domingo, outubro 02, 2011

Metamorfos


A vida só é possível reinventada.
Devemos ter coragem para mergulharmos
naquilo que ainda não conhecemos.
Sem nos contermos, sem nos retesarmos.

Seja como um pássaro pelos ares
Seja como um peixe pelos mares
Mergulhar sem medo da investida
(re)descobrindo cada escama, cada pena
que sempre existiu mas não era percebida.

Seja a metáfora viva da mudança
Transforma cada pedaço teu em pétala
E deixa-te levar pelos novos ventos
Abra tua alma para o que te aguarda.
Sê efêmero e eterno.


quarta-feira, setembro 28, 2011

"Mas de tudo isso me ficaram coisas tão boas... Uma lembrança boa de você, uma vontade de cuidar melhor de mim, de ser melhor para mim e para os outros.
De não morrer, de não sufocar, de continuar sentindo encantamento por alguma outra pessoa que o futuro trará, porque sempre traz, e então não repetir nenhum comportamento.
Ser novo."

Caio F. Abreu

terça-feira, setembro 27, 2011

Devolva-me

Rasgue as minhas cartas
E não me procure mais
Assim será melhor, meu bem.

O retrato que eu te dei
Se ainda tens, não sei
Mas se tiver, devolva-me...

Deixe-me sozinho
Porque assim eu viverei em paz
Quero que sejas feliz
Junto do seu novo rapaz.

Rasgue as minhas cartas
E não me procure mais
Assim será melhor, meu bem.

O retrato que eu te dei
Se ainda tens, não sei
Mas se tiver, devolva-me...

- Adriana Calcanhotto

terça-feira, setembro 20, 2011

Um a Um

Eu não quero ganhar
Eu quero chegar junto
Sem perder
Eu quero um a um
Com você
No fundo
Não vê
Que eu só quero dar prazer
Me ensina a fazer
Canção com você
Em dois
Corpo a corpo
Me perder
Ganhar você

Muito além do tempo regulamentar

Esse jogo não vai acabar
É bom de se jogar
Nós dois
Um a um
Nós dois
Um a um
Nós dois
Um a um
Nós dois

Me ensina a fazer

canção com você

em dois em duo

em duo em dois...

domingo, setembro 18, 2011

Devagar

E devagar que vou divagando
Vagando por vários caminhos
De vagar eu vou encontrando
Gotas de orvalho em espinhos
Divagar com coração brando
Devagar e sempre sorrindo.

sábado, setembro 17, 2011

O que

O que tange
O que urge
O que marca
O que tinge
O que forja
O que crava
O que uiva
O que lavra
O que molha
O que escorre
O que resta
nos caminhos
que ainda temos que percorrer?

quarta-feira, setembro 14, 2011

Herança

"Eu vim de infinitos caminhos
e os meus olhos choveram lúcido pranto
pelo chão.

Quando é que frutifica, nos caminhos infinitos,
essa vida, que era tão viva, tão fecunda,
porque vinha de um coração?

E os que vieram depois, pelos caminhos infinitos,
do pranto que caiu dos meus olhos passados
que experiência, consolo, ou prêmio alcançarão?"
- Cecília Meireles

segunda-feira, setembro 05, 2011

Labyrinth

In darkness, there can be light.
In misery, there can be beauty,
In death, there can be life...

segunda-feira, agosto 29, 2011

21

Essa é a idade da minha vida. Sinto que estou passando por um momento de grandes transformações e decisões, que eu devo passar por cada um desses episódios muitas vezes trágicos de maneira racional. Estou em plena sintonia com Adele, identificando-me com o que ela passou de quase todas as formas até mesmo porque ela tinha a minha idade. E eu vou me desvencilhando de toda essa dor da mesma maneira que ela o fez: através da música. A música me liberta, me exorciza e me leva a outros patamares. Essa é a idade da minha vida...
Não vou que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer a tristeza de um amor que passou
Não, eu só vou se for pra ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor.

segunda-feira, agosto 15, 2011

Estou confuso e carente, preciso de uma luz,
Preciso de um abraço forte e verdadeiro
de alguém que me ame de verdade.

domingo, agosto 14, 2011

sábado, agosto 13, 2011

Drink me, make me feel real
Wet your beak in the stream
Game we're playing is life
Love is a two way dream

Leave me now, return tonight
Tide will show you the way
If you forget my name
You will go astray
Like a killer whale
Trapped in a bay

I'm a path of cinders
Burning under your feet
You're the one who walks me
I'm your one way street

I'm a whisper in water
Secret for you to hear
You are the one who grows distant
When I beckon you near

segunda-feira, agosto 01, 2011

Beba bastante, curta sua solteirice e solidão pra caralho. Abra os braços pra antiga vida que o envolvia. Eu sigo aqui equilibrando no fio. No fio em que rola o peso do meu coração.

quinta-feira, julho 28, 2011

E é entre corações partidos, lágrimas secas e muita força de vontade que a gente levanta a cabeça, sacode a poeira e repete baixinho para si mesmo "vai passar, vai passar...".

terça-feira, julho 26, 2011

O conto dos dragões

Eu ouço o respirar pesado de dragões enquanto cavalgo célere pelos campos de trigo. Posso escutar até, se prestar mais atenção, às batidas fortes e compassadas de seus corações enquanto dormem escondidos em cavernas durante o dia. Sei que por baixo daquelas escamas duras circula um sangue secular e quente. Os mais desavisados ou curiosos que se atrevem a entrar em suas moradas escuras viram refeição casual ou, com um pouco de sorte e intrepidez, fiéis parceiros. Homens e dragões já foram mais do que apenas presa e caçador na cadeia alimentar. Em tempos imemoriais, estes seres magníficos foram aliados fundamentais na vitória dos homens sobre os seres das águas. A ajuda aérea determinou a supremacia humana e a queda de Atlântida marcou o início da era dos homens. Hoje os homens atoleimaram-se, esqueceram da preciosa ajuda e sabedoria gravada nas escamas destes seres alados.

segunda-feira, julho 18, 2011

Acabei de perceber que a melhor coisa que me aconteceu foi ele ter me deixado. A venda caiu, a dor se esvaiu. A partir de agora o céu é o limite em minha vida.

quarta-feira, julho 13, 2011

É, essa avenca veio para ficar, não a deixarei partir, não como na história.
"- mas o que chamas de paz se pressinto em ti essa coisa mansa que se faz nos outros se em cada momento que te olho inúmeras coisas escuras escorrem dentro de mim pois se a paz não é uma coisa escura pois se não continuarei não te farei nenhuma pergunta embora precisasse não para te definir ou para te compreender não preciso saber de onde vens assim como para me definires ou me compreenderes não precisas de nenhum dado concreto mas eu não te defino nem te compreendo apenas sei que chegaste e que esta tua chegada modificará em mim todas as coisas que se tornaram suaves todas as cordialidades ou amenidades que construí nesse tempo de absoluta sede ansiava por ti como quem anseia pela salvação ou pela perdição porque qualquer coisa poderia me salvar desta imobilidade que me devasta por dentro te direi como se constroem momentos apenas para sobreviver mas já não quero sobreviver já não quero apenas ir adiante é preciso que qualquer coisa abata esta letargia porque já não admito precariedades porque não sei o que digo nem o que sinto mas persistirei no que pressinto [...] além disso nada sei mas não fujo foram muito poucas as coisas que vivi percebo que não cheguei a existir exatamente não não sou forte apenas construí minhas fraquezas essa coisa que talvez chamasses de força há muito tempo eu permanecia esquecido de mim mesmo foi preciso que chegasses para eu perceber que somente destruindo se pode construir agora eu quero a destruição que me propões mas não propões nada deixas que eu enverede sozinho é assim sei que não me deixarás sozinho sei que te recusas a te definires em palavras não porque eu me atemorizasse mas porque as palavras não te dizem temos muito pouco tempo nesse pouco tempo é preciso que todos percebam em ti o que nunca viram e somente no último momento possam ver a tua face [...] mas eu de nada sei nada conheço do que falo mesmo assim estou pronto embora sem compreender integralmente sim semearemos o que eles não seriam capazes de viver se não chegasses não me esquivarei vejo a tua mão estendida em direção a mim e estendo a minha a própria mão e minha mão e tua mão tocam e a minha espera e a tua conduz sim preparo-me para o grande mergulho no desconhecido."

- Afogado de "O Ovo Apunhalado", Caio F. Abreu.

terça-feira, julho 12, 2011

"[...] sabe que o meu gostar por você chegou a ser amor pois se eu me comovia vendo você pois se eu acordava no meio da noite só pra ver você dormindo meu deus como você doía de vez em quando eu vou ficar esperando você numa tarde cinzenta de inverno bem no meio duma praça então os meus braços não vão ser suficientes para abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta mas tanta coisa que eu vou ficar calado um tempo enorme só olhando você sem dizer nada só olhando e pensando meu deus mas como você me dói de vez em quando."

- Harriett de "O Ovo Apunhalado", Caio F. Abreu.

segunda-feira, julho 11, 2011

"Porque você não pode voltar atrás no que vê. Você pode se recusar a ver, o tempo que quiser: até o fim de sua vida você pode recusar, sem necessidade de rever seus mitos ou movimentar-se de seu lugar confortável. Mas a partir do momento em que você vê, mesmo inevitavelmente, você está perdido: as coisas não voltarão mais a ser as mesmas e você próprio não será o mesmo. O que vem depois não se sabe."

- "Eles" de "O Ovo Apunhalado", Caio F. Abreu.

sábado, julho 09, 2011

Sobre uma avenca

Eu preciso continuar a acreditar que isso vai passar. E para que isso aconteça, é preciso podar, cortar, diminuir aquilo que tem crescido em mim tão avassaladoramente nesses últimos anos. É uma faca de dois gumes, ou eu deixo essa "avenca" ou roseira, "essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado" morrer, ou eu me destruo. É um sentimento auto-destrutivo a essa altura, a cada dia que passa eu corto um ramo, um galho dessa avenca. Só assim talvez eu possa voltar a ser alguém, digamos, livre.

domingo, junho 26, 2011

Fragmento

"- Você acredita em milagres?
- Hoje não."

sexta-feira, junho 24, 2011

Consulta

- Oi, Doutor.
- Olá, Ricardo, como vai?
- To com uma dor, doutor, uma dor que não passa.
- Humm, uma dor que não passa, e onde você a sente?
- Bem aqui doutor
- Aqui?
- É
- No coração?
- Sim, doutor, no meu coração.

Saudade

Saudade que dilacera
No ritmo das horas
No ritmo da espera.

domingo, junho 19, 2011

O conto da noite

- [...] Se eu não me engano eu acho que nós deveríamos estar aqui no mapa, ai, droga!
- Não acredito que estamos perdidos aqui no meio da noite.
- Pelo menos estamos de carro e o céu está limpo...
- Ah, é verdade o céu, vai nos ajudar tanto né?
- Mais do que você imagina, amigo.
- Como assim?
- Está vendo aqueles pontos brilhantes? Veja que alguns pulsam tão fracamente que parecem que vão se apagar a qualquer momento,
- Sim, estou, são estrelas...
- Não somente, são milhares, milhões de sóis como o nosso a queimar ardemente.
- Sol, era tudo que eu precisava nesse momento pra nos iluminar no meio dessa imensidão escura.
- Estamos sob o regime das estrelas, Cláudio, estamos sob o regime do luar.
- E você me lembro de que preciso retomar meu regime, ganhei um pesinho ultimamente.
- Presta atenção, não consegue ver a metáfora viva que seus olhos alcalçam?
- Qual?
- Nossas vidas são como sóis, estamos embrenhados nessa imensidão do universo, muitas vezes sozinhos, outras acompanhados, mas sempre pulsando, sempre vivendo.
- Você viaja tanto, não é à toa que é de Sagitário, Fernando...
- E não é à toa que você é de capricórnio com a cabeça fincada nesse chão (risos de ambos).
- No fundo eu acho que você está certo, a única certeza é de que apagaremos também.
- Mas até lá ainda temos muitas vias lácteas para conhecer, pode ficar certo disso.
- O que podemos fazer pra sair daqui?
- Fazer o que nossos antepassados faziam ao navegar pelos oceanos no negrume da noite.
- E isso é?
- Guiar-se pelas estrelas, veja, aquele é o cruzeiro do sul ele aponta para a direção sul...

Poema breve

Com toda a licença poética
Vai ver se eu to na esquina.

domingo, junho 12, 2011

Inspire



Eu:
E se formos parar para perceber, tudo é uma questão de perspectiva, Dedé...
Está vendo aquilo no céu? O que imagina que seja?
Dedé: Ora, uma nuvem, o que mais seria?
Eu: Você tem certeza?
Dedé: Espera aí. Agora sim eu vejo... um animal, acho que um cavalo, estou certo?
Eu: É como eu disse, é tudo uma questão de perspectiva.
Dedé: Mas se eu tivesse visto outra coisa que não um cavalo?
Eu: Eu diria que você é uma pessoa mais criativa do que eu (risos).

Diálogo

A: Você é meu companheiro.
B: Hein?
A: Você é meu companheiro, eu disse
B: O quê?
A: Eu disse que você é meu companheiro.
B: O que é que você quer dizer com isso?
A: Eu quero dizer que você é meu companheiro, Só isso.
B: Tem alguma coisa atrás, eu sinto.
A: Não. Não tem nada. Deixa de ser paranóico.
B: Não é disso que estou falando.
A: Você está falando do quê, então?
B: Estou falando disso que você falou agora.
A: Ah, sei. Que eu sou teu companheiro.
B: Não, não foi assim: que eu sou teu companheiro.
A: Você também sente?
B: O quê?
A: Que você é meu companheiro?
B: Não me confunda. Tem alguma coisa atrás, eu sei.
A: Atrás do companheiro?
B: È.
A: Não.
B: Você não sente?
A: Que você é meu companheiro? Sinto, sim. Claro que eu sinto. E você, não?
B: Não. Não é isso. Não é assim.
A: Você não quer que seja isso assim?
B: Não é que eu não queira: é que não é.
A: Não me confunda, por favor, não me confunda. No começo era claro.
B: Agora não?
A: Agora sim. Você quer?
B: O quê?
A: Ser meu companheiro.
B: Ser teu companheiro?
A: É.
B: Companheiro?
A: Sim.

quarta-feira, junho 08, 2011

Rosa

E toda a dor e sofrer que ele sentiu precipitaram densos naquilo que chamavam de lágrimas. Gotas pesadas saciavam a terra seca e lavravam o pesar de seu peito. Diziam que daquela terra desolada não nasceria mais nada, ora, para espanto dos descrentes nascera ali, do sulco das gotas vertidas, uma rosa. Rubra como o sangue que corria quente em seu órgão pulsante. A rosa da dor desabrochava esplêndida e sorria para ele numa manhã qualquer

sábado, junho 04, 2011

I don't blame them

And there were rumours I was aching and feeling bad, well, I don't blame them for their lack of sensivity, not even in my darkest days I'd tell them. Perhaps for most of them I keep showing off like a hustler. I completely own myself and my thoughts. By the way if they keep saying and cheating, I don't blame them at all...

domingo, maio 29, 2011

Acima de nós




Hoje saí de casa inesperadamente, peguei minha bicicleta, meus fones de ouvido, meu mp3 e saí. Errei pelas ruas de minha cidade enquanto mergulhava em meus próprios pensamentos. E quando reparei, já estava no ponto mais alto da região, onde é possível ver todas as redondezas e, talvez o mais importante, o sol, que já estava a se pôr. Foi então que eu me lembrei há quanto tempo não saía para assistir a esse evento tão lindo, tão simbólico e mágico. Costumava sair com minha cachorrinha para a praia e assistir a agonia do sol, vê-lo desmanchar-se na abóbada celeste. É um momento tão rápido e tão belo. Muitas coisas se passaram na minha cabeça, muitos pôres-do-sol, muitas auroras. Reparei que tudo é tão pequeno perto dessa vastidão que é o mundo e a vida. Não vale a pena guardar o que nos faz mal, o que nos fez sofrer. E os momentos são como um crepúsculo, não voltarão só porque você quer uma vez que se foram. É claro que haverá novas auroras, novos amanheceres, e estes virão com novidades e você poderá vivê-los com mais maturidade. Abri meus braços e minha alma para o céu e agradeci ao sol por aquelas reflexões tão profundas.

sábado, maio 28, 2011

Desato

Hoje eu não aguentei, dessa vez a tormenta de memórias foi muito forte, densa demais para um coração frágil. Tranquei-me no banheiro, sentei, acolhido no canto, e chorei. Chorei por tudo que sofri, por tudo que fiz e tudo o que não fiz. E foram muitas lágrimas vertidas.

terça-feira, maio 24, 2011

Pés

Tão cansados e pesados
Para que vos quero?
Se tenho asas para voar.

sábado, maio 14, 2011

Se você errou

"Se você errou, peça desculpas...

É difícil perdoar?
Mas quem disse que é fácil se arrepender?

Se você sente algo diga...

É difícil se abrir?
Mas quem disse que é fácil encontrar alguém que queira escutar?

Se alguém reclama de você, ouça...

É difícil ouvir certas coisas?
Mas quem disse que é fácil ouvir você?

Se alguém te ama, ame-o...

É difícil entregar-se?
Mas quem disse que é fácil ser feliz?

Nem tudo é fácil na vida...
Mas, com certeza, nada é impossível..."

- Cecília Meireles

sábado, maio 07, 2011

Ei!

Segure as minhas mãos, não, não largue-as assim tão cedo. Veja, o sol já se põe, está agonizando em sangue, teremos a noite inteira só para nós. Não somente, a negrura do céu, a mansidão da brisa noturna e as milhares de centelhas que ardem lá em cima. E só seremos eu e você, você e eu, nada mais. Olha, não tenha medo, esqueça seus problemas, seus compromissos, pensa que não tem amanhã, pensa que hoje é o que mais te importa e que nada te fará temer o futuro. Imagina o quanto temos de descobrir não sozinhos, mas juntos, a aventura de uma vida a dois. Desta vez não haverá o ontem, nem o amanhã, apenas eu e você agora.

quinta-feira, abril 28, 2011

O peso da verdade

Abrir os olhos,
e enxergar que o rastro de sangue
partiu de minhas mãos, olhos, rosto...
Retirar a venda do orgulho
jogá-la à cova dos leões do remorso
E assumir o erro, eis o mais pesado dos fardos
Assumir que as facadas não partiam de lá
e sim daqui
Nada que um pouco de amor
e uma boa dose de esperança
faça-nos criar a coragem devida.

Quero um dia para chorar

"Quero um dia para chorar.
Mas a vida vai tão depressa!
Não é preciso deixar contida a tristeza,
para que a vida,
que acaba quando mal começa,
tenha tempo de se acabar.

Não quero amor, não quero amar...
Não quero nenhuma promessa
nem mesmo para ser cumprida.
Não quero a esperança partida,
nem nada de quanto regressa.
Quero um dia para chorar.

Quero um dia para chorar.
Dia de desprender-me dessa aventura mal entendida
sobre os espelhos sem saída
em que jaz a minha face impressa.
Chorar sem protesto.
Chorar."

- C. M.

domingo, abril 24, 2011

You Lost Me

E cada palavra que saía daquela boca infame me estilhaçava, desfragmentava e destruía. Eu via os castelos e muros desmoronando em cada finita parte de minha mente. Nem ao menos consegui chorar, tudo o que havia de doce e úmido secou-se, evaporou no calor daquela discussão. Uma vez imperante o silêncio, reduzi-me em minha solitude primeva ainda tentando recolher os estilhaços de mim que se despedaçaram no chão.

domingo, março 27, 2011

sexta-feira, março 25, 2011

Sexo

Corpos desnudos
Peso do abraço
Mãos de veludo
Cama e mormaço
Prazer inerente
entorpecente
enfervescente
sintonia
maresia
epifania
orgasmo
marasmo
Almas lavadas

quarta-feira, março 16, 2011

Súbito sopro

Decerto que a raiva que me toma agora
subiu das entranhas da terra e me engoliu
feito uma serpente de fogo que outrora
era apenas um pressentimento vil

segunda-feira, março 14, 2011

Only boy

"I want you to make me feel
Like I'm the only boy in the world
Like I'm the only one that you'll ever love
Like I'm the only who knows your heart."


sexta-feira, fevereiro 25, 2011

"And when you pray, do not be like the hypocrites, for they love to pray standing in the synagogues and on the street corners to be seen by men. I tell you the truth, they have received their reward in full. But you, when you pray, go into your closet, and when you have shut the door pray to your Father which is in secret, and your Father which sees in secret will reward you openly." [Matthew 6:5-6]

Diafragma

Nada como uma câmera na mão
meia dúzia de sol
uma flor, sorriso, mar ou anzol
e muita, muita inspiração.

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

A procura

E mesmo depois de muito chão e pó,
Sol ardente e madrugadas frias,
Ele viu que o mundo não é só
de gritos roucos e cascas vazias

Aprendeu a ouvir o murmúrio
baixo e suave das aves ao fim do dia
que soam feito um lamúrio
pela noite iminente e arredia

E ver ao longe no horizonte rente
uma estrela ascendente a pulsar
Anunciando o mistério pungente
dos amantes mudos da lua e do mar.

Aprendeu muito a ser sozinho
e terminou por ver que o fado
não é só de água, mas vinho
doce e por dois compartilhado.

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Homo sapiens sapiens

Eu temia que esse dia chegasse. Nas vastidões mais escuras de meus sonhos, vislumbrava este dia fatídico que me faria enxergar a vida com outros olhos. Outrora castos e pueris, visando o mundo feito bolhas de sabão em dia de sol. Agora não passava de cinza e névoa e chuva, é, isso os homens chamam de maturidade.

terça-feira, fevereiro 22, 2011

Romance

Ele andava revendo e repensando cada passo dado.
Trazia as mãos nos bolsos e um chapéu preto na cabeça
Caminhava a passos largos e descomedidos
Fitava o céu azul ensolarado
e a moça que levava o cão pra passear
E cada pensamento, cada vestígio de memória
Percorridos desde aquele dia
Faziam-lhe leve e pleno, nada mais
Estampava um sorriso gostoso
que refletia tudo que vinha de dentro
Felicidade mais rubra que sangue ou rosa de carmim
Um dia tão esperado que terminou com um beijo
E começou um romance
que não tem mais fim.

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Fear

"In the dark recesses of the mind, a disease known as fear feasts upon the souls of those who cannot overcome its power..."
- Pat McHale

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

Sobre pessoas nem tanto esquecíveis

"Há pessoas que nos falam e nem as escutamos,
há pessoas que nos ferem e nem cicatrizes deixam,
mas há pessoas que simplesmente aparecem em nossas vidas
e nos marcam para sempre"

- C. Meireles.

quarta-feira, janeiro 05, 2011

Paráfrase

Parafraseando aquele quarteto famoso de rock dos anos sessenta:

Ele atravessou pela janela do meu quarto,
Protegido por óculos escuros (e olha que a luz se ia),
E por mais que eu soubesse o que aconteceria,
Estava cansado daquilo tudo, farto,
E por mais que ninguém lhe houvesse contado,
(ele também entrou com fones de ouvido),
Eu já estava completamente entregado,
E tragado: por mim próprio traído.



quarta-feira, novembro 17, 2010

De manhã na cama

Quando me olhas com aquele olhar terno
ao acabares de acordar
e sem desatar uma palavra
me abres aquele sorriso de uma ponta a outra
de minha visão
desdobrando-me em laivos de suspiros
fatalmente me lanço a meu destino inexorável
cantar a alegria de um coração que é
verdadeiramente teu.

quinta-feira, novembro 11, 2010

Pária

A vida é luta sangrenta
é páreo feroz.
O sonho é a dádiva lenta
de um cárcere em que o tempo
é nosso algoz.

segunda-feira, novembro 08, 2010

Um suspiro

Para todos aqueles que tentaram e principalmente àqueles que ainda tentam, a batalha ainda não está perdida.

terça-feira, outubro 19, 2010

Voyage

Voyage
é ter na mente
éter
na mente
eternamente.

sexta-feira, outubro 15, 2010

Tanto ao vento

Deixe que o canto desmanche
em manto de alento
escorrendo sem pressa
sangrando lento.

Deixa que a alma se entregue,
ao encanto cinzento
divagando tanto
neste breve momento.

Deixa o ouvido solto
leve, no entanto atento
Escuta o som vagando,
Ao soluçar do vento.

Deixa que santo é forte
e o que tange é dentro,
É o som que desata
É o libertamento.

domingo, outubro 10, 2010

Humilhus

E ela riu-se tanto daquilo, ria-se em gargalhadas longas e estridentes que ecoavam sinistramente pelo salão. Não era apenas porque ele havia caído da escada, havia mais, algo dentro dela que subia vertiginosamente de seu coração e alcançava a boca espetando-lhe os ouvidos. Ele precisava sofrer mais do que a simples queda, precisava ser humilhado. E se alguém poderia fazer aquilo, tinha de ser ela, subindo as escadas logo atrás dele. Algo maior do que a graça da visão do evento lhe fazia rir, algo inerente a si. O sangue escorria das mãos dele lentamente, ele contia os soluços de dor ao passar pelo corredor. Enquanto isso, atrás no salão, ainda ouvia-se ecos de gargalhadas longas.

quarta-feira, setembro 22, 2010

Roma e amor

Assim como desde sempre se dizia:
Roma não foi construída em um dia
Ora, mas é sem espanto e com gosto
que digo que nem mesmo assim foi seu oposto.

segunda-feira, setembro 20, 2010

Sobre os dias não tão alegres

Ele não precisa amanhecer cinzento
Pode não haver sequer uma nuvem no céu
Não precisa que o pão queime na chapa
Nem mesmo que se esqueça a chave em casa,
Ou pássaros joguem detritos sobre nossas cabeças.
Basta que um rosto conhecido, torto,
desfigurado pela doença,
evapore nossa alegria,
doente de mau-humor.

terça-feira, setembro 14, 2010

Canteiros e pedras

Eu sei que nesse caminho ainda existem muitos canteiros perdidos, vastos e vagos, prontos a serem achados por transeuntes desatentos que tropeçam em pedras soltas (aquelas não tão grandes para serem notadas, nem tão pequenas para passarem desapercebidas).
Sei que as sementes que caem de nossos olhos, nossas mãos, nosso corpo e alma vão fecundando a terra virgem. Nossos corpos dançam sem sabermos. Nossa vida é um baile e somos os bailairinos incansáveis, insaciáveis. São vários as gotas que escorreram salgadas de nossos globos e aos poucos fizeram crescer, lentas e tímidas, as flores que hoje irradiam os sorrisos que vejo pelo caminho, o mesmo que antes havia visto vasto e vão. Por entre as frestas do céu e as alamedas úmidas que andei, fico certo de algo, não há certezas senão que a chuva quando lavra a terra quente emana o cheiro morno da felicidade. E esse caminho ainda tem muitos canteiros e pedras a serem encontrados, o baile todo.

quinta-feira, julho 22, 2010

A leveza de todas coisas

"Por isso uma força me leva a cantar, por isso essa força estranha..."

Com todos os rostos e várias as almas que amei
vislumbro acordado memórias que não têm fim
Os risos e prantos que nessa estrada encontrei
são tantos caminhos que se bifurcam assim.

E é tempo de se olhar para fora do corpo etéreo
Expulsando aquela vontade do peito contida:
Saltar sobre os vales em vôo solene aéreo
Mudar as rédeas em que tangemos a vida.

De todos os medos e males que levava
o mais pesado era aquele que repreendia
o medo do espaço, da luz, da lua brava,
que esplêndida na noite, leve, se ascendia

E é por isso que agora eu não apenas canto
Faço desta vontade o hino que me guia
Enchendo o mundo de gozo e espanto
Desato as notas com uma estranha euforia.

E desatando é que vou me rompendo
os mastros, os cascos desse meu navio
sobrando apenas o marinheiro vendo
o soçobrar sereno de um medo infantil.






sábado, junho 19, 2010

Serás

Poema que finalmente tive a iniciativa para terminar, lancei estrofes incompletas no meu blog e juntei os cacos para fazer uma peça única.

Não tentes barrar o destino,
Não tentes viver sem sonhar,
Serás peregrino,
Serás um menino,
Perdido no meio do mar

Não tentes desbravar caminhos,
Marcados pela solidão,
Tão cheios de espinhos,
São feito moinhos,
Moendo nosso coração.

Não tentes reter as lembranças
de tudo que já se passou
A vida não cansa
na eterna dança
da alma em seu pleno vôo.

Não tentes viver na fronteira
que impede a tua extroversão
Faça uma besteira
Sem eira-nem-beira
Ousando com tua excitação.

Não tentes barrar o destino
Nao tentes viver sem mudar
terás amargura
e não terás cura
serás mais que enfermo, serás.

quinta-feira, junho 17, 2010

Dentro de milênios

Eu sinto a tristeza que jorra do alto dos montes cinzentos e escorre lenta e perene pelas frestas das pedras, sobre o chão pisado por aqueles que vislumbraram algo que fosse semelhante ao amor durante uma noite qualquer. Eu sinto-a penetrando nos vales e irrigando a colheita daqueles que levantam antes do sol nascer. Sinto que do alto dos cumes, ao longo dos tempos, ela chegará à vastidão do mar e por fim encontrará descanso. E de lá será chamada daquilo que os poetas não ousam falar em seus textos.

terça-feira, junho 15, 2010

Sobre o peso e a leveza - parte 2

Acabei de notar o quanto a leveza é essencial em vida. Talvez tenha encontrado uma resposta a qual Parmênidas, há tantos séculos, procurava. Ou talvez seja apenas mais uma ousadia minha.
Entre inúmeros pesos que guardava em minhas gavetas, em meus armários e nos confins de meu quarto, eu vi a luz. O desapego alçou vôo feroz entre os papéis amarelados das cartas nunca respondidas, das fotos sempre revolvidas, dos cadernos rabiscados. Foi aos poucos que fui percebendo que, não é o que levamos na mala ou debaixo do colchão que nos torna mais próximos dos que trilharam caminho ao nosso lado.
O peso das coisas acaba levando a lembranças inerentes à realidade: as cores, os cheiros, os sons, todos diferentes daquilo que foi sentido. Quando estamos em certo estado de alma, percebemos as coisas de modo diferente, sentimos o mundo de forma ímpar, é a leveza do momento. Nem tudo que reluz é ouro, como diz o ditado, do mesmo modo nem tudo que guardamos se mantém incólume. Me sinto leve ao levar as lembranças na mente, e somente nela. Ela é a mala, a gaveta e o armário que mais preciso. Porque sei que tudo que é importante nela permanecerá. Haverá sim, palavras e momentos esquecidos, mas a essência deles nos manterá leves pelo quanto precisarmos

domingo, maio 30, 2010

Sobre o poder das palavras

Sempre me paro para pensar no que há de tão mágico e misterioso em certas palavras. Algo que em muitas situações me força a utilizá-las cautelosamente em textos, como num desabrochar de flor, cada palavra cuidadosamente escrita e desabrochando-se espontaneamente. Uma beleza intrínseca à sua fonética e significado metafórico que as fazem ímpares e únicas. Não limitando-se à lingua portuguesa. Nas várias línguas que já tive contato, há sempre uma ou outra palavra que me fascina e o mais impressionante é que apenas naquela língua isso ocorre. Como um ótimo exemplo tem-se a palavra "sangre",do espanhol, sangue. Imagine a vasta possibilidade de ocasiões, momentos, sentimentos e imagens criados apenas por essa palavra. Poderia-se pensar que seu análogo em português teria a mesma força e poder, mas a fonética aliada se supera e o encanto sobre "la sangre" se faz presente. Tanto mais quanto se usa em textos poéticos, onde seu potencial pode ser amplificado pela veia artística. Não desmerecendo os textos científicos. Outro exemplo é a palavra "foresee", do inglês, prever. A palavra em si já traz uma carga de sentimento, como "tristesse" em francês. Pode parecer um jogo de egos meus, uma tendência um quanto parnasiana de se fazer textos. Mas atrelado à semântica das palavras está a fonética. O som e a maneira com que as palavras são ditas podem ser muito fortes e marcantes. Palavras são fortes e movem mundos. A história da sociedade é mudada constantemente pelo bom (ou mau) uso das palavras. Então, se você nunca se preocupou com o poder de uma palavra, pelo menos comece a pensar sobre.

quarta-feira, abril 14, 2010

Procuro algo que não tem nome

Versão simplificada

Procuro algo que não tem nome
Em cada réstia de luz
Em cada gota de orvalho
Sobre o vento que transpassa
Sob o sol que queima
Pelas entranhas do solo
Já o encontrei vezes e vezes -
Só não encontrei seu nome
Voltarei à água, ao ar, à terra,
Voltarei até descobrir.

sexta-feira, abril 02, 2010

Procuro algo que não tem nome

Procuro algo que não tem nome
Em cada réstia de luz que se esconde em cavernas
Em cada gota de orvalho que se dilui nos oceanos
Sobre o vento que transpassa as mais altas montanhas
Sob o sol que queima e determina o novo dia
Pelas entranhas do solo que abraça nossos ancestrais
Já o encontrei vezes e vezes - só não encontrei seu nome
Voltarei à água, ao ar, à terra, voltarei até descobrir.

domingo, março 21, 2010

I love you a bushel and a peck!

Nem sei de outra maneira a não ser esta de reconhecer o dom amoroso
A perfeita maneira de saber-se amado
Amor na raiz da palavra em sua exaustão
O amor que conduz
O amor que aprende e nunca, nunca morre.

sábado, fevereiro 27, 2010

A força

Por mais que todos lhe tentassem alertar para não prosseguir com aquilo
Que seria uma total loucura e que a sanidade lhe deixaria livre para voar
Por mais que tudo conspirasse para ele pensar que não daria certo
Algo dentro dele cochichava-lhe ao ouvido da alma
Algo incansável que lhe forçava febrilmente a continuar
Uma força de tal natureza que seu âmago lhe enchia de esperança
E é de toda réstia dela que se faz a verdadeira chama da paixão
E foi assim que ele, o estúpido teimoso, conseguiu o que queria.
Aqui termina a história de um tolo
[mas um tolo mais feliz.]

sábado, fevereiro 06, 2010

Confissão

Nasci na época errada, no ritmo errado das coisas. Meus ideais e pensamentos se confundem com o brilho ancestral das estrelas. Há um pouco de fé e nostalgia em minhas canções que remetem a um tempo de que certamente pertenci e continuarei a pertencer. Onde pairam ilustres e hábeis os astros do blues e os jovens ainda dançam com a brilhantina faiscando em seus cabelos.

quarta-feira, dezembro 30, 2009

De noite

Súbito grito
salta da boca
pendida.

Hálito morto
daquele corpo
emanado.

Rastro de sangue
caminho rubro
surgido.

Pólvora crua
por todo chão
perdida.

Sádico riso
solto do vulto
marcado.

Era uma vez
um jovem moço
polido.

Era uma vez
um corpo morto
encontrado.

sábado, dezembro 19, 2009

Para uma avenca partindo

Olha, antes do ônibus partir eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, dessas coisas assim que não se dizem costumeiramente, sabe, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende? Olha, falta muito pouco tempo, e se eu não te disser agora talvez não diga nunca mais, porque tanto eu como você sentiremos uma falta enorme dessas coisas, e se elas não chegarem a ser ditas nem eu nem você nos sentiremos satisfeitos com tudo que existimos, porque elas não foram existidas completamente, entende, porque as vivemos apenas naquela dimensão em que é permitido viver, não, não é isso que eu quero dizer, não existe uma dimensão permitida e uma outra proibida, indevassável, não me entenda mal, mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não sabe se terá coragem de viver, no mais fundo, eu quero dizer, é isso mesmo, você está acompanhando meu raciocínio? Falava do mais fundo, desse que existe em você, em mim, em todos esses outros com suas malas, suas bolsas, suas maçãs, não, não sei porque todo mundo compra maçãs antes de viajar, nunca tinha pensado nisso, por favor, não me interrompa, realmente não sei, existem coisas que a gente ainda não pensou, que a gente talvez nunca pense, eu, por exemplo, nunca pensei que houvesse alguma coisa a dizer além de tudo o que já foi dito, ou melhor pensei sim, não, pensar propriamente dito não, mas eu sabia, é verdade que eu sabia, que havia uma outra coisa atrás e além das nossas mãos dadas, dos nossos corpos nus, eu dentro de você, e mesmo atrás dos silêncios, aqueles silêncios saciados, quando a gente descobria alguma coisa pequena para observar, um fio de luz coado pela janela, um latido de cão no meio da noite, você sabe que eu não falaria dessas coisas se não tivesse a certeza de que você sentia o mesmo que eu a respeito dos fios de luz, dos latidos de cães, é, eu não falaria, uma vez eu disse que a nossa diferença fundamental é que você era capaz apenas de viver as superfícies, enquanto eu era capaz de ir ao mais fundo, você riu porque eu dizia que não era cantando desvairadamente até ficar rouca que você ia conseguir saber alguma coisa a respeito de si própria, mas sabe, você tinha razão em rir daquele jeito porque eu também não tinha me dado conta de que enquanto ia dizendo aquelas coisas eu também cantava desvairadamente até ficar rouco, o que eu quero dizer é que nós dois cantamos desvairadamente até agora sem nos darmos contas, é por isso que estou tão rouco assim, não, não é dessa coisa de garganta que falo, é de uma outra de dentro, entende? Por favor, não ria dessa maneira nem fique consultando o relógio o tempo todo, não é preciso, deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, você não cresceria se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço, claro, claro que eu compro uma revista pra você, eu sei, é bom ler durante a viagem, embora eu prefira ficar olhando pela janela e pensando coisas, estas mesmas coisas que estou tentando dizer a você sem conseguir, por favor, me ajuda, senão vai ser muito tarde, daqui a pouco não vai mais ser possível, e se eu não disser tudo não poderei nem dizer e nem fazer mais nada, é preciso que a gente tente de todas as maneiras, é o que estou fazendo, sim, esta é minha última tentativa, olha, é bom você pegar sua passagem, porque você sempre perde tudo nessa sua bolsa, não sei como é que você consegue, é bom você ficar com ela na mão para evitar qualquer atraso, sim, é bom evitar os atrasos, mas agora escuta: eu queria te dizer uma porção de coisas, de uma porção de noites, ou tardes, ou manhãs, não importa a cor, é, a cor, o tempo é só uma questão de cor não é? Por isso não importa, eu queria era te dizer dessas vezes em que eu te deixava e depois saía sozinho, pensando também nas coisas que eu não ia te dizer, porque existem coisas terríveis, eu me perguntava se você era capaz de ouvir, sim, era preciso estar disponível para ouvi-las, disponível em relação a quê? Não sei, não me interrompa agora que estou quase conseguindo, disponível só, não é uma palavra bonita? Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? Dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender, melhor, claro que eu dou um cigarro pra você, não, ainda não, faltam uns cinco minutos, eu sei que não devia fumar tanto, é eu sei que os meus dentes estão ficando escuros, e essa tosse intolerável, você acha mesmo a minha tosse intolerável? Eu estava dizendo, o que é mesmo que eu estava dizendo? Ah, sabe, entre duas pessoas essas coisas sempre devem ser ditas, o fato de você achar minha tosse intolerável, por exemplo, eu poderia me aprofundar nisso e concluir que você não gosta de mim o suficiente, porque se você gostasse, gostaria também da minha tosse, dos meus dentes escuros, mas não aprofundando não concluo nada, fico só querendo te dizer de como eu te esperava quando a gente marcava qualquer coisa, de como eu olhava o relógio e andava de lá pra cá sem pensar definidamente e nada, mas não, não é isso, eu ainda queria chegar mais perto daquilo que está lá no centro e que um dia destes eu descobri existindo, porque eu nem supunha que existisse, acho que foi o fato de você partir que me fez descobrir tantas coisas, espera um pouco, eu vou te dizer de todas as coisas, é por isso que estou falando, fecha a revista, por favor, olha, se você não prestar muita atenção você não vai conseguir entender nada, sei, sei, eu também gosto muito do Peter Fonda, mas isso agora não tem nenhuma importância, é fundamental que você escute todas as palavras, todas, e não fique tentando descobrir sentidos ocultos por trás do que estou dizendo, sim, eu reconheço que muitas vezes falei por metáforas, e que é chatíssimo falar por metáforas, pelo menos para quem ouve, e depois, você sabe, eu sempre tive essa preocupação idiota de dizer apenas coisas que não ferissem, está bem, eu espero aqui do lado da janela, é melhor mesmo você subir, continuamos conversando enquanto o ônibus não sai, espera, as maçãs ficam comigo, é muito importante, vou dizer tudo numa só frase, você vai ......... ............ ............. ............ .......... ........... ............. ............ ............ ............ ......... ........... ............ ............ sim, eu sei, eu vou escrever, não eu não vou escrever, mas é bom você botar um casaco, está esfriando tanto, depois, na estrada, olha, antes do ônibus partir eu quero te dizer uma porção de coisas, será que vai dar tempo? Escuta, não fecha a janela, está tudo definido aqui dentro, é só uma coisa, espera um pouco mais, depois você arruma as malas e as botas, fica tranqüila, esse velho não vai incomodar você, olha, eu ainda não disse tudo, e a culpa é única e exclusivamente sua, por que você fica sempre me interrompendo e me fazendo suspeitar que você não passa mesmo duma simples avenca? Eu preciso de muito silêncio e de muita concentração para dizer todas as coisas que eu tinha pra te dizer, olha, antes de você ir embora eu quero te dizer quê.

quarta-feira, dezembro 16, 2009

Canção etérea

Teu canto
vagando
ao vento
devora
meu pranto
meu sofrimento
sem tanto
espanto
com tanto
esquecimento
aurora
de encanto.
outrora
lamento.

domingo, dezembro 06, 2009

Entre flor e nuvem

"Sou entre flor e nuvem,
estrela e mar.

Por que havemos de ser unicamente humanos,
limitados em chorar?

Não encontro caminhos
fáceis de andar;

Meu rosto vário desorienta as firmes pedras
que não sabem de água e de ar;
E por isso levito.

É bom deixar
um pouco de ternura e encanto indiferente
de herança,em cada lugar.

Rastro de flor e estrela,
nuvem e mar.

Meu destino é mais longe e
meu passo mais rápido:
a sombra é que vai devagar."


-Cecília Meireles

quinta-feira, novembro 19, 2009

O mestre-sala dos mares

Salve o navegante negro
Altivo no porte pra defender
Moral e virtude manchadas jamais
Com sorte de a morte o escolher
Por lutas inglórias, batalhas mortais
E por monumento ter
As pedras pisadas no cais.

domingo, novembro 01, 2009

Carnalismo

A mão perfaz o toque febril sobre a morna pele
percorrendo vagarosamente cada meandro do corpo nu
Esperando com ardor que o prazer se revele
Como de um céu nublado a uma imensidão azul.

O suor que transpassa aquela epiderme
é o alimento para olhos famintos de paixão
que buscam nada mais que o cerne
de um delírio, de um fulgor, de excitação.

domingo, outubro 18, 2009

Eu sei

Eu sei que não se deve tirar sujeira do nariz na frente dos outros
que não se deve abrir a boca enquanto come
que não se pode entrar com pés esquerdo na casa dos outros pela primeira vez
que não se deve comer o primeiro biscoito de alguém
que não se pode beber leite e comer manga
mas sempre é bom quebrar um pouco as regras
estou cansado das mil e uma regras da sociedade.

terça-feira, setembro 01, 2009

Ira

às vezes acordo com vontade de xingar o mundo e suas ignorâncias. Queria socar cada rosto que aparece e decide sorrir hipocritamente na minha frente e que sei que fala mal de mim pelas costas. Mas aí eu percebo o quanto estou sendo tolo, existem outras justiças mais plenas e infalíveis que as feitas pelas minhas próprias mãos.

sexta-feira, agosto 28, 2009

Anagramia

Diva
Vida
Vadi(a).

Morte
termo:
tremo(r).

Alegria
galeria (de)
regalia(s).

Raiva
Vaiar (quem come)
(c)aviar

domingo, agosto 23, 2009

Um conselho

Para todos aqueles que não se sentem aptos ou prontos, ou até mesmo acham que não podem mais. Não se enganem, não iludam seu coração. Nunca é tarde para se amar e ser amado. Os desígnios da vida sempre mostram um caminho que passa rente ao córrego do amor, às vezes estamos tão absortos em viver que não o percebemos. Ou nosso espírito tão machucado que não sobrou espaço para uma nova oportunidade. Nunca perca aquilo que possa te salvar deste mundo. Lembra-te que há vastidões mais vastas que essas alcançadas por nossos olhos ou nossas limitadas mentes e o amor é a porta para tais.

quinta-feira, agosto 20, 2009

A verdade sobre o vôo

Um dos maiores dramas da humanidade sempre foi a incapacidade de voar. Desde tempos imemoriais o ser humano almejou alcançar os céus. Isso está registrado nas gravuras e textos literários desde aqueles tempos. Figuras como os anjos, criaturas humanóides dotadas de asas que transitam entre o céu e a terra, são muito conhecidas e podem ser vistas como objetos de vontade de vôo do homem. O conto de Ícaro na mitologia grega ilustra muito bem essa vontade, às vezes obsessiva. Foi então que construímos os helicópteros e os aviões. Contudo ainda assim não nos contentamos, buscamos arduamente uma maneira de ascender por conta própria, sem auxílio de máquinas ou ferramentas. A questão é, existe somente uma maneira de se voar? A resposta é não. Para comprovar isso, experimente deitar em sua cama e, relaxado, escutar a música que mais lhe aprouver a alma, que mais lhe penetre nos confins de teus pensamentos, que te faça esquecer de teus problemas e desejos por pelo menos alguns minutos. Agora assim tente voar sobre todos os lugares que já quis antes. Todos os vales, montes, colinas, cidades e montanhas. Experimente conhecer cada um desses lugares nesse momento e veja se um ser humano não pode mesmo voar.
"pés, para que os quero se tenho asas para voar?"

quinta-feira, agosto 06, 2009

Bang Bang, my baby shot me down

Éramos ainda duas crianças quando nos conhecemos. Eu tinha cinco anos, ele seis. No auge dos filmes de cowboy e faroeste. Costumávamos montar em cavalos de pau. Nosso parque de diversão virava o mais recente vilarejo pelos arredores do Novo México, constantemente atacado por índios peles-vermelha.
Ele sempre vestia preto, eu branco. Era como uma velha tradição do faroeste. Contudo não era possível dois postos de xerife naquela cidadezinha, um teria de sucumbir. Bang, bang! Ele atirou e caí ao chão. Bang, Bang! Aquele som desagradável para sempre em minha mente.
As estações vieram e mudaram os tempos. Quando cresci o chamei de meu. Ele sempre riria e diria "lembra quando nós brincávamos?".
Música tocada e pessoas cantavam. Apenas pra mim os sinos da igreja soavam.
Agora ele se foi e não se por quê. E até estes dias eu ainda choro. Ele nem mesmo disse adeus. Não teve tempo para mentir. E mais uma vez bang, bang! Ele atirou em mim. Bang, bang! Caí ao chão. Bang, bang! Aquele som desagradável. Bang, bang! My baby shot me down...

terça-feira, agosto 04, 2009

L'amour

Não tem nada melhor nessa vida do que acordar de manhã e reparar que você está do lado da pessoa que ama. Admirando o sono lento e profundo dela e fazendo carícias em seus cabelos até abrir os olhos aos poucos e sorrir. Um sorriso claro como a manhã que se desenvolve.

quarta-feira, julho 22, 2009

Notas sobre a música

Nunca conseguirei transpassar essa sensação que atravessa meus tímpanos, ressoa dentro de mim e me faz o pensamento alto [e vário]. Um dia, talvez, ao menos possa chegar perto. Ainda assim, escutar é tudo.

quarta-feira, julho 15, 2009

A volta

Ele não queria voltar tão logo para aquela terra fria. Em que os raios de sol custam mais para tocar o chão e os ventos parecem mais rápidos conforme o passar dos dias. Ele sabia que haveria de voltar, mas algo dentro lhe fustigava a pensar que não. Queria sentir ainda o sabor da brisa que vinha da praia; ver do mar o vermelho escorrendo do céu e sumindo até que só sobrassem as luzes das embarcações ao longe. "Uma terra com palmeiras onde cantam sabiás", confirmou para si. Nunca pensou que sentiria tanta falta daquilo, mas talvez assim fosse necessário. O destino reserva muitos caminhos sinuosos aos seus transeuntes. Além das milhas que o separavam disso, havia um compromisso, uma promessa para si de que tudo haveria de ser como foi decidido. E assim ele voltava, menos passional e mais resoluto quanto aos seus quereres.

quarta-feira, junho 24, 2009

c'est tout

"Je viendrai te prendre
Je saurai te défendre
Au-delà des frontières
Je foulerai la terre

Je tisserai des chants
Au soir et au levant
Un point pour chaque étoile
Chanson de toile"

- Émilie Simon

sábado, março 14, 2009

O que urge

Não hei de divulgar em manchetes
Não hei de escrever em diários
Nem mesmo sussurar aos ventos
tampouco de outorgar em tratados
O que urge nessa situação
não reside na maneira íntegra de se expressar
A curiosidade alheia se desmancha
se faz deserto em meio ao nosso oceano
de oportunidades
O que se faz mister reside
na palavra doce e silenciosa
que transborda aos poucos de
nossas mãos ou no calor singelo
de nossos beijos e abraços.

sábado, março 07, 2009

"Where is the sea?
I don't know why I was just looking for the
sea
but the only thing I found was a desert
a desert around
me"

- Émilie Simon

sexta-feira, janeiro 23, 2009

pra avisar que talvez hoje tenha sido o dia mais feliz de minha vida
:)

terça-feira, janeiro 06, 2009

Take me out

Take me away from this world
Build-me up wings like this so
sweet and serene as you built
this feeling for me


Take me high, so high
above these clouds
that brought us
days that from rain
hugged
we used to sleep like this


take me somewhere
anywhere you might
walk away
in my chest
to transmit everything
that has no name
not even end

Take me out

Me leva pra longe desse mundo
Construa-me asas assim tão doce
e sereno como construíste
este sentimento por mim.

Me leva alto, bem alto
acima dessas nuvens
que nos trouxeram
dias em que da chuva,
abraçados.
dormiamos assim.

Me leva a alhures
qualquer lugar em que
possas transitar
em meu peito
transmitir tudo isso
que não tem nome
nem fim.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Eu

sinto a vida pulsando desde as entranhas da terra
a energia sendo sugada de dentro
subindo sempre em altura,
ascendendo lenta e ritmada
estendendo-se em cada galhada,
em cada ponta de folha
em cada pétala desabrochada.
E eu vejo a glória da aurora não tão notada
da natureza em um crespúsculo.

quinta-feira, novembro 27, 2008

Roda

Completa a décima nona volta ao redor do sol,
Parece que foi ontem que meu Sol nasceu sobre o signo errante
meio eqüino, meio humano
nasci cavalgando sobre esporas imaginárias e cortantes
patas sagitárias novas que amaciam o solo de um mundo antigo
Tudo tem percorrido rápido sua translação natural
os ponteiros parecem competir entre si no relógio pregado na cozinha
no relógio da escola, no relógio do meu braço
Mas nada se compara às voltas do meu coração
O mundo rodou num instante em meu peito
e as feridas ainda estão expostas ao vento da nova estação
É preciso fé e dor para encarar essa roda
mas nem sempre podemos ter a sorte de Pandora...

sexta-feira, outubro 17, 2008

O quinto e último

Quinto Motivo da Rosa

Antes do teu olhar, não era,
nem será depois, - primavera.
Pois vivemos do que perdura,

não do que fomos. Desse acaso
do que foi visto e amado:- o prazo
do Criador na criatura...

Não sou eu, mas sim o perfume
que em ti me conserva e resume
o resto, que as horas consomem.

Mas não chores, que no meu dia,
há mais sonho e sabedoria
que nos vagos séculos do homem.

terça-feira, setembro 16, 2008

Fortaleza

Deixa que os olhos te sequem a alma
pelas cascatas rubras que te jorram
deixa que a estrela que cabia em tua palma
suma na imensidão do céu de tua boca
E lamentando pelos cantos de teus lábios
seu martírio resvalado em doce calma
e das ondas curvas de teu corpo
beberei em alento teu doce pranto
chamarei teu corpo feito de pó
chamarei tua alma caminho adentro
do mais sagrado e profano manto
de minha solidão que não mais se vê só.

quinta-feira, julho 24, 2008

O peso e a leveza

"[...] Será atroz o peso e bela a leveza?
O mais pesado dos fardos nos esmaga, nos faz dobrar sob ele, nos esmaga contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o peso do corpo masculino. O fardo mais pesado é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da mais intensa realização vital. Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira. 
Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes. 
Então, o que escolher? O peso ou a leveza?
Foi a pergunta que Parmênides fez a si mesmo no século VI antes de Cristo. Segundo ele, o universo está dividido em duplas de contrários: a luz e a obscuridade, o grosso e o fino, o quente e o frio, o ser e o não-ser. Ele considerava que um dos pólos da contradição é positivo (o claro, o quente, o fino, o ser), o outro, negativo. Essa divisão em pólos positivo e negativo pode nos parecer de uma facilidade pueril. Menos em um dos casos: o que é positivo, o peso ou a leveza? Parmênides respondia: o leve é positivo, o pesado negativo. Teria ou não a razão? Essa é a questão [...]
[...] O drama de uma vida pode sempre ser explicado pela metáfora do peso. Dizemos que temos um fardo sobre os ombros. Carregamos esse fardo, que suportamos ou não. Lutamos com ele, perdemos ou ganhamos. O que precisamente aconteceu com Sabina? Nada. Deixara um homem porque quis deixá-lo. Ele a perseguira depois disso? Quis vingar-se? Não. Seu drama não era de peso, mas de leveza. O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza do ser."
Quando a palavra leveza nos vem a mente, podemos rapidamente pensar em algo ligado ao ar, algo rarefeito, volátil, de tal graciosidade e delicadeza quanto a de um grão de pólen; imaginamos um pássaro voando sobre um prado, deslizando suavemente. A sensação que a palavra nos remete geralmente está associada a aspectos positivos, que nos transmitem uma sensação análoga ao que pensamos. Projetamo-nos sobre o vôo tenro de uma andorinha e nos esquecemos um pouco do que é sentir o peso de uma vida. Mas por que seria o peso algo negativo? Kundera afirmou precisamente que o fardo está associado a uma "mais intensa realização vital",  está ligado à máxima percepção do que está ao nosso redor, não obrigatoriamente relacionado ao sentido do tato. À medida que os nossos sentidos são ativados e estimulados, estamos nos prendendo à terra, estamos estabelecendo um significativo vínculo com o que nos tange. O peso seria, então, o vínculo que nos atrai, a gravidade inexorável que nos faz sentir que estamos vivos. Não obrigatoriamente pode ser algo negativo, explosões sensoriais não necessariamente são deletéreas. O que Kundera deixou em aberto foi que o sentido e noção de peso e leveza como opostos é relativo, não é algo fácil de se precisar e sempre será uma notável fonte de discussão.

quinta-feira, julho 17, 2008

O inominável

O jovem viajante estava há anos em sua jornada por estradas desconhecidas. Caminhara milhas e já percorrera desertos de areias brancas, florestas tão densas que o mais tênue raio de luz não penetrava, praias com tal virgindade que o mar ainda lhe comungava um verdume ímpar. Já havia aprendido a se guiar pelas estrelas no firmamento, conhecia os segredos que cada sol distante fornecia aos que sabiamente lhe confiassem o destino. Aprendera a tomar as devidas precauções com relação a outros que aparecessem em seu caminho, já experimentara amargamente o gosto ácido da traição, o veneno ainda se diluía lento em seu corpo. Desvendara a mágica ligação que os astros tinham com ele, cada fase da lua repercutia-lhe uma significativa mudança de comportamento. Mas por mais que sentisse que acumulara um conhecimento vasto pelas veredas do mundo, não havia tido o privilégio máximo que lhe pudesse ser oferecido. Ainda não pudera sentir o que os descrentes chamam de loucura, o que os loucos chamam de poesia, o que os poetas chamam de amor. Por isso ainda seguia em frente, ainda fomentava em seu íntimo a vontade de continuar. O desconhecido lhe era um abismo e a vertigem era seu desejo inexorável de cair, de partir para escuridões mais profundas, vastidões mais claras. O tempo em sua concepção era a natureza que se transformava, a semente que voa com o vento, a planta que nasce da semente, a árvore que medra do solo, a semente que surge dos galhos e reproduz a vida. A passagem do tempo não lhe era linear, descrevia grandes e complexas voltas, numa ciranda interminável de sensações. Contudo nenhum ciclo era completamente igual ao primeiro, sendo o passado um grande esboço do presente. Poder-se-ia então dizer que o tempo descreve espirais. Talvez o amor fosse uma grande mentira; - pensava o viajante- uma lenda antiga de origem remota que servisse de inspiração aos jovens de coração. Contudo se é uma lenda, por que tantos homens já sucumbiram a tal? Por que o mundo se move por uma lenda? Certamente não há de sê-lo, e ele estava ali justamente para descobri-lo. Procurava algo que não sabia ao certo o que fosse, , algo iria lhe daria sentido em sua existência, procurava algo que não tem nome.

domingo, julho 06, 2008

Vertigo/Vertigem

"Anyone whose goal is 'something higher' must expect someday to suffer vertigo. What is vertigo? Fear of falling? No, Vertigo is something other than fear of falling. It is the voice of the emptiness below us which tempts and lures us, it is the desire to fall, against which, terrified, we defend ourselves."


"Aquele que deseja continuamente 'elevar-se' deve esperar um dia pela vertigem. O que é a vertigem? O medo de cair? Mas por que sentimos vertigem num mirante cercado por uma balaustrada? A vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. É a voz do vazio embaixo de nós, que nos atrai e nos envolve, é o desejo da queda do qual logo nos defendemos aterrorizados."

Milan Kundera, The Unbearable Lightness of Being

terça-feira, junho 17, 2008

Dilúvio

Há aqueles que dizem que há uma gota de sangue em cada poema,
uma marca efêmera dos humanos,
(ou qualquer ser vivo em que esse fluido vital pulse)
que se torna imutável.
a marca da dor,
do suplício e ,
do sofrimento.
A marca de um amor,
da epifania,
alegria,
sinergia
de um momento.
a marca da lágrima de um coração,
o caminho para o desapego,
para a liberdade,
para a redenção.
Contudo às vezes,
em certo poema,
ao ler não apenas,
com a visão,
deparo com não uma gota,
mas um dilúvio, uma tempestade,
um jorro quente e impetuoso de emoção,
são lágrimas, sangue e veneno,
escorrendo das letras, dos versos e estrofes
inunando-nos a alma
até que se enxagúe
de sofreguidão.

domingo, junho 15, 2008

El laberinto del fauno



"Cuentan que hace mucho, mucho tiempo, en el mundo subterráneo, donde no existe la mentira ni el dolor, vivía una princesa que soñaba con el mundo de los humanos. Soñaba con el cielo azul, la brisa suave y el brillante sol... Un día, burlando toda vigilancia, la princesa escapó. Una vez en el exterior, la luz del sol la cegó y borró de su memoria cualquier indicio del pasado. La princesa olvidó quién era - de dónde venía... Su cuerpo sufrió frío, enfermedad y dolor. Y al correr de los años... murió. Sin embargo, su padre, el Rey, sabía que el alma de la princesa regresaría, quizá en otro cuerpo, en otro tiempo y en otro lugar. Y él la esperaría hasta su último aliento, hasta que el mundo dejara de girar."