredir a senhora, ela, muito fraca, caiu no chão. Furiosa, praguejou contra ele numa língua desconhecida. As palavras ecoaram por toda a rua, e pela vida do adúltero. Ele não acreditava muito em maldições, mas assustou-se deveras com o poder daquelaas palavras (e assustar-se-ia muito mais).Após isso, foi para o antro de pecados.
Depois de cometer o ato de adultério (ele não tinha um pingo de ressetimento), voltou para casa e ainda no caminho comprou flores para a esposa, de tão feliz que estava. Era por volta das onze e meia da noite e era de se esperar que sua esposa e filhos estivessem dormindo. Estranhamente, não havia vivalma na casa, estava totalmente escura, com todas as luzes apagadas. Um ar fúnebre perdurava pelo aposento, ele sentia frio, coisa inimaginável, pois estava em pleno verão e no Nordeste! Por instantes ele se lembrou de que o frio era sinal de que espíritos rondavam o lugar, mas logo apagou aquilo da mente porque não acreditava.
E lentamente ele dirigiu-se para o quarto de seu filho, esperando que ele estivesse pregando uma peça ou coisa do tipo. Enquanto se encaminhava, ouviu um ruído baixo vindo do quarto, era como se fosse um barulho de berço, mas era diferente de um rangido normal, era sinistro e sincronizado com os seus passos. Quando abriu a porta do aposento, pouco pôde distinguir no breu que imperava. Contudo, podia ver que havia um vulto encolhido num canto do quarto, e estava perto do berço. Mas não havia berços na casa. O vulto permanecia em silêncio, e pelo que parecia estava a balançar o berço. O homem criou coragem e resolveu se aproximar do berço. Quando estava bem próximo, conseguiu ver que havia um bebê dentro dele, e o vulto balançava o berço com apenas uma mão, ela era totalmente calejada e esquelética.
De repente, o vulto começou a cantar um canção de ninar, o homem entrou em pânico: o vulto tinha a voz da mãe dele. O vulto ergueu das sombras um punhal e meneou estranhamente a cabeça. Ergueu o objeto no ar, acima do bebê e balbuciou: o fruto do pecado deve ser exterminado. O adúltero rapidamente lembrou se de que a sua amante queria um filho com ele, será que aquele era seu filho? Rapidamente ele retirouo bebê do berço, antes que o vulto pudesse matar a criança. Chutou furiosamente o berço, que se investiu contra o vulto, mas esse se desfez, restando apenas o pano preto que o cobria.
Quando o adúltero foi averiguar o bebê, tomou outro susto: era um cadáver de um bebê, semi-putrefato. Algo foi sussurrado aos seus ouvidos enquanto ele jogava o cadáver no chão. Eram as palavras da velha cigana, entre risos e choros, com risos de escárnio e choros de multidões. Ele ouvia a orquestra do inferno, regida pelo pecado. A casa se dissolvia na sua frente, ao seu redor; restou apenas à sua frente a cama com a qual ele traía a esposa. Parecia que havia alguém dormindo na cama, devia ser a amante.Ele removeu o lençol que encobria o corpo e entrou em estado de choque: sua espoa, com roupas íntimas da amantes, dormia silenciosamente.
De súbito, ela abriu os olhos e gritou, mas não saía som da boca. Ele não escutava mais anda, tudo girava ao seu redor, ele sentiu o peso do pecado, era um adúltero e se arrependia do que havia feito, mas não adiantava mais, o que foi feito está feito. Ele haveria de pagar, nem que levasse toda a eternidade, ele pagaria ou sua alma seria consumida pelo vil fogo do inferno.
quinta-feira, maio 18, 2006
Destiny's Land
I went to the druid's home and asked about the future of our people. I was afraid about our forest. However, the wise said that the forest do not belong to us, and we only have our soul to care for. 'Only those who have nothing have nothing to fear'."
- Selena's tales - tale nº47.
quinta-feira, maio 04, 2006
Questionamento
- Relatos de uma vida perdida (parte 2)
quinta-feira, abril 27, 2006
O Sol existe
E as risadas boêmias ao luar,
E os bacanais profanos,
E as noites românticas,
E os atos mundanos,
E as serenatas eloquentes,
E os beijos escondidos aos becos,
E as lágrimas decadentes,
E o medo da escuridão,
E o medo do esquecimento,
E o medo da solidão,
E o canto vagaroso e triste,
E a alma de sofrimento,
Por mais que ...,
O Sol existe.
obs.: para plagear o texto de HD
quarta-feira, abril 12, 2006
Eu sou diferente
Eu sou diferente. Não preciso de mais delongas, explicações demasiadas, exibições patéticas, feitos mirabolantes, atos fantásticos, enfim, sou e pronto. Sou singelamente diferente e não devo explicações de como ou porque sou, não sou um livro que pode se abrir e esmiuçar sobre. Sou um ser humano, e como tal apresento máscaras, desvios de comportamento e quaisquer desses vícios inerentes a um cidadão.
Não preciso sair pelas ruas escandalizando, gritando, protestando para que todos prostrem-se diante de meus pés reconhecendo minha diferença. Apenas quero que respeitem meus pontos de vista, minhas concepções e princípios, por mais que se pareçam com dogmas (embora não o sejam). Em suma, sou diferente de tal sorte que sigo minha vida despreocupado com opiniões alheias à minha existência. Espero que sigam meu caminho.
segunda-feira, abril 10, 2006
Nadei
Sempre esses eventos não-agradáveis se prosseguiram ao longo de minha vida e nunca reclamei deles, eram resultado da ávida procura pela verdade. Quando completei 30 anos, resolvi viajar de trem, daqueles que apitam alto e forte quando desembarcam na estação, chega dá gosto de ver a fumaça saindo da chaminé (Oh Deus! Poluição atmosférica, efeito estufa, inversão térmica!). Lembrei na hora que, por causa do efeito Doppler, a frequência ouvida por mim do apito da locomotiva em movimento é diferente daquela em que ela seria se estivesse estacionada. Uma mudança sensível em minha vida se fez por causa do efeito doppler, veja bem: se a frequência da locomotiva fosse mais aguda que o normal enquanto se distanciava da estação, não poderia ter ouvido o melodioso som da voz de minha futura esposa, Diana, perguntando-me se aquela estação a levaria para Dumas, cidade interiorana. Esse negócio de ciência é feito tabaco, rum, cerveja e tudo que há de pior, mas com um lado bom: pode dar dinheiro.
terça-feira, abril 04, 2006
Espírito engajado
"Em 14 de julho de 1789 o povo em armas realiza a tomada da prisão política da Bastilha, vista como símbolo do absolutismo, e libertava seus prisioneiros, ocorrência que passou a ser chamada de Segunda Jornada revolucionária. Em Versalhes, o rei, ao ser informado sobre os acontecimentos, exclamou:
- Mas isso é uma revolta!
Seu informante, o duque de Lancourt, respondeu-lhe:
- Não, majestade, é uma revolução".
sábado, abril 01, 2006
Ordinária
Ela ligou o aparelho de som; queria ouvir alguma música. Na verdade, queria é amenizar o silêncio aterrador que se insinuava pelo ambiente. O silêncio que a corroía lentamente fê-la sentir medo de viver. Talvez fosse hora de abandonar o sonho perdido, a vida mascarada, o mundo corrompido. Decerto haja um lugar melhor que não seja este.
Ela terminou de arrumar o aposento; tudo estava impecavelmente limpo. Depois, resolveu tomar o café da tarde (queria sentir pela última vez o gosto amargo da vida). Ela deixou a mesa como estava e decidiu não escrever nenhuma carta aos outros, o que tivesse que ser seria. Então, ela partiu para outro mundo e, minutos depois, o porteiro encontra seu corpo no andar térreo, com um sorriso infantil, mas verdadeiro estampado no rosto morto.
sexta-feira, março 17, 2006
Latência
Para sorrir,
Essas mágoas, essas,
Insistem em me perseguir!
Não me digas,
O que fazer,
Tu, que me fatigas,
Com teu jeito insípido de ser.
Não me faças,
Expulsar-te daqui,
Deixa-me co'as traças,
Deixa-me pensando que já morri...
Não me prendas,
Com teus grilhões,
Forjados com o amor das sendas,
Das sendas dos teus perdões.
Não me acordes,
De meu (eterno) sonho,
Deixa-me na latência, sem acordes,
Sem notas, tons reais desse mundo medonho...
terça-feira, março 14, 2006
The universe behind the classroom
O professor entra na sala meio apressado, com o suor escorrendo-lhe das têmporas. Um homem surpreendentemente gordo, estatura baixa e de caráter desconfiado. Ele, ainda ofegante, pede que todos os alunos que estivessem em pé se sentem para que possa ser iniciada a aula,"isso aqui não é feira pra haver tanta gente em pé".
Ainda entre muitos resmungos e chiados, a aula começa. O professor pede que o grupo que fosse apresentar o trabalho se dirigisse para o patamar da sala. Todos os outros já estavam folgados em seus assentos, esperando que esse trabalho pudesse ser uma boa fonte de descanso do dia anterior. Todos pensam assim, sempre assim...
Para espanto geral, o grupo que ia se apresentar era composto de um único aluno, um novato. Era aí que eles não iam prestar atenção. "Sobre o que você vai apresentar mesmo?", a pergunta irônica veio de um canto da sala, povoado pelos alunos "queridinhos" dos professores. "Se você esperar, mostro-lhe já já", respondeu o rapaz com um sorriso enigmático.
O rapaz era normal (aparentemente) trajava, como todos os alunos, o uniforme do colégio; tinha olhos castanhos-claros, cabelos meio loiros, sombrancelhas grossas e estatura média. Não parecia um daqueles nerds da turma; seu porte era atlético. Tampouco possuía algum ato vicioso, como piscar ou esfergar as mãos incessantemente.
"Bom, pessoal, vou apresentar meu trabalho sobre origem da vida", disse, sem muito espanto por parte da classe. "Agora, vou falar três palavrinhas mágicas: silêncio!..." e nesse momento todos, todos sem exceção sem calaram, como num ato de mágica. E os alunos se entreolhavam estupefatos, ainda meio destoados do que havia acontecido, foi quando o rapaz falou a outra palavra "... sombra!...", e todo a classe mergulhou num breu profundo. Agora era um misto de medo e surpresa semeado no ambiente. A adrenalina subia gradativamente. Os ritmos cardíacos disparavam. Foi quando a terceira palavra foi solta "ação!", e a partir daquele momento, estavam diante do universo em sua gênese.
Um minúsculo ponto era distinguível no breu, brilhava tênue no começo, mas depois começou a pulsar cada vez mais brilhante, a ponto dos alunos protegerem os olhos. Então, o ponto explodiu, num fenômeno espetacular. E foi lançando matéria por todo o universo. Depois, seguiu-se a formação de corpos gasosos, e então esses ganharam forma mais densa. A sala de aula seguia essas passagens como se estivesse dentro de uma nave espacial, mas não havia fronteira nítida entre ela e o que a circundava.
De um corpo gasoso solidificado em especial, desprenderam-se dezenas de outros, e esses, por ação da gravidade, continuaram a girar ao redor do corpo inicial, o qual tornou-se uma estrela. Um dos corpos desprendidos solidificou-se e tomou forma esférica. Após alguns segundos, a classe dirigiu-se para o planeta formado. uma palavr traduzia o que se passava: caos. Vulcanismo, tectonismo, tempestades, impactos de meteoros, enfim, um espetáculo de destruição (ou construção?).
A classe dirigiu-se para um dos mares formados e foi diminuindo de tamanho; diminuiu, diminuiu até ser possível distinguir as moléculas que estavam no mar. Elas, a princípio eram simples, mas foram passando por transformações até se tornarem complexas, e dessas moléculas complexas surgiu um ser. Um ser tão insignificante, tão irrisório que nem parecia um ser vivo. Contudo, os alunos ( e o professor) perceberam que aquela insignificância era a gênese humana, ou a gênese da gênese. E seguiram-se as transformações desse ser, e suas evoluções num ritmo quase que instantâneo, centenas de milênios passavam em frações de segundos, espécies eram formadas e extintas, continentes se separavam e juntavam, meteoros caíam. E mbora passasse rapidamente, todos os presentes na classe conseguiam entender o que se passava, como se o tempo fosse mais relativo do que pensavam. E no final de tantas transformações, chegaram finalmente ao homem: Australopithecus, Homo erectus, Homo habilis, homem de Cro-magnon e Homo sapiens.
Depois dessa orgia de história, de química, de vida, perceberam o quanto era medíocre os pensamentos sobre matérias, vestibulares, decorar termos.O rapaz pronunciou "status quo!", e a sala retornou ao mesmo estado inicial. Demorou muito até todos perceberem que era a hora do recreio.
quinta-feira, março 09, 2006
Ainda crepite
em todas as manhãs nubladas,
em todos amores incompreendidos,
em todas as paixões sufocadas,
em todos os perdões asfixiados,
em todos os espelhos de vaidade,
em todos os "obrigados" engolidos pela ignorância alheia
(e mais todas as atitudes e fenômenos que insistem
em nos levar a um estado mórbido de consciência),
haja uma vontade de parar, existe uma luz.
E quando se toma a sensação de esperança
para dentro do peito, numa atitude,
muitas vezes, impensada;
você, realmente, desanuvia todos problemas,
todas as angústias,
todos os fardos se desfazem apenas nesse vislumbre
de mudança, de revolução, de esperança.
E você vê que a vida leva os vislumbres com o vento,
mas a esperança inserida persiste
enquanto dentro de nós uma chama de humanidade
ainda crepite.
segunda-feira, março 06, 2006
Ruídos
(Na floresta, outono, queda de folhas....)
flip flep flep...
(vento frio arrasta as folhas)
fiuuuuuuuuu
(um sibilo gélido corta o ambiente)
plam!
(uma fruta cai)
nhac!
(estou com fome)
sexta-feira, março 03, 2006
Nowhere
He came from the "nothing" to turn back to "doubt", he wished he were happier in a strange place, with odd persons, but we was wrong, everytime, the best place was his old and welcoming home (oh! And there's no place like home).
His veritable way was fated to be chosen for the destiny, and he, worthy, will unfold the Truth by himself (like any other one)...
Nowhereland is not only the land of the solitude, it was also the land of the ones who want to discover what can't be known only for mere suppositions...
terça-feira, fevereiro 28, 2006
Em breve
sábado, fevereiro 25, 2006
Peço
Ao longo do caminho,
Mas tentaram bravamente,
Conseguir a tão esperada
paz]
Peço por aqueles que sorriram,
Mesmo ao tendo sido massacrados,
Pelas chamas da vaidade,
E que ainda conseguem dizer um
obrigado]
Peço por aqueles que choraram,
Cujo pranto não foi ouvido,
E mesmo não sido correspondidos,
Ainda lamentam pelos que não conseguem
amar]
Peço por aqueles que gritaram,
Num uníssono de revolução,
Aqueles cujos ideais ecoaram,
E nem mesmo estão nos livros de história
da nação]
Peço por você, por todos,
Um mínimo de compressão,
Peço que ao menos peçam,
Um sincero e merecido
perdão]
quinta-feira, fevereiro 23, 2006
Quero
Do tempo em que eu era criança,
Quero de volta a vivacidade dos momentos,
Que agora não passam de singela herança.
domingo, fevereiro 19, 2006
Transição
Daquela vez não pegaria o carro, queria ver as coisas com outros olhos. Caminhar era natural, humano. Na verdade, ele queria fazer justamente o que nunca fazia, pois sabia que o mundo é algo inesperado e carrega consigo o mistério, bastava apenas desbravá-lo com um pouquinho de coragem para superar o comodismo.
E caminhando pelas ruas da cidade, foi lembrando da infância; dos tempos em que o agora importava, não o amanhã ou o ontem; das brincadeiras no parque... O tempo foi implacável ao mudar as formas das avenidas, ruas, estradas; mas foi impotente ao tentar, em vão, prejudicar as lembranças.
Leve garoa cai pela tarde, e ele resolve pegar um trem para a outra cidade. Gostava de ver o mundo pela vidraça do trem (o qual não via há anos). As árvores, os campos passavam tão céleres aos seus olhos, semelhantes às pessoas e acontecimentos em nossas vidas; mal vinham, mal partiam. E quanto mais ele mergulhava em pensamentos, mais tomava consciência de que estava vivo e que precisava respirar mais, ver mais, sentir mais.
Chegando na outra cidade, litorânea por sinal, decidiu, insensatamente à primeira vista, seguir uma estrada andando sem pensar no rumo; queria ver que destino teria se seguisse "de olhos vendados". Pensou que, se "o destino guia seus cavalos pela noite", então ele pode guiar um simples humano por uma estrada.
Enquanto dava passos despreocupados pelo caminho, ele percebeu que, desde o raiar da alvorada, não viu sequer uma pessoa. As cidades, as ruas, as avenidas estavam completamente vazias e ele não se deu conta até aquele momento. "Decerto que devem estar em suas residências, descansando..."-pensou ele. E rumou perseverante.
Logo no início do caminho, ele viu um garoto em prantos, estava sozinho e desconsolado. Chorava e gritava pela mãe. O homem aproximou-se do menino, curioso, perguntou onde estava a mãe dele. O garoto, que estava de costas para o homem, virou-se e encarou-o sem mencionar nenhuma palavra; após alguns instantes, soluçou e disse "você me deixou naquele dia", e desapareceu.
O homem pareceu atordoado. Não conseguia entender o porquê de uma criança evaporar em pleno dia. Contudo, algo mais o deixou aterrorizado, algo que atingiu-o mais profundamente, alcançando-lhe as entranhas da mente: o garoto em prantos fora ele.
Como não havia vivalma aos arredores, ele resolveu seguir pelo caminho, afinal, havia decidido seguir até um destino, seja lá qual fosse. Estava surpreso pelo incidente anterior, e isso lhe fornecia um fôlego extra para prosseguir. Continuando a caminhada, reparou que o caminho bifurcava em duas estradas distintas: uma placa indicava "verdade" e outra "felicidade". Ele contemplou os caminhos aos quais poderia seguir: no horizonte da primeira estrada, via-se um céu azul profundo; no da segunda, um céu vermelho dourado, vivo. Teria de refletir bastante para encontrar a via certa.
"A verdade é difícil de ser encontrada. É o caminho para a sabedoria, mas é também fonte de discordância entre vários povos, e de discórdia entre as religiões. A felicidade é a utopia vital; contudo, realmente não sei se já a tenha sentido, é tão abstrata..."- divagava o homem, que até havia se sentado diante das estradas para decidir a melhor escolha. "o crepúsculo pode chegar, portanto é melhor eu escolher um caminho logo". Seguiu o caminho da verdade. "Posso ter escolhido o caminho errado, mas não seria feliz sem conhecer a Verdade".
Ao caminhar, notou que o céu era escuro; a visibilidade da estrada era parcial e a trilha havia se tornado sinuosa. Era mais árduo do que pensava. E quando sentiu sede, pensou que poderia ter se prevenido trazendo água consigo. Entretanto, quase que na mesma hora que pensou nela, duas mulheres, irmãs aparentemente, surgiram perto da estrada, ambas carregavam uma jarra com, o que parecia, água.
A primeira, vestia uma túnica cinza, era uma anã; mal conseguia segurar o pote. Sorria muito e parecia meio nervosa. A segunda, trajava uma túnica laranja (não era anã) e sorria para o homem com um certo desafio no rosto. Ambas falaram num uníssono "queres água? Pois beba de meu pote!". O homem pediu água para a mulher anã e ela deu-lhe o cântaro. Ao beber do conteúdo dele, sentiu uma sede avassaladora. A anã soltou uma gargalhada e sumiu-se como o menino visto antes. A de túnica laranja simplesmente deixou o pote na estrada, sorriu e desapareceu também.
Tomado de um mal-estar forte, desesperadamente, bebeu da segundo jarra. À primeira sensação, sentiu-se pior, mas depois a dor na garganta foi sendo transformada em alívio, e o homem saciou sua sede.
Retornando à jornada, quis que aquela estrada terminasse logo. Estava cansado de segui-la, queria parar, a escuridão aumentava com o passar do tempo e ele temia o que poderia enfrentar. Num esforço maior, apressou o passo. Sentiu que o caminho havia se tornado menos tortuoso que antes. Avistou uma luz, débil, mas cintilava na extrema do horizonte. Como qualquer humano, seguiu-a. E ao chegar bem próximo dela, percebeu que era uma fogueira. Ao redor dela os amigos dele se encontravam desfrutando de prazeres mundanos, havia muito prazer, gula e desejo naquele lugar. "Vinde a nós, meu caro, desfruta dos prazeres da vida e esquece essa história de Verdade".
A proposta era tentadora, afinal de contas, ele estava cansado de seguir a estrada. Poderia permanecer ali e se deleitar com os prazeres. Contudo, lá onde "é fundo como a desgraça, onde o pranto não adelgaça, leve qual sombra que passa...", ele sentiu que preciava encontrar a Verdade; era pertinente à sua personalidade buscá-la. "Não, seguirei o caminho". Dito isso, todos desapareceram, e junto foi a fogueira.
O homem continuou sua jornada, sozinho e perseverante. Caminhou muito, passou por vales, montanhas e florestas, em todos os lugares havia ausência de vida, de movimento, em certas partes não haviam cores, somente preto-e-branco. Tudo era como uma quebra-cabeças, difícil de juntar as peças...
E após deixar para trás muitas léguas, ele viu que a terra da estrada foi substituída pela areia, e que estava diante de um gigantesco mar. Por instantes, admirou a grandiosidade dele, e escutou o que as ondas faziam ao chegar na praia. Escutou as palavras do oceano e o que os pássaros cantavam ao sobrevoá-lo, sentiu a mansa viração das nuvens e, finalmente, concluiu que havia encontrado a sua Verdade.
De repente, sente um sono tremendo e deita-se no chão úmido da praia, ao lado de conchas e algas. Ao fechar os olhos, escutou um barulho incessante e, ao mesmo tempo, formidável: o despertador tocou.
quinta-feira, fevereiro 16, 2006
Serenata
"Serenata
Repara na canção tardia,
Que timidamente se eleva,
Num arrulho de noite fria.
O orvalho treme sobre a terra,
E o sonho da noite procura,
A voz que o vento abraça e leva.
Repara a canção tardia,
Que oferece a um mundo desfeito,
Sua flor de melancolia.
É tão triste, mas tão perfeito,
O movimento em que murmura,
Como o do coração no peito.
Rapara na canção tardia,
Que sobre o teu nome, apenas,
Desenha a sua melodia.
E nessas letras tão pequenas,
O universo inteiro perdura,
E o tempo suspira na altura.
Por eternidades serenas."
- Cecília Meireles
quarta-feira, fevereiro 15, 2006
Lástima
- Relatos de uma vida perdida.
terça-feira, fevereiro 14, 2006
Pedido
sábado, fevereiro 11, 2006
Olhai os lírios do campo
"Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber, nem quanto ao vosso corpo pelo que haveis de vestir, não é a vida mais que o mantimento e o corpo mais do que o vestido?
Olhai para as aves do céu que nem semeiam nem colhem, nem ajuntam em celeiros e o Vosso Pai Celestial as alimenta.
Não tendes vós muito mais valor do que elas?
E quanto ao vestido, por que andais preocupados, olhai para os lírios do campo, como eles crescem, não trabalham nem fiam e eu vos digo que nem mesmo Salomão em toda sua glória se vestiu como qualquer deles, pois se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós?
Não andeis pois inquieto dizendo: que comeremos? Que beberemos? ou o que o que nos vestiremos, de certo Vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas essas coisas.mas buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas. Não vos preocupeis, pois ,pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo."
quarta-feira, fevereiro 08, 2006
Conversa
Conversar, conversar?Conversar!
Encher o ambiente de palavras,
Fúteis e fáceis de se ignorar.
Exausto de chegar nos lugares,
E sorrir para um espelho sem brilho,
E sorrir para máscaras vivas,
Sentindo-se como um andarilho.
Ele sabia exatamente,
O que o outro estaria a falar,
Ao dirigir-lhe a palavra,
Temas fácis de se adivinhar...
Ele era contra a mesmice,
Contra o conformismo,
Mas depois de tudo que viu,
Veio-lhe uma onda de negativismo.
E sentado diante do festival,
De palavras, conversas e discussões,
Ele se enfurece e grita:
Ei, conversem comigo sobre as eleições!
(Aqui termina a história do garoto medíocre)
domingo, fevereiro 05, 2006
Por quê?
Nunca soubera o que era amar, mas sempre dizia estar amando; nunca soubera o que é sofrer, mas sempre chorava por algo que nunca sentiu. Ele era o avatar do mundo: ser o que nunca foi. Entretanto, ele queria, acima de tudo, amar alguém justamente pela necessidade de cuidar, abraçar, se importar. Ele queria sentir a mansa viração do amor. Ele lia em livros e procurava saber como amar e ser correspondido "hummm...vamos ver, amizade, amiúde, amolecer, ,aqui! Amor! Do latim "amore", viva afeição que nos impele para o objeto dos nossos desejos; inclinação da alma e do coração; objeto da nossa afeição; paixão; afeto;inclinação exclusiva... mas cadê a parte que nos ensina a amar?".
Só mais tarde ele saberia que é preciso cativar, com paciência, ritos e tudo mais. É preciso, antes de tudo, não criar expectativas, não ser o que não é...
sexta-feira, fevereiro 03, 2006
Missionário
livros...livros à mão cheia...
E faz o povo pensar!
O livro caindo n'alma,
É germe -que faz a palma,
É chuva que faz o mar."
- Castro Alves
Eu, em minha humildade miserável, tento fazer o papel bendito ao próximo... Faça o teu também.
quarta-feira, fevereiro 01, 2006
Necessidade
Preciso cativar um coração moldável,
Preciso parar de pensar tanto,
Em encontrar um amor admirável!
(Preciso apenas de uma chance...)


