sábado, março 14, 2009

O que urge

Não hei de divulgar em manchetes
Não hei de escrever em diários
Nem mesmo sussurar aos ventos
tampouco de outorgar em tratados
O que urge nessa situação
não reside na maneira íntegra de se expressar
A curiosidade alheia se desmancha
se faz deserto em meio ao nosso oceano
de oportunidades
O que se faz mister reside
na palavra doce e silenciosa
que transborda aos poucos de
nossas mãos ou no calor singelo
de nossos beijos e abraços.

sábado, março 07, 2009

"Where is the sea?
I don't know why I was just looking for the
sea
but the only thing I found was a desert
a desert around
me"

- Émilie Simon

sexta-feira, janeiro 23, 2009

pra avisar que talvez hoje tenha sido o dia mais feliz de minha vida
:)

terça-feira, janeiro 06, 2009

Take me out

Take me away from this world
Build-me up wings like this so
sweet and serene as you built
this feeling for me


Take me high, so high
above these clouds
that brought us
days that from rain
hugged
we used to sleep like this


take me somewhere
anywhere you might
walk away
in my chest
to transmit everything
that has no name
not even end

Take me out

Me leva pra longe desse mundo
Construa-me asas assim tão doce
e sereno como construíste
este sentimento por mim.

Me leva alto, bem alto
acima dessas nuvens
que nos trouxeram
dias em que da chuva,
abraçados.
dormiamos assim.

Me leva a alhures
qualquer lugar em que
possas transitar
em meu peito
transmitir tudo isso
que não tem nome
nem fim.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Eu

sinto a vida pulsando desde as entranhas da terra
a energia sendo sugada de dentro
subindo sempre em altura,
ascendendo lenta e ritmada
estendendo-se em cada galhada,
em cada ponta de folha
em cada pétala desabrochada.
E eu vejo a glória da aurora não tão notada
da natureza em um crespúsculo.

quinta-feira, novembro 27, 2008

Roda

Completa a décima nona volta ao redor do sol,
Parece que foi ontem que meu Sol nasceu sobre o signo errante
meio eqüino, meio humano
nasci cavalgando sobre esporas imaginárias e cortantes
patas sagitárias novas que amaciam o solo de um mundo antigo
Tudo tem percorrido rápido sua translação natural
os ponteiros parecem competir entre si no relógio pregado na cozinha
no relógio da escola, no relógio do meu braço
Mas nada se compara às voltas do meu coração
O mundo rodou num instante em meu peito
e as feridas ainda estão expostas ao vento da nova estação
É preciso fé e dor para encarar essa roda
mas nem sempre podemos ter a sorte de Pandora...

sexta-feira, outubro 17, 2008

O quinto e último

Quinto Motivo da Rosa

Antes do teu olhar, não era,
nem será depois, - primavera.
Pois vivemos do que perdura,

não do que fomos. Desse acaso
do que foi visto e amado:- o prazo
do Criador na criatura...

Não sou eu, mas sim o perfume
que em ti me conserva e resume
o resto, que as horas consomem.

Mas não chores, que no meu dia,
há mais sonho e sabedoria
que nos vagos séculos do homem.

terça-feira, setembro 16, 2008

Fortaleza

Deixa que os olhos te sequem a alma
pelas cascatas rubras que te jorram
deixa que a estrela que cabia em tua palma
suma na imensidão do céu de tua boca
E lamentando pelos cantos de teus lábios
seu martírio resvalado em doce calma
e das ondas curvas de teu corpo
beberei em alento teu doce pranto
chamarei teu corpo feito de pó
chamarei tua alma caminho adentro
do mais sagrado e profano manto
de minha solidão que não mais se vê só.

quinta-feira, julho 24, 2008

O peso e a leveza

"[...] Será atroz o peso e bela a leveza?
O mais pesado dos fardos nos esmaga, nos faz dobrar sob ele, nos esmaga contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o peso do corpo masculino. O fardo mais pesado é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da mais intensa realização vital. Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira. 
Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes. 
Então, o que escolher? O peso ou a leveza?
Foi a pergunta que Parmênides fez a si mesmo no século VI antes de Cristo. Segundo ele, o universo está dividido em duplas de contrários: a luz e a obscuridade, o grosso e o fino, o quente e o frio, o ser e o não-ser. Ele considerava que um dos pólos da contradição é positivo (o claro, o quente, o fino, o ser), o outro, negativo. Essa divisão em pólos positivo e negativo pode nos parecer de uma facilidade pueril. Menos em um dos casos: o que é positivo, o peso ou a leveza? Parmênides respondia: o leve é positivo, o pesado negativo. Teria ou não a razão? Essa é a questão [...]
[...] O drama de uma vida pode sempre ser explicado pela metáfora do peso. Dizemos que temos um fardo sobre os ombros. Carregamos esse fardo, que suportamos ou não. Lutamos com ele, perdemos ou ganhamos. O que precisamente aconteceu com Sabina? Nada. Deixara um homem porque quis deixá-lo. Ele a perseguira depois disso? Quis vingar-se? Não. Seu drama não era de peso, mas de leveza. O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza do ser."
Quando a palavra leveza nos vem a mente, podemos rapidamente pensar em algo ligado ao ar, algo rarefeito, volátil, de tal graciosidade e delicadeza quanto a de um grão de pólen; imaginamos um pássaro voando sobre um prado, deslizando suavemente. A sensação que a palavra nos remete geralmente está associada a aspectos positivos, que nos transmitem uma sensação análoga ao que pensamos. Projetamo-nos sobre o vôo tenro de uma andorinha e nos esquecemos um pouco do que é sentir o peso de uma vida. Mas por que seria o peso algo negativo? Kundera afirmou precisamente que o fardo está associado a uma "mais intensa realização vital",  está ligado à máxima percepção do que está ao nosso redor, não obrigatoriamente relacionado ao sentido do tato. À medida que os nossos sentidos são ativados e estimulados, estamos nos prendendo à terra, estamos estabelecendo um significativo vínculo com o que nos tange. O peso seria, então, o vínculo que nos atrai, a gravidade inexorável que nos faz sentir que estamos vivos. Não obrigatoriamente pode ser algo negativo, explosões sensoriais não necessariamente são deletéreas. O que Kundera deixou em aberto foi que o sentido e noção de peso e leveza como opostos é relativo, não é algo fácil de se precisar e sempre será uma notável fonte de discussão.

quinta-feira, julho 17, 2008

O inominável

O jovem viajante estava há anos em sua jornada por estradas desconhecidas. Caminhara milhas e já percorrera desertos de areias brancas, florestas tão densas que o mais tênue raio de luz não penetrava, praias com tal virgindade que o mar ainda lhe comungava um verdume ímpar. Já havia aprendido a se guiar pelas estrelas no firmamento, conhecia os segredos que cada sol distante fornecia aos que sabiamente lhe confiassem o destino. Aprendera a tomar as devidas precauções com relação a outros que aparecessem em seu caminho, já experimentara amargamente o gosto ácido da traição, o veneno ainda se diluía lento em seu corpo. Desvendara a mágica ligação que os astros tinham com ele, cada fase da lua repercutia-lhe uma significativa mudança de comportamento. Mas por mais que sentisse que acumulara um conhecimento vasto pelas veredas do mundo, não havia tido o privilégio máximo que lhe pudesse ser oferecido. Ainda não pudera sentir o que os descrentes chamam de loucura, o que os loucos chamam de poesia, o que os poetas chamam de amor. Por isso ainda seguia em frente, ainda fomentava em seu íntimo a vontade de continuar. O desconhecido lhe era um abismo e a vertigem era seu desejo inexorável de cair, de partir para escuridões mais profundas, vastidões mais claras. O tempo em sua concepção era a natureza que se transformava, a semente que voa com o vento, a planta que nasce da semente, a árvore que medra do solo, a semente que surge dos galhos e reproduz a vida. A passagem do tempo não lhe era linear, descrevia grandes e complexas voltas, numa ciranda interminável de sensações. Contudo nenhum ciclo era completamente igual ao primeiro, sendo o passado um grande esboço do presente. Poder-se-ia então dizer que o tempo descreve espirais. Talvez o amor fosse uma grande mentira; - pensava o viajante- uma lenda antiga de origem remota que servisse de inspiração aos jovens de coração. Contudo se é uma lenda, por que tantos homens já sucumbiram a tal? Por que o mundo se move por uma lenda? Certamente não há de sê-lo, e ele estava ali justamente para descobri-lo. Procurava algo que não sabia ao certo o que fosse, , algo iria lhe daria sentido em sua existência, procurava algo que não tem nome.

domingo, julho 06, 2008

Vertigo/Vertigem

"Anyone whose goal is 'something higher' must expect someday to suffer vertigo. What is vertigo? Fear of falling? No, Vertigo is something other than fear of falling. It is the voice of the emptiness below us which tempts and lures us, it is the desire to fall, against which, terrified, we defend ourselves."


"Aquele que deseja continuamente 'elevar-se' deve esperar um dia pela vertigem. O que é a vertigem? O medo de cair? Mas por que sentimos vertigem num mirante cercado por uma balaustrada? A vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. É a voz do vazio embaixo de nós, que nos atrai e nos envolve, é o desejo da queda do qual logo nos defendemos aterrorizados."

Milan Kundera, The Unbearable Lightness of Being

terça-feira, junho 17, 2008

Dilúvio

Há aqueles que dizem que há uma gota de sangue em cada poema,
uma marca efêmera dos humanos,
(ou qualquer ser vivo em que esse fluido vital pulse)
que se torna imutável.
a marca da dor,
do suplício e ,
do sofrimento.
A marca de um amor,
da epifania,
alegria,
sinergia
de um momento.
a marca da lágrima de um coração,
o caminho para o desapego,
para a liberdade,
para a redenção.
Contudo às vezes,
em certo poema,
ao ler não apenas,
com a visão,
deparo com não uma gota,
mas um dilúvio, uma tempestade,
um jorro quente e impetuoso de emoção,
são lágrimas, sangue e veneno,
escorrendo das letras, dos versos e estrofes
inunando-nos a alma
até que se enxagúe
de sofreguidão.

domingo, junho 15, 2008

El laberinto del fauno



"Cuentan que hace mucho, mucho tiempo, en el mundo subterráneo, donde no existe la mentira ni el dolor, vivía una princesa que soñaba con el mundo de los humanos. Soñaba con el cielo azul, la brisa suave y el brillante sol... Un día, burlando toda vigilancia, la princesa escapó. Una vez en el exterior, la luz del sol la cegó y borró de su memoria cualquier indicio del pasado. La princesa olvidó quién era - de dónde venía... Su cuerpo sufrió frío, enfermedad y dolor. Y al correr de los años... murió. Sin embargo, su padre, el Rey, sabía que el alma de la princesa regresaría, quizá en otro cuerpo, en otro tiempo y en otro lugar. Y él la esperaría hasta su último aliento, hasta que el mundo dejara de girar."

segunda-feira, maio 26, 2008

Atos

"Em vez de serem uma simples, clara, firme obra de que ninguém necessitasse envergonhar-se, nossos atos mais comuns estão envoltos num tremular e palpitar de asas, num apagar e acender de luzes..."
- V.W

segunda-feira, abril 14, 2008

Espírito

há algo iminente e lento
que me consome por dentro
alentece minha dor
e me degrada aos poucos
no ritmo das pedras
no ritmo das águas
diluo-me em mim mesmo
faço-me eterno e onipresente
mesmo em meu silêncio
há algo que não quer silenciar
mesmo em meu descanso
há algo que não quer parar
corroendo a cólera
dissolvendo a paz
sempre lento
sem terminar.

domingo, abril 13, 2008

O que tange

Ah! Não me venha falar dos versos
dos versos de harmonia
que tangem o íntimo
excitação, delírio, epifania

Ah! Não me venha falar das notas
Das notas tão penetrantes
que tangem o espírito
belas, surdas, vibrantes

Quero a canção celeste
das notas e versos solenes
Arranjo inefável que nos comunga
com o universo em um único ponto
.

segunda-feira, março 31, 2008

Liberdade

Não ficarei tão só no campo da arte,
e, ânimo firme, sobranceiro e forte,
tudo farei por ti para exaltar-te,
serenamente, alheio à própria sorte.

Para que eu possa um dia contemplar-te
dominadora, em férvido transporte,
direi que és bela e pura em toda parte,
por maior risco em que essa audácia importe.

Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma,
que não exista força humana alguma
que esta paixão embriagadora dome.

E que eu por ti, se torturado for,
possa feliz, indiferente à dor,
morrer sorrindo a murmurar teu nome.

- Carlos Marighela

sexta-feira, março 14, 2008

Sentado na janela

Saudade que dilacera
alma que se exaspera
no ritmo das horas
no ritmo da espera

sábado, fevereiro 09, 2008

Fechado para reformas

no coração desse que procura
por tempo inde-
terminado