domingo, dezembro 31, 2006

Paixão: segunda parte

No princípio era o caos; ou seria a ordem? Dizem que a entropia do universo tende a aumentar conforme a passagem do tempo... Supõem tantas coisas acerca da existência e não-existência, mas o que se sabe é que no começo era o breu, a escuridão profunda e avassaladora; tão escura que nem se pode imaginar tal, uma vez que vivemos mergulhados em luz e ela buscamos incessante e desesperadamente.
E era na luz que ele pensava enquanto estava cercado pelo breu. A partir do que não se transmitia na sua íris, porque não há luz, uma série de sentimentos primários invadiam-lhe a mente. Daqueles que os humanos consideram instintivos, tais como medo, insegurança e ansiedade. Ele se sentiu regredido aos homens primatas que, ao se encontrarem no escuro, desenvolvia mecanismos de auto-defesa irracionais. Era lutar ou morrer o código que se passava no subconsciente e se espalhava pelo corpo.
Escuridão e silêncio reinavam soberanos. O silêncio corroendo-lhe a mente, a escuridão ofuscando-lhe a alma. Foi então que ele começou a se questionar, "o que faço aqui?", "como fui parar aqui?", "Aonde isso dá?"... e as perguntas se multiplicavam a tal ponto que ele teve que entoá-los como numa canção para livrar-se do silêncio que incitava a mente. Era como se ele tivesse despertado alguém, ou algo no meio do breu. Ele não pôde ver quem era, mas alguma coisa se inquietou e fê-lo calar, como se uma mão tapasse-lhe suavamente a boca, pedindo novamente o silêncio.
Ele parou de falar e imediatamente ouviu uma voz, vinda de todos os lados: "eu e você; nós e você. Eu, você e nós somos um." De repente, uma centelha de luz surge, muito tênue, mas suficiente para iluminar o lugar. Ele se viu não mais em cima da cama, mas flutuando sobre o que seria o... nada? Sim, era indescritível, havia algo: o nada. Ele se aproximou da centelha de luz. Observou que ela pulsava compassadamente, como um coração, o coração do universo.
Estava atônito, maravilhado com o que via. A luz era hipnoticamente bela, sua beleza singular era suave, acalmava. Foi então que ele quis, num ímpeto, tocá-la, aproximou o dedo e quando pensou que havia tocado, foi impelido fortemente para trás. A luz pulsava gradativamente com mais intensidade, ele não conseguia mais vê-la, tinha que proteger os olhos para não ficar cego. A pulsação pára de súbito, freme levemente, e explode. Uma gigantesca explosão, de proporções incomensuráveis. Ele pensou ter morrido com tal Big Bang, mas não, nada afetou-lhe. Era como se ele fosse um expectador.
Agora ele flutuava entre gás e pó, pó e gás. A voz falava-lhe novamente:
- Vês? A gênese. Os humanos pensam que podem calcular o tempo, o tempo exato de quando Isto surgiu, mas nada sabem e nada continuarão a saber. Há findos caminhos entre o ser e o vir a ser.
- O que é você?
- Eu sou você. Somos o alfa e o ômega.
- Não estou te entendendo perfeitamente, mas no fundo eu sinto que te compreendo. Eu procuro algo.
- É preciso fé... fé e dor.
- Não há outra maneira? Você sabe o que procuro?
- Todos procuram, mas não sabem que procuram e o quê procuram.
- Estou disposto a tudo agora que estou aqui!
- Fecha teus olhos e abra os verdadeiros. Encontraremo-nos outra vez, lembra-te: somos o alfa e o ômega.
Ele fecha os olhos e procura se concentrar no que a voz lhe disse. Ele era o alfa e o ômega, o princípio e o fim. Ele deixa a energia que sentia a sua volta fluir em seu interior, como num rio, o rio escava vales e abre lugares, os olhos da alma. Ele os abre e se vê num outro lugar, no topo de uma montanha, muita alta por sinal. Ao redor só há neblina, impossível de se saber o que rodeava o pico. A parte do topo era praticamente plana e um caminho conduzia até um templo branco, todo de mármore. Daqueles de colunas altas, feito templo grego. Alguém o esperava à porta do templo, vestia vestes tão brancas quanto o mármore da construção. Era um homem. Esse sorria e dirigiu-se a ele:
- Bons ventos o trazem.
- Quem és tu? - e se espantou com a formalidade da pergunta.
- Sou o profeta.
- O que queres de mim? - pergunta com veemência.
- Precisas aprender a formular melhor tuas perguntas, elas são decisivas para as respostas. - responde o profeta, analisando a pessoa dele.
- O que temos um ao outro?
- Guiar-te-ei até a estrela se pôr.
- Que estrela? - procurando alguma no céu.
- Não é dessas presas ao firmamento, é dessas. - e aponta para o alto do templo. Uma estranha luz arde e brilha placidamente.
- O que é esse templo?
- Um dos cinco templos que terás de conhecer. Esse é o templo da luz, como vês a estrela em sua parte de cima.
- O que devo eu fazer?
- Conhecer-te a ti mesmo.
- Mas nos templos?
- Ao final de cada um, haverá um selo, os selos da verdade.
- Calma aí, que história é essa de selos, templos e caminhos? É muito informação ao mesmo tempo, estou confuso! - pergunta estendendo os braços.
- Estás aqui, entre outras, porque tens a mente e coração abertos. Não totalmente moldáveis, mas aptos a mudanças, o que te faz diferente dos demais.
Ele reflete um pouco sobre as palavras do profeta, meneia a cabeça e diz:
- Tem razão. Por mais que tudo esteja sendo e acontecendo tão rápido, não estou muito preocupado com o que se passará.
- Continuando, os selos da verdade são poderosos artefatos. Criados nos primórdios pela Grande Deusa para o esclarecimento da verdade, foram alvo de cobiça e ambição de grandes homens. Eis aí o motivo de a Grande Deusa tê-los removido do teu mundo e conduzido-os para cá. Contudo, mesmo aqui ainda precisam ser protegidos.
- Você quer dizer que eu enfrentarei algo?
- Certamente. - expressando um sorriso enigmático - É preciso fé, fé e dor.
- Será a paixão, o medo e amor.
- Nem precisei continuar. Compreendes por que foste escolhido?
- Começo a saber que sim. - sorri envergonhado.
- Venha. - e indicou-lhe o caminho que conduzia ao interior do templo.
A entrada do templo revelou um grande salão interno circular, com outra entrada que levava a um corredor. no centro da sala, havia a figura da estrela que fulgurava sobre o templo. Tudo era muito claro e limpo, transmitindo paz aos presentes. Do corredor, ruídos estranhos vinham. Não era bem ruídos, porque eram harmônicos, mas ele nunca havia escutado semelhante som.
- Que som é esse?
- A voz do avatar.
- Avatar?
O profeta riu-se.
- Sim, os enviados do céu para protegerem os selos.
- Hummm. E o que essas criaturas fazem?
- Saberás em tempo. - sorrindo pacificamente.
Ele dirigi-se ao interior do templo, quando o profeta lhe interpela:
- Espera, não lhe disse tudo. Tenha fé para passar pelos templos, meu caro.
- Fé e dor....
- Exato, passarás duras provações. Nada é tão fácil quanto imaginas.
- Eu irei, meu caro.
- Vai-te e encontra teu caminho, homem.
- Que assim seja.
E ele seguiu o caminho que o conduzia ao interior do templo. Logicamente não sabia o que viria a encontrar, muito menos o que enfrentaria. Contudo, dentro dele, algo lhe alimentava a vontade, o desejo de saber de si. Era aquela voz do começo que lhe animava a continuar. Assim era a vida, feita de escolhas, ele a fez desde quando teve a transição, deveria passar por provas desconhecidas e descobrir algo que está além do conhecimento ordinário. Nada é por acaso, nem os sonhos que temos.
Continua.

sexta-feira, dezembro 08, 2006

O Futuro no Presente do Indicativo

Eu sonho
num mundo medonho,

Tu sonhas,
Em faces risonhas,

Ele sonha,
Por sobre a fronha.

Nós sonhamos,
E assim caminhamos.

Vós sonhais,
Sem nem dormir mais.

Eles sonham,
Com um mundo de paz.

Que bando de iludidos...

quinta-feira, novembro 30, 2006

A ferro e a fogo

A ferro e a fogo traçado,
A ferro e a fogo partido,
Amor chamando de um lado,
A dor com abismo fendido,
E eu caindo, sumindo do chão.

A ferro e a fogo lavrado,
A ferro e a fogo sofrido,
Pranto dos olhos chorado,
A fé me recobre o sentido,
E eu sorrindo com pedaços, estilhaços de ilusão.

A ferro e a fogo marcado,
A ferro e a fogo mantido,
Destino iminente lançado,
Como dados num perdido
Jogo em que o tempo é o maior campeão.

domingo, novembro 26, 2006

Aberração

Dedico este poema a uma amiga aberração, como todos nós, Irina.

Se eu sonho, sou lunático.
Se des-sonho, sou desiludido.
Se eu choro, sou decadente.
Se rio, sou sádico.
Se eu penso, sou muito coerente.
Se des-penso, sou insensato.
Se eu canto, sou desafinado.
Se danço, sou desajeitado.
Se eu gosto, sou maníaco.
Se desgosto, não tenho coração.
Por que ventura, então, haveria eu de existir,
Se aos olhos alheios sou aberração?
- Apenas viva por si só.

sábado, novembro 25, 2006

Do you suppose there is such a place?

There must be.

It's not a place you can get to by a boat or a train.

It's far, far away: behind the moon, beyond the rain...

segunda-feira, novembro 20, 2006

Paixão

Dessa vez não havia barulho de despertador. A pilha havia acabado e ele não tinha lembrado de comprar outras. O sol mesmo encarregou-se de acordá-lo, acariciando-lhe o rosto com seus raios. Aos poucos ele abriu os olhos, vislumbrando a claridade intensa do aposento. Estava bem, lembrou que havia passado por uma experiência no mês anterior, meio mágica, meio transcendental. Não sabia ainda se fora um sonho ou ilusão, qualquer coisa que fosse, foi plena.
Da janela da casa - sim, uma casa, ele comprou uma casa de praia e largou a vida temporal das cidades - avistou o mar e as sucessões tranquilas das ondas. Era uma manhã formidável. E fazendo os afazeres do lar, ele procurava se lembrar do sonho que teve, como andava fazendo por um mês. Todavia, ele não conseguia recordar nitidamente, tudo era tão sinestésico, surreal, mas sabia que havia mudado profundamente a partir daquilo. Não que ele tivesse abandonado a carreira de engenheiro e virado um "hippie", não, apenas sabia que uma parte dele se completou, uma das peças desse misterioso quebra-cabeças que é a alma humana.
Foi ao supermercado da cidade, comprou a comida do cachorro e as pilhas para o despertador. Ao chegar no caixa , a moça passou os dois produtos e perguntou-lhe "tem certeza de que é só isso que o senhor vai levar?". Ele poderia ter pensado qualquer coisa do que a mulher falou, poderia pensar que ela estava coagindo-o a comprar mais coisas, mas algo dentro dele fê-lo lembrar da cálida luz do sol lhe acordando, e resolveu levar apenas a comida do cachorro.
Ele foi ao trabalho e, ao chegar a sua sala de trabalho, viu seus dois colegas discutindo:
- ... mas eu te falei que não era pra mexer na minha mesa, por que tinha que pegar justo minha caneta nova?
- Olha aqui, era uma urgência, o Sr. Martin precisava sair logo e tinha de assinar uns documentos, peguei a primeira caneta que avistei.
- Não me interessa o que o Sr. Martin faz ou deixa de fazer, a caneta era minha! Oh, você está aí, veja, ele usou minha caneta nova!
O colega mostrou a caneta, indicando-lhe as partes que provavam que fora usada sem permissão. Ele examinou a caneta, pousou-a sobre a mesa, sorriu e perguntou se com tanta coisa nessa vida para se importar, com tanta coisa para se aprender, ele se importasse tanto com uma caneta nova. Os dois colegas entreolham-se estarrecidos, não estavam reconhecendo aquele homem que ali chegava, antes tão preocupado com o trabalho, tempo e rotina. O dono da caneta cora-se um pouco e puxa outro assunto, o trabalho prossegue ameno e mais afável.
Ele não tinha mais carro, voltava do trabalho de bicicleta, lembrava da infância e das quedas até conseguir o prazer de se equilibrar sobre duas rodas. E esse mesmo prazer que ele sentia agora desfrutava observando a bela paisagem da cidade litorânea. Chegando em casa, escutou os latidos do amigo, o canino balançava freneticamente o rabo, demonstrando o amor que lhe fora dado. Os dois foram passear na praia, ver o crepúsculo.
Ele sentou na areia da praia e seu amigo canino correu a perseguir as ondas do mar; ele riu-se. De repente, o céu começa a incendear-se, por todo a esfera celeste é tomado fogo, a penitência eterna do céu. As nuvens viram chumaços incandescentes de algodão, tão inflamadas que nem o mar poderia apagar tal fogaréu. Ele observa atônito o fenômeno. E em intantes, o céu passa do fogo ao sangue, tudo se avermelha, escorre do topo da esfera até as extremidades. O céu agoniza e sangra. Então, o sol se põe e seu último raio anuncia a extrema-unção do céu. Ele achou incrível todo dia haver um espetáculo desses e sem ingresso a ser pago. "O céu renascerá, como todos nós a cada dia"- pensou consigo.
Recolheu-se na casa com o amigo, fez as trivialidades básicas e deitou na cama do quarto. Ligou o abajur, pegou o livro de cabeceira e pôs-se a ler. O livro era velho, herdado do pai, tinha resolvido lê-lo ao achá-lo nas caixas de coisas antigas. "O Lobo da Estepe", ele leu em voz alta. Na capa havia a gravura de um homem, meio lobo, meio homem, sentado sob uma árvore. A leitura do livro era carregada, não era fácil de se entender para aqueles que se dispunham a ler na calada da noite, e mesmo assim ele tentava.
Enquanto tentava decifrar as passagens do livro, as letras iam se embaralhando e formando outras, o assunto do livro começava a se modificar, não seguia mais o estilo do autor. O que era "... - não, o olhar do Lobo da Estepe penetrava no nosso tempo...", tornava-se " - não, o olhar do homem, por gerações, não consegue enxegar além de seu próprio interesse". E o livro acabou lhe conduzindo a um novo mundo, paulatinamente. E quando os olhos pediram descanso e pousou o livro sobre a cama, ele percebeu que não estava mais no quarto, nem na casa, nem em qualquer lugar que conhecia, estava no breu, no mais profundo breu.
"Continua" :)

domingo, novembro 19, 2006

Confissão

"Amar, verbo intransitivo"
- Mário de Andrade

Com toda força,
Todo fervor,
Eu amo
Na alegria,
Ou na dor.
Eu amo

quinta-feira, novembro 16, 2006

Da verdade do mundo

"Eu sou o caminho, a Verdade e a vida." - Jesus Cristo

Ao longo de séculos, o ser humano vem acumulando conhecimento, seja na Matemática, na Química, na Física, enfim, aos poucos os problemas vão se desatando do novelo do oculto e se revelando para nós. E cada vez mais fascinamo-nos com o que vem de novo, e dá-lhe hipóteses, argumentos, discussões para se melhor discernir sobre os problemas em questão. Quantos Newtons, Einsteins, Russeaus não existem algures, martelando a cabeça para desnudar os segredos da natureza?
Quanto mais conhemos o mundo, mais nos impressionamos com a complexidade dos mecanismos, dos fenômenos e das formas de vida que há. Tudo organizado numa fina teia pelo universo, cada fenômeno aparentemente isolado está devidamente inter-relacionado, culminando naquilo que chamamos de existência. E até o que não existe chega a nos fazer fascínio.
Chegamos a um ponto onde nos questionamos acerca do que seja a verdade, se há uma verdade absoluta, indelével e que ela por si só nos faz plenos, ou se há uma verdade relativa, e a perfeição consiste na imensa variedade de verdades existentes. Há muitas perguntas a serem feitas e apenas uma única resposta a ser dada ou um número infinito delas? Seja ela absoluta ou não, o fato é que o melhor para nós consiste em NÃO sabê-la, ou sabê-las. A existência humana prossegue e é movida justamente pela busca dessa(s) verdade(s), o que nos faz acordar, levantar, sonhar, pensar é fundamentado nos "porquês", nos "ondes" e nos "comos". O mistério da existência é uma das estrelas a brilhar eternamente no fim da estrada da humanidade, e que precisamente não deve ser alcançada.
Não existe um limiar do conhecimento. Para conduzir a essa afirmação, uma teoria precisa ser comentada: a segunda lei da termodinâmica, a qual afirma que a entropia do universo tende a aumentar. Uma das possibilidades de interpretação dessa lei é que, a cada momento que se passa, o mundo se torna mais complexo, não obrigatoriamente caótico. Entropia não é sinônimo de completo caos.
A crescente complexidade e diversidade de fatores que se auto-governam é a prova de que precisamos que nunca descobriremos a verdade, seja ela absoluta ou não. Todavia, isso não significa que devamos desistir de encontrá-la, pelo contrário, temos que erguer o peito e mergulhar de cabeça, direto às profundezas do desconhecido, e nos deliciarmos com os mistérios a serem desvendados...

"Acima de tudo está a Verdade, e a Verdade tem que ser libertada. Se as asas da Verdade são cortadas, as vozes serão silenciadas."
- Canção de Todos, canto 167.

sexta-feira, novembro 10, 2006

A concha

O som das ondas relutantes,
Que revoltas me levam,
Que soltas me enlevam,
O som que por instantes.
Lava-me a alma com água salina,
O som que do nácar ecoa.
Reflete a beleza cristalina,
Da essência de cada pessoa,
Que um dia virá,
Que um dia vieram.
O som da anunciação,
Porque dele nasceram,
E a ele voltarão...

segunda-feira, novembro 06, 2006

Navegante

Por cima do fim,
Começar.
Por sorte do sim,
Ganhar.
Por sobre o azul,
Navegar,
Partindo pra o sul,
Desbravar.
Por meio do dom,
Conquistar,
E somente com,
O mar,
Vou poder então,
Encontrar,
Pra meu coração,
Um par.

domingo, novembro 05, 2006

Auto-extrema-unção

Pálido rosto
Em sofrimento
Escondido.

Sórdido mal,
Dentro do corpo,
Velado.

Lágrimas soltas,
Pranto da alma,
Escorrido.

Lânguido braço,
Ás margens da cama,
Jogado.

Cálido órgão,
Pulsa no peito,
Incontido.

Fúlgido brilho,
Por todo quarto,
Emanado.

Sôfrego mal,
Força o corpo,
Abatido.

Súbito riso,
Na débil face,
Estampado.

Plácido corpo,
Brilhante alma,
Ascendida.

Trágico fado,
De alguém um dia,
Amado.

sexta-feira, novembro 03, 2006

Je t'aime

j e t ' a i m e toujours...
e t ' a i m e
t ' a i m e
' a i m e
a i m e
i m e
m e
e

t
o
u
j
o
u
r
s
.
.
. . . verticalement et horizontalement}

terça-feira, outubro 31, 2006

Lies

A mentira tem perna curta, tão curta que dá pra vê-la se arrastando malignamente pelo chão, e se rindo de todos que, pensa ela, não a vêem...

domingo, outubro 29, 2006

Calmaria exasperante

O silêncio. O som inaudível do silêncio ecoava pelo aposento. Daqueles sons impertinentes, intoleráveis, que chegavam a doer nos ouvidos, embora até a dor fosse indolor. A vontade dos presentes da sala era que qualquer forma de existência se transformasse em ondas sonoras; seria possível a luz virar onda de som? Todos queriam, mas ninguém ousava quebrar a ditadura imposta pela ausência do som. E eles se olhavam, ansiosos, imaginando quem poderia desafogar o ambiente surdo. O tempo? Quem pode medir o tempo sem o tique-e-taque dos relógios, sem o vai-e-vém dos pêndulos? Os segundos pareciam horas, as horas, meses e os meses a eternidade, e a eternidade parecia conduzir à loucura as pobres almas dos que ali estavam presentes. Era a sala de espera do dentista, mas parecia uma cerimônia de velório, tão grave e silencioso era o momento. Ninguém folheava revistas, ninguém estava gripado, ninguém fazia o menor ruído possível. Até a secretária, estava louca para que o telefone tocasse, ou que o dentista avisasse que o próximo cliente poderia entrar, mas nada... Foi então, que num momento epifânico, dona Gertrudes ansiou expressar tudo o que ela sentia, toda a rajada de pensamentos aleatórios e desconexos que se misturavam num carnaval de idéias:
- DEMORAMENINACHUPETAVESTIDODECORAÇÃORELÓGIOBARULHO!
As palavras saíram da boca da velha numa rajada de facas afiadas que retalharam o silêncio, e o estraçalharam e reduziram-no a migalhas. Embora Dona Gertrudes fosse velha, ainda tinha ânimos juvenis, que ainda conserva mesmo sob a ação implacável do tempo; de vez em quando surgiam tais impulsos e controlá-los era difícil. Todavia, todos na sala estavam tão ansiosos, que as palavras ditas foram o discurso mais aclamado, mais esperado que quaisquer outros; e então todos dispuseram a terminar de flagelar o pobre silêncio que teve seu reinado temporário acabado...

sexta-feira, outubro 27, 2006

Deixa?

Deixa-me ver?
Deixa eu ver?
Deixeu ver?
Deixou ver?
Deixo ver?
Dexo ver?
Xover?
Chover?

quinta-feira, outubro 26, 2006

Isca

O gancho,
Do anzol,
Enganchou,
Na concha,
Do mar.

Mas quem me fisgou,
Não foi o gancho,
Nem a concha,
Foi o teu,
Olhar.

domingo, outubro 22, 2006

Meu maior defeito é confiar nas pessoas, contudo, isso é ainda o que me torna humano...

sábado, outubro 21, 2006

Fragmentos


"O que torna belo o deserto, disse o principezinho, é que ele esconde um poço nalgum lugar."
- O Pequeno Príncipe

sexta-feira, outubro 20, 2006

Ciranda da morte

O fúnebre cortejo das brumas desceu do céu na noite sem luar. Não havia mais pássaros a gorgorear, nem flores para perfumar os caminhos, as sendas silenciavam. Apenas a escuridão, profundamente negra e nefasta, imperava por sobre o mundo. Até que as estrelas brilhavam, mas daqueles brilhos opacos que era melhor não ter.
E da cerração, no campo aberto da cidadela, notas difusas eram soltas pelas vizinhanças. O bom ouvinte que se atrevesse a distingüir melhor os sons, perceberia que se tratava de uma antiga canção de roda. Do tempo em que as crianças ainda podiam sair nas ruas e cantar as alegrias do mundo, mas não era aquele, definitivamente, o caso...
Na noite sem brilho, os expectadores da cantiga eram pequenos animais noturnos. Contudo, se um cidadão comum resolvesse compartilhar da canção, certamente não acharia nada agradável; o coro que a compunha era formado de vozes, quase roucas, raquíticas, monótonas e ausentes de sentimento. Por mais que a canção falasse de cavalos alados, bruxas malvadas e castelos encantados, as vozes lançavam ecos vazios, e o mundo mágico se despedaçava na voz do coral.
Isso não chegava perto do que realmente aquele coral era formado. Em meio à neblina, vultos pequeninos eram vistos, dançando lenta e constantemente em uma ciranda. E, por ocasião do tempo, uma rajada forte levou a cerração e mostrou as pequeninas. Quem dera a neblina pudesse voltar de novo. Uma ciranda na noite, formada por várias crianças, sorridentes e apáticas, todas sem exceção mutiladas. Algumas sem narizes, outras sem braços, fazendo parte da ciranda apenas com o braço que lhes restava, outras sem orelhas, de toda sorte de cortes e decepações.
E no meio da roda, um homem, sorria emocionado, cantando junto ao coro macabro. Ele, que havia maculado as pequenas, agora as levava pela noite para cantarem as canções que sua mãe lhe ensinara quando era criança. Mas ele só cantava de noite, porque ouvia as vozes do pai, que lhe batia, de dia. E ele não queria contrariar o pai, não, o pai nunca,nunca... mas de noite sim, de noite ele podia levar os amigos que conseguiu, seqüestrando-as de seus lares, torturando-as e injetando-lhes drogas psicotrópicas para que vivessem num estágio de apatia. "Cavalos voam pela noite, meninas brincam ao luar, vá pra dentro menininha que o Papão vai te pegar". Oh! Mas como ele era tolo, o sol já dava sinais de aparecer, e seu pai poderia brigar, era melhor recolher seus amigos e escondê-los, haveria mais noites para cantar, e dançar, haveria outras noites sem luares em que mais amigos cantariam... pela noite sem luar...

quarta-feira, outubro 18, 2006

Dentro de milênios

E dentre a escuridão silenciosa do universo havia uma galáxia,
E por entre as espirais grandiosas da galáxia existia uma estrela,
E ao redor da gigantesca estrela girava um planeta,
E na imensidão do planeta havia um continente,
E por sobre o vasto continente havia um rio,
E às margens do longo rio havia um jardim,
E por entre as numerosas plantas do jardim, nasceu uma margarida,
E por sobre as pétalas dela pousou uma borboleta,
E foi vendo tal borboleta que alguém sorriu,
E esse alguém achou tão bela a efêmera borboleta,
Que resolveu colocá-la para sempre neste poema,
E dentro de milênios, ainda lembrarão,
Que entre o universo, a galáxia, a estrela, o planeta, o continente, o rio e o jardim,
Havia uma borboleta pousada sobre uma flor.

sábado, outubro 14, 2006

Love, amour, amore, Liebe ou simplesmente amor

Mas ele amava com tanta força, fé e ardor, que até as madrugadas mais frias e monótonas, as noites sem luar, as horas intermináveis de espera no dentista, as conversas fúteis de seus colegas, os problemas no trabalho, as blasfêmias dos mendigos bêbados, os mau-humores dos conhecidos, as mentiras descaradas, os porquês não "desduvidados", os dias de praia nublados, as cartas não correspondidas, os bom-dia's não retribuídos, os sorrisos não compartilhados, os compromissos não consumados, as reuniões desmarcadas, os atrasos, enfim, até a mais lancinante dor se fazia em bálsamo de prazer; e essa é uma das virtudes mais admiráveis conhecidas do amor.

quinta-feira, outubro 12, 2006

E se foi...

" Que todos saibam o destino que aqui nos determina. Que todos vejam que eu, para sempre, esquecer-me-ei de quem seja tua pessoa; não passarás de sombra sob a vela da existência. Tudo o que vivemos será esquecido como a débil chama que se extingüe com o vento. E então, tudo não passará de um sonho, um sonho de uma noite de verão. E relembrarás de mim pela longura dos teus dias."
Essas foram as últimas palavras do Momento para um apaixonado, é a maldição eterna que assola todos os que tiveram a quimera da felicidade passando sob suas vidas, tão fugaz quanto veio...

segunda-feira, setembro 11, 2006

A fada do dente

- Manhêee! Meu dente caiu! Olha aqui!
A menina veio correndo pela casa com o dente recém-tirado na mão; estava em prantos e meio que ordenava que a mãe lhe explicasse o porquê dessa "tragédia". Seus miúdos olhos, marejados pela dor e medo, traduziam a ingenuidade e inocência. A mãe estava ocupada lavando a louça da janta, mas quem não se comoveria com tal pedaço de gente?
- Venha cá, filha. - sentou-se na cadeira e levou a criança ao colo.
- Mãe, vou ficar que nem a vovó? - soluçou a menina.
- Não não! Você não vai ficar que nem a vovó, porque a vovó é beeem mais velha que a mocinha. Sabe o que vai acontecer?
- Não...
- Daqui a algum tempo, um dente mais forte, branco e bonito vai nascer de onde esse caiu. Eu não queria te contar, mas os dentes têm vida própria.
- Têm mesmo mamãe?! - perguntou eufórica a guria.
- Sim, senhora. Quando somos crianças, temos vinte e quatro dentinhos na boca, cada um com sua própria vidinha, e todos trabalham, principalmente quando se come: um rasga a comida, outro esmaga, outro corta e assim por diante...
A menina batia palmas de felicidade, já se esquecera do que era dor. O dente caído fora posto em cima da mesa meio que inconscientemente. A mãe também se divertia ao contar a história para a filha.
- ... Mas os dentes acabam envelhecendo na boca e já não trabalham tão bem. Então eles se soltam da boca e dão espaço para que outro nasça no lugar dele.
- E o que eu faço com o dentinho velho?
- Ora, dê para a fada dos dentes.
- Fada dos dentes?
- Sim, a fada que troca dente por moedas.
Se a menina soubesse dar piruetas no ar, daria aos montes naquele momento. Nada era mais excitante do que uma fada que trocava dentes velhos por moedas. O mundo era tão misterioso e grande para aquela criança, saber da fada fora um como se um dos segredos de Barba-Azul estivessem sendo revelados.
- E como eu falo com a fada? Eu quero trocar!
- Calma, minha filha. Você não pode falar com a fada, porque as fadas são proibidas de conversar com as crianças pela lei do estatuto das Fadas. Por isso que elas aparecem de noitinha, e se você colocar o seu dente velho debaixo do travesseiro, elas os trocam por moedas.
- Mas eu queria falar com a fada dos dentes...
- Eu entendo que você queira, mas elas não podem, filha. Quem sabe você consiga pegar um no instante em que ela for trocar o dente.
- Vou sim! - respondeu a menina dando um pulo de alegria.
E se chispou pela casa tão rápido quanto veio ao choramingar. A mãe estava pensando em que momento colocar a moeda por sob o travesseiro, ela sabia que a menina dormiria cedo ou tarde. Demorou para que a criança pegasse no sono. Em verdade, a guria foi dormir desolada, queria ter pego a fada no flagra e lhe pergunta sobre o mundo mágico que ela ainda não conhecia. A mãe, cuidadosamente, colocou uma moeda sob o travesseiro e pegou o dente que lá se encontrava.
No raiar do outro dia, a menina corre para a cama da mãe aos berros.
- Mãezinha! A fada trocou meu dente! Você estava certa!
E era uma alegria que só.
Alguns meses se passaram e a mãe havia notado que a menina andara comprando doces e guloseimas no doceiro da escola. Intrigou-se, porque não dava dinheiro à criança. Temendo que a menina pudesse estar pegando dinheiro na casa ou até de seus amigos, resolve indagar e criança.
- Minha filha, onde você anda conseguindo esse dinheiro?
- Não posso contar, mamãe!
Sorrindo com uma boca desdentada.
E aqui acaba-se essa história.

quarta-feira, setembro 06, 2006

Quarto motivo da Rosa

Não te aflijas com a pétala que voa,
Também é ser deixar de ser assim.

Rosas verá, só de cinzas franzidas,
Mortas, intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos,
Ao longe o vento vai falando de mim.

E por perder-me é que me vão lembrando,
Por desfolhar-me é que não tenho fim.

Segundo motivo da rosa

Por mais que te celebre, não me escutas,
Embora em forma e nácar te assemelhes
À concha soante, à musical orelha
Que grava o mar nas íntimas volutas.

Decomponho-te cristal, defronte a espelhos,
Sem ecos de cisternas ou grutas...
Ausências e cegueiras absolutas
Ofereces às vespas e às abelhas,

E a quem te adora, ó surda e silenciosa,
E cega e bela e interminável rosa,
Que em tempo e aroma e verso te transmutas!

Sem terra nem estrelas brilhas, presa,
A meu sonho, insensível à beleza,
Que és e não sabes porque não me escutas...

Motivos da Rosa

Como eterno fã de Cecília Meireles; tenho como meta reunir mais leitores que possam se aprazer com os belos textos dessa poetisa. A série "Motivos da Rosa" mostrará os quatro motivos da rosa, poemas que tratam da existência humana e sua relaçao metafórica com a rosa.

Primeiro Motivo da Rosa

Vejo-te em seda e nácar,
e tão de orvalho trêmula, que penso ver, efêmera,
toda a Beleza em lágrimas
por ser bela e ser frágil.

Meus olhos te ofereço:
espelho para face
que terás, no meu verso,
quando, depois que passes,
jamais ninguém te esqueça.

Então, de seda e nácar,
toda de orvalho trêmula, serás eterna. E efêmero
o rosto meu, nas lágrimas
do teu orvalho... E frágil.

terça-feira, setembro 05, 2006

Observação 2

E jurei acreditar que pessoas grandes poderiam nos entender, amigo. Mas depois eu vi que elas estão muito preocupadas com coisas mais importantes, como assistir a novela das oito. E assim, percebo que os Jovens no Coração são tão poucos quanto os lugares em que a natureza ainda não foi conspurcada...

quarta-feira, agosto 30, 2006

Miracle

Ela estava frustrada e desolada, não conseguia medir a extensão de seu desespero. Como pôde perder o emprego e o namorado no mesmo dia? Não havia mais jantares amorosos, passeios de barco, buquês de rosas... havia apenas o doce momento de desilusão que a sugava e trazia violentamente para a temida realidade.
Ainda indo ao (futuro ex) emprego, ela deparou com seu (futuro ex) namorado beijando uma guria. Não pensou duas vezes, foi em direção ao traidor e lhe exigiu explicações; ele apenas disse que estava já estava pensando em terminar o relacionamente, que só não conseguia encontrar uma boa desculpa para terminar. Após um discurso longo e hipócrita, ele disse que ela ficaria bem e tudo isso era bom para ela, uma vez que ele não a merecia.
Abalada com tal fato, pensou "talvez seja melhor eu esquecer isso pelo menos enquanto trabalho, assim criarei forças para superar tamanho fato". Ergueu sua moral com uma certa altivez, absolutamente justificável, e partiu tumo ao trabalho. O dia parecia tão lindo ao amanhecer...
Ao pisar no salão principal do prédio em que trabalhava: silêncio. Nenhum atendende lhe dirigia sequer um cumprimento trivial, apesar de ela os conhecer há tempos. O silêncio fê-la temer o que teria de enfrentar ao subir os andares. Ao chegar em sua sala, reparou que uma carta fora colocada cuidadosamente sobre sua escrivaninha, carimbada por seu superior. O medo se apossou de seu corpo e, suando frio, ela agarrou o envelope num ato misto de coragem e pavor. Suas mãos estavam trêmulas e seu coração palpitava, ela tentava se encorajar com pensamentos vãos ,"tomara que seja um aumento...". Quando finalmente tomou coragem e leu o conteúdo, quase desmaiou, uma nota lhe informava que fora demitida, ou melhor, exonerada de seu cargo. O céu fez-se de negro...
Como se não bastasse a demissão e a perda do namorado, pesadas nuvens negras s aglomeravam e se despedaçavam em implacáveis gotas de água, trovões e ventania. A água que se precipitava encharcava-lha a roupa e os cabelos. Contudo, ela nem se importava com a chuva; estava encharcada moralmente. E assim caminhou sem rumo pelas avenidas cinzas e sem vida da cidade, como uma indigente deplorável. Não visava um caminho, apenas rumava...
E foi caminhando pelas ruas que ela percebeu que a chuva parara, uma fenda tímida abriu-se por entre as nuvens nefastas e indicavam que a tormenta estava por passar. E nessa réstia de luz que lhe tocou a face, ela percebeu que estava viva; quando olhou em derredor, avistou uma igreja. Não era uma das mais imponentes construções que ela vira, mas sentiu que precisava entrar nela. Queria alguém para culpar, algo para esbravejar.
Entrando na igreja, reparou na simplicidade do local. Paredes antigas, úmidas e mal rebocadas, bancos excessivamente lustrados para um dissimulação (em vão) do novo, velas já derretidas cercavam uma estátua de Nossa Senhora, que por sua vez estava desbotada e maltratada pelo tempo. A Santa erguia os braços como se estivesse sempre apta à consolar os aflitos.
Não havia vivalma na igreja, nem mesmo sacristão ou carola. foi quando ela se dirigiu à estátua e resolveu se confessar ali mesmo, contou de todos os problemas que estava passando e questionou duramente a existência de Deus. Ela estava desesperada e cada palavra que soltava lhe incitava a imprecar mais. E nesse oceano de blasfêmias , a mulher golpeou a estátua com as mãos que anteriormente usou para apontar duramente à imagem. A obra de arte caiu num baque no chão e se partiu em cacos. A mulher se assustou com o que ela mesma fizera e imediatamente pôs-se a juntar os pedaços. Quando apanhou a cabeça da santa, levou a maior surpresa que iria presenciar: a imagem chorava; e não era água salgada, um veio de sangue que lhe escorria dos olhos gotejava no chão. Não se sabe se foi apenas um fenômeno físico de dissolução, ou se era mesmo um milagre que se operava, o fato é que a vida daquela mulher nunca mais foi a mesma após aquele dia...

domingo, agosto 27, 2006

Simplicidade















A vida é tão simples, por que então tem que ser assim?

domingo, agosto 20, 2006

Crisálida

Guardada no seio do jardim,
Nutrida pelas folhas da roseira,
Tão frágil, escondida no carmim,
És delicada, porém também faceira!

Como tu assim larva foste,
Não tão bela quanto se seria,
Não tão previsível como se goste,
O amor surge e urge em nosso dia.

Acaso a ventura conspire,
Em separar e dissipar o nosso amor,
E tal qual a larva insólita vire,
Crisálida esperançosa regida pela dor.

Do cerne da casca, pulsa vivamente,
Coração repleto de paixão,
Esperando apenas momento coerente,
Com as almas que anseiam tal união.

Se porventura o nebuloso destino,
Decida destruir a crisálida,
Exonerando meu cargo peregrino,
Purgando minha vida esquálida.

Um novo raiar fulgurará,
No horizonte do meu coração,
Da paixão guarnecida renascerá,
Nova chama de pura emoção.

E então a crisálida rompida,
Marca do intante a transformação,
Das velhas cascas caídas,
Surge novo ser, uma nova criação.

Metamorfose completada,
O amor transcende o tempo,
O amor transcende nossa estada,
No efêmero mundo do sofrimento.

(Uma borboleta voa célere por entre as veredas desse mundo...)

terça-feira, agosto 15, 2006

A fé

"No atual estado de coisas de nossa sociedade, parece necessário volvermos aos princípios primordiais na busca das verdades mais simples e disputarmos a palmo o território de alguns preconceitos predominantes. Para abrir caminho, preciso fazer algumas perguntas simples, cujas respostas poderão soar inequívocas, como os axiomas sobre os quais se erige a razão; muito embora, quando emaranhadas em vários motivos, elas entrem em formal contradição nas palavras ou condutas dos homens.
No que consiste a preeminência do homem nos rudimentos da criação? A resposta é tão clara quanto o fato de que a metade é menor que o todo, na Razão.
Qual conquista enaltece um ser mais do que outro? A virtude, respondemos. Com que propósito foram emplacadas a paixões? Para que o homem, ao enfrentá-las, possa atingir um grau de conhecimento negado aos brutos, sugere a Experiência.
Conseqüentemente, a perfeição da nossa natureza e aptidão para felicidade deve ser estimada pelo grau de razão, virtude e conhecimento que distinguem o indivíduo e direcionam as leis que conformam a sociedade; e seja igualmente inegável que a partir do exercício da razão, fluem naturalmente o conhecimento e a virtude, caso desejemos encarar a humanidade coletivamente...
Quando o sábio Ser que nos criou e colocou aqui concedeu tal justiça, Ele determinou, permitindo que assim fosse, que as paixões desdobrassem nossa razão, pois via que o mal presente produziria o bem futuro. Poderia a indefesa criatura que Ele trouxe do nada livrar-se de Sua providência e aventurar-se a aprender o bem através da prática do mal, sem Sua permissão? Não. Como pôde? Aquele enérgico defensor da imortalidade [Russeau] argumentar de forma tão inconsistente? Se a humanidade tivesse permanecido para sempre no estado bruto, e nem mesmo sua pena mágica é capaz de pintar como situação onde uma virtude sequer tenha se arraigado, ficaria claro, mas não aos olhos de um sensível ser errante incapaz de reflexões, que o homem nasceu para percorrer o circuito da vida e da morte e adornar o jardim de Deus visando a algum propósito de difícil harmonia com Seus atributos.
Mas se, para culminar, devessem ser produzidas criaturas racionais, aptas a galgarem a excelência através do exercício dos poderes implantados com esse propósito; se a própria benignidade resolvesse trazer á existência uma criatura superior aos brutos, que pudesse pensar e aprimorar-se por que deveria essa dádiva inestimável, pois trata-se mesmo de uma dádiva, se o homem fosse assim criado para ter a capacidade de elevar-se acima do estado no qua a sensação produzisse a êxtase brutal, ser chamada, em termos diretos, de maldição? Maldição poderia ser, caso toda nossa existência estivesse limitada à nossa continuidade aqui neste mundo; pois por que deveria a graciosa fonte da vida nos dar paixões, o poder de refletir, somente para amargurar nossos dias e inspirar-nos com noções errôneas de dignidade? Por que deveria Ele nos afastar do amor próprio em direção às emoçõe sublimes que a descoberta que Sua sabedoria incita, se tais sentimentos não fossem postos em movimento a fim de aprimorar nossa natureza, da qual fazem parte, e nos capacitar a apreciarmos uma porção mais divina da felicidade? Firmemente convencida de que não há mal no mundo que Deus não tenha planejado, elaboro minha crença na perfeição de Deus."
- Mary Wollstonecraft

quarta-feira, agosto 09, 2006

Desestacionalizando ou simplesmente voltando

Por mais que eu tivesse tempo de sobra nas férias não houve um momento sequer em que pude pensar em escrever em meu Blog. Isso é meio contraditório, espero tanto tempo para chegar nas férias e "ter mais tempo" para me concentrar nas minhas idéias e quando elas (as férias) chegam, recolho-me numa concha e decido que lá é melhor ficar. Não sei se é o caso de vocês, caros leitores. Apenas sei que tentarei voltar à ativa :P .

Texto número I

"- [...] mas você promete pra mim?
- Hã? Aquilo da Lua?
- Não é "aquilo da Lua"! Você bem sabe como eu sou, gosto desses rituais...
- Tá certo, amor, então repita pra mim o que você falou.
- Olha, sempre que nós estivermos longe um do outro e seja noite, se houver a lua no céu, teremos de olhá-la e imaginarmos que estamos próximos, mas tão perto que possamos sentir a presença um do outro, e a magia do amor que nos une.
- Mas meu amor, onde quer que eu esteja sentirei essa chama intensa que nos une e atrai! Não precisamos desse ritual.
- Por que você não simplesmente tenta fazer? Eu tenho certeza que você vai entender depois que fizer.
- Certo, então eu o farei.
[...] Após três meses, ele teve de se distanciar dela, tinha de completar um curso em outro estado. Na primeira noite não houve lua, mas na segunda uma fração dela surgiu no céu, tão tímida, mal se via seu brilho se expandir pela vastidão escura da Terra. Na percepção dele, afetada pelo coração, ecos da voz dela vinham da longitude do horizonte; ecos que o acalentavam e o lembraram da promessa feita. Ele riu-se do que iria fazer. "Onde já se viu, olhar pra lua...". Então, sem qualquer esperança de que algo especial ocorresse, ele ergue os olhos e contempla a lua. No início, via apenas a aura branca e enevoada que a contornava. Contudo, ao passar do tempo ele começou a sentir um level calor que o consumia seu corpo, mas não de forma lasciva ou carnal, era um calor fraterno e intenso que o remetia à eternidade do amor. Ele sentiu a presença majestosa dela, como se ela balbuciasse juras de amor ao seu ouvido, e seus braços o envolvessem e o permitissem ser feliz por mais alguns instantes. E ele adormeceu, acalentado pelos braços do seu amor numa noite enluarada."
"Quando as pessoas vêem as descobertas que faço, perguntam geralmente 'por que sim?' e eu replico-as com um 'por que não?'"
- Eu devo ter modificado tudo e nem lembro de quem é hehehe, mas a idéia dá pra ser captada né? autor deconhecido (deslembrado)

terça-feira, julho 11, 2006

Pra Ser Sincero

"Eu era tão feliz
E não sabia, amor
Fiz tudo o que eu quis
Confesso a minha dor
[...]
E o que passou, calou
E o que virá, dirá
E só ao seu lado, seu telhado
Me faz feliz de novo
O tempo vai passar
E tudo vai entrar no jeito certo de nós dois
As coisas são assim
E se será, será
Pra ser sincero, meu remédio é te amar, te amar
Não pense, por favor
Que eu não sei dizer
Que é amor tudo o que eu sinto longe de você"
- Marisa Monte

Essa parte "E o que passou, calou, e o que virá, dirá" apresenta um caráter tão gostosamente efêmero; deixa que o tempo dirá o que acontecerá e te esqueça das chagas do passado, não deixe-as enterradas, incinere-as, liberte-se e renasça das cinzes que surgirem...
Essa é minha Marisa =P

domingo, julho 02, 2006

Por quê?

Por que sempre que achamos que estamos perto de conseguir um amor ele se esvanece de nossas vistas como uma fumaça?

Quatrième raison de la rose

ne t'affliges pas avec le pétale que vole,
aussi c'est être cesser de d'être ainsi.

roses verras seulement de cendres froncées,
défunts, intacts par ton jardin .

je laisse arome mêm dans mes épines,
au loin vent va en parler de moi.

et deme perdre c'est qu'ils me vont en rappeler,
dem'effeuiller c'est que je n'ai pas fin.

If I only had a home

De repente o menino acorda, mas tão repentinamente que o silêncio se espanta e dá lugar ao barulho, o berro de medo. Ele estava só, abandonado no breu da avenida vazia. Alguém o esquecera ali, algum pai ou mãe irresponsável. Só restava o garoto, o gato vira-lata e o cachorro vagabundo a correr atrás do gato.
Estava frio, os lábios do menino arroxeados tremiam, temiam e pediam pelos pais. Ao longe ouvia-se uma resposta, vozes longínquas. Contudo, talvez fosse a imaginação desesperada de um abandonado. Os piores monstros e fantasmas na imaginação do garoto não eram piores que o terror de estar sozinho.
As extremidades dos membros do garoto começaram a congelar. O frio era lento e fatal com suas vítimas, especialmente as Jovens de Coração. Foi então que precipitou-se a nevar. Pesados flocos de neve caíam em derredor do garoto. As esperanças se esgotavam à medida que a neve vinha. O menino lembrou-se da sua casa, calorosamente aquecida com alegria. A neve caía. O garoto lembrou-se do seu animalzinho de estimação. A neve caía. O menino queria ir a um lugar melhor. A neve caía. O menino começou a sentir sono. Fechou os olhos e dormiu para sempre. Contudo, numa outra terra bem distante, onde nunca neva e nem os pais abandonam os filhos, um garotinho abria os olhos feliz da vida.

quarta-feira, junho 28, 2006

If I only had a heart

Súbito grito partido da alma,
Tontura cética de um sofredor,
Atadura rompida pela palma,
Pela palma impassível do amor.

Cálidas mãos lembradas,
De momentos de contentação,
Mãos essas agora mortas, enterradas,
Num baú de recordação.

Percebido o tempo perdido,
Por pura falta de compromisso,
Tentou-se fazer o pedido,
Negado, revogado, homem omisso!

Rios corridos da face pendida,
Deságuam na baía da desolação,
Tudo isso por causa da vida,
Da vida de um homem sem coração!

quarta-feira, junho 21, 2006

If I only had a brain

"E, descomedidamente, ele correu pela pradaria enxugando as lágrimas que saltavam de seus olhos. O pranto convulso e a velocidade com que percorria o lugar não permitiam que ele pensasse. Na verdade, ele não pensou em nenhum momento desde quando fê-lo... desde a vez em que reprimiu severamente seu melhor amigo, e quando se mostrou implacável com sua namorada ao vê-la abraçada com tal amigo.
Agora ele sentia na pele, ou melhor, na alma o que todo bom romântico mais teme: a solidão. Ele estava arrependido de tantos atos impensados, mas nem sempre se pode voltar com o que foi feito. Para quem sempre teve um ombro em que se possa apoiar, um ouvido para desafogar os problemas, é aterrador saber que está à mercê do silêncio.
Foi quando ele tropeçou numa pedra no meio do caminho (no meio do caminho havia uma pedra), que ele percebeu que ele havia tropeçado nele mesmo. A adrenalida circulava freneticamente pelas artérias e veias de seu corpo, a excitação, a palpitação, o desespero, tudo convergia para o irracionalismo abrupto. Ele não sentia dor, embora estivesse ensangüentado.
Se ao menos ele pudesse ter pensar numa solução. Quem sabe ele encontrasse uma resposta se se acalmasse, mas que droga! Ele não conseguia se aquietar, seu coração estava revoltado e parecia não estar disposto a uma trégua. De repente, um gorjeio atrapalhou seus pensamentos; olhou ao redor do campo e visou um rouxinol a cantar no galho de uma árvore morta. Conforme escutava a melodia da ave, percebeu que a relva estava mais macia e suas pernas ardiam. Também sentiu que era tempo para voar a outras terras."

terça-feira, junho 20, 2006

Como uma pétala

Descobri que somente passando por uma situação deveras temos idéia de como ela seja. A maturidade é inerente à vida e devemos estar preparados para as mais diversas ocasiões. O destino nos guia e, independentemente de nosso querer, estamos fadados ao acaso e à aleatoriedade dos fenômenos existenciais.
Das experiências mais amargas e desagradáveis que podemos encontrar, a perda de uma pessoa querida é uma das mais desgostosas. Infelizmente, o ser humano é sujeito às imperfeições em sua natureza. Portanto podemos demonstrar atitudes e comportamentos incorretos, que acabam por ferir os entes queridos. Uma amizade imponderável pode ser facilmente denegrida pela força da inveja, pelo poder da mentira ou até mesmo pelo desgaste temporal.
A poetisa Cecília Meireles, mestra na descrição da vida como uma passagem efêmera, ensina aos leitores que o importante de um momento é a satisfação física, moral e espiritual que ele pode trazer, sem a preocupação do momento vindouro e de conseqüências eqüiprováveis. Sendo assim, um desentendimento não passa de um mero resquício de nossa imperfeição. Uma gota de mácula num oceano de pureza. Contudo, nem todas as pessoas têm noção da efemeridade e da consciência de que ela é o principal motivo para adotarmos uma vida branda e pacífica.
Assim como a pétala que voa, os problemas passam e abandonam nossa vida. Uma amizade é feito uma pétala, dentre várias numa rosa da vida.
"E por perder-me é que me vão lembrando,
Por desfolhar-me é que não tenho fim."
- Cecília Meireles

sábado, junho 10, 2006

O pesadelo de um homem ridículo

Hummm! Belo dia hein? Estou tão inspirado hoje que me disporei a contar sobre minha vida. Sou um homem normal, completei 47 anos semana passada. Sou casado e tenho um casal de filhos, uma guria de 17 anos e um rapaz de 15. Desde criança eu sempre consegui me sair bem nas mais diversas situações, eu mentia para meus pais, dizia que ia para a escola e ficava na casa de outros amigos, jogando bola, bolinha de gude. Eu era um garoto muito esperto para a idade e me aproveitava disso.
Na adolescência, as coisas começaram a se passar melhor ainda. Eu meio que conseguia conciliar minha "vida vadia" com a "vida correta". E o fazia com primazia, por sinal. Uma data inesquecível foi o dia em que perdi minha virgindade. Dessa vez houve um papel fundamental de meu pai, o qual contratou os serviços de uma mulher da vida. Ela era tão linda, devia ser um lustro mais velha que eu; curvas agressivas desfilavam por um corpo cultivado para o prazer, cada parte de seu corpo emanava sensualidade, chamava para o sexo. Tudo deu-se com calma, pela primeira vez sentia o gozo da cópula, o ápice do prazer. Essa sensação acompanhar-me-ia pela posteridade, sobre a qual contar-lhes-ei dentre intantes.
Veio a maturidade e com ela a independência. Ah! Liberdade, sim, agora tinha de me virar; passei no vestibular, fiz o curso de maior fama na época e minha carreira era certamente próspera. Comecei trabalhando numa empresa de negócios. Eu era office-boy. Não gostava de ter aquele emprego, chulo, mesquinho; eu queria mais...
Depois de ter estabilizado minha vida, conheci uma mulher, bonita, inteligente e faceira. Sabia que era com ela que me casaria. Pensado e feito: ela era minha. A lua-de-mel foi numa praia, flashes de cinema. Contudo, minha "vida vadia" teria de ser bruscamente assassinada, não! Não deixaria ninguém impedir minha liberdade, teria minha vidinha, oculta, mas teria.
O primeiro filho que veio era uma menina, linda por sinal, parecia uma princesa de porcelana quando bebê. Entretanto, a vida de casado começava a pesar no bolso, e com ela recentes brigas entre minha esposa e eu. Ela estava certa no que dizia, eu tinha de arranjar um emprego melhor, mas não estava nem aí pra eles, queria mesmo é seguir com minha vida implícita. Minha dissimulação, aprendida desde criança, fizeram-me mestre na arte de seduzir e lograr.
Com a vinda do segundo filho, a situação tornou-se insustentável. As brigas intensificaram-se, eu gastava dinheiro comprando materiais para mim e acabava por diminuir a renda familiar, ela não trabalhava e eu jogava um "você não trabalha, então fique calada!" e a situação se aquietava. Confesso que até cheguei a bater nela, bati muito no começo, mas depois ela se mostrou forte e tive que parar. Ela cada vez mais se tornava forte, isso me deixava nervoso e inquieto, não podia admitir que uma mulher fosse mais forte que eu.
Pensando nessa situação com minh esposa, resolvi intensificar minha vida implícita. Encontrei uma amante, não foi difícil, afinal sou sedutor de carteirinha. Como minha esposa não transava mais comigo, desafoguei meus desejos com a amante. Eu era o mestre da situação agora, tinha uma vida dupla, de submisso em casa, para rei na cama da amante. Ela me idolatrava, e eu sentia prazer com ela e em trair minha esposa.
Sucedeu que esse homem adúltero conheceu uma cigana enquanto dirigia-se para a casa da amante. A velha pediu para ler a mão do adúltero docemente. Ele concordou e mostrou a palma da mão. A velha, como se apenas confirmasse suas expectativas, lançou-lhe um olhar assustador, como se soubesse de todos os pecados que ele carregava, todas as atitudes lascivas e inconseqüentes. Ele entrou em súbito pânico e chegou a agredir a senhora, ela, muito fraca, caiu no chão. Furiosa, praguejou contra ele numa língua desconhecida. As palavras ecoaram por toda a rua, e pela vida do adúltero. Ele não acreditava muito em maldições, mas assustou-se deveras com o poder daquelaas palavras (e assustar-se-ia muito mais).Após isso, foi para o antro de pecados.
Depois de cometer o ato de adultério (ele não tinha um pingo de ressetimento), voltou para casa e ainda no caminho comprou flores para a esposa, de tão feliz que estava. Era por volta das onze e meia da noite e era de se esperar que sua esposa e filhos estivessem dormindo. Estranhamente, não havia vivalma na casa, estava totalmente escura, com todas as luzes apagadas. Um ar fúnebre perdurava pelo aposento, ele sentia frio, coisa inimaginável, pois estava em pleno verão e no Nordeste! Por instantes ele se lembrou de que o frio era sinal de que espíritos rondavam o lugar, mas logo apagou aquilo da mente porque não acreditava.
E lentamente ele dirigiu-se para o quarto de seu filho, esperando que ele estivesse pregando uma peça ou coisa do tipo. Enquanto se encaminhava, ouviu um ruído baixo vindo do quarto, era como se fosse um barulho de berço, mas era diferente de um rangido normal, era sinistro e sincronizado com os seus passos. Quando abriu a porta do aposento, pouco pôde distinguir no breu que imperava. Contudo, podia ver que havia um vulto encolhido num canto do quarto, e estava perto do berço. Mas não havia berços na casa. O vulto permanecia em silêncio, e pelo que parecia estava a balançar o berço. O homem criou coragem e resolveu se aproximar do berço. Quando estava bem próximo, conseguiu ver que havia um bebê dentro dele, e o vulto balançava o berço com apenas uma mão, ela era totalmente calejada e esquelética.
De repente, o vulto começou a cantar um canção de ninar, o homem entrou em pânico: o vulto tinha a voz da mãe dele. O vulto ergueu das sombras um punhal e meneou estranhamente a cabeça. Ergueu o objeto no ar, acima do bebê e balbuciou: o fruto do pecado deve ser exterminado. O adúltero rapidamente lembrou se de que a sua amante queria um filho com ele, será que aquele era seu filho? Rapidamente ele retirouo bebê do berço, antes que o vulto pudesse matar a criança. Chutou furiosamente o berço, que se investiu contra o vulto, mas esse se desfez, restando apenas o pano preto que o cobria.
Quando o adúltero foi averiguar o bebê, tomou outro susto: era um cadáver de um bebê, semi-putrefato. Algo foi sussurrado aos seus ouvidos enquanto ele jogava o cadáver no chão. Eram as palavras da velha cigana, entre risos e choros, com risos de escárnio e choros de multidões. Ele ouvia a orquestra do inferno, regida pelo pecado. A casa se dissolvia na sua frente, ao seu redor; restou apenas à sua frente a cama com a qual ele traía a esposa. Parecia que havia alguém dormindo na cama, devia ser a amante.Ele removeu o lençol que encobria o corpo e entrou em estado de choque: sua espoa, com roupas íntimas da amantes, dormia silenciosamente.
De súbito, ela abriu os olhos e gritou, mas não saía som da boca. Ele não escutava mais anda, tudo girava ao seu redor, ele sentiu o peso do pecado, era um adúltero e se arrependia do que havia feito, mas não adiantava mais, o que foi feito está feito. Ele haveria de pagar, nem que levasse toda a eternidade, ele pagaria ou sua alma seria consumida pelo vil fogo do inferno.

quinta-feira, maio 18, 2006

Destiny's Land

"Here, living satisfacted with the greeness of the nature. Extracting all happiness and health from the forest, I can't imagine a place dominated by the evil. Men and nature coexist in a perfect harmony here at Seresta.But I have heard terrible tales of black rains, ashen fields, and metal that screams. I have consoled myself that the tales were a myth of some fevered mind. But today I saw a walker - and now I fear the truth.
I went to the druid's home and asked about the future of our people. I was afraid about our forest. However, the wise said that the forest do not belong to us, and we only have our soul to care for. 'Only those who have nothing have nothing to fear'."
- Selena's tales - tale nº47.

quinta-feira, maio 04, 2006

Questionamento

"E mais uma vez perguntava-me acerca de meu sofrimento agudo, a "agutite sofrida". Cada vez mais tomava consciência da permanência dos sintomas: peso no coração, inércia de viver, lágrimas sufocadas... E cada vez mais queria encontrar a cura. Talvez...talvez se eu encontrasse um amor de verdade, daqueles de filmes, por que não? Não! Isso é mentira, a vida é uma mentira, o céu não é azul e o universo é finito como minha vida..."
- Relatos de uma vida perdida (parte 2)

quinta-feira, abril 27, 2006

O Sol existe

Por mais que haja os devaneios noturnos,
E as risadas boêmias ao luar,
E os bacanais profanos,
E as noites românticas,
E os atos mundanos,
E as serenatas eloquentes,
E os beijos escondidos aos becos,
E as lágrimas decadentes,
E o medo da escuridão,
E o medo do esquecimento,
E o medo da solidão,
E o canto vagaroso e triste,
E a alma de sofrimento,
Por mais que ...,
O Sol existe.

obs.: para plagear o texto de HD

quarta-feira, abril 12, 2006

Lembrete

Não esqueça,

não esqueça;

não esqueça?

não esqueça:

não esqueça!

não esqueça.

Esqueça...

Eu sou diferente

Para todos aqueles e aquelas que estão pusilânimes e que precisam explicar-se sobre alguma atitude ou comportamento, vai aqui uma declaração de diferença, análoga a qualquer outra declaração de direitos:

Eu sou diferente. Não preciso de mais delongas, explicações demasiadas, exibições patéticas, feitos mirabolantes, atos fantásticos, enfim, sou e pronto. Sou singelamente diferente e não devo explicações de como ou porque sou, não sou um livro que pode se abrir e esmiuçar sobre. Sou um ser humano, e como tal apresento máscaras, desvios de comportamento e quaisquer desses vícios inerentes a um cidadão.
Não preciso sair pelas ruas escandalizando, gritando, protestando para que todos prostrem-se diante de meus pés reconhecendo minha diferença. Apenas quero que respeitem meus pontos de vista, minhas concepções e princípios, por mais que se pareçam com dogmas (embora não o sejam). Em suma, sou diferente de tal sorte que sigo minha vida despreocupado com opiniões alheias à minha existência. Espero que sigam meu caminho.

segunda-feira, abril 10, 2006

Nadei

Andei, nadei, danei pelas bandas do mundo. Tudo isso para me esquecer das ciências e suas leis que regem o tão infinito, e nunca por mim visto, universo. Fugi de casa uma vez por causa da força centrífuga da máquina de lavar roupa, pensava que era minha mãe me enxotando; ilusões de mediocridade. Outra, queimei meu livro de Biologia na tentativa de "renovar" a matéria, a final, segundo Antoine Lavoisier "na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma".
Sempre esses eventos não-agradáveis se prosseguiram ao longo de minha vida e nunca reclamei deles, eram resultado da ávida procura pela verdade. Quando completei 30 anos, resolvi viajar de trem, daqueles que apitam alto e forte quando desembarcam na estação, chega dá gosto de ver a fumaça saindo da chaminé (Oh Deus! Poluição atmosférica, efeito estufa, inversão térmica!). Lembrei na hora que, por causa do efeito Doppler, a frequência ouvida por mim do apito da locomotiva em movimento é diferente daquela em que ela seria se estivesse estacionada. Uma mudança sensível em minha vida se fez por causa do efeito doppler, veja bem: se a frequência da locomotiva fosse mais aguda que o normal enquanto se distanciava da estação, não poderia ter ouvido o melodioso som da voz de minha futura esposa, Diana, perguntando-me se aquela estação a levaria para Dumas, cidade interiorana. Esse negócio de ciência é feito tabaco, rum, cerveja e tudo que há de pior, mas com um lado bom: pode dar dinheiro.

terça-feira, abril 04, 2006

Espírito engajado

E aqui, lendo às vésperas da prova de História, sobre a Revolução Frances, toma-me de súbito, num ritmo frenético, o espírito engajado, daqueles que se excita com a imagem de uma iminente revolução:
"Em 14 de julho de 1789 o povo em armas realiza a tomada da prisão política da Bastilha, vista como símbolo do absolutismo, e libertava seus prisioneiros, ocorrência que passou a ser chamada de Segunda Jornada revolucionária. Em Versalhes, o rei, ao ser informado sobre os acontecimentos, exclamou:
- Mas isso é uma revolta!
Seu informante, o duque de Lancourt, respondeu-lhe:
- Não, majestade, é uma revolução".

sábado, abril 01, 2006

Ordinária

Ela chegou do trabalho satisfeita; havia feito tudo certinho nas gravações. Uma atriz de prestígio? Bem, até que poderia se dizer que sim. Uma pessoa feliz? Talvez não. No apartamento em que morava tudo era solitário: as mobílias exalavam um odor limpo de solidão, os tapetes lembravam figuras solitárias do deserto, o sofá vazio, os quadros imóveis, os retratos nostálgicos. Ela tantava denotar para si mesma, na frente do espelho, um ar convicto de alegria, mas essa, essa não saía. O sorriso forçado contribuía ainda mais para intensificar seu desespero, sua tristeza. De que adianta dinheiro? Fama? Riqueza? Nada importava quando se tratava de amizade, confiança, humildade e amor. Podemos comprar amigos, mas não os verdadeiros. O dinheiro leva consigo a traição e a hipocrisia ( e ela bem disso sabia).
Ela ligou o aparelho de som; queria ouvir alguma música. Na verdade, queria é amenizar o silêncio aterrador que se insinuava pelo ambiente. O silêncio que a corroía lentamente fê-la sentir medo de viver. Talvez fosse hora de abandonar o sonho perdido, a vida mascarada, o mundo corrompido. Decerto haja um lugar melhor que não seja este.
Ela terminou de arrumar o aposento; tudo estava impecavelmente limpo. Depois, resolveu tomar o café da tarde (queria sentir pela última vez o gosto amargo da vida). Ela deixou a mesa como estava e decidiu não escrever nenhuma carta aos outros, o que tivesse que ser seria. Então, ela partiu para outro mundo e, minutos depois, o porteiro encontra seu corpo no andar térreo, com um sorriso infantil, mas verdadeiro estampado no rosto morto.

sexta-feira, março 17, 2006

Latência

Não me peças,
Para sorrir,
Essas mágoas, essas,
Insistem em me perseguir!

Não me digas,
O que fazer,
Tu, que me fatigas,
Com teu jeito insípido de ser.

Não me faças,
Expulsar-te daqui,
Deixa-me co'as traças,
Deixa-me pensando que já morri...

Não me prendas,
Com teus grilhões,
Forjados com o amor das sendas,
Das sendas dos teus perdões.

Não me acordes,
De meu (eterno) sonho,
Deixa-me na latência, sem acordes,
Sem notas, tons reais desse mundo medonho...

terça-feira, março 14, 2006

The universe behind the classroom

Era a aula de Biologia; clima árido se distribui pela classe devido à aula intempestiva. A alegria é estéril; o sono é fecundo."Pelo menos tem apresentação de trabalho hoje", pensaram todos, meio que num uníssono de pensamentos. A telepatia dos alunos é algo não muito raro, tendo em vista os desgostos em comum causados por certas matérias e professores.
O professor entra na sala meio apressado, com o suor escorrendo-lhe das têmporas. Um homem surpreendentemente gordo, estatura baixa e de caráter desconfiado. Ele, ainda ofegante, pede que todos os alunos que estivessem em pé se sentem para que possa ser iniciada a aula,"isso aqui não é feira pra haver tanta gente em pé".
Ainda entre muitos resmungos e chiados, a aula começa. O professor pede que o grupo que fosse apresentar o trabalho se dirigisse para o patamar da sala. Todos os outros já estavam folgados em seus assentos, esperando que esse trabalho pudesse ser uma boa fonte de descanso do dia anterior. Todos pensam assim, sempre assim...
Para espanto geral, o grupo que ia se apresentar era composto de um único aluno, um novato. Era aí que eles não iam prestar atenção. "Sobre o que você vai apresentar mesmo?", a pergunta irônica veio de um canto da sala, povoado pelos alunos "queridinhos" dos professores. "Se você esperar, mostro-lhe já já", respondeu o rapaz com um sorriso enigmático.
O rapaz era normal (aparentemente) trajava, como todos os alunos, o uniforme do colégio; tinha olhos castanhos-claros, cabelos meio loiros, sombrancelhas grossas e estatura média. Não parecia um daqueles nerds da turma; seu porte era atlético. Tampouco possuía algum ato vicioso, como piscar ou esfergar as mãos incessantemente.
"Bom, pessoal, vou apresentar meu trabalho sobre origem da vida", disse, sem muito espanto por parte da classe. "Agora, vou falar três palavrinhas mágicas: silêncio!..." e nesse momento todos, todos sem exceção sem calaram, como num ato de mágica. E os alunos se entreolhavam estupefatos, ainda meio destoados do que havia acontecido, foi quando o rapaz falou a outra palavra "... sombra!...", e todo a classe mergulhou num breu profundo. Agora era um misto de medo e surpresa semeado no ambiente. A adrenalina subia gradativamente. Os ritmos cardíacos disparavam. Foi quando a terceira palavra foi solta "ação!", e a partir daquele momento, estavam diante do universo em sua gênese.
Um minúsculo ponto era distinguível no breu, brilhava tênue no começo, mas depois começou a pulsar cada vez mais brilhante, a ponto dos alunos protegerem os olhos. Então, o ponto explodiu, num fenômeno espetacular. E foi lançando matéria por todo o universo. Depois, seguiu-se a formação de corpos gasosos, e então esses ganharam forma mais densa. A sala de aula seguia essas passagens como se estivesse dentro de uma nave espacial, mas não havia fronteira nítida entre ela e o que a circundava.
De um corpo gasoso solidificado em especial, desprenderam-se dezenas de outros, e esses, por ação da gravidade, continuaram a girar ao redor do corpo inicial, o qual tornou-se uma estrela. Um dos corpos desprendidos solidificou-se e tomou forma esférica. Após alguns segundos, a classe dirigiu-se para o planeta formado. uma palavr traduzia o que se passava: caos. Vulcanismo, tectonismo, tempestades, impactos de meteoros, enfim, um espetáculo de destruição (ou construção?).
A classe dirigiu-se para um dos mares formados e foi diminuindo de tamanho; diminuiu, diminuiu até ser possível distinguir as moléculas que estavam no mar. Elas, a princípio eram simples, mas foram passando por transformações até se tornarem complexas, e dessas moléculas complexas surgiu um ser. Um ser tão insignificante, tão irrisório que nem parecia um ser vivo. Contudo, os alunos ( e o professor) perceberam que aquela insignificância era a gênese humana, ou a gênese da gênese. E seguiram-se as transformações desse ser, e suas evoluções num ritmo quase que instantâneo, centenas de milênios passavam em frações de segundos, espécies eram formadas e extintas, continentes se separavam e juntavam, meteoros caíam. E mbora passasse rapidamente, todos os presentes na classe conseguiam entender o que se passava, como se o tempo fosse mais relativo do que pensavam. E no final de tantas transformações, chegaram finalmente ao homem: Australopithecus, Homo erectus, Homo habilis, homem de Cro-magnon e Homo sapiens.
Depois dessa orgia de história, de química, de vida, perceberam o quanto era medíocre os pensamentos sobre matérias, vestibulares, decorar termos.O rapaz pronunciou "status quo!", e a sala retornou ao mesmo estado inicial. Demorou muito até todos perceberem que era a hora do recreio.

quinta-feira, março 09, 2006

Ainda crepite

Por mais que em todos os suspiros perdidos,
em todas as manhãs nubladas,
em todos amores incompreendidos,
em todas as paixões sufocadas,
em todos os perdões asfixiados,
em todos os espelhos de vaidade,
em todos os "obrigados" engolidos pela ignorância alheia
(e mais todas as atitudes e fenômenos que insistem
em nos levar a um estado mórbido de consciência),
haja uma vontade de parar, existe uma luz.
E quando se toma a sensação de esperança
para dentro do peito, numa atitude,
muitas vezes, impensada;
você, realmente, desanuvia todos problemas,
todas as angústias,
todos os fardos se desfazem apenas nesse vislumbre
de mudança, de revolução, de esperança.
E você vê que a vida leva os vislumbres com o vento,
mas a esperança inserida persiste
enquanto dentro de nós uma chama de humanidade
ainda crepite.

segunda-feira, março 06, 2006

Ruídos

Clep clep clep...
(Na floresta, outono, queda de folhas....)
flip flep flep...
(vento frio arrasta as folhas)
fiuuuuuuuuu
(um sibilo gélido corta o ambiente)
plam!
(uma fruta cai)
nhac!
(estou com fome)

sexta-feira, março 03, 2006

Nowhere

He came from nowhere and to nowhere he would go, but how can a nowhereman find the answer for questions wich don't have any sense?
He came from the "nothing" to turn back to "doubt", he wished he were happier in a strange place, with odd persons, but we was wrong, everytime, the best place was his old and welcoming home (oh! And there's no place like home).
His veritable way was fated to be chosen for the destiny, and he, worthy, will unfold the Truth by himself (like any other one)...
Nowhereland is not only the land of the solitude, it was also the land of the ones who want to discover what can't be known only for mere suppositions...

terça-feira, fevereiro 28, 2006

Em breve

Não, isso não é um anúncio de filme cinematográfico, vim apenas para avisar que em breve teremos uma continuação da história dele (do conto "transição")... agora ele procura mais do que a verdade...

sábado, fevereiro 25, 2006

Peço

Peço por aqueles que caíram,
Ao longo do caminho,
Mas tentaram bravamente,
Conseguir a tão esperada
paz]

Peço por aqueles que sorriram,
Mesmo ao tendo sido massacrados,
Pelas chamas da vaidade,
E que ainda conseguem dizer um
obrigado]

Peço por aqueles que choraram,
Cujo pranto não foi ouvido,
E mesmo não sido correspondidos,
Ainda lamentam pelos que não conseguem
amar]

Peço por aqueles que gritaram,
Num uníssono de revolução,
Aqueles cujos ideais ecoaram,
E nem mesmo estão nos livros de história
da nação]

Peço por você, por todos,
Um mínimo de compressão,
Peço que ao menos peçam,
Um sincero e merecido
perdão]

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Quero

Quero de volta essa fluidez nos sentimentos,
Do tempo em que eu era criança,
Quero de volta a vivacidade dos momentos,
Que agora não passam de singela herança.

domingo, fevereiro 19, 2006

Transição

A alvorada surge nublada num sábado; o frio é intenso. Ele acordou com o formidável barulho do despertador. Com uma relutância relevante, levantou ainda pensando que continuar deitado em sua cama quente e macia era o melhor a ser feito. Após realizar as atividades matutinas típicas, resolveu sair do apartamento e experimentar o mundo.
Daquela vez não pegaria o carro, queria ver as coisas com outros olhos. Caminhar era natural, humano. Na verdade, ele queria fazer justamente o que nunca fazia, pois sabia que o mundo é algo inesperado e carrega consigo o mistério, bastava apenas desbravá-lo com um pouquinho de coragem para superar o comodismo.
E caminhando pelas ruas da cidade, foi lembrando da infância; dos tempos em que o agora importava, não o amanhã ou o ontem; das brincadeiras no parque... O tempo foi implacável ao mudar as formas das avenidas, ruas, estradas; mas foi impotente ao tentar, em vão, prejudicar as lembranças.
Leve garoa cai pela tarde, e ele resolve pegar um trem para a outra cidade. Gostava de ver o mundo pela vidraça do trem (o qual não via há anos). As árvores, os campos passavam tão céleres aos seus olhos, semelhantes às pessoas e acontecimentos em nossas vidas; mal vinham, mal partiam. E quanto mais ele mergulhava em pensamentos, mais tomava consciência de que estava vivo e que precisava respirar mais, ver mais, sentir mais.
Chegando na outra cidade, litorânea por sinal, decidiu, insensatamente à primeira vista, seguir uma estrada andando sem pensar no rumo; queria ver que destino teria se seguisse "de olhos vendados". Pensou que, se "o destino guia seus cavalos pela noite", então ele pode guiar um simples humano por uma estrada.
Enquanto dava passos despreocupados pelo caminho, ele percebeu que, desde o raiar da alvorada, não viu sequer uma pessoa. As cidades, as ruas, as avenidas estavam completamente vazias e ele não se deu conta até aquele momento. "Decerto que devem estar em suas residências, descansando..."-pensou ele. E rumou perseverante.
Logo no início do caminho, ele viu um garoto em prantos, estava sozinho e desconsolado. Chorava e gritava pela mãe. O homem aproximou-se do menino, curioso, perguntou onde estava a mãe dele. O garoto, que estava de costas para o homem, virou-se e encarou-o sem mencionar nenhuma palavra; após alguns instantes, soluçou e disse "você me deixou naquele dia", e desapareceu.
O homem pareceu atordoado. Não conseguia entender o porquê de uma criança evaporar em pleno dia. Contudo, algo mais o deixou aterrorizado, algo que atingiu-o mais profundamente, alcançando-lhe as entranhas da mente: o garoto em prantos fora ele.
Como não havia vivalma aos arredores, ele resolveu seguir pelo caminho, afinal, havia decidido seguir até um destino, seja lá qual fosse. Estava surpreso pelo incidente anterior, e isso lhe fornecia um fôlego extra para prosseguir. Continuando a caminhada, reparou que o caminho bifurcava em duas estradas distintas: uma placa indicava "verdade" e outra "felicidade". Ele contemplou os caminhos aos quais poderia seguir: no horizonte da primeira estrada, via-se um céu azul profundo; no da segunda, um céu vermelho dourado, vivo. Teria de refletir bastante para encontrar a via certa.
"A verdade é difícil de ser encontrada. É o caminho para a sabedoria, mas é também fonte de discordância entre vários povos, e de discórdia entre as religiões. A felicidade é a utopia vital; contudo, realmente não sei se já a tenha sentido, é tão abstrata..."- divagava o homem, que até havia se sentado diante das estradas para decidir a melhor escolha. "o crepúsculo pode chegar, portanto é melhor eu escolher um caminho logo". Seguiu o caminho da verdade. "Posso ter escolhido o caminho errado, mas não seria feliz sem conhecer a Verdade".
Ao caminhar, notou que o céu era escuro; a visibilidade da estrada era parcial e a trilha havia se tornado sinuosa. Era mais árduo do que pensava. E quando sentiu sede, pensou que poderia ter se prevenido trazendo água consigo. Entretanto, quase que na mesma hora que pensou nela, duas mulheres, irmãs aparentemente, surgiram perto da estrada, ambas carregavam uma jarra com, o que parecia, água.
A primeira, vestia uma túnica cinza, era uma anã; mal conseguia segurar o pote. Sorria muito e parecia meio nervosa. A segunda, trajava uma túnica laranja (não era anã) e sorria para o homem com um certo desafio no rosto. Ambas falaram num uníssono "queres água? Pois beba de meu pote!". O homem pediu água para a mulher anã e ela deu-lhe o cântaro. Ao beber do conteúdo dele, sentiu uma sede avassaladora. A anã soltou uma gargalhada e sumiu-se como o menino visto antes. A de túnica laranja simplesmente deixou o pote na estrada, sorriu e desapareceu também.
Tomado de um mal-estar forte, desesperadamente, bebeu da segundo jarra. À primeira sensação, sentiu-se pior, mas depois a dor na garganta foi sendo transformada em alívio, e o homem saciou sua sede.
Retornando à jornada, quis que aquela estrada terminasse logo. Estava cansado de segui-la, queria parar, a escuridão aumentava com o passar do tempo e ele temia o que poderia enfrentar. Num esforço maior, apressou o passo. Sentiu que o caminho havia se tornado menos tortuoso que antes. Avistou uma luz, débil, mas cintilava na extrema do horizonte. Como qualquer humano, seguiu-a. E ao chegar bem próximo dela, percebeu que era uma fogueira. Ao redor dela os amigos dele se encontravam desfrutando de prazeres mundanos, havia muito prazer, gula e desejo naquele lugar. "Vinde a nós, meu caro, desfruta dos prazeres da vida e esquece essa história de Verdade".
A proposta era tentadora, afinal de contas, ele estava cansado de seguir a estrada. Poderia permanecer ali e se deleitar com os prazeres. Contudo, lá onde "é fundo como a desgraça, onde o pranto não adelgaça, leve qual sombra que passa...", ele sentiu que preciava encontrar a Verdade; era pertinente à sua personalidade buscá-la. "Não, seguirei o caminho". Dito isso, todos desapareceram, e junto foi a fogueira.
O homem continuou sua jornada, sozinho e perseverante. Caminhou muito, passou por vales, montanhas e florestas, em todos os lugares havia ausência de vida, de movimento, em certas partes não haviam cores, somente preto-e-branco. Tudo era como uma quebra-cabeças, difícil de juntar as peças...
E após deixar para trás muitas léguas, ele viu que a terra da estrada foi substituída pela areia, e que estava diante de um gigantesco mar. Por instantes, admirou a grandiosidade dele, e escutou o que as ondas faziam ao chegar na praia. Escutou as palavras do oceano e o que os pássaros cantavam ao sobrevoá-lo, sentiu a mansa viração das nuvens e, finalmente, concluiu que havia encontrado a sua Verdade.
De repente, sente um sono tremendo e deita-se no chão úmido da praia, ao lado de conchas e algas. Ao fechar os olhos, escutou um barulho incessante e, ao mesmo tempo, formidável: o despertador tocou.

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Serenata

Incrível em pensar que sempre que sinto algo, e esta sensação permanece, sempre encontro um poema de Cecília que traduza o que tenho dentro de mim. Como se ela, sem saber, já houvesse preparado um "banquete" de poemas prontos para me traduzir. Talvez eu esteja errado. Talvez eu me identifique com ela mais do que ela comigo, mas a ligação é iminente. Estou impregnado de Cecília até a alma e não hei de negá-lo, ela é etérea, como eu.

"Serenata

Repara na canção tardia,
Que timidamente se eleva,
Num arrulho de noite fria.

O orvalho treme sobre a terra,
E o sonho da noite procura,
A voz que o vento abraça e leva.

Repara a canção tardia,
Que oferece a um mundo desfeito,
Sua flor de melancolia.

É tão triste, mas tão perfeito,
O movimento em que murmura,
Como o do coração no peito.

Rapara na canção tardia,
Que sobre o teu nome, apenas,
Desenha a sua melodia.

E nessas letras tão pequenas,
O universo inteiro perdura,
E o tempo suspira na altura.

Por eternidades serenas."
- Cecília Meireles

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Lástima

"E ela chorou amargamente pelo dia em que o amou... Sentou-se num canto da sala, recolhida em seu pranto, e chorou por todos os que não tiveram coragem de fê-lo; ela foi mártir de uma causa desconhecida. Chorou pela tristeza, pelo empenho, pela luta, enfim, pela fraqueza extrema que sentia ao saber que está succetível aos sentimentos desse ser chamado 'humano'."
- Relatos de uma vida perdida.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Pedido


Olhai minha vida,
Eterno sofrer,
Doutrina perdida,
Fazei-me viver.

Olhai meu pranto,
Prova do cair,
Silencioso canto,
Fazei-me sorrir.

Olhai meu semblante,
Avatar da mágoa,
Dor inconstante,
Que meu ser deságua.

Olhai minha vida,
Espelho quebrado,
Esperança partida,
Fazei-me amado.

sábado, fevereiro 11, 2006

Olhai os lírios do campo

"Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber, nem quanto ao vosso corpo pelo que haveis de vestir, não é a vida mais que o mantimento e o corpo mais do que o vestido?

Olhai para as aves do céu que nem semeiam nem colhem, nem ajuntam em celeiros e o Vosso Pai Celestial as alimenta.

Não tendes vós muito mais valor do que elas?

E quanto ao vestido, por que andais preocupados, olhai para os lírios do campo, como eles crescem, não trabalham nem fiam e eu vos digo que nem mesmo Salomão em toda sua glória se vestiu como qualquer deles, pois se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós?

Não andeis pois inquieto dizendo: que comeremos? Que beberemos? ou o que o que nos vestiremos, de certo Vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas essas coisas.mas buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas. Não vos preocupeis, pois ,pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo."

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Conversa

Cansado ele estava de tentar,
Conversar, conversar?Conversar!
Encher o ambiente de palavras,
Fúteis e fáceis de se ignorar.

Exausto de chegar nos lugares,
E sorrir para um espelho sem brilho,
E sorrir para máscaras vivas,
Sentindo-se como um andarilho.

Ele sabia exatamente,
O que o outro estaria a falar,
Ao dirigir-lhe a palavra,
Temas fácis de se adivinhar...

Ele era contra a mesmice,
Contra o conformismo,
Mas depois de tudo que viu,
Veio-lhe uma onda de negativismo.

E sentado diante do festival,
De palavras, conversas e discussões,
Ele se enfurece e grita:
Ei, conversem comigo sobre as eleições!

(Aqui termina a história do garoto medíocre)

domingo, fevereiro 05, 2006

Por quê?

O garoto chegou em casa desolado, abatido... queria desaparecer do mundo por apenas um momento e esquecer que existia, que tinha que prestar contas com uma sociedade corrompida, com cidadãos sociopatas. Não entendia por que tinha de gostar de alguém, sempre era uma Lei fundamental: gostar de alguém. Se ele não o fizesse, perdia a vontade de viver. Não conseguia encontrar a resposta para o enigma, seu coração e olhos estavam vendados pela hipocrisia do amor.
Nunca soubera o que era amar, mas sempre dizia estar amando; nunca soubera o que é sofrer, mas sempre chorava por algo que nunca sentiu. Ele era o avatar do mundo: ser o que nunca foi. Entretanto, ele queria, acima de tudo, amar alguém justamente pela necessidade de cuidar, abraçar, se importar. Ele queria sentir a mansa viração do amor. Ele lia em livros e procurava saber como amar e ser correspondido "hummm...vamos ver, amizade, amiúde, amolecer, ,aqui! Amor! Do latim "amore", viva afeição que nos impele para o objeto dos nossos desejos; inclinação da alma e do coração; objeto da nossa afeição; paixão; afeto;inclinação exclusiva... mas cadê a parte que nos ensina a amar?".
Só mais tarde ele saberia que é preciso cativar, com paciência, ritos e tudo mais. É preciso, antes de tudo, não criar expectativas, não ser o que não é...

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Missionário

"Oh! Bendito o que semeia,
livros...livros à mão cheia...
E faz o povo pensar!
O livro caindo n'alma,
É germe -que faz a palma,
É chuva que faz o mar."
- Castro Alves

Eu, em minha humildade miserável, tento fazer o papel bendito ao próximo... Faça o teu também.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Necessidade

Preciso urgentemente de ares novos,
Preciso cativar um coração moldável,
Preciso parar de pensar tanto,
Em encontrar um amor admirável!
(Preciso apenas de uma chance...)

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Prosa e poesia

Realmente, quase todas as pessoas que começam a aprender redação se perguntam sobre a diferença entre prosa e poesia; sem dúvida nenhuma, muitas. Entretanto, após ler muitos textos e, consequentemente, enriquecer nosso patrimônio intelectual, podemos saber distinguir perfeitamente uma da outra.
Dir-se-ia que nem todo texto é composto de letras, elas apenas nos ajudam a desenvolver um texto, mas nem sempre são a essência dele. De fato, nem toda prosa e poesia são descritas por símbolos escritos. Uma paisagem, um estado de consciência ou uma sensação podem valer como (ou muito mais que) uma poesia, ou prosa, dependendo da visão (ou sentimento) do observador. Mas em se tratando de palavras, do código da Língua escrita, uma diferença notável entre prosa e poesia é perceptível: a maneira com que as palavras são lidadas ou manipuladas.
O escritor é feito um domador, precisa saber domar as palavras, de modo que essas fiquem a inteiro dispor dele. É preciso dominar a arte de escrever com primazia para que a mensagem do texto seja muito bem explícita.
Voltando á análise da diferença, continuar-se-ia a dizer que, num texto em prosa, o valor das palavras pode ser deixado à deriva, ou seja, o mais importante não é o valor unitário delas, e sim do conjunto, de modo que a unidade, a mensagem, seja passada com eficiência. Por outro lado, na poesia, as palavras assumem um papel privilegiado no texto, cada uma deve ser inserida com delicadeza e, ao mesmo tempo, cuidado; uma simples troca de palavra pode acarretar na alteração de todo significado do poema. O valor individual das palavras é enaltecido.
Podemos muito bem deixar claro, na prática, essa diferença: ao lermos um texto em prosa, por exemplo, um romance, não lembramos exatamente das palavras como eram descritas as cenas, mas mesmo assim conseguimos imagina-las em nossas mentes.
Já em uma poesia, imediatamente quando nos lembramos dela, vêm à tona as palavras, ou seus significados, como num turbilhão; não que elas sejam mais importantes que o texto em si, mas essencialmente contribuem para o processo de compreensão.
Decerto que essa diferença não pode ser encarada como uma lei de composição de prosas e poesias, mas sim como uma ferramenta. Há muito mais profundeza nas diferenças...

quinta-feira, janeiro 19, 2006

Observação

"Grandes paisagens podem não ser tão complexas quanto Grandes Homens;
Mas elas podem nos inspirar a sê-los"
- Minamoto no Yoritomo
obs.: Imaginem que pensei isso no ônibus...

terça-feira, janeiro 17, 2006

Amizade

Amizade ( Mitologia Greco-Romana )
Divindade alegórica venerada entre os gregos e romanos. Em Roma, era representada sob a figura de uma rapariga de pés descalços e vestida de uma túnica branca, em cujas franjas se liam os dizeres: " morte e a vida". Na testa achavam-se gravadas as palavras: "Inverno e verão". O peito era aberto, até o coração, para onde o dedo indicador direito apontava a inscrição: "De perto e de longe".

domingo, janeiro 15, 2006

Passagem

As árvores são poemas escritos da Terra para o Céu; os humanos cortam as árvores e fabricam o papel para descrever seus sentimentos vazios.

terça-feira, janeiro 10, 2006

Ceticismo

Não sou um dos melhores apreciadores da imundície humana, para tais empenhos, leio nosso grande mestre Machado de Assis:
"[...] Tal era o espetáculo, acerbo e curioso espetáculo. A história do homem e da terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam dar nem a imaginação nem a ciência, porque a ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga, enquanto que o que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos. Para descrevê-la seria preciso fixar o relâmpago. Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim,- flagelos e delícias,- desde essa cousa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor (?--> grifo de Pedro), e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das cousas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura,- nada menos que a quimera da felicidade,- ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão."
- Memórias Póstumas de Brás Cubas
Eu simplesmente não tenho palavras para expressar o quanto ele é/foi cético; não dá para imaginar que alguém seja assim [behind the suffering, ther's always a light].

domingo, janeiro 08, 2006

O jogo do contente

Estava eu sem fazer absolutamente nada em meu lar, quando deu por mim uma vontade, daquelas que não descansam até serem atendidas. Diria um impulso, meu espírito intelectual estava sedento de letras e eu não as encontrava há tempos. Decidi abrir o velho baú de minha casa e procurar um bom livro para deleitar-me; de várias opções, quis um livro infantil, cansei-me desses contos sombrios e que nos trazem infelicidades. Decidi por "Pollyanna" de Eleanor Porter. O livro é muito bom, recheado de humor e felicidades, coisa para nos satisfazer a alma. Pena que não tenho mais a ingenuidade de antes... O fato é que, algo me interessou no livro, Pollyanna, a protagonista, desenvolveu com o falecido pai um jogo: o "jogo do contente". Falar-vos-ei um pouco sobre tão interessante jogo:
"- Que coisa esquisita menina, Miss Pollyanna! A senhora fica contente de tudo que acontece! observou a criada lembrando-se das cenas do quartinho.
A menina sorriu.
- Pois é do jogo. Não sabe?
- Do jogo? Que jogo?
- O "Jogo do contente", não conhece?
- Quem é que botou isso na sua cabeça, menina?
- Papai. Papai explicou-me esse jogo, que é lindo, disse Pollyanna. Em casa brincávamos disso, desde que eu era assimzinha. Depois ensinei-o às damas da Auxiliadora e elas também brincavam de ficar alegres.
- Como é? Eu não entendo muito de jogos.
Pollyanna sorriu de novo, porém com suspiro - e sua face sombreou-se.
- Começou com umas muletas que vieram na barrica do missionário.
- Muletas?
- Sim, muletas. Eu queria uma boneca e papai havia escrito que a mandassem, mas quando a barrica chegou, não havia boneca nenhuma dentro e sim um par de muletinhas para criança. Foi então que o jogo principiou.
- Mas não estou vendo nenhum jogo nisso, disse Nancy quase irritada.
- Oh, o jogo é encontrar em tudo qualquer coisa para ficar alegre, seja lá o que for, explicou Pollyanna com toda seriedade. E começamos com as muletinhas.
- Eu não vejo como se possa ficar alegre de encontrar muletas em vez de bonecas. Não entendo.
A menina bateu palmas.
- Pois aí está o jogo! Eu também não via no começo e papai teve de esplicar-me.
- Pois então me explique o que lhe explicou.
- Sim. Fiquei alegre justamente porque não precisava delas, gritou Pollyanna exultante. Veja como o jogo é fácil quande se sabe."
mostro-vos para que entendais acerca da felicidade em todas as cousas.

sábado, dezembro 31, 2005

Ano nováceo

Desejo o que qualquer desejaria,
Como um humano que pensa ser normal,
Como um alguém esperançoso seria,
como ninguém infeliz e sem moral.

Desejo que todas as lembranças,
Nocivas, tristes e enfadonhas,
Tornem-se súbitas esperanças,
Sem quaisquer dúvidas medonhas.

Desejo, pois, um Ano-Novo ao menos feliz,
Que pelo menos por uma fração de segundo,
Possamos abraçar juntos todo o mundo.

-Feliz Ano-Novo galera o/

domingo, dezembro 25, 2005

Papai Noel

É noite de Natal, não neva por aqui, mas caem pesados flocos de não-matéria:luz... O calor é tão abrasador que os desejos e anseios por Papai Noel viram desejos por um belo sorvete de chocolate com calda de morango. A brisa vespertina surge, então, como um aviso de que um dos períodos mais sagrados está para ser lembrado; o céu inflama, a noite é certa. E bem de perto da linha imaginária que divide a Terra em dois hemisférios, nós saudamos o nascimento de Cristo e a passagem de um velho gordo e vestido de vermelho distribuindo presentes pelo mundo em frações de segundo. Entretanto, poucos sabem que ele se veste de sunga para passar por aqui... Sendo assim, ainda possuído pelo espírito natalino (não precisam me exorcizar), eu desejo a todos um Feliz Natal.

domingo, dezembro 18, 2005

Murmúrio


Traze-me um pouco das
sombras serenas
que as nuvens transportam
por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas
vê que nem te peço alegria.

Traze-me um pouco da
alvura dos luares,
que a noite sustenta
no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
vê que nem te peço ilusão.

Traze-me um pouco da tua
lembrança, aroma perdido,
saudade da flor!
Vê que nem te digo:
esperança,
Vê que nem sequer sonho:
amor!
- Cecília Meireles

domingo, dezembro 11, 2005

O guarda-roupas


Faltava pouco para que o irmão terminasse a contagem. A menina estava quase desesperada, uma vez que não encontrava um esconderijo adequado. Edmond, seu irmão, havia lhe expulsado do único lugar que ela julgava decente para se esconder. Ela correu pelos vastos corredores do casarão, porta por porta, tentava entrar nos cômodos, mas todos se encontravam trancados à chave, parecia que a casa era à prova de crianças. Enquanto ela corria, o assoalho rangia proporcionalmente,o ranger dava a impressão de que a casa estava a rir do desespero da criança. Todos os outros irmãos deveriam estar devidamente escondidos, prontos para serem encontrados, ou para ganharem a brincadeira; somente ela, pobre Lucy, ainda não havia se escondido.
E quando suas ingênuas esperanças iam se esvair, a porta que tentou abrir, de súbito , abre-se num rangido tão longo e consternado quanto o do assoalho, como se a porta quisesse negar o privilégio que ela viria a ter, mas era iminente. A voz de Pedro ficou para trás, meio sufocada pelas paredes grossas e carcomidas do cômodo, ou talvez tenha sido a surpresa que a menina teve ao se deparar com uma sala praticamente vazia; uma grande janela permitia a entrada da luz, mas não do ar, o ambiente estava saturado de antigüidade e mofo. Só havia uma cousa no cômodo, estava encoberta por um lençol grande e branco, pelo menos era branco, pois agora estava amarelo de encardido.
A menina aproximou-se lentamente do objeto e, num gesto limítrofe entre o fascínio e a pressa, ela retira o lençol, que cai muito de leve no chão. Era um guarda-roupas, grande e pesado, ricamente talhado, mas muito comum à primeira vista. Após observar o guarda-roupas por alguns segundos, ela o abre. Não sabia que, dentro de pouco, ela experimentaria a maior aventura de sua vida. O móvel era apenas o começo, a chave de um mundo mágico e ansioso por ser visitado por filhos de Adão e Eva.
Mesmo receosa, Lucy entrou no guarda-roupas: a aventura estava lançada...

obs.: Por isso, caros leitores, não se espantem ao encontrar um mundo por dentro de vossos guarda-roupas, sejam apenas jovens de coração, que esse mundo se abrirá para vós.

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Eu

O eu vivia muito distante,
nas terras ermas e longínquas,
Queria apenas um instante,
Para encontrar a saída.
Do espelho sem faces.

O eu vivia meio irresoluto,
Pelas marcas que haviam,
Em seu corpo, em seu luto,
Pela morte,
De outra parte.

O eu ansiava pela transição,
Entre o aqui e o agora,
Para uma suposta superação,
De um dilema,
Inconstante.

O eu cansou de esperar,
Pelas voltas de um mundo,
Que não o queria encontrar,
Simplesmente debruçou-se,
Sobre os pensamentos,
E divagou.

O eu não estava taciturno,
Apenas cansado em demasia,
Em seus devaneios noturnos,
Em sua etena poesia,
Ele suspirava,
Pelo momento certo.

O eu descansa sereno ,
Em seu fardo carregado,
Em seu desterro terreno,
Só aguarda paciente,
O instante certo para dizer:
eu.

terça-feira, dezembro 06, 2005

Canção


Quero um dia para chorar,
Mas a vida vai tão depressa!
- e é preciso deixar contida,
a tristeza para que a vida,
que acaba quando mal começa,
tenha tempo de se acabar.

Não quero amor, não quero amar,
Não quero nenhuma promessa,
Nem mesmo para ser cumprida.
Não quero a esperança partida,
Nem mesmo de quanto regressa,
Quero um dia para chorar.

Quero um dia para chorar,
Um dia para despedir-me dessa,
Aventura mal entendida,
sobre os espelhos sem saída,
Em que jaz minha face impressa,
Chorar sem protestos. Chorar.
- Cecília Meireles

domingo, dezembro 04, 2005

Lia

Poema em homenagem a uma amiga muito especial. Sempre quis fazer um poema com o seu nome, agora vai:

Lia

Sorria lia
Lia sorria
Em sua alegria
Em sua magia
Em seu viver.

Lia,
Dia de alegria,
Dia de viver

Sabia Lia,
Da profecia,
Em seu dia-a-dia,
Pura simpatia,
Puro saber.

Lia,
Dia de alegria,
Dia de viver

Sentia Lia,
Grande nostalgia,
Grande ventania,
No alma e na via,
Do etéreo sofrer.

Lia,
Dia de nostalgia,
Dia de viver

Sabia Lia,
Que a melancolia,
Ela transporia,
Com primazia,
Com seu crescer.

Lia,
Dia de alegria,
Dia de viver

Lia,
Sempre seria,
A profilaxia,
A mitologia,
Máxima utopia,
Da vida e do ser!

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Presença em Pompéia


Pompéia, localizada a 220 quilômetros da capital italiana - duas horas e meia de trem - a antiga colônia grega e romana, que foi soterrada pelo entulho de lavas e cinza expelidos pelo vulcão Vesúvio há quase dois mil anos, continua sendo um dos achados arqueológicos mais importantes do mundo antigo. Em uma área de 66 hectares, é possível encontrar ainda em razoável estado de conservação os anfiteatros e termas, as pinturas nas paredes das casas da velha cidade e, até, corpos endurecidos pela lava. Atração de turistas de todas as partes, Pompéia tornou-se rota de viagem por sua fantástica história. A tragédia acabou com a vida da cidade no ano 799 de nossa era (a Cristã). Mas, ela entrou para a eternidade após a catástrofe que a jogou no esquecimento por mais de dez séculos.
Cecília Meireles, em sua magnificência e honorabilidade, fez um poema em homenagem à vida das pessoas... que tragicamente foi tirada delas.

Presença em Pompéia

Esta conta não pagarás:
- ficará sob uma cinza que não sabes.

Sob a cinza que ainda não sabes
ficará teu filho por nascer
e também os meninos que já sabiam desenhar nos muros.

Ficarão os figos que ontem puseste na cesta.
Ficarão as pinturas da tua sala
e as plantas do teu jardim, de estátuas felizes,
sob a cinza que não sabes.

Os gladiadores anunciados não lutarão
e amanhão não verás, próximo às termas,
a mulher que desejavas.

Tu ficarás com a chave da porta na mão;
tu, com o rosto da amada no peito;
amo e servo se unirão, no mesmo grito;
os cães se debaterão com mordaças de lava;
a mão não poderá encontrar a parede;
os olhos não poderão ver a rua.

As cinzas que não sabes voarão sobre Apolo e Ísis.
E uma noite ardente, a que se prepara,
enquanto a luz contorna a coluna e o jato d'água:
- a luz do sol que afaga pela última vez as roseiras verdes.

Reflitam sobre suas vidas, e dêem mais valor a ela...