Voyage
é ter na mente
éter
na mente
eternamente.
terça-feira, outubro 19, 2010
sexta-feira, outubro 15, 2010
Tanto ao vento
Deixe que o canto desmanche
em manto de alento
escorrendo sem pressa
sangrando lento.
Deixa que a alma se entregue,
ao encanto cinzento
divagando tanto
neste breve momento.
Deixa o ouvido solto
leve, no entanto atento
Escuta o som vagando,
Ao soluçar do vento.
Deixa que santo é forte
e o que tange é dentro,
É o som que desata
É o libertamento.
em manto de alento
escorrendo sem pressa
sangrando lento.
Deixa que a alma se entregue,
ao encanto cinzento
divagando tanto
neste breve momento.
Deixa o ouvido solto
leve, no entanto atento
Escuta o som vagando,
Ao soluçar do vento.
Deixa que santo é forte
e o que tange é dentro,
É o som que desata
É o libertamento.
domingo, outubro 10, 2010
Humilhus
E ela riu-se tanto daquilo, ria-se em gargalhadas longas e estridentes que ecoavam sinistramente pelo salão. Não era apenas porque ele havia caído da escada, havia mais, algo dentro dela que subia vertiginosamente de seu coração e alcançava a boca espetando-lhe os ouvidos. Ele precisava sofrer mais do que a simples queda, precisava ser humilhado. E se alguém poderia fazer aquilo, tinha de ser ela, subindo as escadas logo atrás dele. Algo maior do que a graça da visão do evento lhe fazia rir, algo inerente a si. O sangue escorria das mãos dele lentamente, ele contia os soluços de dor ao passar pelo corredor. Enquanto isso, atrás no salão, ainda ouvia-se ecos de gargalhadas longas.
quarta-feira, setembro 22, 2010
Roma e amor
Assim como desde sempre se dizia:
Roma não foi construída em um dia
Ora, mas é sem espanto e com gosto
que digo que nem mesmo assim foi seu oposto.
Roma não foi construída em um dia
Ora, mas é sem espanto e com gosto
que digo que nem mesmo assim foi seu oposto.
segunda-feira, setembro 20, 2010
Sobre os dias não tão alegres
Ele não precisa amanhecer cinzento
Pode não haver sequer uma nuvem no céu
Não precisa que o pão queime na chapa
Nem mesmo que se esqueça a chave em casa,
Ou pássaros joguem detritos sobre nossas cabeças.
Basta que um rosto conhecido, torto,
desfigurado pela doença,
evapore nossa alegria,
doente de mau-humor.
Pode não haver sequer uma nuvem no céu
Não precisa que o pão queime na chapa
Nem mesmo que se esqueça a chave em casa,
Ou pássaros joguem detritos sobre nossas cabeças.
Basta que um rosto conhecido, torto,
desfigurado pela doença,
evapore nossa alegria,
doente de mau-humor.
terça-feira, setembro 14, 2010
Canteiros e pedras
Eu sei que nesse caminho ainda existem muitos canteiros perdidos, vastos e vagos, prontos a serem achados por transeuntes desatentos que tropeçam em pedras soltas (aquelas não tão grandes para serem notadas, nem tão pequenas para passarem desapercebidas).
Sei que as sementes que caem de nossos olhos, nossas mãos, nosso corpo e alma vão fecundando a terra virgem. Nossos corpos dançam sem sabermos. Nossa vida é um baile e somos os bailairinos incansáveis, insaciáveis. São vários as gotas que escorreram salgadas de nossos globos e aos poucos fizeram crescer, lentas e tímidas, as flores que hoje irradiam os sorrisos que vejo pelo caminho, o mesmo que antes havia visto vasto e vão. Por entre as frestas do céu e as alamedas úmidas que andei, fico certo de algo, não há certezas senão que a chuva quando lavra a terra quente emana o cheiro morno da felicidade. E esse caminho ainda tem muitos canteiros e pedras a serem encontrados, o baile todo.
Sei que as sementes que caem de nossos olhos, nossas mãos, nosso corpo e alma vão fecundando a terra virgem. Nossos corpos dançam sem sabermos. Nossa vida é um baile e somos os bailairinos incansáveis, insaciáveis. São vários as gotas que escorreram salgadas de nossos globos e aos poucos fizeram crescer, lentas e tímidas, as flores que hoje irradiam os sorrisos que vejo pelo caminho, o mesmo que antes havia visto vasto e vão. Por entre as frestas do céu e as alamedas úmidas que andei, fico certo de algo, não há certezas senão que a chuva quando lavra a terra quente emana o cheiro morno da felicidade. E esse caminho ainda tem muitos canteiros e pedras a serem encontrados, o baile todo.
quinta-feira, julho 22, 2010
A leveza de todas coisas
"Por isso uma força me leva a cantar, por isso essa força estranha..."
Com todos os rostos e várias as almas que amei
vislumbro acordado memórias que não têm fim
Os risos e prantos que nessa estrada encontrei
são tantos caminhos que se bifurcam assim.
E é tempo de se olhar para fora do corpo etéreo
Expulsando aquela vontade do peito contida:
Saltar sobre os vales em vôo solene aéreo
Mudar as rédeas em que tangemos a vida.
De todos os medos e males que levava
o mais pesado era aquele que repreendia
o medo do espaço, da luz, da lua brava,
que esplêndida na noite, leve, se ascendia
E é por isso que agora eu não apenas canto
Faço desta vontade o hino que me guia
Enchendo o mundo de gozo e espanto
Desato as notas com uma estranha euforia.
E desatando é que vou me rompendo
os mastros, os cascos desse meu navio
sobrando apenas o marinheiro vendo
o soçobrar sereno de um medo infantil.
Com todos os rostos e várias as almas que amei
vislumbro acordado memórias que não têm fim
Os risos e prantos que nessa estrada encontrei
são tantos caminhos que se bifurcam assim.
E é tempo de se olhar para fora do corpo etéreo
Expulsando aquela vontade do peito contida:
Saltar sobre os vales em vôo solene aéreo
Mudar as rédeas em que tangemos a vida.
De todos os medos e males que levava
o mais pesado era aquele que repreendia
o medo do espaço, da luz, da lua brava,
que esplêndida na noite, leve, se ascendia
E é por isso que agora eu não apenas canto
Faço desta vontade o hino que me guia
Enchendo o mundo de gozo e espanto
Desato as notas com uma estranha euforia.
E desatando é que vou me rompendo
os mastros, os cascos desse meu navio
sobrando apenas o marinheiro vendo
o soçobrar sereno de um medo infantil.
sábado, junho 19, 2010
Serás
Poema que finalmente tive a iniciativa para terminar, lancei estrofes incompletas no meu blog e juntei os cacos para fazer uma peça única.
Não tentes barrar o destino,
Não tentes viver sem sonhar,
Serás peregrino,
Serás um menino,
Perdido no meio do mar
Não tentes desbravar caminhos,
Marcados pela solidão,
Tão cheios de espinhos,
São feito moinhos,
Moendo nosso coração.
Não tentes reter as lembranças
de tudo que já se passou
A vida não cansa
na eterna dança
da alma em seu pleno vôo.
Não tentes viver na fronteira
que impede a tua extroversão
Faça uma besteira
Sem eira-nem-beira
Ousando com tua excitação.
Não tentes barrar o destino
Nao tentes viver sem mudar
terás amargura
e não terás cura
serás mais que enfermo, serás.
Não tentes barrar o destino,
Não tentes viver sem sonhar,
Serás peregrino,
Serás um menino,
Perdido no meio do mar
Não tentes desbravar caminhos,
Marcados pela solidão,
Tão cheios de espinhos,
São feito moinhos,
Moendo nosso coração.
Não tentes reter as lembranças
de tudo que já se passou
A vida não cansa
na eterna dança
da alma em seu pleno vôo.
Não tentes viver na fronteira
que impede a tua extroversão
Faça uma besteira
Sem eira-nem-beira
Ousando com tua excitação.
Não tentes barrar o destino
Nao tentes viver sem mudar
terás amargura
e não terás cura
serás mais que enfermo, serás.
quinta-feira, junho 17, 2010
Dentro de milênios
Eu sinto a tristeza que jorra do alto dos montes cinzentos e escorre lenta e perene pelas frestas das pedras, sobre o chão pisado por aqueles que vislumbraram algo que fosse semelhante ao amor durante uma noite qualquer. Eu sinto-a penetrando nos vales e irrigando a colheita daqueles que levantam antes do sol nascer. Sinto que do alto dos cumes, ao longo dos tempos, ela chegará à vastidão do mar e por fim encontrará descanso. E de lá será chamada daquilo que os poetas não ousam falar em seus textos.
terça-feira, junho 15, 2010
Sobre o peso e a leveza - parte 2
Acabei de notar o quanto a leveza é essencial em vida. Talvez tenha encontrado uma resposta a qual Parmênidas, há tantos séculos, procurava. Ou talvez seja apenas mais uma ousadia minha.
Entre inúmeros pesos que guardava em minhas gavetas, em meus armários e nos confins de meu quarto, eu vi a luz. O desapego alçou vôo feroz entre os papéis amarelados das cartas nunca respondidas, das fotos sempre revolvidas, dos cadernos rabiscados. Foi aos poucos que fui percebendo que, não é o que levamos na mala ou debaixo do colchão que nos torna mais próximos dos que trilharam caminho ao nosso lado.
O peso das coisas acaba levando a lembranças inerentes à realidade: as cores, os cheiros, os sons, todos diferentes daquilo que foi sentido. Quando estamos em certo estado de alma, percebemos as coisas de modo diferente, sentimos o mundo de forma ímpar, é a leveza do momento. Nem tudo que reluz é ouro, como diz o ditado, do mesmo modo nem tudo que guardamos se mantém incólume. Me sinto leve ao levar as lembranças na mente, e somente nela. Ela é a mala, a gaveta e o armário que mais preciso. Porque sei que tudo que é importante nela permanecerá. Haverá sim, palavras e momentos esquecidos, mas a essência deles nos manterá leves pelo quanto precisarmos
Entre inúmeros pesos que guardava em minhas gavetas, em meus armários e nos confins de meu quarto, eu vi a luz. O desapego alçou vôo feroz entre os papéis amarelados das cartas nunca respondidas, das fotos sempre revolvidas, dos cadernos rabiscados. Foi aos poucos que fui percebendo que, não é o que levamos na mala ou debaixo do colchão que nos torna mais próximos dos que trilharam caminho ao nosso lado.
O peso das coisas acaba levando a lembranças inerentes à realidade: as cores, os cheiros, os sons, todos diferentes daquilo que foi sentido. Quando estamos em certo estado de alma, percebemos as coisas de modo diferente, sentimos o mundo de forma ímpar, é a leveza do momento. Nem tudo que reluz é ouro, como diz o ditado, do mesmo modo nem tudo que guardamos se mantém incólume. Me sinto leve ao levar as lembranças na mente, e somente nela. Ela é a mala, a gaveta e o armário que mais preciso. Porque sei que tudo que é importante nela permanecerá. Haverá sim, palavras e momentos esquecidos, mas a essência deles nos manterá leves pelo quanto precisarmos
domingo, maio 30, 2010
Sobre o poder das palavras
Sempre me paro para pensar no que há de tão mágico e misterioso em certas palavras. Algo que em muitas situações me força a utilizá-las cautelosamente em textos, como num desabrochar de flor, cada palavra cuidadosamente escrita e desabrochando-se espontaneamente. Uma beleza intrínseca à sua fonética e significado metafórico que as fazem ímpares e únicas. Não limitando-se à lingua portuguesa. Nas várias línguas que já tive contato, há sempre uma ou outra palavra que me fascina e o mais impressionante é que apenas naquela língua isso ocorre. Como um ótimo exemplo tem-se a palavra "sangre",do espanhol, sangue. Imagine a vasta possibilidade de ocasiões, momentos, sentimentos e imagens criados apenas por essa palavra. Poderia-se pensar que seu análogo em português teria a mesma força e poder, mas a fonética aliada se supera e o encanto sobre "la sangre" se faz presente. Tanto mais quanto se usa em textos poéticos, onde seu potencial pode ser amplificado pela veia artística. Não desmerecendo os textos científicos. Outro exemplo é a palavra "foresee", do inglês, prever. A palavra em si já traz uma carga de sentimento, como "tristesse" em francês. Pode parecer um jogo de egos meus, uma tendência um quanto parnasiana de se fazer textos. Mas atrelado à semântica das palavras está a fonética. O som e a maneira com que as palavras são ditas podem ser muito fortes e marcantes. Palavras são fortes e movem mundos. A história da sociedade é mudada constantemente pelo bom (ou mau) uso das palavras. Então, se você nunca se preocupou com o poder de uma palavra, pelo menos comece a pensar sobre.
quarta-feira, abril 14, 2010
Procuro algo que não tem nome
Versão simplificada
Procuro algo que não tem nome
Em cada réstia de luz
Em cada gota de orvalho
Sobre o vento que transpassa
Sob o sol que queima
Pelas entranhas do solo
Já o encontrei vezes e vezes -
Só não encontrei seu nome
Voltarei à água, ao ar, à terra,
Voltarei até descobrir.
Procuro algo que não tem nome
Em cada réstia de luz
Em cada gota de orvalho
Sobre o vento que transpassa
Sob o sol que queima
Pelas entranhas do solo
Já o encontrei vezes e vezes -
Só não encontrei seu nome
Voltarei à água, ao ar, à terra,
Voltarei até descobrir.
sexta-feira, abril 02, 2010
Procuro algo que não tem nome
Procuro algo que não tem nome
Em cada réstia de luz que se esconde em cavernas
Em cada gota de orvalho que se dilui nos oceanos
Sobre o vento que transpassa as mais altas montanhas
Sob o sol que queima e determina o novo dia
Pelas entranhas do solo que abraça nossos ancestrais
Já o encontrei vezes e vezes - só não encontrei seu nome
Voltarei à água, ao ar, à terra, voltarei até descobrir.
Em cada réstia de luz que se esconde em cavernas
Em cada gota de orvalho que se dilui nos oceanos
Sobre o vento que transpassa as mais altas montanhas
Sob o sol que queima e determina o novo dia
Pelas entranhas do solo que abraça nossos ancestrais
Já o encontrei vezes e vezes - só não encontrei seu nome
Voltarei à água, ao ar, à terra, voltarei até descobrir.
domingo, março 21, 2010
I love you a bushel and a peck!
Nem sei de outra maneira a não ser esta de reconhecer o dom amoroso
A perfeita maneira de saber-se amado
Amor na raiz da palavra em sua exaustão
O amor que conduz
O amor que aprende e nunca, nunca morre.
A perfeita maneira de saber-se amado
Amor na raiz da palavra em sua exaustão
O amor que conduz
O amor que aprende e nunca, nunca morre.
sábado, fevereiro 27, 2010
A força
Por mais que todos lhe tentassem alertar para não prosseguir com aquilo
Que seria uma total loucura e que a sanidade lhe deixaria livre para voar
Por mais que tudo conspirasse para ele pensar que não daria certo
Algo dentro dele cochichava-lhe ao ouvido da alma
Algo incansável que lhe forçava febrilmente a continuar
Uma força de tal natureza que seu âmago lhe enchia de esperança
E é de toda réstia dela que se faz a verdadeira chama da paixão
E foi assim que ele, o estúpido teimoso, conseguiu o que queria.
Aqui termina a história de um tolo
[mas um tolo mais feliz.]
Que seria uma total loucura e que a sanidade lhe deixaria livre para voar
Por mais que tudo conspirasse para ele pensar que não daria certo
Algo dentro dele cochichava-lhe ao ouvido da alma
Algo incansável que lhe forçava febrilmente a continuar
Uma força de tal natureza que seu âmago lhe enchia de esperança
E é de toda réstia dela que se faz a verdadeira chama da paixão
E foi assim que ele, o estúpido teimoso, conseguiu o que queria.
Aqui termina a história de um tolo
[mas um tolo mais feliz.]
sábado, fevereiro 06, 2010
Confissão
Nasci na época errada, no ritmo errado das coisas. Meus ideais e pensamentos se confundem com o brilho ancestral das estrelas. Há um pouco de fé e nostalgia em minhas canções que remetem a um tempo de que certamente pertenci e continuarei a pertencer. Onde pairam ilustres e hábeis os astros do blues e os jovens ainda dançam com a brilhantina faiscando em seus cabelos.
quarta-feira, dezembro 30, 2009
De noite
Súbito grito
salta da boca
pendida.
Hálito morto
daquele corpo
emanado.
Rastro de sangue
caminho rubro
surgido.
Pólvora crua
por todo chão
perdida.
Sádico riso
solto do vulto
marcado.
Era uma vez
um jovem moço
polido.
Era uma vez
um corpo morto
encontrado.
salta da boca
pendida.
Hálito morto
daquele corpo
emanado.
Rastro de sangue
caminho rubro
surgido.
Pólvora crua
por todo chão
perdida.
Sádico riso
solto do vulto
marcado.
Era uma vez
um jovem moço
polido.
Era uma vez
um corpo morto
encontrado.
sábado, dezembro 19, 2009
Para uma avenca partindo
Olha, antes do ônibus partir eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, dessas coisas assim que não se dizem costumeiramente, sabe, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende? Olha, falta muito pouco tempo, e se eu não te disser agora talvez não diga nunca mais, porque tanto eu como você sentiremos uma falta enorme dessas coisas, e se elas não chegarem a ser ditas nem eu nem você nos sentiremos satisfeitos com tudo que existimos, porque elas não foram existidas completamente, entende, porque as vivemos apenas naquela dimensão em que é permitido viver, não, não é isso que eu quero dizer, não existe uma dimensão permitida e uma outra proibida, indevassável, não me entenda mal, mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não sabe se terá coragem de viver, no mais fundo, eu quero dizer, é isso mesmo, você está acompanhando meu raciocínio? Falava do mais fundo, desse que existe em você, em mim, em todos esses outros com suas malas, suas bolsas, suas maçãs, não, não sei porque todo mundo compra maçãs antes de viajar, nunca tinha pensado nisso, por favor, não me interrompa, realmente não sei, existem coisas que a gente ainda não pensou, que a gente talvez nunca pense, eu, por exemplo, nunca pensei que houvesse alguma coisa a dizer além de tudo o que já foi dito, ou melhor pensei sim, não, pensar propriamente dito não, mas eu sabia, é verdade que eu sabia, que havia uma outra coisa atrás e além das nossas mãos dadas, dos nossos corpos nus, eu dentro de você, e mesmo atrás dos silêncios, aqueles silêncios saciados, quando a gente descobria alguma coisa pequena para observar, um fio de luz coado pela janela, um latido de cão no meio da noite, você sabe que eu não falaria dessas coisas se não tivesse a certeza de que você sentia o mesmo que eu a respeito dos fios de luz, dos latidos de cães, é, eu não falaria, uma vez eu disse que a nossa diferença fundamental é que você era capaz apenas de viver as superfícies, enquanto eu era capaz de ir ao mais fundo, você riu porque eu dizia que não era cantando desvairadamente até ficar rouca que você ia conseguir saber alguma coisa a respeito de si própria, mas sabe, você tinha razão em rir daquele jeito porque eu também não tinha me dado conta de que enquanto ia dizendo aquelas coisas eu também cantava desvairadamente até ficar rouco, o que eu quero dizer é que nós dois cantamos desvairadamente até agora sem nos darmos contas, é por isso que estou tão rouco assim, não, não é dessa coisa de garganta que falo, é de uma outra de dentro, entende? Por favor, não ria dessa maneira nem fique consultando o relógio o tempo todo, não é preciso, deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, você não cresceria se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço, claro, claro que eu compro uma revista pra você, eu sei, é bom ler durante a viagem, embora eu prefira ficar olhando pela janela e pensando coisas, estas mesmas coisas que estou tentando dizer a você sem conseguir, por favor, me ajuda, senão vai ser muito tarde, daqui a pouco não vai mais ser possível, e se eu não disser tudo não poderei nem dizer e nem fazer mais nada, é preciso que a gente tente de todas as maneiras, é o que estou fazendo, sim, esta é minha última tentativa, olha, é bom você pegar sua passagem, porque você sempre perde tudo nessa sua bolsa, não sei como é que você consegue, é bom você ficar com ela na mão para evitar qualquer atraso, sim, é bom evitar os atrasos, mas agora escuta: eu queria te dizer uma porção de coisas, de uma porção de noites, ou tardes, ou manhãs, não importa a cor, é, a cor, o tempo é só uma questão de cor não é? Por isso não importa, eu queria era te dizer dessas vezes em que eu te deixava e depois saía sozinho, pensando também nas coisas que eu não ia te dizer, porque existem coisas terríveis, eu me perguntava se você era capaz de ouvir, sim, era preciso estar disponível para ouvi-las, disponível em relação a quê? Não sei, não me interrompa agora que estou quase conseguindo, disponível só, não é uma palavra bonita? Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? Dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender, melhor, claro que eu dou um cigarro pra você, não, ainda não, faltam uns cinco minutos, eu sei que não devia fumar tanto, é eu sei que os meus dentes estão ficando escuros, e essa tosse intolerável, você acha mesmo a minha tosse intolerável? Eu estava dizendo, o que é mesmo que eu estava dizendo? Ah, sabe, entre duas pessoas essas coisas sempre devem ser ditas, o fato de você achar minha tosse intolerável, por exemplo, eu poderia me aprofundar nisso e concluir que você não gosta de mim o suficiente, porque se você gostasse, gostaria também da minha tosse, dos meus dentes escuros, mas não aprofundando não concluo nada, fico só querendo te dizer de como eu te esperava quando a gente marcava qualquer coisa, de como eu olhava o relógio e andava de lá pra cá sem pensar definidamente e nada, mas não, não é isso, eu ainda queria chegar mais perto daquilo que está lá no centro e que um dia destes eu descobri existindo, porque eu nem supunha que existisse, acho que foi o fato de você partir que me fez descobrir tantas coisas, espera um pouco, eu vou te dizer de todas as coisas, é por isso que estou falando, fecha a revista, por favor, olha, se você não prestar muita atenção você não vai conseguir entender nada, sei, sei, eu também gosto muito do Peter Fonda, mas isso agora não tem nenhuma importância, é fundamental que você escute todas as palavras, todas, e não fique tentando descobrir sentidos ocultos por trás do que estou dizendo, sim, eu reconheço que muitas vezes falei por metáforas, e que é chatíssimo falar por metáforas, pelo menos para quem ouve, e depois, você sabe, eu sempre tive essa preocupação idiota de dizer apenas coisas que não ferissem, está bem, eu espero aqui do lado da janela, é melhor mesmo você subir, continuamos conversando enquanto o ônibus não sai, espera, as maçãs ficam comigo, é muito importante, vou dizer tudo numa só frase, você vai ......... ............ ............. ............ .......... ........... ............. ............ ............ ............ ......... ........... ............ ............ sim, eu sei, eu vou escrever, não eu não vou escrever, mas é bom você botar um casaco, está esfriando tanto, depois, na estrada, olha, antes do ônibus partir eu quero te dizer uma porção de coisas, será que vai dar tempo? Escuta, não fecha a janela, está tudo definido aqui dentro, é só uma coisa, espera um pouco mais, depois você arruma as malas e as botas, fica tranqüila, esse velho não vai incomodar você, olha, eu ainda não disse tudo, e a culpa é única e exclusivamente sua, por que você fica sempre me interrompendo e me fazendo suspeitar que você não passa mesmo duma simples avenca? Eu preciso de muito silêncio e de muita concentração para dizer todas as coisas que eu tinha pra te dizer, olha, antes de você ir embora eu quero te dizer quê.
quarta-feira, dezembro 16, 2009
Canção etérea
Teu canto
vagando
ao vento
devora
meu pranto
meu sofrimento
sem tanto
espanto
com tanto
esquecimento
aurora
de encanto.
outrora
lamento.
vagando
ao vento
devora
meu pranto
meu sofrimento
sem tanto
espanto
com tanto
esquecimento
aurora
de encanto.
outrora
lamento.
domingo, dezembro 06, 2009
Entre flor e nuvem
"Sou entre flor e nuvem,
estrela e mar.
Por que havemos de ser unicamente humanos,
limitados em chorar?
Não encontro caminhos
fáceis de andar;
Meu rosto vário desorienta as firmes pedras
que não sabem de água e de ar;
E por isso levito.
É bom deixar
um pouco de ternura e encanto indiferente
de herança,em cada lugar.
Rastro de flor e estrela,
nuvem e mar.
Meu destino é mais longe e
meu passo mais rápido:
a sombra é que vai devagar."
-Cecília Meireles
estrela e mar.
Por que havemos de ser unicamente humanos,
limitados em chorar?
Não encontro caminhos
fáceis de andar;
Meu rosto vário desorienta as firmes pedras
que não sabem de água e de ar;
E por isso levito.
É bom deixar
um pouco de ternura e encanto indiferente
de herança,em cada lugar.
Rastro de flor e estrela,
nuvem e mar.
Meu destino é mais longe e
meu passo mais rápido:
a sombra é que vai devagar."
-Cecília Meireles
Assinar:
Postagens (Atom)