Ao entardecer de uma tarde plena, eis que o Senhor Krishna encontrava-se absorto tocando sua flauta - companheira inseparável- encostado a uma grande figueira de raízes protuberantes. As notas saíam doces e melodiosas de seus dedos hábeis e amainavam a floresta. Os animais também se aproximavam para ouvir aquele som. Tigres, bois, vacas, macacos, pássaros de todo tipos. Silenciosamente chegavam e admiravam a vibração que misteriosamente entrava em harmonia com o cosmos. Seres humanos que passavam pelas cercanias também sentiram a vibração cósmica e foram procurar a fonte de tamanho esplendor. Um rei, um brâmane e uma camponesa foram os felizardos. Ao aproximarem-se de Krishna, ainda espantados com a quantidade de animais e o silêncio que imperava na floresta, o reverenciaram e prostraram-se a seus pés. Percebendo a aproximação dos humanos, Krishna interrompeu sua melodia.
- Levantem-se, meus filhos. - Pediu docemente Krishna.
- Oh, amado, Senhor Krishna, todas as minhas riquezas não são suficientes para oferecer-lhe em troca do prazer proporcionado por tão doce melodia... - disse o rei enquanto lágrimas escorriam de sua face.
- Eu também, amado Senhor, lhe digo que nem todas as minhas orações e mantras juntos podem ser suficientes para tal intento. - disse o brâmane aos soluços.
- Não tenho nada a lhe oferecer, meu amado senhor, apenas minha humilde devoção. - falou a camponesa de cabeça baixa.
Neste momento, uma faísca brilhou nos olhos de Krishna. Com um sinal de cabeça, ele fez com que todos os animais voltassem à imensidão negra da floresta. O farfalhar das árvores e sons habituais voltaram a reinar. Ele então se sentou em cima da raiz da figueira e disse:
- Amanhã eu prepararei um banquete em celebração ao solstício de verão. Gostaria de que viessem amanhã até o topo do monte Govardhana e trouxessem alimentos. Eu ficarei muito feliz e darei um presente a quem trouxer o alimento mais auspicioso. - dizendo isso, o Senhor Krishna desapareceu sem que os três devotos pudessem perceber. Ao darem conta de que estavam a sós na escuridão da floresta, cada um tomou seu rumo.
No dia seguinte, cada um dos três devotos preparou o que tinha de melhor para levar ao Senhor Krishna. O rei havia encomendado os pratos mais caros e saborosos das redondezas e partiu para o monte Govardhana antes do entardecer com alguns servos que o carregavam e aos alimentos também. O brâmane esvaziou a despensa de sua casa e pediu que seus discípulos carregassem os alimentos partindo também para o monte Govardhana quando o sol já havia começado a se pôr. A camponesa não tinha quase nada que pudesse levar, tinha dois pedaços de pão velho que ela havia guardado para comer naquele dia. Decidiu levá-los e partiu para o monte quando o sol já estava a dividido ao meio no horizonte em seu crespúsculo.
Curiosamente, havia somente um único caminho rumo ao topo do monte Govardhana, mas nenhum dos três devotos cruzou caminhos. O Rei, logo no início da caminhada, deparou com um bezerro à beira da estrada. Estava sozinho e parecia com muita fome.
- Afastem esse animal do caminho e passemos logo, o Senhor Krishna nos espera! - bradou o rei aos seus servos. - o séquito passou célere pelo animal que agonizava de fome e partiu monte acima.
Ao mesmo tempo que aquilo acontecia, uma anciã em outro ponto do caminho, cruzou o caminho do brâmane e implorou por um pouco de comida:
- Oh, nobre senhor. Estou há muito tempo sem comer, poderias dar-me um pouco de comida?
O brâmane ouviu nervosamente o pedido da anciã. Enquanto apressava seus discípulos a acelerarem o passo da jornada, explicou para a senhora.
- Certamente que eu lhe ajudaria, mas sinto lhe informar que o que tenho disponível aqui é de propriedade do Senhor Krishna.
- O Deus Krishna? O Senhor que a tudo vê e sabe?
- Sim! Ele mesmo! - gritou o brâmane enquanto enxugava o suor da testa.
- Mas certamente ele cederia um pouco para uma pobre devota Dele!
- De jeito nenhum! Apresse o passo que logo chegarás na cidade! Tome e compre algo lá - O brâmane entregou duas moedas de cobre à senhora, que já parecia desfalecer de tanta fome, e partiu monte acima. A senhora agachou-se em prantos e assim permaneceu enquanto o brâmane subia o morro.
Também na mesma hora, em outro ponto da estrada, um menino desconsolado surgiu e interrogou a camponesa:
- Senhora! Podes dar algo para eu comer? Já não sei o que é comer faz tempo.
- Claro, meu filho, aproxime-se - e entregou um dos pedaços de pão ao menino. O pedaço foi imediatamente devorado.
- Ainda estou com muita fome, o que resta para mim? - a face do menino já parecia menos assustadora, uma leve aura de alegria permeava-lhe a face.
- Oh, ainda tenho um pedaço de pão... Ele seria oferecido a um Grande Mestre, mas creio que tu tens mais pressa. - E pôs seu último pedaço na boca da criança. Dando pulos de felicidade, a criança desceu a estrada entoando uma doce canção. A camponesa seguiu morro acima ainda atordoada pelo que acabava de acontecer.
Estranhamente, o caminho foi muito mais árduo e tortuoso para o rei. Seus servos estavam exaustos e não conseguiam mais carregar o banquete. Imploravam para ter um pouco da comida, mas foram enxotados pelo rei e saíram correndo. Da mesma forma, o brâmane caminhou horas a fio e não conseguia avistar o topo do monte. Seus discípulos caíram ao chão e pediram um pouco de água. O brâmane gritou que aquilo era um pecado sem tamanho e expulsou os discípulos da estrada. Apenas a camponesa rapidamente alcançou o topo da montanha. Avistou o Senhor Krishna sentado em posição de lótus sobre uma grande pedra. Ao seu redor, havia vários animais. Serenamente ele fala:
- Aconchegue-se, minha filha, estava esperando por ti.
E começa a tocar sua flauta uma melodia. A canção fez a camponesa esquecer de todos os seus problemas e a deixou em transe.
Horas depois, o rei e o brâmane chegam. Carregando os restos do banquete que antes haviam reservado, prostram-se diante de Krishna, que imediatamente para de tocar a flauta. A camponesa acorda como se despertasse de um sonho.
- Ora, vejamos. Agora que os três estão diante de mim, mostrem-me seus alimentos.
O rei, ainda resfolegando de tanto caminhar, abriu uma grande sacola que revelou vários tipos de frutas, verduras e sementes. Vendo o que lhe era ofertado, Krishna assume uma postura séria e brada em alta voz:
- Tinhas tudo isso e mesmo assim ainda não me alimentaste?!
- Como, meu amado Senhor? Aqui te trago minhas melhores frutas...
- Negaste comida para mim logo no início de tua jornada, eu estava sob a forma do bezerro. Meu corpo agonizava de fome! E mais tarde ainda negaste para mim, que estava sob a forma de teus servos!
- Oh, senhor, perdoai-me! - e prostra-se deitado ao chão.
- E tu, brâmane, que tens?
O brâmane estava assustado com a cena que presenciava. Abrindo uma bolsa de couro, desata a falar:
- Meu amado Krishna, aqui estão algumas frutas que trouxe para Ti.
Impassível, Krishna diz:
- Tu também me negaste comida quando eu estava sob a forma daquela anciã. Mais tarde ainda me negaste enquanto eu estava sob a forma de teus discípulos! Como me deixas desamparado dessa forma?
- Mas eu Te entreguei umas moedas para comprar dinheiro na cidade!
- Deves saber a diferença entre o agora e o porvir!
- Oh, senhor, tende piedade de mim! - e também se prostra diante de Krishna.
- E tu, minha filha, que tens para mim?
- Nada, meu Senhor. Nada! - e desata em choro. Krishna a abraça e diz:
- É aí que te enganas. Foi quando mais precisei que me alimentaste sob a forma de um garoto. Tu trouxeste o mais valioso alimento que poderia pedir a um filho meu, o amor. Que isto lhes sirva de lição, rei e brâmane! Agora vão, a jornada de vocês continua!
Os dois devotos saíram de cabeça baixa morro abaixo. A camponesa não acredita no que via. Dois devotos ditos de classe superior a ela partiam e ela, uma simples moça do campo, ficou ao lado de Krishna.
- Dize-me agora, pequena, o que queres de mim? Riquezas? Salvação? Libertação dos tormentos da reencarnação?
A camponesa então prostra-se diante de Krishna e sem hesitar lhe pede:
- Oh, meu amado Senhor. Eu só gostaria de poder Te acompanhar aonde fores!
- Que assim seja.
E partiram para outros mundos.