sexta-feira, setembro 30, 2005

Pusilânime

Sou um elfo, criatura mágica, dotada de dons artísticos e intelectuais; tão misterioso quão a neblina e tão ágil quanto a luz matutina. Desvelo a sapiência de eras remotas aos que, virtuosamente, são deveras dignos. Entretanto, o maior tesouro que poderia fornecer, certamente, nunca deveria tê-lo feito...
De todas as desventuras que experimentei nesta longeva vida, nenhuma pode ser comparada a que tive há 150 outonos. Lembro-me muito bem como tudo começou, numa proeminente manhã primaveril.
Estava eu deitado sob a sombra de uma frondosa árvore, com, ao meu redor, cerca de dez a quinze ninfas e paraninfas, as quais permaneciam quietas, observando o meu tocar de flauta. Os sons, tão suaves, escoavam pelos orifícios do instrumento e ecoavam pelo bosque. Tudo era vida.
De súbito, as aves que ali estavam se assustaram com barulhos de passos, os cervos e doninhas sentiram o mesmo. As ninfas e paraninfas desapareceram tão logo quando eles se iniciaram. O bosque adormeceu, tudo era silêncio e cautela. Exceto eu, que, aparentementem estava num transe; perdido em devaneios melodiosos.
Quando dei pela falta das ninfas, era tarde demais: um humano se encontrava sentado, diante de mim, fascinado com o meu tocar, seus olhos: hipnoticamente abertos, lampejavam uma singular juventude mortal. A princípio, assustei-me. Meu povo não costuma se encontrar com humanos, muito menos casualmente. Sabem que são um povo sorrateiro e corrompível. Contudo, sentia que naquele mancebo havia algo diferente dos demais da espécie. Algo nele me chamava atenção. Resolvi mudar o que uma tradição milenar havia me ensinado, conversei com o jovem:
- O que te fazes encantar, com teus noviços olhos?
- Tua música, teu tocar, tudo me faz um férvido admirador.
- Ah, certamente nunca viste um elfo. Principia-se assim, te fascinas com tudo o que faço, mas o tempo há de te fazê-lo esquecer. Quem és tu?
- Eu? Não passo de um mortal. Meu nome é Cástor, filho de Sophos, senhor de Drissa. Venho de terras longínquas, a buscar meu destino.
- Decerto que o encontrarás. Se quiseres posso te ajudar nesse intento.
- Nada seria mais formidável do que tu, um grandioso elfo, me ajudar. Mas o que ganharias com tal empenho?
- Ganharia o profundo conhecimento sobre ti e teu povo.
- Ensina-me o que aprendeste ao longo destes séculos!
- Calma, meu jovem, tudo tem seu própria tempo: o cais das folhas, o ascender do Sol, a brisa vespertina, inclusive tu o tens...
A partir daquele dia, dediquei todo meu tempo(se é que ouso chamá-lo disto, pois para nós, elfos, ele praticamente inexiste), ensinando-o. Ao meu novo pupilo, ensinei algo que, nem em toda sua vida poderia aprender. Mostre-lhe o segredo das estrelas, com seus inefáveis brilhos; do mar, com suas indômitas ondas; do dia e da noite, enfim, ensinamentos que, somente depois, percebi que não deveria ter passado.
A Verdade não pode ser tão rapidamente mostrada aos homens: suas ineptas mentes não a suportariam...

5 comentários:

Anônimo disse...
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Anônimo disse...
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Anônimo disse...

Bom, apesar das palavras complexas, esse texto tá simplesmente magnífico!
De onde tu tira tanta idéia?
Pedro - Garoto gênio.
Parabéns.

Anônimo disse...

tá muito massa esse texto, enquanto as fotos, ainda tão na máquina...:(

Lara disse...

confesso, não li. Não há tempo! Mas sinto sua falta! =*