sexta-feira, outubro 17, 2008

O quinto e último

Quinto Motivo da Rosa

Antes do teu olhar, não era,
nem será depois, - primavera.
Pois vivemos do que perdura,

não do que fomos. Desse acaso
do que foi visto e amado:- o prazo
do Criador na criatura...

Não sou eu, mas sim o perfume
que em ti me conserva e resume
o resto, que as horas consomem.

Mas não chores, que no meu dia,
há mais sonho e sabedoria
que nos vagos séculos do homem.

terça-feira, setembro 16, 2008

Fortaleza

Deixa que os olhos te sequem a alma
pelas cascatas rubras que te jorram
deixa que a estrela que cabia em tua palma
suma na imensidão do céu de tua boca
E lamentando pelos cantos de teus lábios
seu martírio resvalado em doce calma
e das ondas curvas de teu corpo
beberei em alento teu doce pranto
chamarei teu corpo feito de pó
chamarei tua alma caminho adentro
do mais sagrado e profano manto
de minha solidão que não mais se vê só.

quinta-feira, julho 24, 2008

O peso e a leveza

"[...] Será atroz o peso e bela a leveza?
O mais pesado dos fardos nos esmaga, nos faz dobrar sob ele, nos esmaga contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o peso do corpo masculino. O fardo mais pesado é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da mais intensa realização vital. Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira. 
Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes. 
Então, o que escolher? O peso ou a leveza?
Foi a pergunta que Parmênides fez a si mesmo no século VI antes de Cristo. Segundo ele, o universo está dividido em duplas de contrários: a luz e a obscuridade, o grosso e o fino, o quente e o frio, o ser e o não-ser. Ele considerava que um dos pólos da contradição é positivo (o claro, o quente, o fino, o ser), o outro, negativo. Essa divisão em pólos positivo e negativo pode nos parecer de uma facilidade pueril. Menos em um dos casos: o que é positivo, o peso ou a leveza? Parmênides respondia: o leve é positivo, o pesado negativo. Teria ou não a razão? Essa é a questão [...]
[...] O drama de uma vida pode sempre ser explicado pela metáfora do peso. Dizemos que temos um fardo sobre os ombros. Carregamos esse fardo, que suportamos ou não. Lutamos com ele, perdemos ou ganhamos. O que precisamente aconteceu com Sabina? Nada. Deixara um homem porque quis deixá-lo. Ele a perseguira depois disso? Quis vingar-se? Não. Seu drama não era de peso, mas de leveza. O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza do ser."
Quando a palavra leveza nos vem a mente, podemos rapidamente pensar em algo ligado ao ar, algo rarefeito, volátil, de tal graciosidade e delicadeza quanto a de um grão de pólen; imaginamos um pássaro voando sobre um prado, deslizando suavemente. A sensação que a palavra nos remete geralmente está associada a aspectos positivos, que nos transmitem uma sensação análoga ao que pensamos. Projetamo-nos sobre o vôo tenro de uma andorinha e nos esquecemos um pouco do que é sentir o peso de uma vida. Mas por que seria o peso algo negativo? Kundera afirmou precisamente que o fardo está associado a uma "mais intensa realização vital",  está ligado à máxima percepção do que está ao nosso redor, não obrigatoriamente relacionado ao sentido do tato. À medida que os nossos sentidos são ativados e estimulados, estamos nos prendendo à terra, estamos estabelecendo um significativo vínculo com o que nos tange. O peso seria, então, o vínculo que nos atrai, a gravidade inexorável que nos faz sentir que estamos vivos. Não obrigatoriamente pode ser algo negativo, explosões sensoriais não necessariamente são deletéreas. O que Kundera deixou em aberto foi que o sentido e noção de peso e leveza como opostos é relativo, não é algo fácil de se precisar e sempre será uma notável fonte de discussão.

quinta-feira, julho 17, 2008

O inominável

O jovem viajante estava há anos em sua jornada por estradas desconhecidas. Caminhara milhas e já percorrera desertos de areias brancas, florestas tão densas que o mais tênue raio de luz não penetrava, praias com tal virgindade que o mar ainda lhe comungava um verdume ímpar. Já havia aprendido a se guiar pelas estrelas no firmamento, conhecia os segredos que cada sol distante fornecia aos que sabiamente lhe confiassem o destino. Aprendera a tomar as devidas precauções com relação a outros que aparecessem em seu caminho, já experimentara amargamente o gosto ácido da traição, o veneno ainda se diluía lento em seu corpo. Desvendara a mágica ligação que os astros tinham com ele, cada fase da lua repercutia-lhe uma significativa mudança de comportamento. Mas por mais que sentisse que acumulara um conhecimento vasto pelas veredas do mundo, não havia tido o privilégio máximo que lhe pudesse ser oferecido. Ainda não pudera sentir o que os descrentes chamam de loucura, o que os loucos chamam de poesia, o que os poetas chamam de amor. Por isso ainda seguia em frente, ainda fomentava em seu íntimo a vontade de continuar. O desconhecido lhe era um abismo e a vertigem era seu desejo inexorável de cair, de partir para escuridões mais profundas, vastidões mais claras. O tempo em sua concepção era a natureza que se transformava, a semente que voa com o vento, a planta que nasce da semente, a árvore que medra do solo, a semente que surge dos galhos e reproduz a vida. A passagem do tempo não lhe era linear, descrevia grandes e complexas voltas, numa ciranda interminável de sensações. Contudo nenhum ciclo era completamente igual ao primeiro, sendo o passado um grande esboço do presente. Poder-se-ia então dizer que o tempo descreve espirais. Talvez o amor fosse uma grande mentira; - pensava o viajante- uma lenda antiga de origem remota que servisse de inspiração aos jovens de coração. Contudo se é uma lenda, por que tantos homens já sucumbiram a tal? Por que o mundo se move por uma lenda? Certamente não há de sê-lo, e ele estava ali justamente para descobri-lo. Procurava algo que não sabia ao certo o que fosse, , algo iria lhe daria sentido em sua existência, procurava algo que não tem nome.

domingo, julho 06, 2008

Vertigo/Vertigem

"Anyone whose goal is 'something higher' must expect someday to suffer vertigo. What is vertigo? Fear of falling? No, Vertigo is something other than fear of falling. It is the voice of the emptiness below us which tempts and lures us, it is the desire to fall, against which, terrified, we defend ourselves."


"Aquele que deseja continuamente 'elevar-se' deve esperar um dia pela vertigem. O que é a vertigem? O medo de cair? Mas por que sentimos vertigem num mirante cercado por uma balaustrada? A vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. É a voz do vazio embaixo de nós, que nos atrai e nos envolve, é o desejo da queda do qual logo nos defendemos aterrorizados."

Milan Kundera, The Unbearable Lightness of Being

terça-feira, junho 17, 2008

Dilúvio

Há aqueles que dizem que há uma gota de sangue em cada poema,
uma marca efêmera dos humanos,
(ou qualquer ser vivo em que esse fluido vital pulse)
que se torna imutável.
a marca da dor,
do suplício e ,
do sofrimento.
A marca de um amor,
da epifania,
alegria,
sinergia
de um momento.
a marca da lágrima de um coração,
o caminho para o desapego,
para a liberdade,
para a redenção.
Contudo às vezes,
em certo poema,
ao ler não apenas,
com a visão,
deparo com não uma gota,
mas um dilúvio, uma tempestade,
um jorro quente e impetuoso de emoção,
são lágrimas, sangue e veneno,
escorrendo das letras, dos versos e estrofes
inunando-nos a alma
até que se enxagúe
de sofreguidão.

domingo, junho 15, 2008

El laberinto del fauno



"Cuentan que hace mucho, mucho tiempo, en el mundo subterráneo, donde no existe la mentira ni el dolor, vivía una princesa que soñaba con el mundo de los humanos. Soñaba con el cielo azul, la brisa suave y el brillante sol... Un día, burlando toda vigilancia, la princesa escapó. Una vez en el exterior, la luz del sol la cegó y borró de su memoria cualquier indicio del pasado. La princesa olvidó quién era - de dónde venía... Su cuerpo sufrió frío, enfermedad y dolor. Y al correr de los años... murió. Sin embargo, su padre, el Rey, sabía que el alma de la princesa regresaría, quizá en otro cuerpo, en otro tiempo y en otro lugar. Y él la esperaría hasta su último aliento, hasta que el mundo dejara de girar."

segunda-feira, maio 26, 2008

Atos

"Em vez de serem uma simples, clara, firme obra de que ninguém necessitasse envergonhar-se, nossos atos mais comuns estão envoltos num tremular e palpitar de asas, num apagar e acender de luzes..."
- V.W

segunda-feira, abril 14, 2008

Espírito

há algo iminente e lento
que me consome por dentro
alentece minha dor
e me degrada aos poucos
no ritmo das pedras
no ritmo das águas
diluo-me em mim mesmo
faço-me eterno e onipresente
mesmo em meu silêncio
há algo que não quer silenciar
mesmo em meu descanso
há algo que não quer parar
corroendo a cólera
dissolvendo a paz
sempre lento
sem terminar.

domingo, abril 13, 2008

O que tange

Ah! Não me venha falar dos versos
dos versos de harmonia
que tangem o íntimo
excitação, delírio, epifania

Ah! Não me venha falar das notas
Das notas tão penetrantes
que tangem o espírito
belas, surdas, vibrantes

Quero a canção celeste
das notas e versos solenes
Arranjo inefável que nos comunga
com o universo em um único ponto
.

segunda-feira, março 31, 2008

Liberdade

Não ficarei tão só no campo da arte,
e, ânimo firme, sobranceiro e forte,
tudo farei por ti para exaltar-te,
serenamente, alheio à própria sorte.

Para que eu possa um dia contemplar-te
dominadora, em férvido transporte,
direi que és bela e pura em toda parte,
por maior risco em que essa audácia importe.

Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma,
que não exista força humana alguma
que esta paixão embriagadora dome.

E que eu por ti, se torturado for,
possa feliz, indiferente à dor,
morrer sorrindo a murmurar teu nome.

- Carlos Marighela

sexta-feira, março 14, 2008

Sentado na janela

Saudade que dilacera
alma que se exaspera
no ritmo das horas
no ritmo da espera

sábado, fevereiro 09, 2008

Fechado para reformas

no coração desse que procura
por tempo inde-
terminado

quinta-feira, janeiro 31, 2008

Um parêntesis

Eu realmente não gosto de explicitar minha vida neste blog. Digo das partes pessoais, uma vez que minha vida se reflete nos poemas e pequenos contos que produzo. Entretanto não posso deixar que o ensejo se desfaça. É no meio da madrugada que a inspiração bate à porta de minha consciência e muitas foram as vezes que a deixei partir levando sua cornucópia cheia de belas idéias. Voltai de vosso eterno retiro por onde tento penetrar surdamente, idéias! Passou hoje por mim uma epifania desvairada, recortes de minha infância e adolescência, gestos, aromas, cores e sons que me incitaram a escrever isto.

Estou no auge de meus dezoito anos. Dezoito longas voltas ao redor do Astro-Rei. Tanta coisa se passou desde uma primavera de 1989 até hoje. Nasci no seio da Grande São Paulo, num hospital também grande e cheio de homens vestidos de branco que salvam vidas, assim como também trazem-nas ao mundo. Meu pai sempre quis um filho, um herdeiro masculino que pudesse seguir com o legado de minha família. Minha mãe não era diferente. Os desejos de ambos se fundiram e consagraram-se na forma de um bebê de três quilo e poucas gramas. Nascido na hora , no ano e no dia da serpente, esse ofídio nato abria sofregamente seus pequenos olhos e contemplava o mundo ao qual acabava de descobrir. Haveria mais choro e contemplação pela frente. Haveria mais quedas, bolos com enfeites de palhaços azuis, violõezinhos de brinquedo, pães em forma de peito, bolos de laranja, filmes da disney, gibis da Mônica, amigos do Novo Horizonte, cavaleiros do zodíaco, objetos quebrados dos pais, pisas de chinelo, cachorros.

Pausa para a mudança para o interior.

E haveria mais quedas na bicicleta, barulho da estrada, livros infantis, enciclopédias, roubo de morangos do vizinho, amigos do Objetivo, pipas caídas ao longo da chácara, jasmins da mamãe, cachorros e gatos, pokémon, dentes de leite, invenções científicas na casinha de madeira, dentes permanentes.

Pausa para a mudança para o Ceará.

Haveria mais medo, insegurança, conflito de culturas, adaptação, amigos do Evolutivo, tias e primos desconhecidos, mar, cheiro de mar, praias, céu limpo, sol que se põe mais cedo, amigos do farias brito, olimpíadas de química, serra do vovô, beatles, festivais de arte e criatividade, curso no piauí, ibero-americana no Rio, vestibular, e espera, muita espera. Hoje ainda espero, não só por resultados, mas por pessoas, lugares e idéias, mais idéias sacolejantes que venham na cornucópia da inspiração em outras mais madrugadas enquanto eu permanecer neste mundo.

terça-feira, janeiro 29, 2008

Quando a música vem

Sabe quando a música toca lá dentro? Mas bem fundo, em nossas profundezas. Nos confins abstratos de nossos sentimentos. Aquele lugar que por tempos permaneceu indelével, agora começa a se deixar ser (re)descoberto; tão estonteante quanto o descobrimento do fogo por nossos ancestrais, desmancha sua sofreguidão em encanto.
A pequena luz que lá era guarnecida e que, por virtude das circustâncias, dormia. Essa sementinha de esperança se irradia como um sol. Aflora seus delicados raios com paixão por todas as direções; o corpo é a centelha do universo. E nessa convergência celestial, vem anunciar a alvorada do coração, que se manifesta primordialmente no sorriso, - aquele sorriso franco que brota espontaneamente dos lábios - atingindo seu ápice na vontade da vida, na vontade de abraçar o mundo.
Assim as notas seguem seu ritmo milagroso. Vamos bebendo com os ouvidos o bálsamo, deixando que a musica tome conta do corpo, transpareça nosso espírito e nos conduza ao nirvana das sensações.

sábado, janeiro 26, 2008

Canção eterna

Deixe que a brisa passe mansa
mansa...
e a dança eterna se desfaça em pranto
pranto...
um canto azul transborde da alma
alma...
e a calma que de longe venha nos saudar
saudar...
e o mar de gotas cálidas se derrame
derrame...
e ame o solitário poeta ao doce luar
luar...
e voar seja o ato mais leve e sublime
sublime
e se elimine toda dúvida do coração.

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Mosaico

Segui o caminho que o vento indicou
marcado pelas folhas secas do outono
Guiei-me pelos sóis do firmamento na noite
Minha dor foi minha insônia, meu amor o sono
E a cada repouso descompassado
Reparava em minhas partes
perdidas de outrora
e via muita alegria
muito deslumbramento
via esperança
mas muita dor, sofrimento
angústia e desilusão
Sabia que era preciso fé e dor.
Eu vim de infinitos caminhos
e com cada fragmento
cada momento
alimento
fui juntando
e montando esse mosaico
talvez para parti-lo outra vez
ou simplesmente para pendurá-lo
na parede de um quarto
de uma casa com quintal
numa cidadezinha qualquer.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

O peso do mundo

Ele se levantou do claustro
de idéias sacolejantes
não podia concebê-las
na sumariedade de seus conselhos
que vinham de fora
que vinham dos homens

Ele ergueu uma mão
e apontou ao ponto fúlgido
que trespassava a escuridão noturna
que ultrapassava o medo da solidão
dos astros estelares
de outros galáxias.

Ele mostrou as colheitas
que brotavam incólumes
do alto das cordilheiras
do fundo dos vales
das entranhas da terra virgem
nas vastidões do mundo.

Ele sabia que poucos
ouviriam suas parábolas
o peso do mundo
caía sobre os cegos
que não queriam ver
a verdade das coisas.

Ele se foi sem deixar
rastros sobre a areia
do deserto da vida
não sem antes
nos presentear com
a dádiva do amor.

terça-feira, dezembro 18, 2007

Moça

Moça morena bonita e molhada
Saindo da água, o corpo luzindo
contra a luz da janela, de fada
teus olhos me vão por inteiro consumindo.

Moça morena bonita e vestida,
Vestido de seda, colar de oceano
enlaça teu pescoço implacável, na vida
ver-te nunca me fora tão desumano.

Moça morena bonita e cheirosa
Passando perfume, o doce olor se esvai
da tua pele sedutora, de rosa
teu aroma lascivo de minha camisa não sai.

Moça morena bonita e contente,
segura em meu braço, ponha o chapéu
que lá fora o sol arde inconseqüente
não mais que a loucura que me leva ao céu.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Pequena parábola para os aparentemente descrentes

Havia um mercador que possuía um lucrativo mercado e sua fama percorria as redondezas de sua cidade.Também esse era casado e amava muito sua esposa. Todos os dias ambos prestavam ajuda aos necessitados na praça central. Sucedeu que uma súcia de bandidos invadiu a cidade e instaurou o medo e terror. Tomando conhecimento da riqueza do mercador, o líder do bando seqüestrou sua esposa exigindo suas riquezas em troca.
Ora, o comerciante não hesitou em abster-se de suas riquezas materiais para recuperar o que lhe era mais valioso. A corja logo desapareceu da região. Relatos afirmam que foram pegos pelos romanos. O mercador e suas esposa continuaram com sua caridade diária, embora não tivessem a mesma riqueza de outrora.

E em verdade vos digo que, em assuntos do coração, a razão não se interpõe.