segunda-feira, abril 14, 2008

Espírito

há algo iminente e lento
que me consome por dentro
alentece minha dor
e me degrada aos poucos
no ritmo das pedras
no ritmo das águas
diluo-me em mim mesmo
faço-me eterno e onipresente
mesmo em meu silêncio
há algo que não quer silenciar
mesmo em meu descanso
há algo que não quer parar
corroendo a cólera
dissolvendo a paz
sempre lento
sem terminar.

domingo, abril 13, 2008

O que tange

Ah! Não me venha falar dos versos
dos versos de harmonia
que tangem o íntimo
excitação, delírio, epifania

Ah! Não me venha falar das notas
Das notas tão penetrantes
que tangem o espírito
belas, surdas, vibrantes

Quero a canção celeste
das notas e versos solenes
Arranjo inefável que nos comunga
com o universo em um único ponto
.

segunda-feira, março 31, 2008

Liberdade

Não ficarei tão só no campo da arte,
e, ânimo firme, sobranceiro e forte,
tudo farei por ti para exaltar-te,
serenamente, alheio à própria sorte.

Para que eu possa um dia contemplar-te
dominadora, em férvido transporte,
direi que és bela e pura em toda parte,
por maior risco em que essa audácia importe.

Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma,
que não exista força humana alguma
que esta paixão embriagadora dome.

E que eu por ti, se torturado for,
possa feliz, indiferente à dor,
morrer sorrindo a murmurar teu nome.

- Carlos Marighela

sexta-feira, março 14, 2008

Sentado na janela

Saudade que dilacera
alma que se exaspera
no ritmo das horas
no ritmo da espera

sábado, fevereiro 09, 2008

Fechado para reformas

no coração desse que procura
por tempo inde-
terminado

quinta-feira, janeiro 31, 2008

Um parêntesis

Eu realmente não gosto de explicitar minha vida neste blog. Digo das partes pessoais, uma vez que minha vida se reflete nos poemas e pequenos contos que produzo. Entretanto não posso deixar que o ensejo se desfaça. É no meio da madrugada que a inspiração bate à porta de minha consciência e muitas foram as vezes que a deixei partir levando sua cornucópia cheia de belas idéias. Voltai de vosso eterno retiro por onde tento penetrar surdamente, idéias! Passou hoje por mim uma epifania desvairada, recortes de minha infância e adolescência, gestos, aromas, cores e sons que me incitaram a escrever isto.

Estou no auge de meus dezoito anos. Dezoito longas voltas ao redor do Astro-Rei. Tanta coisa se passou desde uma primavera de 1989 até hoje. Nasci no seio da Grande São Paulo, num hospital também grande e cheio de homens vestidos de branco que salvam vidas, assim como também trazem-nas ao mundo. Meu pai sempre quis um filho, um herdeiro masculino que pudesse seguir com o legado de minha família. Minha mãe não era diferente. Os desejos de ambos se fundiram e consagraram-se na forma de um bebê de três quilo e poucas gramas. Nascido na hora , no ano e no dia da serpente, esse ofídio nato abria sofregamente seus pequenos olhos e contemplava o mundo ao qual acabava de descobrir. Haveria mais choro e contemplação pela frente. Haveria mais quedas, bolos com enfeites de palhaços azuis, violõezinhos de brinquedo, pães em forma de peito, bolos de laranja, filmes da disney, gibis da Mônica, amigos do Novo Horizonte, cavaleiros do zodíaco, objetos quebrados dos pais, pisas de chinelo, cachorros.

Pausa para a mudança para o interior.

E haveria mais quedas na bicicleta, barulho da estrada, livros infantis, enciclopédias, roubo de morangos do vizinho, amigos do Objetivo, pipas caídas ao longo da chácara, jasmins da mamãe, cachorros e gatos, pokémon, dentes de leite, invenções científicas na casinha de madeira, dentes permanentes.

Pausa para a mudança para o Ceará.

Haveria mais medo, insegurança, conflito de culturas, adaptação, amigos do Evolutivo, tias e primos desconhecidos, mar, cheiro de mar, praias, céu limpo, sol que se põe mais cedo, amigos do farias brito, olimpíadas de química, serra do vovô, beatles, festivais de arte e criatividade, curso no piauí, ibero-americana no Rio, vestibular, e espera, muita espera. Hoje ainda espero, não só por resultados, mas por pessoas, lugares e idéias, mais idéias sacolejantes que venham na cornucópia da inspiração em outras mais madrugadas enquanto eu permanecer neste mundo.

terça-feira, janeiro 29, 2008

Quando a música vem

Sabe quando a música toca lá dentro? Mas bem fundo, em nossas profundezas. Nos confins abstratos de nossos sentimentos. Aquele lugar que por tempos permaneceu indelével, agora começa a se deixar ser (re)descoberto; tão estonteante quanto o descobrimento do fogo por nossos ancestrais, desmancha sua sofreguidão em encanto.
A pequena luz que lá era guarnecida e que, por virtude das circustâncias, dormia. Essa sementinha de esperança se irradia como um sol. Aflora seus delicados raios com paixão por todas as direções; o corpo é a centelha do universo. E nessa convergência celestial, vem anunciar a alvorada do coração, que se manifesta primordialmente no sorriso, - aquele sorriso franco que brota espontaneamente dos lábios - atingindo seu ápice na vontade da vida, na vontade de abraçar o mundo.
Assim as notas seguem seu ritmo milagroso. Vamos bebendo com os ouvidos o bálsamo, deixando que a musica tome conta do corpo, transpareça nosso espírito e nos conduza ao nirvana das sensações.

sábado, janeiro 26, 2008

Canção eterna

Deixe que a brisa passe mansa
mansa...
e a dança eterna se desfaça em pranto
pranto...
um canto azul transborde da alma
alma...
e a calma que de longe venha nos saudar
saudar...
e o mar de gotas cálidas se derrame
derrame...
e ame o solitário poeta ao doce luar
luar...
e voar seja o ato mais leve e sublime
sublime
e se elimine toda dúvida do coração.

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Mosaico

Segui o caminho que o vento indicou
marcado pelas folhas secas do outono
Guiei-me pelos sóis do firmamento na noite
Minha dor foi minha insônia, meu amor o sono
E a cada repouso descompassado
Reparava em minhas partes
perdidas de outrora
e via muita alegria
muito deslumbramento
via esperança
mas muita dor, sofrimento
angústia e desilusão
Sabia que era preciso fé e dor.
Eu vim de infinitos caminhos
e com cada fragmento
cada momento
alimento
fui juntando
e montando esse mosaico
talvez para parti-lo outra vez
ou simplesmente para pendurá-lo
na parede de um quarto
de uma casa com quintal
numa cidadezinha qualquer.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

O peso do mundo

Ele se levantou do claustro
de idéias sacolejantes
não podia concebê-las
na sumariedade de seus conselhos
que vinham de fora
que vinham dos homens

Ele ergueu uma mão
e apontou ao ponto fúlgido
que trespassava a escuridão noturna
que ultrapassava o medo da solidão
dos astros estelares
de outros galáxias.

Ele mostrou as colheitas
que brotavam incólumes
do alto das cordilheiras
do fundo dos vales
das entranhas da terra virgem
nas vastidões do mundo.

Ele sabia que poucos
ouviriam suas parábolas
o peso do mundo
caía sobre os cegos
que não queriam ver
a verdade das coisas.

Ele se foi sem deixar
rastros sobre a areia
do deserto da vida
não sem antes
nos presentear com
a dádiva do amor.

terça-feira, dezembro 18, 2007

Moça

Moça morena bonita e molhada
Saindo da água, o corpo luzindo
contra a luz da janela, de fada
teus olhos me vão por inteiro consumindo.

Moça morena bonita e vestida,
Vestido de seda, colar de oceano
enlaça teu pescoço implacável, na vida
ver-te nunca me fora tão desumano.

Moça morena bonita e cheirosa
Passando perfume, o doce olor se esvai
da tua pele sedutora, de rosa
teu aroma lascivo de minha camisa não sai.

Moça morena bonita e contente,
segura em meu braço, ponha o chapéu
que lá fora o sol arde inconseqüente
não mais que a loucura que me leva ao céu.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Pequena parábola para os aparentemente descrentes

Havia um mercador que possuía um lucrativo mercado e sua fama percorria as redondezas de sua cidade.Também esse era casado e amava muito sua esposa. Todos os dias ambos prestavam ajuda aos necessitados na praça central. Sucedeu que uma súcia de bandidos invadiu a cidade e instaurou o medo e terror. Tomando conhecimento da riqueza do mercador, o líder do bando seqüestrou sua esposa exigindo suas riquezas em troca.
Ora, o comerciante não hesitou em abster-se de suas riquezas materiais para recuperar o que lhe era mais valioso. A corja logo desapareceu da região. Relatos afirmam que foram pegos pelos romanos. O mercador e suas esposa continuaram com sua caridade diária, embora não tivessem a mesma riqueza de outrora.

E em verdade vos digo que, em assuntos do coração, a razão não se interpõe.

sábado, novembro 17, 2007

Poema do fim do ensino médio

Vertente
Extremista
Sistemática
Tirana
Implacável
Brasileira
Unilateral
Limitante
Anti-democrática
Retrógada.

sábado, novembro 10, 2007

Serás (parte II)

Não tentes desbravar caminhos,
Marcados pela solidão,
Tão cheios de espinhos,
São feito moinhos,
Moendo nosso coração.

segunda-feira, novembro 05, 2007

Serás (parte I)

Não tentes barrar o destino,
Não tentes viver sem sonhar,
Serás peregrino,
Serás um menino,
Perdido no meio do mar.

quarta-feira, outubro 31, 2007

Jihad

Segundo o relógio, era manhã. O Sol, contudo, não havia nascido. Era a nuvem de poeira gerada pelas bombas que caíam. Negra, densa e insólita. Eu estava com meus pais em minha casa. Os ataques começaram pela noite. Acordáramos alarmados. Era como se o mundo fosse desabar. Minha mãe pedira a Allah que nos protegesse. Temíamos pelo pior.
Tivemos de sair de casa rapidamente. Pegamos apenas algumas roupas e algo para comer, pois não sabíamos ainda o quanto teríamos de andar. Ao avistar as ruas de Bagdá, entrei em pânico. O caos havia se instalado.
Eu via as ruínas da minha cidade; a cidade que por toda minha vida só me trazia boas lembranças, agora me levava ao terror. Prédios e casas desmoronados, outros incendiados, ainda sendo consumidos pelo fogo. Eu sentia o cheiro da morte em cada esquina, o cheiro maldito e nauseabundo da morte e do sangue exalado pelos corpos mutilados que jaziam. Ambulâncias circulavam constantemente, embora seus esforços fossem vãos.
Não sabíamos para onde ir. Acompanhamos um grupo de pessoas que, aparentemente como nós, fugiam desse tormento. Vi outras crianças como eu, outros pais como os meus. Todos ainda atônitos e desamparados com o que sucedia.
Perguntei a meu pai a razão para isso. Ele disse que eram os homens do ocidente que nos culpavam por atacá-los e crer em Allah. Eu ainda não entendia aquilo e provavelmente nunca iria entender. Naquele mesmo dia ainda atravessaria a fronteira com o Irã. Pelo menos acreditávamos que nos livraríamos desse perigo. Posteriormente, soube que eles mandaram homens para invadir minha terra. Não voltaria para lá tão cedo.

sexta-feira, outubro 26, 2007

Nas sendas da estação

Chove a chuva numa tarde de verão
janelas nubladas, céu encharcado
mas eu vejo além daquela vidraça
eu vejo a tristeza daquela estação

ris um riso alto em que poderias
mostrar alegria em tua feição
mas vejo além de teus olhos tão claros
eu vejo na extrema tua desolação.

por que haveria de chover hoje?
justo ao ocaso que iria encontrar-te
contar-lhe o que antes tentei esconder


Vou pelas sendas alagadas então
talvez para nunca mais achar-te
talvez por ter perdido meu coração.

sexta-feira, outubro 19, 2007

A flor amarela

Medra muda e melindrosa
a pequena flor amarela
medra muda e sem medo
a uma cruz se anela.

Medra muda no mato
sua origem é um mistério
medra muda e dorme
sobre um velho cemitério.

sexta-feira, setembro 14, 2007

Naftalina

- Vai, meu filho, recolhe as roupas do varal, que já anoitece! gritou minha mãe da cozinha para mim que aprendia a rodar o pião no piso de madeira da casa. O cheiro da janta infestava o ambiente. Cheiro quente e suculento, boca salivando de fome. Pus-me a correr para fora da casa; hesitei e voltei-me:
- mas mãe, por que tirar só porque vai anoitecer?
- por causa do sereno.- esfregando as mãos molhadas no avental -
- e o que tem o sereno com as roupas?
- estraga.
- que moço chato! resmunguei irritado
Mamãe riu-se e desatou um tapinha em meu bumbum.
- Vai logo antes que a jante esfrie.
Fui correndo e recolhi as roupas com certa violência, não era minha culpa, era a fome que me cutucava a barriga, sussurando nomes de pratos de comida. Quando voltei tudo era mudado, a casa virou apartamento, o piso da madeira foi à pedra, o cheiro quente de janta foi ao odor requentado de pratos semi-prontos, os móveis antigos que cheiravam à naftalina foram aos designs inovadores e leves, o barulho dos familiares ao silêncio modorrento dos ares-condicionados, só restou o eco de minha mãe da cozinha de minha mente "vem, meu filho, fiz sopa de carne do jeito que você gosta"...

Frêmito

Invadiu cada parte de meu corpo uma sensação profunda e sabidamente indescritível; talvez porque seja um misto de várias sensações cruzadas, misturadas, como se o pintor que retratasse as obras de meu coração tivesse derrubado atroz e selvagem, num acesso de fúria, os vários vasos de tinta do meu sentir. Resta-me agora o sorver doce e entorpecente dessa explosão que
me dilata, expande por dentro, retrocedendo-me aos tempos da criação universal.
Se o grande criador houvesse de descer da imensidão do firmamento e eu, em minha humildade, pudesse perguntar-lhe algo, certamente não perguntaria "por que existimos?" e sim "a paixão é análoga à gênese?", sim, porque nos renasce, revigora, anima. Com que destreza haveria eu de lidar com o desejo, a euforia, o torpor? Com que destino estamos a tomar, senão ao cárcere de uma ilusão? Toma-me, possua-me enquanto ainda possam os lábios meus serem beijados, enquanto possa esse corpo arder em febre de desejo, faze-me sem limites, faze-me simples e assustadoramente teu.