"Somos a marca da efemeridade da natureza racionalizada"
- um tolo.
E estando ali, naquela devassidão de blasfêmias jogadas pelo aposento, ele sai. Mas o faz lentamente, de modo que os presentes, em seu total frenesi, sequer perceberam a ausência de um dos membros da família.
Caminhando pelos corredores escuros da casa ele tem um momento de divagação: simplesmente sente-se transcendental, como uma etérea chama que palpita no coração do vento.
Era noite, o céu estava quase claro e as nuvens fugidias passavam. A lua, insólita, fulgia no céu, seus raios refletidos nela passavam e percorriam milhões de quilômetros pelo vácuo, atravessavam a atmosfera e, finalmente, batiam nele. Talvez tamanho percurso dos raios tenham-no inspirado profundamente.
Ele decidiu sair da casa; deu meia-volta nos corredores e chegou até o quintal do fundo. O silêncio serenava o momento, a briga que se dava no interior da casa era sufocada pelas paredes frias da sala (talvez os corações que pulsavam nela tenham se identificado com elas). Naquele instante era ele e o universo, o etéreo e o eterno.
Incrível pensar como o mundo conspirava para que ele, naquele dia em especial, saísse da casa e contemplasse a noite. Nunca ele havia visto as nuvens passar tão depressa, feito nossas almas na sua passagem pela terra. E quando as nuvens passavam pela lua, uma aura tênue e brilhante surgia ao redor dela, como um sinal de que nós, humanos, devamos esquecer os desenlaces materiais, meras marcas de nossa imaturidade.
Para melhor visualizar tamanho espetáculo no céu, deitou-se no chão. E encostado sobre as lajotas frias ele percebeu o quanto seu coração era vivo (e cálido)... Os minutos, as horas, o tempo não significavam nada perante a integridade da existência dele. Quantas vezes, teria ele de enxergar através do véu da limitação humana, da vã filosofia que nos cega da Verdade? Quantas vezes teria de marcar sua vinda a esse mundo (e outros além-sol)?
Contemplou as estrelas: "mil sóis a divagar no espaço"- murmurou ele um verso de Gonçalves. Mil sóis e milhares de mundos a serem desbravados pelo nosso cerne. Pensou que naquele momento o tudo era uno; era ali que foi feliz (e ele sabia disso, diferente de muitos).
E deitado no chão de um quintal numa noite singela, ele chorou; não pelos gritos que se asfixiavam na casa, mas pela oportunidade de saber, pelo menos um pouco, da Verdade do mundo...
3 comentários:
"Naquele instante era ele e o universo, o etéreo e o eterno."
Preciso dizer?
Abração.
A verdade do mundo é falha
Assim como o nosso pensar
e a nossa vida
lindas e sábias palavras.
nada mais a declarar senão estraga...
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